5.8.23

Diário de Bordos - Blanes, Catalunha, Espanha, 05-08-2023

A resiliência é perniciosa. Ceder à mediocridade, refugiar-se no álcool ou na loucura, na morte - refúgio supremo mas reticente, não se dá facilmente - é, isso sim, prova de sageza. A banalidade é um porto de abrigo. Deixar a adversidade ganhar, baixar os braços, reconhecer a derrota com uma vénia, chapéu baixo: eis os princípios de uma longa e feliz vida.

A mente explode-me - isto, explode ela e explode-me a mim, que a acompanho em tudo o que faz. Bebo rum, oiço um argentino tocar um orgão portátil, volto a beber rum, o homem toca Hallelujah («é a única canção que conheço dele» - há sempre uma desilusão ao virar da esquina).

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Resumo: o carro da T. avariou e tem de ser repatriado. Onde eu antes tinha um barco para levar para Lisboa agora tenho um barco e um reboque. O carro parou às dez e meia da noite e chegámos ao hotel às duas e meia da manhã, comigo metamorfoseado em zombie, esgotado pelas muitas horas de condução, pelas poucas horas de sono em Viana e pela energia esfuziante e omni-direccional da T. - que, forçoso é reconhecer, obteve resultados, por muito grande que a sua desproporção com a energia neles investida me pareça.

Critérios e respectivos preços

Poder um homem embebedar-se gentilmente e sem ter de pagar uma fortuna por isso é um dos critérios para escolher um país aonde viver.

2.8.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-08-2023

Não sei bem por onde começar, portanto mais vale começar pelo princípio. Foi há umas semanas. Durante a conversa para o relatório, o J. W. perguntou-e se havia alguns pontos moles no convés. Disse-lhe que não. O «meu» P. sendo o P., no dia seguinte descobri uma pequena deslaminação no convés. Decidi não tratar do assunto: para começar não havia ningém disponível (sabia-o devido às pesquisas para o traveller), em segundo lugar porque era pequena e em terceiro já tinha suficientes bolas no ar; de nada serviria juntar mais uma. Agora com o lazybag e o rigger em andamento e Agosto à porta voltei ao tema. Por muito que se pense que uma deslaminação de quinze centímetros de diâmetro não é muito, que o espantoso é não haver mais num barco com quarenta anos e que não é coisa realmente difícil de se tratar a verdade é que é uma surpresa completamente dispensável. Para dizer o menos, porque o que me vai na vontade de dizer é muito pior. «Não se pode deixar para depois?», perguntar-me-ão. Não, não pode. Hoje tem quinze centímetros, amanhã terá vinte e depois de amanhã custará dez vezes mais. Se alguém imaginar a vontade que tenho de ver este bote a navegar, refit terminado, relatório para o seguro feito, inspecção para o registo e tutti quanti ganha um prémio nobel da capacidade imaginativa.

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Amanhã vou de novo a Lisboa buscar o reboque para trazer o BP. Vou cair em cheio nas jornadas dos francisquinhos, mas como vou andar por vias periféricas creio que conseguirei evitar o pior. Isto se do pior excluirmos os preços dos bilhetes e - aposto - dos táxis. «If it weren't for bad luck / I would have no luck at all», lembras-te?

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Trabalho na página web do bote. Prefiro dez deslaminações a uma sessão de trabalho para escolher fotografias e textos e ordem dos menus e o raio que o parta. E prefiro um dia de navegação a cinquenta de cada um dos outros. Infelizmente, sem eles não posso ter dias de mar.

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Não resisti e fui à Copa (del Rey, para quem está fora destas coisas). O clube está a abarrotar, os barcos todos alinhados e todos lindos, o ambiente impecável. Até agora a Copa para mim tem sido a Cantina cheia de gente à noite - quando digo cheia de gente, quero dizer isso mesmo. Ontem não cabia uma mosca até quarenta metros para fora da porta. Hoje fui ao cerne do acontecimento. Como tudo isto me parece distante e como tudo isto me parece tão parte de mim. Vivi alguns dos momentos mais exaltantes da minha vida quando organizava regatas. A adrenalina é um excelente fixador de memórias não é?

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Não se trata propriamente de detestar comentar a actualidade. Trata-se de detestar a actualidade, o que é muito diferente.

