27.5.07

Ota

"Portugal está", assevera Mário Lino, "atrasado para a Ota". Duas coisas: primeiro, se Portugal está atrasado a culpa não é, por uma vez, do país: é da meia-dúzia ou, vá lá, duas dúzias de palermas que há 40 anos andam a discutir a melhor localização do NAL; segundo, não é por o país estar atrasado que se devem agora tomar decisões que o vão atrasar ainda mais para as próximas três gerações.

(Isto admitindo que há de facto um atraso: transformar um dos aeroportos militares da margem sul num terminal de low cost não é díficil, não é longo e não custa milhares de milhões - ooops ... ?)

Lisboa

"Life is passing us by", lamentava uma canção dos anos 60 ou 70, não me lembro bem, se calhar era da Joan Baez, pouco importa. Hoje pareceu-me que é Lisboa que está a passar-me a lado.

A Ginginha Manuel Lima estava fechada; a "Espinheira" (à qual só recorro em casos verdadeiramente graves) serviu-me as ginginhas em copos de plástico; a Pastelaria Suíça, onde já não entrava há duas ou três vidas, está transformada em snack bar de província, com pré-pagamento e criados mal-criados e iluminação de néon. Tudo isto rodeado de pedintes, chuva e futebol (um campeonato qualquer em que, assegurou-me, enternecido, o chauffeur de táxi, "até os clubes da 2ª e 3ª divisão podem entrar").

Chego ao Cais do Sodré e o British Bar está fechado também - é só um mau domingo, não tem nada a ver com a vida.

24.5.07

Fragmento

"... escreve-me. É uma das formas mais bonitas, e ternas, dos teus beijos".

22.5.07

Vida

A vida é uma longa insónia; um dia olhamos para trás, e perguntamo-nos «que fiz eu desta noite?»

Música moderna

Conheço mal a música moderna. Mas Swayzak (ou aqui) não é só moderno: é sobretudo muito bom.







Em louvor e glória da Casa do Largo (R. I. P.)

Hoje, dia nefasto entre tantos, lamentei uma vez mais o desaparecimento da Casa do Largo. Apetece-me dizer aqui aquilo que acabo de dizer a uma amiga querida (meço as palavras, todas e cada uma delas.):

"A Casa do Largo não era "um sítio muito simpático". Era o melhor, o mais bonito, o mais acolhedor bar do mundo. Era a única coisa que substituía - ainda que vagamente - um ventre. Era uma fonte de paz e bem estar, o sítio onde a felicidade se escondia quando queria jogar ao hard to catch; comparar a Casa do Largo a outro bar ou discoteca qualquer é como comparar cerveja a gasosa, vinho a sumo de pêra, whisky a licor de caramelo, Lauren Bacall a Nicole Kidman, Meryl Streep a Angelina Jolie (Angelina quê?), Humphrey Bogart a Brad Pitt, ou o mar.

Minha querida, muito querida amiga: o desaparecimento da Casa do Largo, o seu, como dizer? assassínio às mãos de um imperdoável bimbo, é o princípio do fim de uma civilização - ou, pelo menos, de uma época
".


21.5.07

Simplex obscurex

Há tempos consegui que Portugal fosse o país convidado de um importante salão náutico francês. A organização do dito salão disponibiliza gratuitamente um stand de 800 metros quadrados e organiza toda uma agenda mediática à volta da participação do país.

Vai para mais de quatro semanas - quatro semanas, um mês - enviei o projecto para uma assessora do Secretário de Estado que me pareceu indicado para tomar conta do assunto, juntamente com um pedido de reunião. Ainda não houve resposta, nenhuma. É-me dolorosamente obscura a razão porque são necessárias mais de quatro semanas para marcar uma reunião, ou dizer frontalmente que o assunto é uma maçada e não interessa muito.

Marcadores: Simplex, os oceanos e a sua importância na economia nacional, turismo náutico, PENT, palhaços.

Florbela Espanca

De Florbela Espanca lembro-me pouco: nunca gostei muito dos poemas e nunca me dei realmente ao trabalho de lhe conhecer a obra. Hoje lembrei-me da sua paixão, não sei se concretizada, assumida ou suposta, pelo irmão; e pensei que se a ideia de incesto me é abjecta, a de incesto fraternal é, também, totalmente ininteligível.

