1.12.20

O que devia ser

Para além da criação / dilapidação de riqueza, há outro misterioso mecanismo no mundo. É difícil de compreender e portanto mais ainda de explicar. Criação de amor. Dilapidação de amor. Criação de beleza. De emoções. Um mecanismo que tornasse os sentimentos visíveis, palpáveis, distribuíveis. Outro que recuperasse os restos todos, os cacos que fomos deixando para trás e os transformasse numa máquina tão bem estudada como a riqueza e respectivos ciclos. Pegasse nos bocadinhos de amor que nos pendem da alma, nos silêncios bicudos e os arredondasse, nos gestos que um dia suspendemos a meio e nos permitisse acabá-los. 

Devia haver bancos, sociedades de capital de risco, empresas de factoring, investimentos, seguros, bolsas - de amor. Acções, obrigações - de ternura, tudo isto colado com afecto, com carinho, com meiguice. A doçura devia ser a língua franca. Falas doçura? Sim, mas a minha língua materna é a ternura. Que sorte! A minha é o amor. Eu prefiro a delicadeza. Já falei carícias, mas com a falta de prática esqueci quase tudo. Eu aprendi carinho logo em miúdo, a minha mãe queria que todos nós o percebêssemos. A minha também, mas o meu pai era mais sorrisos.

A torre Eiffel devia ser o A de Amo-te e o resto o mundo.

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