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Cada vez que como um figo - ou uma breba, por maioria de razão - a minha relação com a botânica, já de si péssima, piora. Imaginar que aquilo não é uma fruta e sim um conjunto de frutas desafia a minha credibilidade. 

PS - prefiro as brebas (ou brevas?) porque são menos doces do que os figos. Mais uma coisa que devo a Palma: aprender o que são brevas.

Sai dia, entra sono

Curiosamente, o melhor momento do dia é quando se está deitado e ele se esvai devagar, através de cada poro, deixando uma pequena marca para o sono saber por onde entrar.

31.7.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 31-07-2023

Penso que todos nós temos períodos destes: tudo parece correr mal; ou pelo menos nada corre bem a cem por cento. Tudo está mais ou menos, umas coisas mais outras menos, umas muito mais outras muito menos, umas muito outras nada. Um tipo não sabe para onde se voltar. Eu opto por voltar-me para as boas, sem esquecer as más, acreditar nos amanhãs que cantam sem esquecer os ontens que choram e os hoje que não sabem para que lado da barreira vão cair.

Se fosse ferroviário, diria que hoje pus o «meu» P. nos carris, que o BP continua descarrilado, que o olho esquerdo está na estação à espera de sair, o ombro direito a andar bem mas com uma locomotiva meio falha de força. Já a neta prepara alegremente a vinda ao mundo, o transporte / cruzeiro da Suécia continua nos carris - ensombrado é certo pelos dois P, mas pronto, não se pode ter tudo, não é? Não, não é. Nada obriga os P. a estarem como estão excepto aquilo a que se convencionou chamar «o que tem de ser» (prefiro a designação árabe: fatalidade). Tudo menos «azar», designação detestável. Melhor cantar como os outros: «If it weren't for bad luck / I wouldn't have no luck at all». Verdade. No outro dia comparei-me a um maneta a fazer malabarismo. Mantenho a comparação, com um caveat: depende da quantidade de bolas. Se for só uma o maneta safa-se.

Verdade seja dita, a curta estadia no Alentejo ajudou-me pelo menos a perceber uma coisa: as decisões erradas, atabalhoadas e improvisadas das últimas semanas são-no porque estou a tomá-las com os dados que tenho a cada momento. Um bocado como um alpinista que assegura cada passo, até descobrir uma passagem melhor. Ou um navegador que dá volta a um cabo a cada braça que o iça: pelo menos para baixo não volta. E a verdade é que não tenho outra alternativa: não controlo nenhum dos elementos em jogo. Ando aos ziguezagues, não por não saber para onde vou mas por não haver caminho balizado. Só é pena os preços de cada zigue e de cada zague.

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Da série Diálogos possíveis:

- Quero vender livros, não quero vender a alma.
- Não queres vender a alma? Então oferece-a.

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«We will shortly be landing.» Esta frase é a coisa mais doce que tenho ouvido nestes últimos meses. Continua assim: «Please fasten your seatbelts... etc.»  Sim, sim. Eu aperto os cintos. Todos, meu caro piloto. Prometo-te que não falharei um. Nem o das calças.

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Conheci finalmente os meus sobrinhos-netos, que até agora só tinha visto de passagem e já há algum tempo. São uns putos porreiros, alegres e vivos. É bom saber que o futuro da família está bem orientado. Basta não ageniarem.

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(Cont.)

Já aqui o disse uma vez e nunca é de mais repeti-lo: o único inconveniente da solidão é sair tão cara.

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Tenho andado com mini-crises de Ménière. Nada de grave nem de particularmente inquietante. Chamo-lhes as Ménièrezinhas, enfio-lhes um Betaserc (nos casos piores - que, repito, não chegam sequer a ser maus, são só incómodos), readormeço e tudo volta ao seu lugar. Não sei de onde vêm, mas da solidão não é de certeza.