20.5.07

Correspondência

Num blog chamado Associação das Tágides Caducas e Adamastores Zarolhos há uma troca de correspondência absolutamente hilariante (I, II e III).

Cioran, domingo de manhã

"La seule fonction de l'amour est de nous aider à endurer les après-midis dominicales, cruelles et incommensurables, qui nous blessent pour le reste de la semaine - et de l'éternité".

(Précis de Décomposition).

"Qui n'a pas la bonne fortune d'être un monstre, dans n'importe quel domaine, y compris la sainteté, inspire mépris et envie".

"Dans mes accès d'optimisme, je me dis que ma vie a été un enfer, mon enfer, un enfer à mon goût".

(Écartèlement).

19.5.07

Coberto de razão?

"...não impede o Daniel Oliveira de estar coberto de razão".

Coberto de razão, Daniel Oliveira? Duvido. É muito mais frequente vê-lo a cobrir a razão do que a ser coberto por ela.

Pets e companhia

Talvez por não ter cão, e não ser grande adepto de animais em geral, nunca tive grande sucesso no uso dos cães (ou gatos) para fins de "encontros".

Nunca sei de que raça é o cão da senhora (enquanto que o que eu passeio é - o mais das vezes - uma espécie de tubo de ensaio da genética canina), ou porque não acho muita piada ao facto de ser propriedade de um gato, ou seja lá pelo que fôr, a verdade é, que me lembre, nunca fiz nenhum (insisto nas aspas) "encontro" por intermédio dos animais. E admiro quem os faz.

O Zimbabwe, África e as solidariedades

A famigerada solidariedade africana funcionou, uma vez mais, e o Zimbabwe foi eleito Presidente da Comissão das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável.

Para além do que isso diz sobre a relevância da ONU e respectivas comissões, há uma pergunta que me ocorre: porque raio de carga de água continuam os países africanos a recorrer à nossa solidariedade? Não podiam prescindir dela e ser solidários entre eles? Já agora: porque continuamos nós a manifestar solidariedade a quem a, visivelmente, dispensa?

Vida

Uma das grandes vantagens da vida é que nada é definitivo, nenhuma desgraça. A única coisa realmente definitiva é a morte - e essa dificilmente pode ser considerada uma desgraça.

Vin sur Vin

Hoje teve lugar, na Mesa Francesa (Mesa Francesa
Rua do Almirante Pessanha, nº 6. Tel: 213 466 189
Loja gourmet com vinhos e iguarias trazidos directamente de França
) uma confrontação de gigantes.

O meu gigante - bem, fica aqui explicado porquê:

Ce qui fait la personnalité de Haut-Marbuzet se situe sans doute en grande partie au niveau de la vinification. Les raisins sont vendangés très mûrs (parfois presque à surmaturité) puis égrappés. Les macérations sont longues. Henri Duboscq reste attaché au matériel traditionnel, par exemple aux cuves en béton qui, quel que soit le soin apporté à son nettoyage, conserve les levures naturelles : Henri Duboscq dit qu'il aime à penser que chaque année les nouvelles levures viennent réveiller les anciennes qui leur montrent comment travailler.

Henri Duboscq se définit volontiers comme « un gascon volubile, exubérant et caressant » et il tenait à faire un vin qui lui ressemble... et un vin qui plaît. Château Haut-Marbuzet est un vin assez boisé, avec une texture assez soyeuse et douce, et une matière souvent riche et bien mûre. Le boisé a été assez prononcé par le passé, il l’est beaucoup moins actuellement. Henri Duboscq travaille beaucoup la diversification des bois et des chauffes pour rechercher une vraie richesse des arômes.

Quand il est jeune et encore marqué par son élevage, Haut-Marbuzet est un bordeaux souvent assez original avec des arômes d’épices orientales. Il faut attendre 4-5 ans pour que le terroir de Saint-Estèphe reprenne le dessus.

Au final, Haut-Marbuzet peut parfois diviser... mais c’est surtout un vin à la personnalité affirmée.


