13.2.14
Amizades
O mais difícil na amizade entre homens e mulheres é ser preciso que estas se transformem em homens de vez em quando, e nós em mulheres. Não é fácil.
(Para a MJPC, a mais feminina de todos os meus amigos).
(Para a MJPC, a mais feminina de todos os meus amigos).
12.2.14
Wittgenstein e eu
Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo.
O que se pode dizer pode ser dito claramente; e aquilo de que não se pode falar deve ser silenciado.
Os limites do meu amor são os limites da linguagem.
Talvez seja altura de voltar a ler o Tratado, história de saber se o mundo, as palavras e o amor são intercambiáveis.
O que se pode dizer pode ser dito claramente; e aquilo de que não se pode falar deve ser silenciado.
Os limites do meu amor são os limites da linguagem.
Talvez seja altura de voltar a ler o Tratado, história de saber se o mundo, as palavras e o amor são intercambiáveis.
11.2.14
Diário de Bordos - Cartagena de Indias, Colômbia, 11-02-2014
Por onde começar - pelo princípio, pelo meio, pelo fim? Nada tem fim; e o princípio há que que procurá-lo muito bem, não é fácil de encontrar. Nada começa; e nada acaba verdadeiramente: um amor que se transforma em amizade, em desprezo ou em esquecimento; uma viagem da qual recordamos cada momento; uma esperança que se confirma ou, ao contrário, que não se realiza: como dizer que acabaram? Quando?
Cheguei hoje a Cartagena das Indias; estou numa livraria / café a ouvir excelente música, beber excelente rum e a pensar que essa é a melhor combinação do mundo - boa música numa boa livraria numa cidade encantadora com uma boa bebida. Podia ser Lisboa, a Ler Devagar e um bom vinho, não é?
Sim. Mas a versão local da Ler Devagar chama-se Ábaco, é aproximadamante cinquenta vezes mais pequena e quase tão bonita.
Quase.
........
Em Cartagena as pessoas sabem combinar dignidade com simpatia. Na Isla San Andrés, o outro lugar da Colômbia onde estive, também. É pouco para generalizar, mas talvez seja uma característica colombiana. Tão diferente do Panamá, habitado por um bando de palhaços façanhudos e antipáticos.
O meu amor por Cartagena não começou hoje; começou ainda eu não conhecia a cidade, ainda nada sabia dela. Nada começa, apenas continua.
.........
O objectivo da viagem era conhecer o HELENA S., saber como se porta no mar e ver o que se partiria.
Seria dramático dizer que algumas coisas não se partiram. Foram poucas. Mas mesmo assim mais do que o que se avariou: vela grande rasgada no punho da escota, correia do piloto automático partida, painel do motor de estibordo estralhaçado, layy jack de estibordo rebentado; e água. Água. Os albóis fechados metem água como se estivessem abertos, como um campo seco acolhe a chuva, como se algum deus maldoso quisesse transformar a velha piada "o apartamento é pequeno, mas a piscina grande" em "o apartamento é pequeno, mas tem uma piscina enorme lá dentro".
Mas o barco é sublime. Sublime. É rápido (até a grande rebentar fizemos uma média de oito nós - ceci n'expliquant que partiellement cela-), sensível ao leme, passa maravilhosamente na vaga - se bem lhe falte um pouco de volume nas proas -; uma espécie de puro sangue disfarçado de mendigo, à espera de um sapo que o transforme.
........
Não há sítio melhor para um gajo se engrossar do que uma livraria: o frenesim dos bares transforma uma grossura séria e compenetrada numa vulgar bebedeira.
........
"A noite antes da largada foi horrível. Estava apreensivo, não sabia como iria o HELENA S. portar-se nno mar, e a tripulação e os passageiros nele.
Tinha razões para estar apreensivo, claro: dizer que o barco precisa de um refit é um doce eufemismo; custa-me receber dinheiro para transportar pessoas em barcos que não estão em condições; e, finalmente, tenho uma tripulação nova.
Algumas dessas razões confirmaram-se: apanhámos algum vento logo à largada e em menos de nada tinha quatro polegadas de água nos fundos dos camarotes de vante (as escotilhas das casa de banho precisam de juntas novas, já); o quadro eléctrico fez das suas (é preciso refazer todo o sistema eléctrico deste barco, já); e, por fim mas não por último, tinha muito pouco dinheiro, pois deixei a maior parte do que fiz com a viagem a A.
