17.9.20

Marta

Quando o doutor chegou à nossa aldeia estava a manhã quase no fim. 

 - Obrigado e até à próxima -  (ao motorista).


 Desceu e dirigiu-se imediatamente ao mercado, do outro lado da aldeia. 

- Boa tarde - (à miúda que vendia tremoços, conhecida por «a tremoceira»).

- Bom dia - respondeu a outra, espigada de feitio. - Ainda não é meio-dia.
- Está quase.

- Quase é uma palavra que engana muito.

- Obrigado. Tem tremoço de barrela?

- Isso é coisa do norte e vossemecê está no sul, homem. Não acerta nem na hora nem no lugar.

- Não é bem do norte, é mais do centro.

- Seja de onde for, não tenho. Quer alguma coisa ou só fazer-me perder tempo?

A tremoceira era conhecida na aldeia e nenhum dos ouvintes estranhou. Salvaguardava-a o facto de ser bonita e ter os melhores tremoços da região. Vinham pessoas de longe para lhos comprar. (Muitos só para a ver e lhe cantar a canção do bandido, mas a esses despachava-os ela em menos tempo do que leva a trincar e deitar fora uma casca.)

- Se quiser, eu ensino-a a fazer tremoços de barrela.

A rapariga hesitou. Não era todos os dias que alguém lhe respondia como se não a tivesse ouvido. 

- Obrigada, não preciso. Ensine-me antes coisas que eu não saiba. - Tinha uma reputação a defender.

O doutor era duas vezes mais velho do que ela mas parecia três. Conservador excêntrico, gostava de desestabilizar os interlocutores, mantendo sempre uma educação e uma cordialidade inatacáveis. O seu maior gozo, contudo, era encontrar alguém que não se deixava enredar. Percebia tanto de tremoços de barrela como eu de astropaleontologia. Era um indivíduo alto, magro, cabelos brancos impecavelmente aparados, óculos sem  aros, roupa de qualidade no género «falso desleixado». Tudo nele era falso excepto ele próprio. 

(Isto pede uma clarificação: o que havia de falso no doutor - o bom doutor, como ficou conhecido na aldeia - era o que dava a ver. Não havia qualquer correspondência entre o que mostrava - «exportava», dizia - e o que dele não se via. Em tempos tivera um carro, um 2Cv que transformara de forma a acolher um motor quatro vezes mais potente do que o original. A transformação fora perfeita, de fora nada se via. Só o mecânico que a fizera a conhecia - e tinha-o avisado: isso não vai durar muito tempo. Durou dois anos, talvez três. O bom doutor não era dado a precisões numéricas. Já as palavras o entusiasmavam.)


- Se você - dirigiu-se à tremoceira por você durante alguns anos, apesar de tratar toda a gente por tu e pedir reciprocidade - se enganar num número o erro é total, já viu? Se escrever 908 em vez de 1908 é possível que ninguém se aperceba do erro. Pode ser que nunca o encontre. - Olhou-a de frente e beijou-a levemente na testa. - Mas se disser «múnero» ou «númaro» em vez de "número" toda a gente percebe.   

- Me troço - respondeu a miúda. 

- Tremo, só. 

- Te, moço?

- Tremo, seira, eira, beira, leira. 

A tremoceira não percebia metade das palavras que ele lhe dizia, mas sabia duas coisas: estava apaixonada por ele e ele por ela. São duas coisas diferentes, isso sabia de experiência. O bom doutor todos os dias a acompanhava ao mercado e todos os dias a ia buscar. No intervalo, «escrevia livros». 

- Mas que escreves tu? Porque não posso ler o que escreves? 

- Um dia a menina lerá. 

- Estúpido. Trata-me por tu! - A rapariga não tinha perdido a sua truculência. Domesticara-a, quando muito.

- Mas alguma vez não te tuteei?

Os diálogos eram sempre curtos. Ela tinha de digerir novos vocábulos e ele um amor que se renovava cada vez que falava com ela. Era uma mulher orgulhosa e não se envergonhava da sua ignorância. Usava-o como um trampolim.

- Ensinar é a coisa que fazes melhor, a seguir a foder-me. 

- O terceiro lugar vai para quê?

 

Chama-se Marta embora o doutor, velho cinéfilo, me tivesse pedido Laura.

