14.7.20

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 14-07-2020

O Abrakadabra está cheio, ontem vi a primeira mulher feia de Palma (ou melhor, em Palma) e qualquer dia vou a Portugal. Os acontecimentos sucedem-se e não se parecem uns com os outros. São todos diferentes. A senhora era visivelmente uma turista, muito gorda - a barriga dela era três vezes a minha, contando por baixo - tinha umas mamas minúsculas e vestia aquilo que me pareceu ser a parte de cima de um biquini, mas para um entendido talvez fosse outra coisa qualquer. Fosse o que fosse, era aterrador de feio. Hoje (talvez por coincidência), o meu bar  - aquele de que gosto porque tem monte de defeitos e uma qualidade, que é eu gostar dele - está cheio. (Não tem nada montes de defeitos.)

Vou a Portugal em breve e vi uma minúscula luz no túnel do P. Estes dois factos estão relacionados, sim. A Miss Peugeot saiu das mágicas mãos do Ivo, melhor ainda do que estava antes da estúpida queda na grelha de esgotos.  (Eu não caí. Quem caiu foi ela, apresso-me a esclarecer.)

Isto está tudo ligado. A vida é um Mecano feito por um cego maneta, alcoólico, sem noção das coisas. Há quem lhe chame «Acaso».

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Penso em Mértola e lembro-me de que não é lá que quero morrer. É em Bequia, no bar do Lucífer. Ou em Jost van Dyke, no Soggy Dollar. Mértola é para se viver, não para se morrer.

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O Abrakadabra está cheio de gordas. Não sei que pensar. Lembro-me de uma piada do Wolinski: dois tipos sentados numa esplanada.  A certa altura passam duas mulheres, uma magra e elegante a outra muito gorda. Um diz: «Há dois géneros de mulheres. As fodíveis e as infodíveis.»

No quadrado seguinte continua: «Prefiro as infodíveis. Urram quando tu as fodes.»

Às vezes hesito em achar piada, porque sei de experiência que é verdade. As infodíveis precisam de dizer a toda a gente que estão a ser fodidas.

Verdade seja dita: há muitas das outras, também. Das que não precisam de gritar. O gajo que faz este Mecano devia parar de beber, recuperar o uso das dois braços e deixar de implicar comigo.

Reconheçamos e prostremo-nos em veneração: quem inventou o corpo feminino merecia um Nobel. Não sei de quê, mas um Nobel. Da vida. Da felicidade. Da bem-aventurança. Da gratidão. Do que quiserem, mas um prémio. O corpo feminino é a prova provada de que a evolução sabe o que faz, tem sentido estético e - sobretudo - compaixão, a maior de todas as qualidades humanas.

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