19.4.26

Respeito, respeitinho

No século XVIII o rei D. José I e o marquês de Pombal decidiram evacuar a cidade de Mazagão, em Marrocos (hoje El Jadida) e transferir toda a sua população para uma outra cidade, Nova Mazagão, situada na Anazónia, perto da foz do Amazonas. Simplificando muito, o projecto consistia em levar toda a população para Lisboa e dali transferi-la para Belém (a do Pará, não a do mosteiro) e finalmente para a nova cidade quando estivesse pronta. Coisa para um ano. Quem quiser aprofundar o assunto - apaixonante - pode ler um livro chamado Mazagão, la ville qui traversa l'Atlantique, de Laurent Vidal, edição da Flammarion.

Vinte anos depois - eu repito, para não pensarem que se trata de um erro: vinte anos depois - ainda havia pessoas à espera, ou em Belém ou em Lisboa, de uma casa na nova cidade. O rei e o marquês ignoravam olímpicamente as consequências do atraso e o sofrimento que provocou.

Porque é que penso nisto hoje? Bom, na verdade não é hoje. É há muito tempo. Este episódio ilustra perfeitamente o que qualquer português sabe desde que nasce: o desinteresse dos nossos governantes por nós, governados, não data de hoje. É atávico. Um cidadão escreve a um político (no activo, claro) e não recebe resposta nenhuma. Nenhuma, nem mesmo um "recebi o seu e-mail e responder-lhe-ei em breve". Nada. Zero. A que se deve tal silêncio?
- À falta de tempo?
- À falta de interesse (o tema não é interessante para a pessoa a quem nos dirigimos)?
- À falta de educação?

Não. Nada disso. À falta de respeito, simplesmente. É verdade que muitas vezes as ausências de respeito e de educação se misturam e se assemelham muito. Porém, são coisas diferentes. Regra geral, os políticos portugueses são educados e à medida que se vai subindo na pirâmide política essa educação vai aumentando. A falta de respeito pelas pessoas, essa, mantém-se constante desde o presidente de junta de freguesia ao presidente da República (não se deve acreditar nas manifestações públicas dos Marcelos e dos Seguros. Aquilo é para televisão ver. O efeito prático, como todos sabemos, é zero).

Há uma certa injustiça nisto porque a este desprezo o povo português responde com o respeitinho. (É diferente de respeito e nerece uma análise antropo-sociológica separada e feita por gente qualificada, não por um marinheiro em terra.)

(Cont.)

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