 

Marta olha o bom doutor nos olhos. Estão na casa que ele comprou poucos meses depois de chegar à aldeia. É um edifício grande, de esquina, com dois pisos, um terraço,  um jardim grande. As portadas são azuis, as paredes brancas. Estão no jardim, o dia acaba e como sempre no Verão da planície o calor não se vai embora. Desliga-se, simplesmente. A aldeia é no sul do país, esteve muito tempo sob domínio árabe e o jardim – que provavelmente não existia nesse tempo - parece lembrá-lo. Marta tem trinta e poucos anos, não tem cultura para perceber porque gosta tanto disto, mas gosta e tem inteligência suficiente para saber que é melhor aproveitar a vasta sabedoria do doutor. Sobretudo, o seu gosto em ensinar. Sobretudo, o seu amor por ela.

          Com a ajuda dele, o negócio dos tremoços prosperou. Marta e a mãe dirigem agora uma pequena equipa que os tempera, envasa e expede para vários pontos do país. Comprou-lhe um carro para ela poder contactar novos clientes dava-lhe um conselho aqui e ali, se via que precisava. Se não, deixava-a aprender sozinha. O bom doutor baseava a sua pedagogia no método de «ensinar a ver» e não no de «forçar a ver». Aspas porque o cito.

          Quando chegara à aldeia não tinha a menor intenção de se apaixonar fosse por quem fosse. Uma pequena herança dera-lhe a possibilidade de se reformar antecipadamente do seu trabalho de professor de literatura francesa numa universidade da capital. Era apreciado pelos seus pares, que lhe agradeciam a falta de ambição e não se apercebiam de quão indiferentes lhe eram. A mulher deixara-o havia alguns anos, provavelmente devido a essa mesma falta. Era uma senhora de boas famílias. Quando se separou comprou-lhe metade da casa, dinheiro que ele pôs a recato. Era um homem frugal. Alugou um apartamento pequeno, ia comer todos os dias à tasca da esquina, pagava correctamente uma senhora que lhe fazia a limpeza da casa uma vez por semana e a outra que também uma vez por semana (mas em dias diferentes) ia lá dormir, «para não perder de todo a prática», explicou um dia a uma colega que lhe perguntou como lidava com a solidão. A mulher nunca mais lhe dirigiu a palavra para além de «bom dia» e «boa tarde», o que o satisfez pois era esse o objectivo. Sabia que poucas semanas depois a universidade inteira pensaria que organizava orgias em sua casa todos os dias, mas isso deixava-o indiferente. (A bem da senhora, devo dizer que o bom doutor se enganava: não disse a ninguém, receando que alguém lhe perguntasse como é que sabia. E porque não era o género dela, verdade seja dita.) Não gastou o dinheiro da casa todo em livros, mas ao princípio esforçou-se bastante. Comprava livros a torto e a direito. A certa altura parou, porque já não tinha sito para os guardar. O apartamento era pequeno e num quarto andar, o que não ajudava. Decidiu só comprar um livro depois de ter acabado o que estava a ler. Posteriormente, lembrou-se de que tinha centenas de volumes não lidos e deixou de comprar livros novos. Lia simplesmente os que tinha. «Mesmo assim, precisarei de duas vidas para os ler todos», disse um dia à tremoceira, que nunca tinha visto tantos livros juntos na vida, exceptuando as visitas que com a escola fizera a uma biblioteca da capital do distrito.

- Então para que os queres?

- Para me lembrar de tudo o que não sei.

- Para isso, basta-te olhar para mim.

- Bastar-te-ia olhar para mim, minha querida. Usa o condicional.

 

Passava-lhe as mãos pelos cabelos, pelos seios, pelas pernas. Bebiam um vermute no jardim, os pássaros gritavam uns aos outros para definir a posse de um território ou para impressionar as fêmeas, a brisa fazia as folhas mexerem-se devagar. Era mais tremer do que mexer. Marta tinha olhos verdes e uma basta cabeleira negra. Parecia fazer parte do cenário.

