É assim que por vezes me deixo ir, ouvindo as Mandé Variations do Toumani Diabaté, Também me deixo ir na beleza dos rios por que passo todos os dias, o Coura e o Minho, que me arrastam com eles para onde quer que vão. Deixo-me ir nas «vagas da minha memória», aspas porque cito o título de um disco de rock soviético que me foi oferecido em mil novecentos e setenta e sete pela mulher mais bonita da minha vida numa das cidades mais feias da minha vida. Deixo-me ir nesta mistura de vida que eu faço e me faz, espécie de crochet cujas agulhas ignoro quem maneja. Maneja bem, forçoso é reconhecer.
«I never felt at home - Below -
And in handsome skies
I shall not feel at home - I know -
I don't like Paradise -
...»
Emily Dickinson, in Duzentos Poemas, ed. Relógio d'Água, trad. de Ana Luísa Amaral (à medida que vou lendo vou gostando menos da tradução, mas isso é devido a uma divergência conceptual sobre o que uma tradução deve ser). E não me impede de me deixar ir, com alegria e leveza por estar a infringir uma das minhas regras: «Nunca te deixes ir!» Vou guiado pelo Toumani Diabaté, pela memória, pelos dias que me esperam, memórias ab ante, memórias antes de o serem. Que nome terão?
The Mandé Variations? Be thyself!? Larga de mão? Daqui a pouco mais de uma semana embarco. Não me mexo em terra como no mar. «you know Orion always comes up sideways...» diz o Roberto Frost. Sim, sei. Só não sei se o verei desta vez. Vou navegar para norte e já estamos em Maio.
The Mandé Variations? Be thyself!? Larga de mão? Daqui a pouco mais de uma semana embarco. Não me mexo em terra como no mar. «you know Orion always comes up sideways...» diz o Roberto Frost. Sim, sei. Só não sei se o verei desta vez. Vou navegar para norte e já estamos em Maio.
O Eugénio de Andrade que comprei tem aquele verso fundamental: «Por que palavra começar, por que desordem?» Tem-me acompanhado desde que o li pela primeira vez, há trezentos anos. Ou será tremendos? Não sei. Hoje percebo melhor o poema (em prosa) de onde vem. Naquele dia só entendi a desordem de onde nasce a palavra. Acompanha-me desde esse dia, desde essa noite. É uma fonte, a desordem. Como a noite e as memórias prematuras.
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