31.7.21

Até ao fim

E com isto tudo deixei de fora a única notícia importante do dia: parece que vou ter mesmo de me vacinar, se quiser continuar a trabalhar. Os clientes querem skippers vacinados, ao que me diz a agência. O meu desalento ontem foi grande. Hoje comecei a procurar alternativas. Não quero apanhar aquela merda, não por ter medo da vacina - não tenho - mas por não querer fazer parte da palhaçada. Não tenho jeito para circos. Se alguém conhecer alguém que conhece alguém, é só dizer. (Se bem isso seja uma forma dissimulada de participar no circo, no fundo.) Acho indecente obrigarem-me a trocar princípios por lentilhas, mas faço minha as palavras aqui da epígrafe: «never give in, except to convictions of honour and good sense.» O bom senso vai acabar por ganhar, mas porra, hei-de resistir até ao fim.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 31-07-2021

Hoje comprei rúcula para o jantar. Não é de todo a primeira vez que compro vegetais, longe disso. Quando morava no Príncipe Real, por exemplo, comprava frequentemente verduras «bio». Inicialmente porque o mercado era mais perto do que o supermercado, depois porque descobri com prazer que as coisas «bio» (aspas porque cito) duram mais tempo no frigorífico. Hoje comprei rúcula e o que tornou essa compra interessante é que tive de escolher entre isso e batatas - nos períodos de maré baixa a conjunção «e» é substituída pela «ou», quando vou às compras. Acho que tenho rúcula para um ano (enfim, o P. tem, eu vou-me embora na segunda), a julgar pela quantidade que hoje comi. A minha dependência do parmentiano tubérculo está a diminuir, parece. 

Enfim, uma andorinha não faz a primavera. Vejamos, antes de tirarmos conclusões apressadas, digo a mim mesmo e mim mesmo concorda.

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Decidi guardar o quarto durante o mês de Agosto, apesar de só precisar dele uma noite por semana. Não me apetece andar a saltar de camarote em camarote, por um lado; e por outro, ajudo o P., que a cada dia aprecio mais e bem precisa. 

P. é professor de inglês «de nível elevado», especifica. »Os níveis mais baixos são muito aborrecidos». Antes da Covid dava vinte horas de aulas por semana (em casa). Hoje dá duas ou três. É um mestiço jamaicano dos seus cinquenta e muitos. Regista quase tudo o que se lhe diz, basta repetir cerca de vinte vezes cada coisa. «Quando é que te vais embora?», pergunta, dez minutos depois de eu lhe dizer que me vou embora segunda-feira. Ao longo do dia a pergunta repete-se, amanhã idem e na segunda, quando eu lhe disser «Ciao, P., vou-me embora» fará uma cara espantada e dir-me-á «Oh, vais-te embora? Quando regressas? (Outra pergunta à qual já respondi umas boas dezenas de vezes)» «Na sexta ou no sábado, P.» 

Ao princípio exasperava-me um bocadinho, mas depois percebi que não era exasperação, era inveja e a coisa passou. Se há coisa que não sou é invejoso e no P. eu invejava duas delas: a capacidade de não ouvir e a naturalidade com que o assume. Imagino que seja um óptimo professor. 

Nunca percebi bem de que vive - alimentarmente, quero dizer. Passa os dias sentado na mesa  na qual dá aulas, interessa-se pelos resultados dos jogos olímpicos (isto é, pelo número de medalhas que o Reino Unido obteve), lê bastantes jornais digitais, pergunta-me (todos os dias) se eu leio o Guardian (ou a BBC ou o Telegraph), todos os dias lhe digo que não, adormece frequentemente sentado à mesa. Nunca o vi nem comer nem sinais de que vá comer ou tenha comido. O frigorífico está sempre cheio, mas parece-me que das mesmas coisas. Hoje encontrei ovos cuja data de prescripção era Agosto de 2020. Às vezes conversamos - sobre a Covid, sobre política «não sou de esquerda nem de direita», disse-me há dias - concordamos em que as independências das colónias foram uma tragédia. Traz-me à memória aquela definição das amizades inglesas, que «começam sem confidências e continuam sem diálogos». Vem de uma família da alta burguesia jamaicana, foi educado em colégios católicos, fala um inglês maravilhoso - não surpreendentemente, claro - e simpatizamos bastante um com o outro. Baixei um bocadinho o preço do quarto para estas semanas que aí vêem e hey, presto!, tenho um quarto para as sextas-feiras e ele um hóspede ausente.

