28.1.26

Diário de Bordos - Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 28-01-2026

Descubro a casa - nos dois sentidos, descobrir e des-cobrir - e a tentação seria acrescentar descubro-me (num só dos sentidos). Não seria verdade. Sempre fui dual, marinheiro com um pé no mar e outro nos livros, cara ao vento e alma à lareira. Balanço e abalanço-me, que os badanais desafiam tanto no mar como em terra, por diferentes que sejam. 

Arrumo os livros, vejo quantos me faltam e quantos tenho, a ficção estrangeira está por ordem. Já só falta a poesia, a ficção nacional (desta vez decidi separá-las), as não-ficção - muitas -, as biografias e auto-biografias, a portugália, a marítima e a miscelânea. Duas semanas e duas estantes ou três. Duas navegações ou três. A lareira enche-me a casa de fumo, as paredes estão a ficar castanhas, o forno é novo, o fumo na casa faz-me pensar que estou a navegar no nevoeiro - estou, se se pensar que nevoeiro pode ter vários sentidos. A polissemia é a minha imagem de marca.

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Livros, electricidade, lareira, aquecimento, iconografia - tenho dezenas de imagens que quero pôr nas paredes e não tenho dezenas de paredes, porque preciso delas para os livros... Um caso de mais olhos que paredes. Isto é como navegar no mar do Norte: navios, correntes, baixios, bóias, nevoeiro. Forçoso é reconhecer que estou mais à vontade na Mancha do que em Vilarelho. Descubro, des-cubro e - sim - descubro-me. 

Descubro-me todos os dias, vai para quase setenta anos. Qual a novidade?

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Prova de que estou em terra: bebo vinho tinto enquanto navego. Vinhas de Xisto Reserva. Douro DOC de 2024. Não gosto de supermercados mas de vez em quando há que dar a boca a torcer.

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Chego a casa e o cheiro da madeira a arder na lareira diz-me que estou em terra. Inscrevi-me para votar "em mobilidade". Um dia votarei em imobilidade e o cheiro da lareira dir-me-á apenas que está acesa. 

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