Acreditar que trocar os automóveis de combustão por veículos eléctricos, cobrir os cumes dos montes com eólicas e os campos com painéis solares vai fazer o clima parar de mudar é uma tonteria equivalente a pensar que um dia um senhora deu à luz sendo virgem e depois andou a alpendurar-se em árvores para ser vista por pastorinhos (em Portugal. Em França foi pela filha de um moleiro numa gruta). Ou que um senhor crucificado e enterrado ressuscitou ao fim de três dias, depois de ter transformado água em vinho, andado num lago pela superfície da água ou multiplicado pães num casamento. Pode acreditar-se nessas coisas todas. Não deve é pensar-se que são reais. Que são factos.
Não discuto a fé religiosa. Desde que não voltem a obrigar-me a ir à missa e a lá comer rodelas de trigo ou beber "vinho" (entre aspas porque era pouco e mau), a Igreja católica traz-me mais benefícios do que chatices. Refiro-me à arte sacra, seja ela música, pintura, escultura, arquitectura e por aí fora. Até as belíssimas procissões de Maiorca me encantam e me fascinam. E a igreja não fez só mal, ao longo dos seus dois mil anos. Fez muito bem, igualmente.
Os automóveis eléctricos tão pouco me aborrecem. Poder acreditar em disparates e exibir essa crença pelas ruas faz parte dos direitos de cada um. Os padres e respectiva hierarquia também andam vestidos bizarramente à vista de toda a gente. E têm práticas anti-naturais, como o celibato, jejuns ou ouvir as asneiras dos outros. (Já o incenso acho bem. Tem um cheiro agradável.)
Porém, eólicas nos sítios mais bonitos, painéis solares nos campos em vez de plantas, litanias sobre os puns das vacas e o constante recurso às "alterações climáticas" como causa de tudo e mais alguma coisa - desde, naturalmente, que esse tudo seja mau. Para os crentes dessa fé, nada de bom pode provir das "alterações" - já isso, dizia, me põe cada vez mais fora de mim.
A Igreja Católica acabou por proibir a venda de indulgências. Será que a igreja das alterações climáticas do terceiro dia terá a mesma sabedoria e acabará com as tolices que a sua fé impõe mesmo aos não-crentes, também conhecidos por negacionistas ou climato-cépticos? Pejorativamente, claro, como se a verdade não fosse filha do cepticismo e da negação.
Atribuir as aparições de Fátima ãs sopas de cavalo cansado que se dava aos miúdos antes de irem para a escola talvez as explique e tem graça. Não sei. Mas dilapidar o erário público em ventoinhas fechando os olhos à Razão, ao bom senso, à estética e à História - isso sim, não tem graça nenhuma.
Toujours polemique, tres bien ecrit, toma la um abraço meu herege negacionista e saudinha da boa
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