13.1.21

Evaporação

Evaporação. Essa é a palavra-chave: evaporação. Qualquer que seja a forma: verbo, substantivo, adjectivo. Evaporado. Deixa as lágrimas evaporarem-se. Um dia, evaporar-te-ás.  Um dia, tudo não passará de uma enorme nuvem de vapor, tu incluído. Um dia, o teu passado e o teu futuro evaporar-se-ão e não terás nunca nada senão o presente.  Serás um eterno agora, sem passado nem futuro, evaporadíssimos juntamente com as lágrimas que teimas em verter a cada instante, como se fossem borboletas. Chora-te e desaparece, enche-nos de cores efémeras e evapora-te. Desaparece. 

«Tu ne m'auras pas avec un piège aussi grossier.» Não te deixes apanhar na armadilha da autocomiseração. Evapora-te antes de ela te apanhar à soleira da porta. A evaporação requer uma certa graça, elegância. Não se evapora quem quer, mas quem merece. Quem sabe fazer uma vénia sem parecer subserviente, quem sabe sobreviver sem ser subvivente. Sobreviver e subviver estão demasiado próximos, a linha que os separa é fina, muito mais fina do que uma letra ou duas. «És um sobrevivente», diz-me T. Não sou. Sou um sub-vivente. Era Vaneigem quem falava na subvida, não era? Ou Debord? Não me lembro: as memórias evaporam-se, quer queiremos quer não. A velhice é isso: descobrir a diferença entre sub-vida e a sobrevida, destrinçá-las correctamente, deixá-las evaporar-se um dia graciosamente, joelho ligeiramente curvado, sorriso irónico nos lábios (isto é, irónico para os conhecedores. Para os outros, não passará de um sorriso de circunstância).

A evaporação é a única forma elegante de desaparecer. Não te preocupes com a mistura de vidas, sub ou sobre. Deixa essa tarefa a quem te sucederá. Contenta-te com transformar em elegância a deselegância. É a isso que se chama evaporação.

(Para a T. C., com um beijo.)

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