15.4.22

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 14-04-2022

Regresso a Palma, a minha Palma, Palma dos meus dias, Palma à qual regresso feito filho pródigo. Selecciono os reencontros: Pepe, Aurélio, François, Jaume, Núria e Roberto, por ordem cronológica directa. Amanhã é sexta-feira santa e não haverá muitos mais, mas sábado outros se lhes seguirão. Os meus amigos de Palma são donos de cafés, bares e restaurantes, o que diz muito sobre o que me interessa na vida. (Também conheço livrarias e lojas de objectos bonitos, não vão os leitores pensar que só me interesso por vermutes e vinhos.)

Palma: a Núria tem a casa cheia e pede-me para me sentar à mesa de uns amigos dela (que não são donos de restaurantes, mas são chefs em iates. Um destes conta-me uma história magnífica: um amigo dele arranja um trabalho num iate nas Caraíbas. O processo de recrutamento é complicado, cheio de segredos e NDA (non-disclosure agreement, se por acaso). O homem é contratado, vai trabalhar e ao fim de um mês despede-se. O barco pertence a Nicolás Maduro e o chef tinha constantemente um guarda-costas atrás a ver o que punha na comida. Não é propriamente que isto me surpreenda. A minha surpresa vem mais da dimensão da credulidade de muita gente do que do facto de o herói da esquerda ser um corrupto. Há muitos, quase todos. A esquerda sempre atribuiu mais importância ao que se diz do que ao que se faz.

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Hoje é dia de procissão. Cruzo-me na rua com imensa gente vestida das mais estranhas formas, mas todas remetendo para fardamentos religiosos. Alguns fazem-me pensar em bruxas e penso que entre a bruxaria e a religião a diferença é pequena. Segundo um linguista alemão cujo nome esqueci, uma língua é um dialecto com uma armada e um exército. A diferença entre uma religião e uma seita, uma crença ou uma superstição é exactamente a mesma. Isto dito, prefiro o catolicismo ao voodoo ou ao islão, por exemplo. Talvez por familiaridade, não sei. 

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Este prazer infantil de ser recebido com alegria, abraços e grandes exclamações não tem comparação com nada, se não eventualmente o prazer de voltar ao mar para uma viagem longa. A diferença sendo que aí quem recebe sou eu e não ele a mim. Chegar aonde nos querem ou aonde queremos não é muito diferente, no fundo: para onde vai ou de onde vem o amor pouco importa, desde que faça parte da viagem, desde que esteja presente e inclua a mescla de sentimentos de que a viagem é composta.

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Apesar de conhecer esta cidade relativamente bem, continuo a perder-me em Palma. Creio - mas não tenho a certeza - que é uma das razões pelas quais gosto tanto de aqui estar: é melhor perdermo-nos num amor do que numa indiferença.

Em Palma, duas ruas que começam perto uma da outra e vão na mesma direcção não acabam perto uma da outra. Acabam a léguas uma da outra.

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