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A história não chega a ser uma. Foi no Antiquari. Uma mesa com dois senhores que gostam muito um do outro meteu conversa com a mesa ao lado (que estava ao lado da minha), ocupada por um casal de que o senhor é arquitecto - impossível não ouvir a conversa - e a senhora uma bomba sexual. Isto é, não tenho nenhuma prova empírica do que acabo de dizer, nem sequer auditiva, não passa de uma hipótese. Mas que ela tem escrito em cada milímetro quadrado de pele (felizmente pouco tatuada) «sou uma bomba sexual» isso tem. E se não é, eu sou a mulher do Papa. O que é interessante é que nem sequer é particularmente bonita, não é particularmente bem feita, não tem mamas e tem as coxas demasiado largas. Mesmo assim exala qualquer coisa que me faz sentir uma profunda empatia pelo arquitecto, que tem aspecto de quem vai ao ginásio todos os dias duas vezes por dia, no mínimo e bem precisa. A certa altura ao grupo juntou-se um senhor perdido de bêbedo que estava na mesa em frente, ainda cantaram um cântico qualquer do futebol (inglês, era mesmo impossível não ouvir a conversa, o Antiquari tem as mesas pertíssimo umas das outras) mas aquilo desfez-se rapidamente. Ele há mulheres cuja função na vida é pôr algumas hormonas masculinas em ebulição, prova de que a entropia não ganha sempre. Isto é, ganha, mas aos sobressaltos. 

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De maneira venho para bordo ouvir Paco Ibañez, beber hierbas secas e tentar reconstituir a mulher. É esta a vantagem dos pintores sobre os fotógrafos: se soubesse desenhar seria capaz de a plasmar numa tela só com o trabalho das sinapses. Nada de sais de prata ou daquilo que agora os substitui.

30.7.23

Alegria, inesperada alegria

Dias que acabam bem: dizem-nos que nem tudo fizemos mal. Parece pouco, não é? Ou tolo. As recompensas inesperadas são as melhores. Isto é, distinguem-se mais facilmente das imerecidas, das fingidas e das que sabemos que vamos receber. A genuína e inesperada alegria de rever a C. reconcilia-me com a alegria.

29.7.23

Walser, a escrita e o humano

"Eu intimaria os escritores a, ao invés de pensarem em primeiro lugar no escritor, pensarem antes de mais no homem. A escrita provém do humano."

Robert Walser, in Cinza, agulha, lápis e fosforozitos, ed. Assírio e Alvim, selecção, tradução e prefácio de Ricardo Gil Soeiro.

28.7.23

Diário de Bordos - Évora e Viana do Alentejo, Portugal, 28-07-2023

Atravesso uma rua em Évora, larga de um carro e metade de outro. Não há uma passadeira à vista. Forço um carro a parar, a jovem condutora (trinta e poucos é jovem, não é?) faz um gesto exasperado. Agradeço com um amplo gesto, mão ao chapéu - sou incapaz de fazer um manguito a uma senhora - e penso "Que vai ela fazer, que não pode esperar trinta segundos?" Estatisticamente esta senhora vota PS e se calhar é contra a discriminação. Só que um peão para ela é pouco menos que nada. Face a uma viatura não tem direitos, só deveres. E a uma gentileza responde-se-lhe com um levantar de braços (vá lá que não buzinou).

Não se pode dizer que eu seja grande fã deste povo ignaro, incivilizado e bovino. Infelizmente, é o único que sabe fazer carne de alguidar e migas alentejanas como as que acabo de comer no Café Alentejo, abençoado seja.

Que vá a jovem à sua vida, não faça esperar um amante impaciente ou um marido ciumento. Eu vou à minha: migas, vinho tinto e beatitude (ou aquilo que agora passa por tal).

Porque sim, o Café Alentejo continua a ser um porto de abrigo, uma bênção, uma benesse, uma dádiva, um éden, um recreio de deuses (e para eles também, que assim nos sentimos quando acabamos de comer). Vale milhares de senhoras impacientes. 

E o licor de poejos, meu Deus! O licor de poejos... É como as hierbas secas do outro, mas com mil memórias associadas. Ora é do conhecimento geral que cada memória acrescenta um ponto de gosto (a qualquer coisa que já o tenha).

(Cont.)

Insónias

Não tenho qualquer dificuldade em dormir as primeiras oito horas por dia. Difícil é dormir as outras dezasseis e é isso que leva a crer que tenho um grave problema de insónias. 

27.7.23

Escalas cronológicas

Que os portugueses não têm bem a noção do tempo - ou que têm dele uma noção peculiar - é do conhecimento comum. Qualquer trâmite administrativo dura meses ou anos, que as pessoas aceitam bovinamente; deixar para amanhã aquilo que se pode fazer depois de amanhã não passa pela cabeça de ninguém. Deixa-se para depois de depois de amanhã. Chegar atrasado a uma reunião ou a um jantar é visto como sinal de status ou - no caso do jantar - de boa educação. Os portugueses só têm pressa no trânsito, se forem condutores. Os carros ainda são uma novidade e eles querem aproveitá-la ao máximo. E para entrar ou sair dos aviões. 