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O concurso internacional de regras idiotas continua. Hoje teve mais uma inscrição, portuguesa: as discotecas podem abrir, mas não se pode dançar. Faz-me lembrar a história do bordel de Porto Amélia, hoje Pemba, onde um capitão me quis levar. O imediato opôs-se terminantemente (eu era filho do sub-director da companhia, argumentava ele). Seguiu-se uma negociação cerrada entre os dois e acabaram num compromisso: eu ia, mas não beneficiaria dos serviços das senhoras (eram só duas, uma morena e a outra loira). Passei duas ou três ou quatro ou uma quantidade infinita de horas sentado na sala de estar do lugar, com elas a passar por mim a cada troca de quarto (previamente combinadas entre capitão e imediato), a apalpar-me o membro que estava, do alto dos meus quinze ou dezasseis anos, mais duro do que o obelisco da Place de la Concorde e a dizerem «coitado do rapaz».

Irei ao Roterdão, D., e lembrar-me-ei desta história quando estiver a comer uma sandes de arenque fumado.

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Parece que segunda-feira o P. vai para a água. Não sei. Agora a complicação é com a cor da tinta encarnada. Ficou de lá ir um colorista (os indivíduos que fazem as misturas de tintas de forma a obterem o tom exacto. Não fazia ideia de que tal profissão existe, sequer). Não tive telefonema nenhum hoje, o que não é de admirar porque pôr esta malta a trabalhar aos sábados é mais difícil do que levar o Papa ao bordel de Porto Amélia, hoje Pemba.

O P. faz-me pensar naqueles paus ensebados dos concursos das aldeias: cada dez centímetros que se sobe baixa-se um metro, mas por um milagre qualquer, não-matemático, há quem chegue ao topo. Eu sei que o vou subir até ao último milímetro. Só me pergunto é como, com tantas descidas a cada etapa.

30.7.21

Desilusões

Uma das muitas coisas que esta «pandemia» mostrou é que a crise de liderança é transversal. A esmagadora maioria dos governos comportou-se como vermes à vista da bota. Com a louvável excepção da governadora do Dakota do Sul, não houve um governo, um, no mundo ocidental que se tivesse mostrado à altura. Incluindo o sueco, que só não impôs «medidas» e restrições porque não podia e lá a expressão «diga a constituição o que disser» não tem curso. Até Angela Merkel se perdeu pelos caminhos ínvios do covidismo, do facilitismo e do medo. (O idiota do Bolsonaro não entra e Trump, que estava longe de ser um idiota, tão pouco - não tinha poder.) Raio de tempos estes.

29.7.21

Coisas

É muito difícil falar das coisas, porque a) coisas é vago e b) falar inútil. Ninguém me ouve (felizmente, se não teria de ficar calado) e coisas tem vários significados, varia com o auditório. Reduzo-me portanto a falar da vida (a minha, a única que conheço) e das coisas que me tocam. São poucas, inútil é dizê-lo: um par de mãos, um par de olhos, um par de mamas, meia dúzia de músicas, um dia no mar. Do resto, pouco sei: a poesia, a prosa, o vinho, o rum, a luz; meu Deus, a luz. O vento. A amizade. Sou tocado por uma determinada quantidade de coisas - por feliz acaso, as que toco. Retribuo o que recebo (com as possíveis excepções da música e das letras, que recebo muito mais do que dou, mas isso fica para depois).

Pouco importa. Gosto da palavra coisas, das coisas que ela - para mim - designa, das coisas que me tocam. Com as outras tento não me preocupar.

Infelizmente, consigo.