En attendant
, aconselho uma visita à Mesa Francesa: tem o melhor foie-gras, a melhor escolha de vinhos, o melhor serviço, o melhor ambiente e - last but not least - os melhores preços de todas as lojas gourmet desta cidade, coitada. E meço as palavras.

O que é pior?

Um presidente da Câmara, na pior das hipóteses, medíocre - e, mais provavelmente, irrelevante (a escolha é vasta) - ou um eficaz que vai defender a OTA?

Por mim, se votasse, escolheria um dos irrelevantes. É difícil deixar Lisboa pior do que o que está - mas pôr o aeroporto na OTA é receita garantida para tal.

Injustiças

O Nuno, do Tradução Simultânea, encontra no You Tube a melhor música de todos os blogs, e eu nunca encontro nada do que procuro. Nem em áudio consegui "I Cover the Waterfront", tocado por John Lee Hooker, que é o slow dos slows, o melhor slow de todos os tempos - e a quinta faixa de um CD, de qualquer forma, todo ele imprescindível.

I cover the waterfront, watchin' the ship go by
I could see, everybody's baby, but I couldn't see mine
I could see, the ships pullin' in, to the harbor
I could see the people, meetin' their loved one
Shakin' hand, I sat there,
so all alone, coverin' the waterfront
And after a while, all the people,
left the harbor, and headed for their destination
All the ships, left the harbor,
and headed for their next destination
I sat there, coverin' the waterfront
And after a while, I looked down the ocean,
as far as I could see, in the fog, I saw a ship
It headed, this way, comin' out the foam
It must be my baby, comin' down
And after a while, the ship pulled into the harbor,
rollin' slow, so cripple
And my baby, stepped off board
I was still, coverin' the waterfront
Said "Johnny, our ship had trouble, with the fog
And that's why we're so late, so late
Comin' home, comin' down'


PS - Hoje, a minha dívida para com o Tradução aumentou para níveis estratosféricos por causa da Nelly McKay, de quem não sonhava sequer a existência, e sem quem não sonho, doravante, a existência.

Reciprocidade

Ele tinha uma relação sã, equilibrada, equitável com a vida: nunca sabia se era ela que o f... a ele, se ele a ela.

18.5.07

Analogias

Há pessoas que pensam que se pode comparar o vinho a qualquer outra coisa, como a vida, o mar ou uma salada de frutas. Eu acho que não: a única coisa que realmente se pode comparar ao vinho são as mulheres. Todas as mulheres, sejam elas grandes ou pequenas, morenas ou loiras, sensuais ou frias, inteligentes ou burras, brancas ou pretas ou amarelas ou vermelhas: para todas, para cada uma, há um vinho.

O mar não é comparável a nada, porque o mar é tudo, é a vida. O vinho, ou as mulheres, não: são só parte dela, e de nós - a melhor parte, admitidamente. Mas uma parte.

O estranho caso del gourmet homeless

Não é por acaso que o título deste post está em várias línguas. Encontrei-o em Paris, em cima de uma boca do metro, numa simpática noite de verão. À frente tinha duas garrafas de vinho: uma Château Haut-Marbuzet, e uma de Brane-Cantenac, ambas de 2003. Interpelou-me, não me lembro como, e parei para falar com ele. Falava inglês, espanhol e, percebi depois, português - para além, claro, do francês.

- O Brane-Cantenac é muito bom, não é? - disse-lhe.

- Prefiro o Haut Marbuzet: é menos redondo, menos delicado, mais taninado, mais encorpado: deixa traços, como algumas tempestades e algumas mulheres - respondeu.

- É verdade - reconheci. - Mas na situação em que estamos mais vale preferir aquele de que gostamos menos: ajuda-nos a não ter ilusões.

Daí a pouco estávamos a falar de liberalismo, esquerda e política social. Era liberal, "como o banqueiro do outro era anarquista": uma escolha racional, independente das circunstâncias.

- Não se pode ser independente das circunstâncias - eu bebia pelo gargalo, e pensava que num copo o vinho, qualquer deles, seria melhor.

- Estás enganado. Amanhã ou depois estarás aqui, e vais ver se se pode, ou não, ser independente das circunstâncias.