Olho para a fila de embarque no avião que me vai levar para Lisboa e tenho um vislumbre: esta gente não tem nenhuma noção peculiar do tempo. Ela vive é noutro tempo. Vive no passado. O tempo não passa, apesar do nome passado. Esperar um ano e meio por uma licença? Isso foi pedido ontem. Uma carta de condução leva um mês? Meia hora, em luso-tempo. Estão vestidos à moda e com o olhar compenetrado do português que vai andar de avião ou comer um pastel de nata mas na verdade estão onde estavam ontem, anteontem ou há um ano. Ninguém avançou um passo que seja, apesar de a fila estar quase a chegar ao fim. 

Ainda tenho por escrever o artigo sobre a câmara municipal de Oeiras e o ano e meio que levou a conceder uma licença que já tinha emitido. Agora percebo melhor: um ano e meio ou um dia e meio tem o mesmo valor na escala cronológica do português. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 27-07-2023

Na área dos pleonasmos alimentares estou habituado ao nosso arroz com batatas fritas. Hoje foi-me apresentado outro: fusilli e batatas fritas. (A acompanhar um goulasch... Suponho que para celebrar a baixa de temperatura aqui em Palma).

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Os senhores do Corb Marí desfazem-se em amabilidade. Se calhar querem atrair os clientes que a antipatia dele foi afastando ao longo do tempo. Ontem consegui ficar aqui mais de vinte minutos depois da hora de fecho (involuntariamente, claro. Nunca me passaria pela cabeça fazê-lo de propósito) sem ouvir um único grito. Desejo-lhes toda a sorte do mundo. Come-se infinitamente melhor do que na Cantina, tem ar condicionado e fica a cinquenta metros do meu P. de amor.

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Hoje vôo de novo para Lisboa. Poucas viagens me calharam tão mal como esta e poucas foram tão necessárias. A ver qual destas forças antagónicas vencerá.

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Não sou absolutamente contra a pena de morte. Acho que há casos em que se justifica - o norueguês que matou mais de setenta adolescentes numa colonia de férias sendo um desses, por exemplo.

O sacana do catalão que me saiu na rifa sendo outro. Mas este não era só matá-lo: devia ser esfolado vivo, aspergido com tintura de iodo e pendurado pelos tomates até morrer.

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Normalmente para e do aeroporto vou e volto de táxi. Já tive a minha quota-parte de autocarros cheios  tudo apertado como sardinha em lata e de ter de andar da paragem até bordo. Hoje por razões que não vêm ao caso resolvi experimentar a camioneta. Aguentei três minutos.  Mal passou um táxi mandei-o parar.

Por acaso meto conversa com o senhor, o tema sendo - claro -  o calor. No que me fui meter. Tive direito a quinze minutos de dissertação apologética sobre teorias complotistas,  de HAARP, Project Popeye, Vietnam  Soros, Papa Francisco (aqui já tinha desligado, não percebi como é que o homem entra na história. Lá que mandou os putos não comer carne para compensar a "pegada carbónica" da viagem mandou).

Como não estava no clube a diferença de preço entre o autocarro e o táxi foi de treze euros. Isto dá menos de um euro por minuto de sapiência. Há especialistas que cobram mais caro.

26.7.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 26-07-2023

A casa de banho do P. desintegrou-se. Desfez-se. Desmontou-se. É verdade que estava previsto refazê-la, mas a sacana bem podia ter esperado. A bomba eléctrica já fora à vida há uns dias. Comprei uma Henderson MK V, a melhor do mundo e arredores. Está para as bombas manuais como Deus para nosotros mortais, com a diferença de que esta existe e Aquele não sei. Tenho sérias dúvidas. 

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Último jantar no Lo Divino com a N. e o R. Infelizmente estou demasiado cansado - ou devastado - para me emocionar. Mas que me comovi um bocadinho comovi.

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Amanhã Lisboa outra vez. Apanho mais vezes o avião do que o autocarro. Se me apanho no mar nem acredito.