Abençoado seja (eu)

Já não ouvia as Vésperas de Rachmaninov há um bom bocado de tempo. Uma larga fatia de pizza, se quiserem. Agora oiço e por isso não me deito, que é o que devia fazer. Mas alguém se pode deitar e deixar isto a meio? Só um bruto insensível, um bloco de granito, um meteorito estéril. Eu não. 

Não sou nada disso. Sou um bruto sensível, um bloco de algodão-doce, uma planície fértil, abençoado seja eu.

Duas declarações de amor

Há nesta cidade recantos impossíveis, inimagináveis. Ao lado da sua mais bonita praça - a Plaça Mayor, que é também uma das mais bonitas que conheço no mundo todo que conheço - está a Plaça del Banc de l'Oli, pequeno agregado das diferentes formas de beleza urbana: laranjeiras, prédios tradicionais, prédios modernos, proporções perfeitas, restaurante Gustar, mulheres bonitas (e homens também, verdade seja dita, apesar de eu estar aqui).

Suponho que isto faz o encanto de Palma, mais do que o facto de ter sido fundada por um general romano chamado Menano ou ter sofrido dezenas - centenas? - de invasões de piratas. Estas ajudaram a fazer da cidade o que ela é hoje: desconfiada, fechada, reservada, resistente. Como aquelas mulheres bonitas que fazem tranças com as pernas, de tanto as entrelaçar quando estão sentadas: o parceiro só lhes vê o torso, mas as pernas estão trancadas a sete chaves. 

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E agora, Luís?

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De regresso ao velho Antiquari, onde já não vinha há muito tempo. Uma cidade é feita de velhos amores, como uma vida ou um andaime numa obra. 

Jazz, média luz, bom vinho. Só faltas tu, minha R. de mim. Que é um espinho sem uma flor?

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 29-07-2021

Um Negroni na Rambla. Gosto da Rambla de Palma - é um dos meus lugares favoritos - e nela da Ca na Chinchilla (idem). Gosto das árvores que, inclinadas para dentro, fazem uma nave que filtra o calor e a luz; gosto do pavimento, ligeiramente abaulado e numa pedra que a reflecte pouco, fica quase baça; gosto de ver as pessoas desfrutar de tudo isto - estou longe de ser o único, claro. Hoje vim à Ca na Chinchilla beber um Negroni. Não é cocktail que beba frequentemente e hoje precisei de mudar qualquer coisa. Como não posso mudar as grandes coisas, mudei uma das pequenas. É preciso ser pragmático, adaptarmo-nos às circunstâncias e acompanhar as mudanças regalando-nos com o que nos cerca. E, sobretudo, não perder tempo com guerras inúteis.

(Definição de guerra inútil: a que não se pode ganhar hoje.)

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Algumas mulheres andam de máscara na rua e «vestidas» com roupa que não lhes cobre nem um quarto do corpo (o jogo de palavras é imperceptível, espero). Tapam o que não precisam de tapar e não cobrem o que deviam cobrir. Enfim, não sei se «deviam» é o termo adequado. Talvez não seja.

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O P. vai para a água na segunda-feira. Com sorte estarei cá para o levar para o seu lugar. Este bote não me sai dos dias.

Nem eu dos dele, verdade seja dita. Vamos envelhecer juntos, aos pontapés, beijos, abraços e murros um ao outro.

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Dizem que enquanto há vida há esperança; penso que enquanto houver mulheres bonitas há vida, mas isso não me leva à conclusão lógica de que enquanto houver mulheres bonitas há esperança. A esperança é uma droga dura e as mulheres uma doce.

