Toda a gente sabe; quem não, aprenda: a melhor maneira de percorrer Lisboa é de bicicleta; a seguir, vem a marcha. Depois vêm os outros meios de transporte todos: metro, táxi e autocarro. Por fim, finalmente, essa forma moderna do táxi que são os Uber e quejandos.
O problema destes métodos todos - insisto: todos - é que exigem uma planificação da resistência às múltiplas tentações que nos saltam ao caminho e nos assaltam os sentidos todos mai-las memórias. O viajante avisado começa por fazer a opção de base: comer sentado a uma mesa ou depenicar aqui e ali? A escolha certa é: os dois. Exige, é certo, mais atenção. O quê e onde petiscar e almoçar? Consoante a zona da cidade aonde se está. Hoje, por exemplo, comi um pastel de massa tenra no Frutalmeidas acompanhado por dois sumos de não sei quê chegados directamente do paraíso a que se seguiram dois Piratas no Pirata (apanharam decerto o mesmo autocarro do que os sumos). Passo alguns pormenores para não empanturrar o leitor e acabo a almoçar uma gloriosa feijoada no Moisés. Algo me diz - mas não tenho a certeza de estar a ouvir bem - que daqui irei à Versailles beber um café e comer um pastel de nata. Lisboa é isto: uma maçada. Apodei a feijoada de gloriosa porque não quero usar "divino": estou em dia de monoteísmos e Deus há só um, Lisboa e mais nenhum. O Moisés sendo, naturalmente, um dos seus apóstolos, digam as escrituras o que disserem. E a Versailles. E o Frutalmeidas. E centenas de outros: Lisboa é um deus pródigo e tem centenas - se não mesmo milhares - de locais de culto. Já comprei café na Cafélia, é importante mencionar isto agora que estou à frente da casa Pérola do Chaimite, aonde durante muitos anos me forneci. Mas a Cafélia tem Maragogipe e contra factos não há argumentos. Para além de que são muito mais simpáticos do que o senhor Tavares. Mas bom, este é um argumento secundário. A simpatia só sobe a primeiro plano quando o produto não está lá, como acontece com o senhor da loja de bicicletas de Caminha.
Próxima paragem: Versailles. A vantagem de Lisboa sobre a Via Dolorosa é que esta só tem catorze estações.
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A parte feminina da clientela da Versailles - aproximadamente metade - vai bastante bem com o estabelecimento em si. Não estou com isto a chamar velhinhas às senhoras que tão generosamente enchem a casa de beleza. Longe de mim tal grosseria e sobretudo tal falsidade. Estou simplesmente a dizer que as senhoras são bonitas, elegantes, têm classe e savoir-faire. O que, reconheçamos, é uma mistura bastante agradável de qualidades.
As minhas escolhas não são exclusivas. No Moisés estava um senhor, personagem da televisão e da cultura nacionais. Pois acaba de entrar na pastelaria e está agora acompanhado por uma outra personagem da cultura, da televisão e da poesia nacionais, de resto seu colega num dos programas de televisão. Vamos ver se os outros dois membros do painel se juntam. Se o Eduardo Pitta aqui estivesse ficaria composto um belo ramalhete de personalidades da cultura.
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Saio da Versailles e retomo o meu deambular pela cidade. Parte a pé e parte de táxi chego a Campo de Ourique, aonde decido fazer uma pausa bloguística. Agora só me resta esperar pela hora de jantar e depois de ir para a cama. Amanhã vou buscar a bicicleta e vou almoçar com o V. Estar em Lisboa de férias é um encanto.
(Cont.)
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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.