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"O R. ficou diferente desde que tem uma mulher", diz-me M., que lhe dá muitos trabalhos. Nunca percebi bem este fenómeno, porque diferente  neste contexto, significa invariavelmente pior. Ora sendo a mulher uma coisa boa por definição, como raio fica um gajo pior quando encontra uma?

A verdade é que não lembra a ninguém nesta actividade ir de férias em Julho. A senhora deve ser um portento.

Escalada de incidentes e ervilhas

A navegação em solitário é uma grande escola de vida, já por aqui tenho falado nisso. Uma das boas lições que nos dá é como tratar uma escalada de incidentes. O que é uma escalada de incidentes? É quando para resolver um problema se cria outro, frequentemente maior; e se vai repetindo o processo até os problemas serem demasiados e demasiado grandes para serem resolvidos em solitário. Só há uma forma de evitar chegar a esse ponto: arreia-se o pano todo e vai-se dormir. Foi o que fez Tabarly em 1966 e ganhou a regata - nunca se saberá se por causa se apesar disso. Faço parte do grupo que apoia a primeira hipótese. Quando a escada começa a ter demasiados degraus a boa opção não é continuar a subi-la, é descer. 

É o que vou fazer: arrear o pano, pôr-me à capa três ou quatro dias, esperar que as minhas sinapses se realinhem, que os neuro-receptores se desmisturem, que isto por esta cabeça está mal. Demasiada pressão para a ervilha que me faz de cérebro. É como se um maneta resolvesse ser malabarista.

25.7.23

Do cansaço e outras rédeas

Entra-se no cansaço mas não se sabe como se sai dele. A minha hipótese é:  não se sai. É ele que sai de nós. Há entre nós e o cansaco uma reacção alquímica: nós entramos nele, ele transmuta-se em parte de nós (se fosse a totalidade não o conseguiríamos nomear) e um dia ele farta-se e deixa-nos. Enquanto é nós  - ou está em nós ou nós estamos nele - o cansaço torna-se uma pessoa física, uma pessoa de carne e osso que anda ao nosso lado, come connosco e por vezes tem a gentileza de nos passar as rédeas. Pessoalmente, na minha óptica, na minha perspectiva, do meu ponto de vista o cansaço só faz isso (passar-nos as rédeas) quando está ele próprio cansado. E assim andamos os dois, ele e nós,  num jogo de toca e foge.

Devo dizer que não me aborrece nada. Só gostaria que ele tocasse um bocadinho menos e fugisse muito mais.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 25-07-2023

O bar Goa é um bar "popular" na praça Progresso onde eu espero pela Rosa ou pelo Dimitriy da Rigging Point quando é preciso esperar por eles. É, muitas vezes. A esta hora (dez da manhã, hora da merenda matinal, o bar está cheio. O barulho é ensurdecedor: o jogo de dominó à frente de mim - a cada jogada tentam partir ou as peças ou a mesa, ainda não percebi; o cão microscópico que um senhor muito gordo leva ao colo e ladra estridentemente a uma criança que se vai embora com a mãe; a máquina caça-níqueis; os gritos das "conversas". Se alguém me disser que é o barulho da vida, eu responderei "que vá a vida à merda!"

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M. continua a assediar-me, agora com facturas cada vez mais delirantes. Liguei a um advogado. Não tenho tempo nem paciência para malucos. Mas esta história consome-me.

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Dois restaurantes, duas descobertas. Um é galego e fica para depois. O outro provei-o agora. Chama-se Gigi's Piccolo Ristorante e os gnocchi al gorgonzola que acabo de comer estavam uma simples maravilha. Tenho-o evitado até agora por causa da "cozinha feita com amor" etc., mas que estava bom estava. E barato, o que não é despiciendo.  Mais um preconceito por terra. Enfim, mini-preconceito. O canto de Ossanha nem sempre se verifica. A comida pode ser feita "com amor" e ser boa.

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A BH Glasgow arrasta-se penosamente por estas ruas; e eu em cima dela, pedalando contra vontade, quase como se fosse ela a imprimir o ritmo.

Quase?

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A fim de ganhar forças para ir até bordo (um quilómetro exactamente) antes de me ir deitar paro muitas vezes na Cantina para um gelado, um chupito ou os dois. Hoje vai ser sorvete de limão com vodka, igualmente conhecido por colonel. Fica bem a um soldado raso - ou arrasado - terminar o dia com um coronel. Faz-me sentir promovido.