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Hoje estava no Olivar e pensei que vou para ali como outros vão passear para centros comerciais. Não fiquei orgulhoso, apesar de achar o mercado muito mais bonito do que qualquer centro comercial. Mas enfim, comi um polvo à galega que me fez  ter vontade de voltar à Galiza (não por estar mau, mas de tão bom que estava) e bebi o orujo que eles encomendaram para mim e nunca mais lá voltei e ainda há dias a Patrícia me gozou por causa disso. «O orujo é bom, não é?», perguntou-me. Não percebi nada, claro. «Encomendámos uma garrafa paravti e nunca mais cá voltaste», explicou ao ver o meu désarroi. E eu sem massa para orujos, que horror. A situação compôs-se, sem dúvida graças à intervenção divina (o deus sendo Mamon) e hoje lá fui cumprir as minhas obrigações contratuais. Vai ser um sarilho, acabar aquilo até me ir embora, mas um homem é um homem e um gato um bicho e de qualquer forma não tenho de acabar a garrafa, basta-me dar-lhe um entalhe que se veja, não é? É. Amanhã lá irei passear para o Olivar outra vez, que maçada.

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Entretanto, a Rambla anima-se e entre miúdas meio-despidas e outras meio-vestidas lá se vai compondo. A temperatura e a luz caem ao mesmo tempo (andam sempre juntas), o ruído do trânsito intensifica-se (daqui a pouco parará completamente, mas gosta de fazer um pequeno crescendo antes de se despedir) e eu chego ao fim dos disparates do dia. Foi um dia tranquilo, iluminado agora mesmo pelo olhar amoroso de uma mulher ao seu homem. Um dia precisa de poucas coisas para ser feliz.

Uma vida também, na verdade.

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No restaurante Gustar não há cá menus em inglês ou alemão. Há o Tom e o Fidel, uma cozinha sublime e uma das praças mais bonitas de Palma. O resto é conversa de encher chouriços. 

(Plaça del Banc de l'Oli.)

Evolução?

O século XXI trocou o racionalismo do XIX pelos cultos irracionais, pelas crenças, pelo pensamento mágico e pelos milenarismos. Entre os dois, ficaram duas bombas atómicas e uns valentes milhões de mortos.

Ontem já era tarde

A quantidade de energia (QE) que foi necessária para transformar o Sars-CoV-2 na tragédia que está a ser é incomensurável. Reverter este psicodrama exigirá uma QE ainda maior, porque o medo introduziu muita energia no sistema.

Aparentemente, Marcelo deu ontem o primeiro passo. Tem um ano e meio de atraso e neste caso o "mais vale tarde" não funciona. O que isto custou (e custa) ao país não admite perdões nem condescendência.

Tem é que acelerar o processo, ponto. Despachar-se. Deixar-se de panos quentes. Um governo que mantém Cabrita em funções e acolhe Brandões Rodrigues, Pedros Nunos, Galambas, Van Dunens, Anas Marias Vitorinos, Santos Silvas e é chefiado por António Costa não merece confiança. 

27.7.21

Como será?

Num dos muitos dias em que não morreu, João Miguel foi ao mercado comprar sal, vinho tinto e coentros, beber vinho branco e vermute e ver os amigos. João Miguel é um rapaz sensato, pintor (de paredes), que tem «a sorte de estar desempregado» (aspas porque o cito) e gosta de passear a sua - para mim incompreensível - «sorte» pela nossa cidade. Está casado com uma rapariga conhecida - apresenta um programa de televisão, se não me engano (não vejo televisão e não posso asseverar a veracidade de tudo o que me dizem. Acresce que a vida dos outros me interessa dolorosamente pouco e a de João Miguel não é excepção).

João Miguel, a mulher, os quatro filhos deles e eu vivemos - com mais quinhentas mil pessoas, mais coisa menos coisa - nesta cidade. «Toda a gente» se pergunta como é que um pintor de paredes está há tanto tempo casado com uma «celebridade». Eu não. São assuntos que me interessam pouco: cada um casa-se com quem quer ou com quem pode. Se ele suporta a mulher e se esta o suporta a ele - isto é, se se suportam mutuamente; se educaram correctamente os filhos; se se entendem em todos os lugares onde um casal deve entender-se - a saber: na cama, na cozinha, na sala, na rua e em casa de terceiros - não há razão alguma para eu me intrometer na vida deles. Se nada disso acontece, então ainda menos razões há para que as suas vidas sejam objecto de interesse ou tema de conversa nas tabernas.

