18.3.26

Sesta, falhar, Cohen, Carson e outras coisas fúteis como o tempo e o espanto

Uma sesta não precisa necessariamente de ser feita a dormir. Ler Anne Carson (A beleza do marido) uma autora de que tenho alguns livros nunca lidos; ou ouvir Leonard Cohen (ouvi pela primeira vez há cinquenta anos, em casa do meu primo Miguel C.) são excelentes formas de fazer uma sesta.

Sobretudo quando se começa a pensar na beleza abissal da expressão "há cinquenta anos" e se se apercebe de que "há sessenta anos" seria igualmente válido,  temos memórias de há sessenta anos e que acabamos de ler coisas que nos tocam apesar de já não sermos maridos e de nunca termos sido belos apesar de os poemas no-lo dizerem (que não fomos belos). A tradução não é fabulosa, é assim-assim, pelo menos nas partes que posso avaliar e isto faz-me pensar que as traduções de poesia deviam ser bilingues e que Leonard Cohen - felizmente - não precisa de tradução porque traduzi-lo seria como traduzir-me, coisa que não me apetece nada fazer, não tenho versão original, sou como sou, é tudo, por pouco que seja. Cada homem é uma versão do universo, é por isso que verso é precedido de uni, homem sendo aqui sinónimo de pessoa, para os mais preocupados com tretas, aparências, superficialidades e palavras, desculpem-me as redundâncias. "I told you when I came / I was a stranger", mesmo agora,  carnes e vontades flácidas, sensibilidades exacerbadas, "se eu pudesse matar-te depois teria de inventar outro exactamente igual a ti" (Anne Carson, op. citada) e a sesta serve para isso: inventar outra exactamente igual a ti e pensar "quantas já inventaste e falhaste?" 

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