Estendo-me no passado como me estendo debaixo desta camada de cobertores; escorrego no passado como um patinador desajeitado na pista de gelo; mergulho no passado como um mergulhador cuja garrafa de ar comprimido está vazia; ando no passado como um cego que esqueceu a bengala em casa; e nele pedalo numa bicicleta com os pneus furados.
Por exemplo: deixei de gostar de doce de figo e de doce de tomate. Não sei porquê. Era tão feliz quando gostava desses doces... Hoje sou mais feliz? Não sei.
Por exemplo: quando cheguei a Portugal um das coisas que mais detestava era os cães vadios. Quando não eram vadios estavam amarrados. Na melhor das hipóteses a um grande arame, na pior a uma argola. Hoje não há cães vadiod e os que estão amarrados é ao colo dos donos ou, na melhor das hipóteses, numa trela. São mais felizes? Não sei.
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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.