Comecemos pelo fim: os meus cálculos dolorosos, esticados pelos cabelos, jogados pela cintura revelaram-se correctos e houve dinheiro para as formalidades e para as compras (fica aqui um agradecimento e os parabéns à Danielle, a jovem stew, que fez milagres com o orçamento que lhe dei).
O quadro eléctrico deve ter-se assustado com as pragas que silenciosamente lhe roguei e deixou de ageniar (batro três vezes na madeira).
Quanto à tripulação: creio que finalmente encontrei aquilo de que o HELENA S. precisa: um jovem casal mas com uma experiência notável, absolutamente desproporcional à idade (dele, ela é mais velha), bem educados, vivos, sorridentes, “leves”. E, cereja no topo do bolo, Luka sabe o que é um Kelsall: os pais têm um. E partilha o meu amor – quem não? - por estes barcos simples, bonitos, rápidos. Em Isla Grande, onde fundeámos, estava o primeiro Kelsall construído – é de 1964 e é lindo, elegante, sem idade –.
Porque lá na rapidez tenho provas: dez onze nós regularmente e por longos períodos, média final do primeiro dia oito (enfim, de parte do primeiro dia). Claro que o barco molha um bocado – as proas não perdiam nada em ser um bocadinho elevadas – e faz um barulho digno dos barcos de regata de que descende. Mas que prazer é navegar isto, que lindo, que sorte, que bênção.
Claro que num squall um bocadinho mais forte não rizei a tempo e a grande rasgou-se no punho da escota. Agora vamos de primeiro rizo, para ver se aprendo a ter juízo.
Mas vamos a fazer seis nós, e mesmo descontando a corrente é honorável.
(Apetece-me encher-me de bofetadas, arrancar-me os cabelos e dar-me muros nos tomates.)"
........
Não há princípios nem fins: estamos sempre no meio de qualquer coisa, num continuum sem partidas nem chegadas; ou melhor, do qual as partidas são chegadas e estas o início de uma nova viagem, de um novo ciclo. O que hoje parece começar começou na realidade há muito tempo; e o que parece acabar acabou com certeza muito antes de começar. Por isso o desespero não dura, e esperança não acaba.
........
Cheguei hoje pela primeira vez a Cartagena, mas na verdade vivo aqui. Tal como nunca deixo Lisboa, Bequia ou o mar: geografias e tempos que se misturam como bolas nas mãos de um malabarista amáavel e todo-poderoso, como o vento se mistura com a luz, como o passado se mistura com o presente e o futuro.
Cheguei hoje a Cartagena das Indias; estou numa livraria / café a ouvir excelente música, beber excelente rum e a pensar que essa é a melhor combinação do mundo - boa música numa boa livraria numa cidade encantadora com uma boa bebida. Podia ser Lisboa, a Ler Devagar e um bom vinho, não é?
Sim. Mas a versão local da Ler Devagar chama-se Ábaco, é aproximadamante cinquenta vezes mais pequena e quase tão bonita.
Quase.
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Em Cartagena as pessoas sabem combinar dignidade com simpatia. Na Isla San Andrés, o outro lugar da Colômbia onde estive, também. É pouco para generalizar, mas talvez seja uma característica colombiana. Tão diferente do Panamá, habitado por um bando de palhaços façanhudos e antipáticos.
O meu amor por Cartagena não começou hoje; começou ainda eu não conhecia a cidade, ainda nada sabia dela. Nada começa, apenas continua.
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O objectivo da viagem era conhecer o HELENA S., saber como se porta no mar e ver o que se partiria.
Seria dramático dizer que algumas coisas não se partiram. Foram poucas. Mas mesmo assim mais do que o que se avariou: vela grande rasgada no punho da escota, correia do piloto automático partida, painel do motor de estibordo estralhaçado, layy jack de estibordo rebentado; e água. Água. Os albóis fechados metem água como se estivessem abertos, como um campo seco acolhe a chuva, como se algum deus maldoso quisesse transformar a velha piada "o apartamento é pequeno, mas a piscina grande" em "o apartamento é pequeno, mas tem uma piscina enorme lá dentro".
Mas o barco é sublime. Sublime. É rápido (até a grande rebentar fizemos uma média de oito nós - ceci n'expliquant que partiellement cela-), sensível ao leme, passa maravilhosamente na vaga - se bem lhe falte um pouco de volume nas proas -; uma espécie de puro sangue disfarçado de mendigo, à espera de um sapo que o transforme.
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Não há sítio melhor para um gajo se engrossar do que uma livraria: o frenesim dos bares transforma uma grossura séria e compenetrada numa vulgar bebedeira.