De momento, escapa-me o nome da mulher. Creio que é Ana, mas não tenho a certeza. Como disse, interesso-me pouco pela vida dos outros. Já a ida de João Miguel ao mercado me atrai e muito: o rapaz está desempregado, não gosta de viver a expensas da mulher e vai, voluntariamente, expor-se a uma Via Crucis - dizer olá a toda a gente que conhece sem poder parar para beber um copo? Ou beber só um quando quer beber dois? Ou comprar coentros quando o que quer é secretos de porco ibérico a vinte e oito euros o quilo?

A explicação é simples: nos dias em que não morre, João Miguel vai ao mercado saber como será quando morrer.

Duas ou três coisas que eu não sei dele

Os «especialistas» deviam ter-se alegrado com a «variante Delta»: não é preciso ser virologista para se saber que quanto mais contagioso é um vírus menos perigoso é. Faz parte da cultura geral. Em vez disso, aproveitaram a ocasião para deitar gasolina para cima do fogo, como se fosse preciso mais combustível. Agora vão morder-se os dedos: os casos no Reino Unido estão a diminuir a olhos vistos, a «variante Delta» é prevalecente e tudo o que podem dizer é que não sabem explicar essa descida de contágios. Um deles diz que a população deve ter mudado de comportamento, assim de um dia para o outro, fiat lux

Que raio de mundo fabricou a minha geração? Como é que se dá ouvidos a esta gente? Como é que os jornalistas ainda conseguem andar de pé, sem coluna vertebral?

Bradar

Um contrato que devia ter sido assinado há duas glaciações voltou a ser adiado. Pela primeira vez em muito tempo soltei meia dúzia de vitupérios e voltei a confirmar a opinião que tenho sobre a «culpa»: é muito mais fácil lidar com as contrariedades se lhes atribuirmos a «culpa» a alguém - que habitualmente não tem culpa nenhuma, claro. A fatalidade, o azar, o acaso - a nossa ansiedade, quando precisamos desesperadamente de qualquer coisa - são responsáveis pela maioria daquilo de que nós próprios não somos. É uma luta entre nós e o acaso na qual os «outros» têm um papel residual. A fúria esvai-se com o barulho de uma bóia a esvaziar-se. Quando acabar, volto para a cama e tento readquirir uma forma humana. Por enquanto, só me apetece bradar. Não sei é a quem.

26.7.21

Cem metros barreiras

Ha dias em que a vida me parece igual a fazer um cego a correr os cem metros barreiras.

Modernidade, cueiros

Nunca pensei um dia contradizer-te, Arthur. Il ne faut pas être moderne. A modernidade que estamos a fabricar ainda está no ventre do presente e já cheira a cueiros.

Diário de Bordos - Palma, Malloca, Baleares, Espanha, 26-07-2021

Hoje lá tive a minha tourada no P.: um squall desenrolou parte da genoa e foi preciso arreá-la. O vento acabou quando a genoa estava em baixo, claro. Telefonaram-me do STP, o sítio onde eu gosto de ir para lhes ver as pernas, às belezas todas que andam com elas tapadas pelo mar. Fiquei cansado. Começo a ficar preocupado com a facilidade com que me canso. Em breve terei três semanas de back to back. Vamos ver como é que a carcaça reage. A carcaça e o que lhe está por cima, verdade seja dita, que este cansaço é como uma vaga de fundo, não se vê de onde vem nem para onde vai.

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«L. talks very highly of you», diz-me P. E isto sem me ter visto agarrado à genoa como se cada golpe do pano me viesse directo à carne viva. O pessoal do STP veio pear o bote, uma cinta de cada lado, como se a senhora precisasse de ligas para se manter de pé. Precisa. Disse-lhes que sim e que quanto mais depressa melhor. Agora está em árvore seca, mas deixá-lo. Peado sempre fica melhor ele e eu mais descansado. Um dia lembrar-me-ei destes três anos e quase meio (agora) e perguntar-me-ei «Mas que raio fizeste tu?» «Tratei duma rapariga caprichosa, insolente, obstinada, pérfida...» «Porquê?» «Porque ela é linda e eu sensível à beleza» (a segunda oração desta frase vai de certeza levar muitas modificações, consoante os dias).