Descrição sumária

É como fazer um puzzle do qual as peças mudam de forma mal encontramos um sitio para as encaixar.

23.7.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-07-2023

Sai de bordo o pobre marinheiro longe de casa com dois objectivos explícitos em mente: comer frio e comer barato. Não muito claramente formulado havia outro: ir a um sítio diferente do habitual.

Consegui dois em três. Adivinhem o que falta?

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Isto dito, a Taberna Vasca Jai-Alai exige uma re-visita. Fica na calle Fabrica 59, se por acaso. O almoço de hoje não foi muito exemplar - santola recheada e uma sobremesa - mas algo me diz que a cozinha mais elaborada será igualmente excelente. Não sei o quê. Talvez o mau humor da criada, equilibrado pela simpatia da dona?

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Depois do extenuante trajecto de ida-almoço-volta o pobre marinheiro longe de casa vai dormir a sesta, perguntando-se "Qual casa?" e pensando cada vez mais que será sem dúvida para norte do Tejo.

Descobre com horror, espanto e solidão que afinal é sensível ao calor. 

(Cont.)

22.7.23

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-07-2023

Lá ficou mais um par de óculos da Refleczo para trás. Este no aeroporto de Barcelona. É uma pena, os óculos Refleczo têm a desvantagem de ser baratos e a vantagem de ser giros. Perdê-los é uma chatice. Ninguém gosta de perder coisas baratas. Ainda por cima sinto-me um bocadinho estúpido porque ando há um ror de tempo para encomendar o segundo par de pares (aquilo vende-se aos dois) e claro, foi preciso perder estes para o fazer. Agora restam-me os Vallon, que foram uma péssima compra. São daqueles que têm uma protecção em couro à volta das lentes. Proteger protege, mas tira-me a visão lateral toda. Nas manobras nem pensar e a navegar idem - nunca me tinha apercebido de quanto usamos a visão grande angular mesmo no mar. Resultado: feios e caros. Para a bicicleta tão pouco servem. Não há maneira de os perder. Ainda tenho outro par, o que tem as argolas por detrás das orelhas. Tenho-o há cerca de dois milénios (em tempo ocular), mas as lentes não são suficientemente escuras. Preciso de lentes espelhadas. Resta-me esperar e não perder os das argolas. A Refleczo é uma marca portuguesa e eu gosto desta facilidade de poder falar com as pessoas e falarmos a mesma língua - não me refiro só ao que se ouve. Falo também do que não se ouve, mesmo ao telefone. Um bocado como as mochilas Lockdo, que infelizmente não sobreviveram. Das mochilas todas que tenho é a que mais uso, desde que não precise de ir para o mar. Nesse caso vai a Musto, que é uma merda. Comprei uma igual, mais pequena, chamada Tropic Feel. Ainda não a experimentei a sério. Creio que para pequenos passeios que exijam mochilas impermeáveis servirá. A ver, como dizia o ceguinho.

Tudo isto para dizer que estou de regresso a Palma, já não podia voltar atrás para ir buscar os óculos - ficam pelo menos a saber que tenho muitos. E mochilas. Naquele livro seminal que é o Dicionário Khazar está dito: "Ninguém acredita num homem nu, mesmo que ele diga que tem muitas camisas." Pois eu tenho muitos óculos e muitas mochilas. A ver se alguém acredita em mim.

Fiquei a saber que os táxis de Palma são os mais baratos de Espanha. Informação a confirmar. Fiquei também a saber que ainda tenho o problema do BP para resolver. Isto já o sabia, obviamente. Este saber tem outro sentido, outra profundidade. Como poder falar ao telefone com as jovens senhoras da Lockdo ou da Refleczo.

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Venho ao Lo Divino beber gin, ouvir música, beneficiar do ar condicionado, da relativa vaziez do lugar e ajudar um pouco a N. e o R. Chateia-me verdadeiramente que isto mude de mãos, mesmo pensando que o gajo que aí vem - um madeirense - é bom cozinheiro. Penso que é o da Fabrique, outro desaparecido. Podia fazer um cemitério.

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Informação importante: na estação de comboios da plaza Catalunya, em Barcelona, comi uns bourek de frango excelentes. Escrevo isto para mostrar a toda a gente que sei o que é um bourek. Felizmente «toda a gente» são vinte pessoas, de modo que a minha extraordinária experiência global perde um pouco em vastidão da divulgação. Ganha em qualidade e não pode ser apelidada de pedantismo. Mesmo sendo os meus os melhores leitores do mundo ninguém é pedante para vinte pessoas.