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"A noite antes da largada foi horrível. Estava apreensivo, não sabia como iria o HELENA S. portar-se nno mar, e a tripulação e os passageiros nele.
Tinha razões para estar apreensivo, claro: dizer que o barco precisa de um refit é um doce eufemismo; custa-me receber dinheiro para transportar pessoas em barcos que não estão em condições; e, finalmente, tenho uma tripulação nova.
Algumas dessas razões confirmaram-se: apanhámos algum vento logo à largada e em menos de nada tinha quatro polegadas de água nos fundos dos camarotes de vante (as escotilhas das casa de banho precisam de juntas novas, já); o quadro eléctrico fez das suas (é preciso refazer todo o sistema eléctrico deste barco, já); e, por fim mas não por último, tinha muito pouco dinheiro, pois deixei a maior parte do que fiz com a viagem a A.
Comecemos pelo fim: os meus cálculos dolorosos, esticados pelos cabelos, jogados pela cintura revelaram-se correctos e houve dinheiro para as formalidades e para as compras (fica aqui um agradecimento e os parabéns à Danielle, a jovem stew, que fez milagres com o orçamento que lhe dei).
O quadro eléctrico deve ter-se assustado com as pragas que silenciosamente lhe roguei e deixou de ageniar (batro três vezes na madeira).
Quanto à tripulação: creio que finalmente encontrei aquilo de que o HELENA S. precisa: um jovem casal mas com uma experiência notável, absolutamente desproporcional à idade (dele, ela é mais velha), bem educados, vivos, sorridentes, “leves”. E, cereja no topo do bolo, Luka sabe o que é um Kelsall: os pais têm um. E partilha o meu amor – quem não? - por estes barcos simples, bonitos, rápidos. Em Isla Grande, onde fundeámos, estava o primeiro Kelsall construído – é de 1964 e é lindo, elegante, sem idade –.
Porque lá na rapidez tenho provas: dez onze nós regularmente e por longos períodos, média final do primeiro dia oito (enfim, de parte do primeiro dia). Claro que o barco molha um bocado – as proas não perdiam nada em ser um bocadinho elevadas – e faz um barulho digno dos barcos de regata de que descende. Mas que prazer é navegar isto, que lindo, que sorte, que bênção.
Claro que num squall um bocadinho mais forte não rizei a tempo e a grande rasgou-se no punho da escota. Agora vamos de primeiro rizo, para ver se aprendo a ter juízo.
Mas vamos a fazer seis nós, e mesmo descontando a corrente é honorável.
(Apetece-me encher-me de bofetadas, arrancar-me os cabelos e dar-me muros nos tomates.)"
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Não há princípios nem fins: estamos sempre no meio de qualquer coisa, num continuum sem partidas nem chegadas; ou melhor, do qual as partidas são chegadas e estas o início de uma nova viagem, de um novo ciclo. O que hoje parece começar começou na realidade há muito tempo; e o que parece acabar acabou com certeza muito antes de começar. Por isso o desespero não dura, e esperança não acaba.
........
Cheguei hoje pela primeira vez a Cartagena, mas na verdade vivo aqui. Tal como nunca deixo Lisboa, Bequia ou o mar: geografias e tempos que se misturam como bolas nas mãos de um malabarista amáavel e todo-poderoso, como o vento se mistura com a luz, como o passado se mistura com o presente e o futuro.
4.2.14
Espanto in your mind
"What's in your mind", pergunta-me - provocatória e indiscretamente - o Facebook.
Que responder?
- Muito vinho tinto e muito rum;
- Um excelente jantar;
- Um bocadinho de raiva;
- Muita nicotina:
- Uma dose grande de serotonina, outra - não sei discriminar as percentagens - de dopamina;
- Uma porção irracional de esperança (também conhecida por certeza, em alguns meios);
- Espanto, muito espanto.
- E mais espanto: como é possível tanta beleza, tanta certeza, tanto silêncio?
Que responder?
- Muito vinho tinto e muito rum;
- Um excelente jantar;
- Um bocadinho de raiva;
- Muita nicotina:
- Uma dose grande de serotonina, outra - não sei discriminar as percentagens - de dopamina;
- Uma porção irracional de esperança (também conhecida por certeza, em alguns meios);
- Espanto, muito espanto.
- E mais espanto: como é possível tanta beleza, tanta certeza, tanto silêncio?
Línguas, horas
Ninguém devia estar afastado mais do que um fuso horário de quem quer que seja. A bíblia enganou-se: a torre de Babel devia ser horária, não linguística.
