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Diário de Bordos - Vilarelho, Caminha Alto Minho, Portugal, 05-03-2026

Sou um rapazinho lento. Sempre fui. Já em Lourenço Marques era sempre o último a desaparelhar o meu Vaurien, ADN de seu nome. Não tinha muita pressa nem de me juntar aos outros nem de ir para casa. Talvez por isso compreendo tão mal a pressa dos meus compatriotas. Sempre apressados, sempre a correr - pelo menos em algumas coisas: no trânsito, no restaurante... Não sei no resto. Ou por outra: sei em alguma parte do resto: chegam sempre atrasados e ao trabalho aplicam aquela velha máxima "O trabalho é para o preto". A tal ponto que quando recebo uma resposta rápida de um organismo público pergunto-me o que terei feito mal. Enfim, antes assim. Seja como for, não é por causa do ritmo de trabalho dos nossos manda-chuvas que me ocorreram os dias de vela em LM. É por causa de um cantor chamado Bonnie Prince Billy, que agora começo a descobrir. Tenho o disco em casa. Isto é, tenho o disco e tenho uma casa. Durante muitos anos faltaram-me ou um ou os dois, alternada ou simultaneamente. Sugiro Music for Seafarers, um CD que comprei por causa do título e agora oiço frequentemente por causa da música. Outro disco dele chama-se Black / Rich Music. A lentidão tem vantagens e ouvir esta música agora - isto é, só agora - é uma delas. 

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O vinho tinto da Casa Agrícola Rebelo Afonso, sita na região do Douro, ano 2024, 13,5º, uvas pisadas a pé em lagares tradicionais de granito e uvas de novas parcelas (...) representa a tradição desta casa (a casa Rebelo Afonso, claro). Não ponho aspas mas tudo é copiado do rótulo. 

Além de representar a tradição, etc. é um vinho bastante recomendável. Talvez um bocadinho mais de força no ataque, deixando o fim de boca como está? Não sei. Sei que a pouco menos de sete euros cada mililitro vale cada cêntimo.

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Às vezes parece-me que querer viver em terra é como querer voltar a entrar no ventre materno.

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Ontem acordei bi-avô e adormeci tri-avô. Para a semana vou conhecer a jovem recem-chegada, Olívia de seu nome. Fui o último dos meus amigos próximos a ser avô. A lentidão tem vantagens aonde menos se as esperam.

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Caminha

Às dez da noite peguei na burra e vim a Caminha. Cheguei às dez e quinze. Na rua Direita não havia um único bar aberto. Um. Unzinho.

No trajecto vinha a pensar numa velha boutade de há uns anos em Lisboa: sexta-feira é para amadores. A noite dos profissionais é a de quinta. Em Caminha não há profissionais?

Resultado: acabo no Mio, a quem ensinei a fazer Irish Coffee ("juro, palavra de honra, vou morrer aqui", o rapaz não sabia o que é um café irlandês).

Por estas e por outras a intoxicação por excesso de clorofila é tão perigosa. Nada como um pouco de poluição urbana. E ainda há quem queira acabar com ad emissões de dióxido de carbono.

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Em defesa da honra de Caminha: o Mio fecha às dez e meia mas o Diner não só está aberto mas também o senhor sabe o que a mistura de café, Jameson e (infelizmente) chantilly. Esperar natas batidas seria como pensar que a Madre Teresa de Calcutá (em jovem) entrou em filmes pornográficos. A hipótese é entusiasmante mas demasiado perto do delírio para ser levada a sério. (Nota: o Diner fecha às onze.)

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Sabem aquelas comichões inconvenientes que não nos largam e às quais por vezes cedemos sem nesmo nos apercebermos? Hoje isso aconteceu-me com a vontade de escrever qualquer coisa à mão com uma caneta de tinta permanente (a Sheaffer, se por acaso, porque foi a última a juntar-se ao rebanho). Infelizmente não tinha nem caneta nem bloco-notas e tive de viver com a dita comichão até agora. 

Estou no Diner, o senhor é encantador e apagou uma das duas músicas que tocavam simultaneamente (apagou o rap) e se não tenho a Sheaffer tenho a Parker e é essa que agora uso. Caminha tem méritos. Basta não ter pressa.

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