25.10.20

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 24-10-2020

Já aqui falei várias vezes da rouille de calamars e até já deixei uma receita.  A de hoje ficou perfeita no mais difícil (equilibrar o sabor do alho e das outras especiarias) e imperfeita no molho, ligeiramente líquido de mais. Ninguém notou, excepto eu. Vale que éramos só dois. Já a açorda alentejana ficou melhor, apesar de o pão ser genebrino e não alentejano. Fi-la pilando os coentros e o alho, como fazia a minha avó Carlota, que era de Estremoz e para além de cozinhar bem fazia uma excelente ginginha (pelo menos creio. Não tenho a certeza. Já lá vão mais de cinquenta anos). Pilava aquilo (coentros a que tinha retirado os caules, alho, um bocadinho de azeite, sal) e pensava que a porcaria das máquinas estragou tudo. Dão-nos tempo e tiram-nos o gosto, o prazer de mexer na comida com as mãos, o olfacto e os olhos. A comparação é velha, eu sei, mas não está gasta: fazer amor só é melhor do que cozinhar porque a comida não fala (bom, reconheço que haverá mais meia dúzia de terminações nervosas envolvidas, mas isto é uma litote e que se lixem as terminações). As lulas e a açorda estavam felizes e quem as comeu também e as analogias páram aqui.

A parte líquida da coisa tão pouco deixou a perder: absinto Artemisia antes, Dôle Blanche durante e rum Damoiseau depois. A bebida está para a comida como a inteligência para o amor: pode fazer-se sem, mas com é melhor. (Hà uma diferença: a inteligência nunca é de mais.)

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Depois das compras hebdomadárias fomos passear ao campo. Foi um passeio curto, local. Amanhã vamos ao Jura vizinho. Antigamente, o passeio semanal era ao domingo. Escolhíamos o destino alternadamente. O meu era sempre o mesmo: a beira lago. As crianças detestavam, mas eu não me deixava impressionar porque também detestavam o campo e uma vez fora de casa gostavam de tudo o que viam. Hoje escolheria estes campos limpos, arrumados, lisos. Estávamos no fim do dia e a Lua já estava bem visível. Quarto crescente muito claro, límpido. O campo em Genebra está em Genebra, ou quase. Não há arrabaldes nem longas estradas cheias de fábricas e de casas horríveis antes de lá chegar. Genebra é uma vasta planície entalada entre os Alpes e o Jura e víamos os dois. Ao longe, o Monte Branco, mais perto o Salève, no meio nós esta lisura monocromática que a cadela percorria aos saltos e a galope, atrás de hipotéticos ratos. As propriedades não têm muros, pode-se atravessá-las a pé, a cavalo, de bicicleta. Não há barulho e a Lua diz-nos que amanhã estará maior, mais tarde menor e pode substituir-se um e outro por melhor e pior que o resultado é o mesmo: hoje estamos bem, amanhã pior, depois de amanhã melhor e por aí fora, sem fim. Mudam as marés, nós não. 

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Mesmo não estando de acordo com o que se passa na Suíça em relação ao vírus, é difícil não apreciar a diferença de atitude com Portugal, Espanha e França. As televisões apresentam sistematicamente os dois lados da questão, mesmo estando claramente enviesadas para a narrativa oficial. Mediática também, é preciso dizê-lo: esta narrativa é dos media antes de ser dos governos. São eles que nos dirigem, no fundo. Histeria mediático-facebookiana e os governos são obrigados a reagir. Será possível retirar um bocadinho de poder ao quarto poder? Só ensinando as pessoas a ler e a ouvir, mas isso é complicado porque elas pensam que já sabem.

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