Verdades, mundo
Ter um problema com as verdades indiscutíveis é ter um problema com o mundo. Ou consigo próprio.
As coisas e eu
Aos cinquenta e seis anos um gajo devia saber lidar com certas coisas. Das duas uma: ou não tenho cinquenta e seis anos (hipótese facilmente verificável falsa) ou nunca aprenderei a lidar comigo (hipótese facilmente demonstrável verdadeira, empírica e teoricamente).
Enfim, não sei o que é melhor: não saber lidar com as coisas, ou não saber lidar comigo?
Enfim, não sei o que é melhor: não saber lidar com as coisas, ou não saber lidar comigo?
3.2.14
Super Bowl
Hoje foi noite de Super Bowl. Ou melhor, parte de noite. Não estava tão animado como o que há dois anos vi em Antigua, e faltava-me o B. para me explicar o jogo. Fiquei pouco tempo.
Mas uma coisa manteve-se: se os jogadores de futebol fossem para ali passariam o jogo inteiro deitados no terreno a contorcer-se de dores, tadinhos.
Mas uma coisa manteve-se: se os jogadores de futebol fossem para ali passariam o jogo inteiro deitados no terreno a contorcer-se de dores, tadinhos.
2.2.14
Diário de Bordos, Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 02-02-2014
Alguns pontapés no cu têm a faculdade de nos fazer avançar. Hoje recebi dois desses. Não me posso queixar. Se com um vou para a frente, com dois voo.
(Claro que também há pontapés no cu que nos paralisam, mas a esses tento não ligar. Se bem nem sempre consiga, verdade seja dita).
.........
O mês de Fevereiro vai ser um mês excitante, motivante, eléctrico, magnético, nuclear. Já tive muitos assim; são bons: a não lutar prefiro perder. E nada me dá tanto gozo como uma boa luta, um desafio franco e aberto e limpo.
É verdade que o encaro assim porque sei que a volta está dada, o comboio está a apontar para outra direcção, os nós que prendiam o HELENA S. ao cais desatados. Resta saber se tudo isso se confirma. A minha resposta é "Sim! Daqui a um mês falamos".
Daqui a um mês falamos. Melhor do que um diálogo fechado só um adiado. Sun Tzu, que percebia do assunto, dizia "nunca se deve lutar a subir". Eu nunca lutei de outra maneira. Talvez seja isso que me permite encarar as vitórias e as derrotas com a mesma distância: a de quem sabe que mais vale perder do que não tentar, e tão bom como ganhar é lutar.
........
A chuva voltou.
........
O HELENA S. parece uma senhora ferida que nenhum hospital quer aceitar por não ter seguro de saúde. É linda, e quando estiver boa vai dar-me muitas alegrias. Vale as dores de cabeça e os pontapés no cu todos do mundo.
(Claro que também há pontapés no cu que nos paralisam, mas a esses tento não ligar. Se bem nem sempre consiga, verdade seja dita).
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O mês de Fevereiro vai ser um mês excitante, motivante, eléctrico, magnético, nuclear. Já tive muitos assim; são bons: a não lutar prefiro perder. E nada me dá tanto gozo como uma boa luta, um desafio franco e aberto e limpo.
É verdade que o encaro assim porque sei que a volta está dada, o comboio está a apontar para outra direcção, os nós que prendiam o HELENA S. ao cais desatados. Resta saber se tudo isso se confirma. A minha resposta é "Sim! Daqui a um mês falamos".
Daqui a um mês falamos. Melhor do que um diálogo fechado só um adiado. Sun Tzu, que percebia do assunto, dizia "nunca se deve lutar a subir". Eu nunca lutei de outra maneira. Talvez seja isso que me permite encarar as vitórias e as derrotas com a mesma distância: a de quem sabe que mais vale perder do que não tentar, e tão bom como ganhar é lutar.
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A chuva voltou.
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O HELENA S. parece uma senhora ferida que nenhum hospital quer aceitar por não ter seguro de saúde. É linda, e quando estiver boa vai dar-me muitas alegrias. Vale as dores de cabeça e os pontapés no cu todos do mundo.
1.2.14
Vida, pessoas
A vida das pessoas é-me de maneira geral (e triste) indiferente; mas as pessoas fascinam-me. É uma contradição com a qual aprendi há muito tempo a viver.
