24.9.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-09-2021

Fui buscar um copo de vinho para tomar os comprimidos da noite. Os da manhã tomo com leite. Evito beber água, faz-me pedras nos rins e pedregulhos na cabeça. 

Enfim, o tema do parágrafo anterior não são os líquidos mas os comprimidos que agora tenho de tomar quotidianamente. Vejo isto como uma ingratidão do meu corpo, a quem sempre alimentei muito e bem. Doses enormes de álcool, hidratos de carbono e gorduras animais (os três pilares da minha dieta), poucos legumes e vegetais (tenho sérias dúvidas quanto à clorofila, não acredito numa coisa que torna as plantas verdes como os marcianos ou os enjoados), pouca água (sempre associei sede à cerveja). Além da alimentação: deixei muito cedo de fumar cigarros, um pouco mais tarde de fumar outras substâncias, sempre fiz pouquíssimo exercício - o menos possível, diga-se; enfim, sempre tratei bem a carcaça e que ela agora me retribua com comprimidos de manhã, à tarde e à noite acho repugnante. Tentei, verdade seja dita, dissuadir os médicos que me receitaram tais horrores mas não consegui. Foram taxativos: ou isso ou uma punição que não consigo sequer nomear, de tão infame. Resignei-me às coisas e aconchego-as o melhor que posso.

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Acabei a noite no 7 Machos a beber tequila picante. Três euros e cinquenta o cálice, convenientemente acompanhado de sumo de tomate, sal e limão. A tequila é para lá de boa e reconcilia-me com tudo o que me perseguiu esta noite. A saber, a não-pertença. Isto é, a pertença a um sítio ao qual não pertenço. De todas as cidades às quais não-pertenço, Palma é aquela a que mais me entrego, porque é quase como se fosse minha. Não é, mas é como se fosse. Este debate chateia-me porque foi o tema da minha crise dos quarenta anos, só que nessa altura falava de países e não de cidades - Moçambique, Portugal e Suíça. Hoje falo de cidades: Palma, Genebra e Lisboa, se bem a primeira pudesse ser - e se calhar será - substuída por muitas outras. Espero que não, sei que sim, espero que sim, sei que não: ele há turbilhões que nem o mais poderoso dos tremores de terra fará desaparecer. Vá lá, pelo menos vão reduzindo o alcance: hoje falo de cidades onde antes falava de países. Não tarda falo de bairros, que é o que na verdade menciono quando falo de Palma, Lisboa ou Genebra: bairros, no sentido de arrondissements em Paris (XIII, XIV e XV, se por acaso).

¡Qué vaya!: vivi até hoje como viverei a partir de hoje, com a possível excepção dos livros, que quero perto de mim. Que nunca mais me deixem. Eu retribuirei, prometo. O que não daria para ter agora um livro do Cavafys na mão, em vez de ter de me chatear com o Google. E daí saltar para o Quarteto de Alexandria percorrendo lombadas de livros... Puta que pariu o que vivi até hoje: tenho a morte inteira para morrer. Até lá, continuarei a viver. A prova é que estou enamorado, coisa que aos sessenta e quatro anos não sabia possível.

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Tudo é possível. Basta quereres, poderes e teres tempo. De uma simplicidade arrebatadora, eu sei. Mas gosto da simplicidade, cosa fare?

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Sempre gostei de focais longas em fotografia e agora apercebo-me de que as grande-angulares são importantes também. Muito mais do que sempre pensei, o que só demonstra que «sempre» tem uma duração limitada, como os iogurtes, o leite e o pão.

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