13.3.20

Diário de Bordos - Lisboa, 12-03-2020

A caminho de "casa" - o hotel Botânico, no qual me sinto como se não estivesse num hotel - páro no Chafariz do Vinho. Mudou de dono: já não é de João Paulo Martins. Que dizer? Nada. Os empregados já não estão fardados, a lista de vinhos não está actualizada e a música é o Bob Marley. Sete euros o LBV mais barato (é de 2015), que fica a milhas do Warres 2007 (para quem não sabe, o Deus dos LBV) que ainda agora bebi por oito. Vale pelo lugar, que esse não muda.

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Tento ocupar o espaço entre mim e a perene dor de cabeça que me habita como um pombo o pombal: sai de vez em quando mas acaba sempre por regressar.

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Aconteça o que acontecer, é praticamente certo que já não tenho de cá voltar na quarta-feira. Talvez só no domingo e por um dia. Ainda acabarei a acender velas ao Covid, ou a dar esse nome a um cachorro. (Pelo menos teria a praia só para mim e faria montes de amigos. Covid, anda cá. Covid, senta. Covid, traz.)

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Amanhã volto para Palma com a sensação de que vou para uma prisão: não sei quando poderei de lá sair.

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Aposta com a T. Diz que o Covid vai mudar o capitalismo. Seria preciso definir muito melhor o que ela entende por «mudar o capitalismo», mas não o faço. Não me importo nada de lhe pagar um jantar, seja qual for o pretexto.

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Tempo de reler Camus: vivemos a Peste, mas é Meursault que me sinto. Ou nem tanto: talvez seja simples cansaço. Ou fim de ciclo: qualquer dia estarei na Costa Brava, o P. a funcionar, o segundo livro no forno, Mértola cheia de barcos e Moura de foils.

Qualquer dia, estes rios todos irão desaguar num grande rio tranquilo, quem sabe?

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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.