Boa noite
De todas as bênçãos - o vento, o mar, um par de seios, um corpo que nos acolhe, uma alma que nos recebe - o sono não é talvez a melhor; mas é sem dúvida a maior, a mais frequente.
Quedas, ascensões
Esta impressão de estar na margem, no abismo, à beira de qualquer coisa nova.
Tantas vezes vivida, tantas vezes ganha, tantas vezes perdida. Sempre a primeira vez.
Tantas vezes vivida, tantas vezes ganha, tantas vezes perdida. Sempre a primeira vez.
Correntes, livros
Nunca fui de correntes, nem mesmo quando eram frequentes na então blogosfera. Mea culpa, digo desde já.
Agora pedem-me dez livros que marcaram a minha vida. O exercício é interessante. Passá-lo a dez pessoas é mais difícil. Deixo a tarefa ao Facebook.
Sem qualquer ordem:
1 - As receitas da tia Mamé (aqui sim, há uma ordem. Se houve livro - que de resto nem era bem um livro - que mudou a minha vida foi este);
2 - Sozinho à Volta do Mundo, Joshua Slocum (este não mudou bem a minha vida; só a confirmou. Parece pouco, mas não é);
3 - Zen and the Art of Motorcycle Maintenance, Robert Pirsig (gosto de viagens, de loucura, da paternidade e da qualidade. Defini-las e dar-lhes um lugar no universo é obra de génio);
4 - Por quem os Sinos Tocam, Ernest Hemingway (eles tocam por ti...);
5 - O velho e o Mar, Ernest Hemingway (somos o que perdemos, não o que ganhamos);
6 - Tortilla Flat, John Steinbeck (o humor é a mais eficaz das armas);
7 - Memórias de Adriano, Margueritte Yourcenar (todos somos inventáveis, se formos. Ou: ser é ser recriável);
8 - Waiting for Godot, Samuel Beckett ("quem sabe não espera"; mas que sabemos, se não soubermos que esperamos o que não sabemos?);
9 - Ficções, Jorge Luis Borges (Realidades seria um título igualmente apropriado);
10 - Heart of Darkness, Conrad. (Se um dia tivesse de escolher um livro, um só, seria provavelmente este. Não sei. Sei. Está lá tudo).
Adenda - falta o Mystères, de Knut Hamsun. (Pelas mesmíssimas razões do anterior...)
Agora pedem-me dez livros que marcaram a minha vida. O exercício é interessante. Passá-lo a dez pessoas é mais difícil. Deixo a tarefa ao Facebook.
Sem qualquer ordem:
1 - As receitas da tia Mamé (aqui sim, há uma ordem. Se houve livro - que de resto nem era bem um livro - que mudou a minha vida foi este);
2 - Sozinho à Volta do Mundo, Joshua Slocum (este não mudou bem a minha vida; só a confirmou. Parece pouco, mas não é);
3 - Zen and the Art of Motorcycle Maintenance, Robert Pirsig (gosto de viagens, de loucura, da paternidade e da qualidade. Defini-las e dar-lhes um lugar no universo é obra de génio);
4 - Por quem os Sinos Tocam, Ernest Hemingway (eles tocam por ti...);
5 - O velho e o Mar, Ernest Hemingway (somos o que perdemos, não o que ganhamos);
6 - Tortilla Flat, John Steinbeck (o humor é a mais eficaz das armas);
7 - Memórias de Adriano, Margueritte Yourcenar (todos somos inventáveis, se formos. Ou: ser é ser recriável);
8 - Waiting for Godot, Samuel Beckett ("quem sabe não espera"; mas que sabemos, se não soubermos que esperamos o que não sabemos?);
9 - Ficções, Jorge Luis Borges (Realidades seria um título igualmente apropriado);
10 - Heart of Darkness, Conrad. (Se um dia tivesse de escolher um livro, um só, seria provavelmente este. Não sei. Sei. Está lá tudo).
Adenda - falta o Mystères, de Knut Hamsun. (Pelas mesmíssimas razões do anterior...)
Cavanna, humor et al
Morreu Cavanna, singelamente por idade. É daquelas pessoas que nos habituamos a ter ao nosso lado, sempre. Como Wolinski, Gauthier, Bretécher, Gotlib, Wolinski ou aqueloutro que já morreu mas continua ao nosso lado, Reiser.
Não concordo com uma única das suas opiniões políticas, mas concordo com cada uma das suas piadas; o que é muito mais importante.
(A lista de nomes vai aumentando...)
Não concordo com uma única das suas opiniões políticas, mas concordo com cada uma das suas piadas; o que é muito mais importante.
