F., de quem já aqui falámos há várias meias dúzias de meias dúzias de anos, apercebeu-se um dia de que a sua vida era feita de muitos e de nadas, sem nada no meio. Ele cambaleava entre uns e outros e a esses ziguezagues chamava vida. Sendo a pessoa organizada que era e familiarizado com as coisas do mar um dia resolveu que os muitos lhe ficavam por bombordo e os nadas por estibordo. Questão de mnemónica, claro. Poderia ter sido so contrário. O que é muito é bom, pensou nesse dia. Não precisou de muito mais do que uma dúzia de cambaleios para descobrir que o raciocínio era falacioso mas decidiu mantê-lo, por inércia e preguiça. "São coisas diferentes", pensou, porque era dado à introspecção. A que dava o nome, quiçá errado, de "hermenêutica da vida quotidiana" (aspas porque o cito, apesar de saber que ele, sendo tímido e reservado, detestava ser mencionado). E assim vivia, de braço dado com a vida, apoiado em raciocínios falazes. Trocava de braço, contudo: quando guinava para bombordo apoiava-se no braço esquerdo e no direito quando a vida o levava para o outro bordo.
"Porém, entre o muito e o nada alguma coisa há-de existir, porque se não flutuo no vazio. No espaço. Ora isso não é possível. Não faço parte da banda Spiritualized... e que fizesse. Aquilo é uma canção: Ladies and gentlemen, we are floating in space. Não passa de um conjunto de sons. Cm nomes diferentes, é certo: palavras e notas musicais. Nada mais do que isso. Ar a passar através de cordas vocais e de cabos eléctricos. Uma vida não é feita de ar. Mas entre muitos e nadas que tenho eu?"
O dlema, percebe-se facilmente, é difícil: se houver muitos nadas a vida de F. é feita de muitos e de nadas, mas se houver poucos é feita de muitos nadas. F. resolve arquivar a questão no armário "Insónias", o qual, diga-se de passagem, está bastante cheio. É um armário que só se abre à noite. O processo é sempre igual: F. está cheio de sono, vai para a cama, apaga a luz e o sono desaparece. As sinapses quedurante o dia não registaram qualquer passagem de neurotransmissores transformam-se em barragens a descarregar excesso de água. O armário "Insónias" abre as portas, incapazes de conter o jorro. Hoje, num desses comboios descontrolados aoareceu a banda Spiritualized, como supra se viu. De Floating in space F. vai para a estranha origem desta inicial. O seu nome de baptismo é Fulano de tal, verbatim, apesar da forte oposição da mãe, da funcionária da Conservatória do Registo Civil, do padre que o baptizou e dos padrinhos. Abreviou o nome para a inicial desde que aprendeu o seu significado. Por isso, aliás, é tímido e reservado. Na escola... ah, na escola. F. evita pensar na escola e pára a música que ouve no telefone. Detesta ouvir música nesse aparelho mas à noite na cama não se levanta para pôr o disco, que de qualquer forma não tem, perdido num dos milhares de zigues ou zagues que passaram desde que o comprou, já lá vão alguns decénios. Daqui passa para magno problema da meia-vida da betahistina, que é de três horas e meia. Bom, isfo é estranho.
Cont.
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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.