27.4.26

Se há vinte anos

"Tudo o que vês é estilo. Só superfícies planas, brilhantes, sem ponta por onde se hes pegue. Essas não se vêem. O que importa está escondido." A relação entre o que se é e o que se mostra, entre o que se vê e a realidade era uma das obsessões de F. e resumia-a numa fórmula para mim vazia de conteúdo: "É preciso separar a espuma dos dias" que ele achava brilhante e repetia com frequência. "Por exemplo, vês aquela mulher ali ao fundo? A que vai para a casa de banho a andar como se tivesse depilado as partes há dois dias e agora aquilo pica?" 

- Sim, vejo.
- Conheço-a. É uma empresária de sucesso (aspas com os dedos a fazer vírgulas no ar).
- É bonita.
- Parece bonita. É uma mistura de botox, antioxidantes, suplementos alimentares, pomadas anti-tudo, cremes... Sem essa merda toda seria ainda mais bonita. Depois começa a falar e tu percebes que por baixo daquilo tudo há um substrato aligeirado.
- Aligeirado? O que é isso?
- É a mesma coisa: está cheio de pomadas, cremes e sei lá que mais. O que ela usa no corpo põe na cabeça. Sem isso, o discurso teria muito mais peso. Percebe-se que há densidade, mas está disfarçada.
- ...
- Está longe de ser caso único. Vá lá, menos mal. A maioria põe cremes para esconder o vácuo. Por cima do vazio. Aquela não. 

F. calou-se. Sonhava. A mulher chama-se Alexandra e é médica. Deve andar pelos cinquentas bem tratados. Habita visivelmente as camadas superiores da pirâmide. F. sempre teve bom gosto, apercebo-me agora, que parou de sonhar.
- Se há vinte anos eu fosse menos estúpido e ela mais poderíamos estar casados.

(Cont.?)

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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.