7.9.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 07-08-2019

Costumo dizer que não sou grande apreciador de clubes náuticos mas é mentira. Do que não gosto é dos navegadores de clube, aquela malta que sabe tudo e um dia esteve numa tempestade. Pelo contrário, as instalações são regra geral óptimas e fora das regatas estão vazias. A estas, o RCNP - Real Club Náutico de Palma - junta outra qualidade, nada despicienda: o gin tónico custa cinco euros.

Às vezes venho cá, ao fim do dia. Além  de ser mais barato, o gin dura mais tempo do que nos outros sítios, a sala é bonita e está quase sempre vazia. Sento-me na mesa do fundo, que tem os sofás com orelhões. Não vejo ninguém e quase ninguém me vê.  A bebida escoa-se lentamente, como se estivesse numa ampulheta a substituir a areia. Os raros clientes não falam; ou lêem o jornal ou... não sei, não vejo o outro senhor e pouco me apetece levantar-me para espreitar.

Vou levantar-me, sim, mas para encomendar o gin par. "Nunca se deve beber um número ímpar de bebidas", dizia o meu Pai, "sob pena de se voltar para casa a coxear".

Não sei quantas bebidas ingeri ontem. A certa altura perdi-lhes a conta. Sei que a dor de cabeça com que acordei hoje e debelei com dois Paracetemol voltou. Se eu dissesse a um médico que esta dor se deve à venda de um apartamento nos arredores de Lisboa ele não acreditaria. É porém a mais pura e virginal das verdades.

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Amanhã tenho um day charter. A cefalgia terá passado, a massa será bem vinda, o mundo recompor-se-á. As relações causais dúbias passarão para o campo da memória, que as espera de braços abertos.

Até lá, vou explicar ao tempo que os gin tónicos do RCNP se escoam delicada e tranquilamente e que apressá-los - ainda que seja para tomar mais dois Paracetemol - é um erro.

Nada substitui com vantagem o fim de um dia, o fim de uma fase, o começo de um novo período.

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As pessoas sentem-se culpadas de tudo e de nada: as alterações climáticas, a discriminação dos maricas, o mal-estar dos touros, ter-se apreciado os livros dos Cinco, rido com o rato Mickey e o cão Pateta. Não sei de onde vem tanta culpabilidade; creio que é simplesmente consequência de não terem verdadeiros problemas a resolver.

Tivessem a dor de cabeça que tenho e veriam se se preocupavam com os touros ou a dor das algas quando são arrancadas do fundo do mar.

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