Estou optimista, essa é que é essa. Saber o BP em paz alivia-me. Como se um proxeneta pensasse que uma das suas senhoras tem sífilis e afinal tem só gonorreia.

Diário de Bordos - Barcelona & Blanes, Catalunha, Espanha, 21 e 22-07-2023

(Aeroporto de Barcelona, 22-07)

Resumo da viagem: não fiz nada do que queria fazer e adquiri uma coisa que não esperava. Essa coisa é: paz de espírito. Encontrei o BP sujo, mal amarrado, com o motor em baixo e uma defensa a menos mas agora está em condições. A marinharia foi avisada de que ninguém tem autorização para ir a bordo. Ninguém sublinhado, em negrito e caixa alta.

Blanes é uma cidadezita que fora do Verão deve ser gira; agora é horrível. Uma coisa tem, porém, notável: o pessoal do Club de Vela de Blanes é uma maravilha de simpatia, cordialidade e eficácia. 

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O restaurante chama-se Cava Nit e é fortemente aconselhável. Toalhas de pano, cadeiras almofadadas, uma carta que sem ser de uma originalidade por aí além é interessante. Encomendo salada e penso em Cioran: «É inacreditável que a perspectiva de ter um biógrafo não tenha feito ninguém renunciar a ter uma vida.»  Estou descansado: já renunciei a pelo menos nove vidas e a probabilidade de um dia ter um biógrafo é nula. Vidas nove, biógrafo zero. Ainda tenho margem para mais uma ou duas saladas antes de ir desta para melhor.

Além de toalhas de pano tem clientes que apesar de serem espanhóis não gritam. Talvez seja o ambiente que não convida, não sei. Não acredito que todos tenham comido o sublime sorvete de limão, que umas gotas de vodka promoveram a coronel. Levou-me directo ao Claudio, imagine-se.

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A parte espanhola da aventura do BP termina aqui, algo ingloriamente. Consolo-me dizendo que antes aqui do que nas Canárias.

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(Blanes, 21-07)

Olho para o atarefadíssimo empregado do bar onde entro para beber uma água (sim. Mais mais tarde) e penso que não deixa de ser curioso que arrastar-me - literalmente, mal consigo andar - por ruas cheias de gente, de barulho e de cheiro a fritos possa ser considerado trabalho. Pode. Os milhares de pessoas com quem me cruzo nas ruas apinhadas pagaram para estar aqui. Eu também, mas não estou de férias. 

Hoje encomendei salada no restaurante. Digo isto para facilitar a vida aos meus futuros biógrafos, por quem tenho desde já a maior consideração. Imagino-os horas e horas a pesquisar a magna questio: o Luís Serpa comia salada? Pois bem, meus caros. Aqui têm a resposta. Sim. E também bebia água (no pretérito imperfeito, não vá alguém pensar que me sinto perfeito só por beber água e comer salada). Pouca gente sabe, mas para aí três ou quatro vezes por ano como salada (não incluo os dias que passo em Genebra porque aí o consumo de verderias é obrigatório e por isso não conta).

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Choques de quem vem de Palma:

- Os preços. Isto é inacreditavelmente barato;
- As línguas ouvidas na rua. O alemão saiu completamente, o inglês quase. Ficam uma réstea de francês e o espanhol, omnipresente.
- A fealdade. As pessoas são feias. Todas, homens e mulheres.
- O serviço nos cafés e restaurantes. Viva o regresso do sorriso, da amabilidade e da eficácia. 

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(Epílogo)
Ou seja, regresso a Palma com a consciência de estar a meias-águas. Agora já só me falta o mais complicado: pôr o BP em Lisboa. Antes de ontem, se possível. E dormir, dormir, dormir.

Incomensurável

Começo a perceber vagamente o que subtende tudo isto. Na Catalunha há dois (ou talvez três, mas disso não estou seguro) fornecedores de serviços ferroviários. Um do Estado central, outro do governo da Catalunha.

Nenhum deles dá informações sobre o(s) outro(s). Por estas e por outras - muitas, muito - semelhantes o meu amor por estas bandas está cada vez mais incomensurável.