30.4.21

«Entrar gentilmente nessa noite escura»

Copo a copo, gole a gole, nota a nota vou bebendo e ouvindo a noite. Deixo-a entrar em mim ao ritmo a que entro nela: mais devagar do que um relógio. A Lua impacienta-se? Do outro lado da Terra o Sol bate o pé? 

E eu com isso? Eleni Karaindrou marca o tempo, o das vagas do Mediterrâneo, mar de eleição, mar de sempre, mar de berço. Tudo avança muito lentamente, ao ritmo da valsa lenta perto do mar, ao ritmo da ansiedade estrutural que a água arrastou até à praia. Nasces até morreres e de repente morres, se a morte - ou a vida - forem misericordiosas, claro. Se não forem, levas mais tempo a morrer do que a nascer, o que é longo demais para merecer o nome de vida. Viver é nascer sem parar, até morrer.

Não sei. Não percebo nada disto, desta confusão entaramelhada de vida, morte, ansiedade e vagas que trazem à praia o que nelas deixaste toda uma vida. Não percebo nada do que deixei no mar, do que bebo gole a gole: a noite, esta ideia de que o tempo ziguezagueia como um marinheiro bêbedo, de que entrar gentilmente nessa noite escura talvez não seja tão mau como o outro a pintou.

Entra a Evanthia Reboutsika. Isto complica-se. A eternidade é o que fazemos dela, não o que ela faz de nós. Há quem entre na eternidade aos tropeções, quem entre devagar, passo a passo, quem nunca entre, quem nunca dela saia. Homero era cego, Beethoven surdo e esta mistura de tempo e de mar tem um nome, mas eu não me lembro dele. Nota a nota, nessa noite escura.

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