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Pensava que ja tinha aprendido a viver comigo, mas não. Ainda consigo irritar-me como mais nada nem ninguém consegue. De certa forma é uma sorte, mais uma: o inimigo interno é preferível aos outros todos, não é? É uma luta mais igual. Conhecemos-lhe a panóplia toda: a melancolia, a tristeza, a saudade, o desejo, a vontade de estarmos onde não estamos...

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Talvez este cansaço venha de fealdade. Isto é, de estar cansado da fealdade. Não sei. Acho que sou novo de mais para isso - ou insuficientemente velho, se preferirem. 

(Adenda: a humanidade que este vírus descobriu é feia, maldosa e cobarde.)

Transparência

Vivo num canto da casa, o canto menos visitado. Como num canto da mesa, durmo num canto da cama. Ninguém me vê, não vejo ninguém. O mundo exterior chega-me filtrado pelas paredes, pelos espessos cortinados, pela vontade - ou falta dela - de o ouvir. Oiço a música de há cinquenta anos, ou mil anos, às vezes mais, raramente menos. Como a comida do dia, a que compro no mercado ou me chega por mão amiga, se bem desconhecida. O meu mundo é este: paredes, cortinados pesados, vendedores do mercado, as páginas dos livros para os quais olho sem ler. Já mal sei ler, de resto. Mal vejo, quanto mais ler! A luz chega-me esbatida, como se o mundo fosse feito de nevoeiro. Às vezes ocorrem-me crises de optimismo incontrolável, de que este «como se» é exemplo. Como se o mundo fosse nevoeiro... Que queres tu que ele seja, paspalhão?

Troquei a solidez pela solidão. Isto tem de ser mais bem explicado: troquei a solidez do mundo exterior pela solidão do interior? Não me parece. Estar sozinho não é o mesmo que estar só. De toute façon, on s'en fiche. Qu'est-ce que j'en ai marre de toutes ces explications! Qu'elles aillent se faire foûtre, les explications. Em breve não terei palavras, ficarei reduzido aos sons e à luz. Agrada-me a ideia de perder palavras como a outra espalhava pedras no caminho de ida para saber o de volta. Talvez sejam as palavras que me salvam a solidão, que ma tornam suportável? Como o sumo de limão salva a mayonnese? Como um laivo de humor salva o amor, um seio um corpo? Não sei. Pouco me interessa, na verdade. Estou sozinho nos meus cantos - casa, cama, mesa, música, palavras. Encaixam-se uns nos outros como algumas vidas.

Da janela vejo flores e outra parede. (Afinal tenho uma janela sem cortinados.) De mim, não vejo nada: sou transparente. O mundo passa por mim e não o vejo. Fica uma consolação: ele tão pouco me vê.

25.7.21

I'm lucky, I can walk under ladders

O cansaço é um veneno e dormir o seu antídoto. Durmo o veneno todo destes útimos dias, a frustração de ver expectativas furadas, a expectativa dos dias felizes que me esperam e que tão ansiosamente espero. Durmo isso tudo, as palavras acumulam-se, zangam-se comigo, viram-me as costas. Bebo um copo do vinho comprado no monhé da esquina, uma Shiraz com cinquenta metros de aspas de cada lado. «Quero um vinho que custe no máximo cinco euros», disse ao senhor da loja. Apresentou-me dois. Do outro tinha a certeza de ser vinagre adocicado; escolhi este: a Shiraz sempre faz melhor vinagre do que a tempranillo ou coisa que o valha. Penso na sorte que tenho: «posso passar por baixo das escadas, não preciso de pulseiras, não tenho coelhos» (Joan Armatrading, I'm lucky, para quem quiser ouvir). Verdade seja dita: por vezes cai-me a escada, o pintor e o balde de tinta em cima. Mas isso é só às vezes. Nas outras, vou ao monhé comprar vinho a cinco euros a garrafa (ele deve comprá-lo a cinquenta cêntimos a caixa), venho para casa ouvir música, deixo de me chatear com as palavras - dissolvem-se bem em vinho, seja ele barato ou caro - confirmo que a maioria da música moderna me maça, por boa que seja, troco o Knopfler pelo Clapton - You're wonderful tonight nunca me maçará -  penso que que já me embebedei várias vezes no Basil's onde o Clapton tocou... Isto não é pensar, é divagar. Perco-me na política nacional, peço uma vez mais que me tirem o chip  português da mente, penso na sorte que é andar no mar e não ter de ouvir estas coisas, acabo por me refugiar na Hidegarde. O eterno é o melhor antídoto para tudo. E o mar, claro, que é a sua forma líquida. 

