21.6.11

Gaudência - (cont.)

"Não gosto de amores complicados, e não os há simples. O melhor é não ter amores de todo", explicou-me Gaudência um dia.

Mas a sua lógica nem sempre era tão clara, tão límpida. Por vezes enveredava por caminhos menos lineares.

"Empresto erecções."
"?"
"Sim, empresto erecções. Como sabes, elas nos homens vêm com uma marca, uma dona; mas às vezes usam-nas para outros fins ou outras pessoas. Depois ficam aflitos porque não podem dar a erecção à sua legítima proprietária. É aí que eu intervenho e lhes empresto uma para se desenrascarem. Depois devolvem-mas, às vezes com juros; outras não".
"E juras, aceitas?"
"Não."

Gaudência morava num daqueles prédios feios e impessoais dos anos 60, num quarteirão burguês de Lisboa. O apartamento era como ela: grande, com algumas divisões muito claras e outras muito escuras. Apesar de ser grande usávamo-lo quase todo: fazíamos amor (expressão que ela desprezava) em todas: na cozinha, no hall, na sala, nos quartos, no escritório. Um dia sentou-se no rebordo da varanda (morava no oitavo andar) toda nua e pediu-me para a foder. Fui buscar uma banqueta que tinha na cozinha e agarrei-me a ela, literalmente, como se aquela foda fosse a vida. Foi.

Ao princípio a ideia de comer uma senhora pela qual metade das Lisboas – a residente e a de visita - passava por cima aborrecia-me. Eram a sensualidade, a experiência, o savoir faire, a garantia de a cada vez ter uma novidade que me faziam bater-lhe à porta, quantas vezes a contragosto. Depois, quando começámos a falar, esse incómodo desapareceu. Ou melhor, quando ela começou a falar comigo; eu não sou muito falador e assim continuei. A verdade é que Gaudência era solitária.

Mas devagar, muito devagar, começou a abrir-se comigo. Deixei de ser "pau para toda a obra", "pau mandado" e adquiri ouvidos e uma cabeça, "bastante boa, por sinal". Passámos de “tenho de lhes falar muito para os fazer pensar que sou nova nisto, e quando estou contigo não me apetece dizer nada” para “és a única pessoa que consegue perceber o que quero, e o que não quero dizer”; mas foi longo.

E eu, é doloroso reconhecê-lo, incentivei-a.

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