- A primeira noite que dormi contigo, alguém foi dizer à minha mãe. Um velho cá da aldeia, chamávamos-lhe Manuel da Arrifana porque no Verão ele ia trabalhar para lá. A minha mãe zangou-se comigo. Disse-me que podias ser meu pai e eu respondi-lhe que sim, claro: nasceste no mesmo ano do que ela. Têm a mesma idade. A certa altura perguntei-lhe se estava com ciúmes. Não me bateu por um triz. Talvez não te lembres, mas mudei-me para cá muito depressa. Já não conseguia ouvi-la. Nunca te falei nisto porque estou capaz de apostar que já o sabes. Ou pelo menos sentiste-o. E depois, no trabalho continuávamos a entender-nos bem, ela e eu. Era só nisto da vida contigo que nos desentendíamos.

O bom doutor não disse a Marta que tinha tido uma conversa com a mãe dela. Não dizia muitas coisas, fiel a uma máxima de Camus que o perseguia desde a adolescência: «Um homem é mais homem pelo que cala do que pelo que diz.» Explicara gentilmente à senhora que também ele estava surpreendido, que nunca mais pensara apaixonar-se e muito menos por uma miúda com metade da idade dele. Não disse que de qualquer forma não tinha muito tempo de vida, que aqueles meses com Marta tinham sido um bónus, uma gratificação inesperada. Retirara-se para aquela aldeia para escrever e morrer, não para amar e viver.

 

Marta e o doutor estão no jardim. Acaricia-a levemente, como o vento as folhas das árvores. Foi naquela casa que passaram o confinamento. Coabitavam havia três anos e aqueles meses tinham-lhe feito ver os limites de «coabitar»: um habituado a estar sozinho, outra que se realizava no contacto com a clientela. Nunca gostara de relações simbióticas e aquela convivência forçada custara-lhe mais do que conseguia admitir; para ela, também não fora fácil: passar os dias com uma só pessoa, ademais sempre a mesma, ia contra o âmago do que era.

Antes de morrer, o doutor queria casar-se com Marta e perguntava-se se devia falar-lhe nisso agora que o amor deles tinha sido sacudido daquela forma. Ter-lhe-ia o terremoto atingido os alicerces? Viviam juntos havia três anos, talvez três e meio. O livro estava pronto. Tinha sido aceite por uma editora, revisto e paginado. Faltava o título e escolher um pseudónimo: não queria que as pessoas da aldeia soubessem que tinha sido ele a escrever aquilo a que injustamente chamava «uma longa jeremiada». Durante o confinamento não fora ao médico e o cancro que lhe roía os intestinos não parara. Perguntava-se também se lhe devia dizer que ia morrer. Sabia que para ela o confinamento também tinha sido difícil, que os negócios tinham retomado mas não muito, que tinha saído daquela prova magoada. Casar-se era um acto egoísta ou, pelo contrário, ajudá-la-ia nos trâmites de heranças, etc.? O testamento estava feito e era simples: «Deixo tudo o que tenho e os eventuais proveitos futuros à senhora Marta Barbosa, etc.» Tinha sido visto por um advogado, segundo o qual casar-se não alteraria muito as coisas. Quando muito, simplificá-las-ia. O doutor lembrou-se do que sempre pensara sobre o casamento: é um acto social, nada tem de pessoal. «Caso-me perante os outros ou perante Deus. Para mim, estou casado com Marta desde a primeira vez que a vi. Não preciso de papéis.»

Resolveu dizer-lhe metade.

- Marta, quero casar-me contigo. Aceitas-me?

- Sim.

 

Morreu três meses depois da cerimónia, sem saber que Marta tinha deixado de tomar contraceptivos e ia ser pai. Passou o último mês morfinado, deitado numa cama a definhar sem se aperceber de nada do que o rodeava. O livro foi publicado, teve um sucesso de estima e caiu no esquecimento. O miúdo chamou-se Henrique, como o pai, mas na aldeia ficou conhecido por «o filho do doutor». Era igual ao progenitor que nunca vira: alto, magro, ensimesmado, delicado e pouco dado às aparências (ou muito, consoante o ponto de vista: nada do que mostrava de si era verdade). De Marta, só sei que o negócio continuou a prosperar e que se reconciliou totalmente com a mãe. Ignoro se voltou a casar-se: uma vez esta história terminada perdi o contacto com ela. O livro chamou-se «Amar até ao fim», título escolhido pelo editor e de que o doutor não gostou, mas já não teve forças para contestar. Nunca chegou a escolher um pseudónimo e a obra apareceu com o seu nome.

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