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Amanhã o P. espera-me cedo. Tenho quem me espere e tenho a quem esperar: I'm lucky, I can walk under ladders

(In memoriam L. M., que nem na morte teve sorte.

24.7.21

Medo e gorjeta

Hoje, pela primeira vez, dei gorjeta a um taxista que me impôs a máscara «e tapar o nariz». Estava demasiado cansado para discutir (e farto, também) e em vez de descer do táxi resolvi perguntar-lhe se me impunha a máscara por medo da multa se por medo do bicho. Deste último, claro. Daqui iniciou-se uma conversa amena, cordial, pacata. O senhor tem um irmão que esteve nos cuidados intensivos e tem medo, ponto. Perguntei-lhe se o irmão usava máscara, disse-me que sim, mas visivelmente o tom era de quem nunca tinha pensado nisso. Sim, o irmão usava máscara, mesmo assim apanhou o vírus e foi parar a uma UCI. Expliquei-lhe que o vírus é demasiado contagioso para ser parado por uma máscara, etc. mas o homem não se demovia. Já quase no fim da corrida disse-me «Sabe? Se o governo amanhã me disser para eu andar a pé-coxinho na rua, eu ando. E V. vai dizer "Olha aquele tonto na rua a pé-coxinho" e eu vou continuar a andar assim, porque tenho medo.»

Se isto não vale uma gorja não sei o que a vale.

Espera

Espera. Deixa-me dizer-te a verdade. Preciso de falar contigo. Preciso se ouvir-te, de me ouvir quando te falo. Não tenho nada de importante a dizer-te, nota. Só: amo-te, quero-te ao meu lado, amo-te (outra vez). Sou um homem simples. Amar e ser amado chegam-me. Espera.

18.7.21

Diário de Bordos - Barcelona, Catalunha, Espanha, 18-07-2021

Fiquei hoje a saber que integro o clube restrito dos que têm um familiar próximo doente com Covid. Insisto no doente, apesar de ter duas versões diferentes: a do jovem enfermo e a da sua mãe. Divergem nos pormenores, claro: na intensidade, nas expectativas. Estou aborrecido mas não preocupado. Não gosto de ver ninguém sofrer e menos ainda se esse alguém for o meu filho. Não estou, contudo, preocupado: o rapaz é forte, sensato, não se deixa arrastar por alarmices. Vai sofrer, como eu sofri em Fevereiro do ano passado e como milhões de pessoas por esse mundo fora sofreram. Umas mais, outras menos. Espero que ele faça parte deste segundo grupo e aqui declaro, já e sem qualquer espécie de contenção, o meu amor por ele.

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Pouco a pouco, o M. toma forma de barco. Se não é a primeira é uma das primeiras vezes que trabalho num barco novo. Estou encantado com o armador (e proprietário). Pode ser que esteja enganado, mas parece-me que vou passar um Verão magnífico. Obrigado ao J. V., que me passou o contacto.

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Estou em Barcelona e desta vez sim, estou de passagem. Apercebo-me de que a diferença é que desta vez estou embarcado e com muito trabalho a bordo: saio para comer e para fazer compras para o bote. O barco é novo e o armador tem confiança em mim: vou imprimir-lhe a minha marca. Há qualquer coisa de biológico nisto, não há? Há, mas provavelmente seria mais correcto dizer «qualquer coisa de animal.»