(A lista de nomes vai aumentando...)
Diário de Bordos, Bocas del Toro, Panamá, 31-01-2014
Bocas del Toro é um sítio magnífico, e o meu trabalho é um trabalho magnífico. Que duas magnificências por vezes se encontrem e se acordem mutuamente é uma sorte, uma dádiva, uma bênção.
Hoje foi mais um dia daqueles que me fazem pensar que percebo quem pensa que o meu trabalho não é trabalho (e a minha vida não é vida, mas quem pensa isso são sobretudo senhoras e a opinião das senhoras sobre mim está muitas vezes, forçoso é reconhecê-lo, equivocada).
........
A ideia original era ir a Dolphin Bay. Tínhamos duas clientes e uma convidada, e nunca fui a Bahia Porras (o nome panamiano do lugar, provavelmente muito exacto). Mas estava a chover para aquelas bandas e resolvi cambar e ir a paragens mais conhecidas e soalheiras, em Cayo Solarte.
Paragens conhecidas em Bocas é uma falsa expectativa. As ilhas assemelham-se todas, as passagens entre elas não estão em carta nenhuma (hoje fiz dois tracks que passam sobre terra, bem no meio) e lá foi mais um sessão de exploração, Apocalipse Now agora, já.
Foi uma boa aposta: só choveu um bocadinho a meio da tarde.
E o HELENA S. portou-se à altura (ou à falta dela); este barco deve ter rodas nas quilhas. Ainda não sei exactamente onde está o zero da sonda, mas sei que com 0,1 pé (não é erro, a sonda está em pés) passo. Também sei, mas não por experiência própria, que com zero pés passo.
A próxima etapa é determinar o zero da sonda :-)
........
Não é altruísmo. Gosto de ver passageiros desembarcar felizes. É a única coisa que me faz pensar que aquilo que faço é trabalho. (Se pensasse que o trabalho se deve traduzir em dinheiro perderia a minha fé na semântica. Ou no trabalho, o que seria muito pior).
Hoje foi mais um dia daqueles que me fazem pensar que percebo quem pensa que o meu trabalho não é trabalho (e a minha vida não é vida, mas quem pensa isso são sobretudo senhoras e a opinião das senhoras sobre mim está muitas vezes, forçoso é reconhecê-lo, equivocada).
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A ideia original era ir a Dolphin Bay. Tínhamos duas clientes e uma convidada, e nunca fui a Bahia Porras (o nome panamiano do lugar, provavelmente muito exacto). Mas estava a chover para aquelas bandas e resolvi cambar e ir a paragens mais conhecidas e soalheiras, em Cayo Solarte.
Paragens conhecidas em Bocas é uma falsa expectativa. As ilhas assemelham-se todas, as passagens entre elas não estão em carta nenhuma (hoje fiz dois tracks que passam sobre terra, bem no meio) e lá foi mais um sessão de exploração, Apocalipse Now agora, já.
Foi uma boa aposta: só choveu um bocadinho a meio da tarde.
E o HELENA S. portou-se à altura (ou à falta dela); este barco deve ter rodas nas quilhas. Ainda não sei exactamente onde está o zero da sonda, mas sei que com 0,1 pé (não é erro, a sonda está em pés) passo. Também sei, mas não por experiência própria, que com zero pés passo.
A próxima etapa é determinar o zero da sonda :-)
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Não é altruísmo. Gosto de ver passageiros desembarcar felizes. É a única coisa que me faz pensar que aquilo que faço é trabalho. (Se pensasse que o trabalho se deve traduzir em dinheiro perderia a minha fé na semântica. Ou no trabalho, o que seria muito pior).
Os benefícios da idade
"Nada é pior do que um idiota motivado", dizia não sei quem. Já fui muito mais idiota do que sou hoje; Allahu Aqbar. E já fui mais motivado; mas pouco.
Mais novo era um dinâmico e optimista visionário (ou seja, o equivalente educadamente expresso de um idiota motivado). A idade atenuou-me o optimismo, temperou-me o dinamismo e aguçou-me a visão.
E ainda há quem não goste da idade que tem. Eu gosto. Acho é que são poucos.
Os anos, quero dizer.
Mais novo era um dinâmico e optimista visionário (ou seja, o equivalente educadamente expresso de um idiota motivado). A idade atenuou-me o optimismo, temperou-me o dinamismo e aguçou-me a visão.
E ainda há quem não goste da idade que tem. Eu gosto. Acho é que são poucos.
Os anos, quero dizer.
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