22.12.21

Diário de Bordos - Ponta Delgada, Açores, Portugal, 21-12-2021

Estas casas pequenas, baixinhas, parece que encolheram com a chuva ou que foram esmagadas pelo «capacete açoreano». À noite as ruas estão iluminadas pelas decorações de Natal, bem bonitas. E desertas, frias, ventosas. Tenho de inventar uma escala de Beaufort para o chapéu. Será simples porque só terá três forças. Zero: posso usar o chapéu à vontade e sem quaisquer restrições; um: tenho de o enterrar bem enterrado na cabeça e estar atento; dois: devo levá-lo na mão. Hoje oscilou entre força um e dois.

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Passeio-me por estas ruas como se nunca cá tivesse vivido. De repente a moeda cai e apercebo-me de que nunca vivi nesta cidade. Vivi no seu porto, o que é bem diferente.

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A grande vantagem da velhice é ter um fim; a sua grande desvantagem - pelo menos actualmente - é que esse fim está cada vez mais longe. A medicina moderna equivocou-se completamente. Mais do que quantos anos viveremos importa como os viveremos. A qualidade antes da quantidade. 

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Todos nós chegamos a um ponto em que descobrimos que nos enganámos. Os que têm mais sorte ou mas perspicácia são mesmo capazes de definir onde, quando, como e porque isso aconteceu. Ou melhor: os ondes, quandos, comos e porquês - são sempre muitos, não são? Infelizmente esse ponto (esses pontos) chegam sempre tarde de mais. Temos de viver não só com, mas no erro, como se este fosse uma piscina na qual nadamos, pela última vez, os cem metros livres. Como se fôssemos mais uma encarnação desse erros ou desses erros. Não somos. Sim, somos. A vida é como as regatas oceânicas, que são ganhas não pelo melhor mas por aquele que comete menos erros. Ao fim de muitas regatas, o melhor e o que cometeu menos erros são o mesmo, é certo, mas o padrão é sempre o erro. O padrão contra o qual vais aferir a tua vida é o erro, meu caro, a quantidade e qualidade deles. (O problema sendo que regatas há muitas e vidas há só uma, mas isso faz parte da piscina.)

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Não reconheço o Café Central: foi «modernizado». A Igreja Matriz tem outra iluminação, a praça mudou. Tudo isto com um tempo abominável. Espero que a porra da frente passe depressa. E com ela o tempo.

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O arquipélago - enfim, pelo menos a cidade, ignoro o que se passa nas outras ilhas - tem três jornais quotidianos. É notável. Têm todos as mesmas notícias e Mota Amaral publica nos três (não sei se o mesmo texto). Igualmente em todos eles os comerciantes queixam-se do fecho de ruas ao trânsito automóvel em vésperas de Natal. Neste ponto têm razão. 

Pergunto-me se uma viagem aos Açores é, como era antigamente, uma viagem no tempo. Creio que sim. Espero que sim. 

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(Vivemos todos neste cruzamento, não vivemos? Onde os verbos esperar e crer se cruzam. Talvez não todos, mas pelo menos aqueles de entre nós que têm essa sorte.)

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