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Para quem vem de Palma, os catalães parecem adoráveis. Há muito que tinha perdido o hábito de ser recebido com verdadeira simpatia em todo o lado, apesar da resistência à máscara. Só muito raramente me chamam a atenção, à qual chamada respondo cortesmente e na maioria dos casos continuando de cara descoberta, para que todos vejam a maravilha do meu sorriso. Além disso, temos comido optimamente nesta Barceloneta da qual praticamente não saio e que tão mal conhecia.

Devia fazer uma lista de restaurantes, mas de momento os únicos que tenho em mente são o El Xiringo e a Bodega de San Fermin. Há mais: duas refeições por dia sem repetir - no caso do El Xiringo, involuntariamente: é preciso reservar - facilitam a descoberta de waterholes

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Nós cépticos temos um enorme esforço de comunicação pela proa: explicar às pessoas que esta desgraça não é consequência do vírus mas sim da resposta ao vírus.

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O armador é uma simpatia, mas a distância entre mim e os não-marinheiros que andam de barco aumenta em vez de diminuir. Hoje pensei - para atenuar a coisa - que no fundo eles estão no mar como eu em Barcelona: de passagem. A questão é saber se devo dizer «Barcelona» ou «terra». Penso que é «Barcelona», se bem seja impossível distinguir entre «penso» e «espero». É sempre, por mais que se diga.

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É preciso partilhar o saber. Que ninguém é uma ilha todos sabemos; que essa ausência de insularidade se estende ao saber é menos assumido. 

(Este deve ser o único post em que alguém me vê defender especialistas. Refiro-me aos especialistas que sabem e não aos que vendem. E refiro-me ao saber útil, não ao que só causa desgraça e miséria.

Eu explico: um monte de sistemas a bordo não funciona. E., o arrais e por vezes G., o proprietário, agitam-se como espermatozóides na Claudia Schiffer para pôr aquilo tudo a funcionar. Explico-lhes que amanhã teremos o técnico a bordo e que a agitação deles é tão inútil como a do dito coiso: a Claudia de certeza tomou a pílula. Lembro constantemente a E. a história do «chinês» (entre aspas porque o homem é tudo menos chinês): E. comprou uma carta SIM para o telefone e tentou pô-la no aparelho. Perdeu meia hora a tentar e não conseguiu. Tentei cinco minutos e falhei. Levámos aquilo ao «chinês»: levou cerca de trinta segundos.)

É preciso partilhar o saber: deve ser daí que vem a minha irreprimível propensão pedagógica.

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A moda feminina - pelo menos nas camadas mais jovens da população - encoraja as jovens a andar vestidas na cidade como se estivessem na praia. Oponho-me frontalmente a tal prática (embora não tão frontalmente quanto desejaria): a cidade é cidade e a praia praia, por muito perto que estejam uma da outra.

Bem sei que ando a reclamar contra as modas há cerca de quarenta anos, mas isso não invalida nada. Talvez mesmo antes pelo contrário: como diz o C., tudo vai de mal a pior e nada confirma tanto essa opinião como a moda. (Verdade seja dita: nem eu ligo às minhas reclamações).

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Na Flórida percebi pela primeira vez (e última: ficou marcado) que o meu país é o Mediterrâneo; agora em Barcelona confirmo que o Mediterrâneo dos EUA é San Francisco, como me ocorreu logo da primeira vez que lá fui. Não é a Flórida. E se alguém me perguntar onde eu vejo verdadeiramente fusão entre o sul e o norte da América: em Porto Rico, onde agora gostaria de beber uma piña colada no bar Barranchino. Tão pouco me importaria de estar no Soggy Dollar Bar, em Jost van Dyke, a beber painkillers. Ou no bar em St. Johns onde conheci o dark and stormy, o nome escapa-me mas não o sítio. Escrever dá sede, não dá? Sede planetária, quero dizer. Sede global. Amo-te, mundo.

(Ou será antes: bebo-te, mundo? Vivo-te, mundo. Como-te e bebo-te e vivo-te até ao fundo, mundo?)