29.3.26

Diário de Bordos - Vilarelho, Caminha, Alto Minho, 29-03-2026

«Não magoes o alho!» Penso nesta injunção cada vez que cozinho, use ou não o que o bacalhau quer. A história foi-me contada pelo E. K., que conheci em Palma e é daquelas pessoas de quem lamento ter deixado a geografia separar-nos. O rapaz trabalhava em Bali num restaurante e a dona, uma senhora local já com uma certa idade (vendo a história ao preço a que o E. ma contou, ao qual acrescem as tarifas da memória)  viu-o e gritou «Não magoes o alho!» Não tenho mais pormenores: não sei como é que o E. estava a magoar aquilo nem como se é suposto fazê-lo para o evitar. Eu adaptei à minha maneira e tento tratar o alho o mais suavemente possível. Como de resto tudo o que me rodeia: «não magoes», digo a mim mesmo, sabendo que bastas vezes falho e que algumas dessas vezes o faço propositadamente porque não sou um santo (sou muitos mas só no apelido).

De maneira hoje não magoei o alho que pus na açorda que fiz para dar cabo do resto do pão, continuo a detestar deitar comida fora (mas ainda ainda não aprendi a fazer comida só para uma pessoa, o meu congelador todos os dias me diz que o estou a magoar de tanto o empanturrar e hoje tive de tirar a sopa do B., não gosto daquilo mas ele dá-me um monte dela constantemente e eu não sou capaz de deitar fora). Uma vida cheia de arrelias, como se pode ver. Mitigo-as, é certo: vinho da Quinta dos Termos, que se houver um céu para produtores de vinho e se nele houver justiça tem lá lugar reservado, à direita de Deus-Pai-dos-Vinhos. A música desceu um bocadinho na qualidade: passou dos Magnetic Fields para os Pink Floyd e este disco deles é uma merda, diga-se de passagem mas não tarde acaba e de qualquer forma vou ter de me levantar para reencher o copo, maldito frio, que não pára, maldito copo.

Ou seja: assim se faz  um domingo ou pelo menos a primeira parte dele: acho uma idiotice a mudança da hora mas esta da Primavera tem pelo menos a vantagem de me encurtar as manhãs, coisa que às vezes me apetece muito e outras nada. 

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Encontrei a minha prima A. S. D. no solar do Moinho de Vento, no Porto. Isto nada teria de extraordinário - O Solar é um dos meus restaurantes favoritos no Porto - se não estivesse concatenado numa cadeia de acasos que é demasiado longa para desencadear aqui. Basta dizer que gostei muito de a ver e gostaria que o próximo encontro fosse daqui a menos de vinte anos.

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Batalha em curso: fazer-me aceitar pela terra (terra em sentido lato. Talvez a devesse grafar em caixa alta, mas aí aparecer-me-iam os adoradores de Gaia e outras tretas. Fica terra no sentido em que os marinheiros lhe dão: vou à terra, estejam em que porto estiverem. Vou à terra. É bonito. Não dizem «vou a terra.» Dizem «Vou à terra», como se fosse a única ou a última ou como se fossem todas iguais, a terra de onde eles vêm e esta aonde agora estão.)

Vá lá. Tenho a Hildegarde a cantar para mim. Só me falta a segunda sinfonia de Mahler. Sou contra a pena de morte salvo algumas excepções. Uma dessas é para quem rouba CD. Outra bem merecida é para quem põe vírgulas entre o sujeito e o predicado de uma frase. Quem usa «colocar» em vez de «pôr» também deve ser incluído no grupo. Hifenizar verbos de uma forma errónea era um dos pilares dessas excepções até que recentemente vi uma senhora por quem nutro a maior das admirações incorrer nessa desgraça (admiração intelectual, preciso; estética também, mas como nunca a vi pessoalmente e devo basear-me nas imagens do FB esta componente da minha admiração é reduzida). Foi imediatamente despromovida (a desgraça, não a senhora. Agora merece um simples suspiro de desalento). 

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