Os dias têm sido de insónia. As noites também, a fortiori. Ontem dormi no melhor quarto (de hotel, pensão ou simili) dos últimos duzentos e cinquenta anos - anos de memória, leia-se. Hoje durmo no meu bem-amado Centr'Hotel. Amanhã não sei. Preencho a insónia com uma indomável vontade de amanhã acordar tarde, Santo Agostinho e vozes femininas. Sandy Denny à qual regressarei mal a Baez acabe de cantar, Maddy Prior, Karen Dalton. Sandy Denny: Who knows where the time goes; Baez: Sad eyed lady of the lowlands; Maddy e Karen: ainda não sei. As insónias não têm placas a indicar a direcção. Nada tem, de resto. "La où les routes sont tracées je perds mon chemin". Quem é que disse isto? Tagore (lê-se Togore)? St. John Perse?
Tagore:
"Où les routes sont tracées, je perds mon chemin.
Sur la vaste mer, dans le bleu du ciel, il n'y a point de lignes marquées.
Le sentier est caché par les ailes des oiseaux, le feu des étoiles, par les fleurs des saisons différentes.
Et je demandais à mon cœur : ton sang ne porte-t-il point la connaissance de l'invisible chemin ?
"
Maddy Prior: I live not where I love. Eu não vivo aonde não posso ouvir-te, Maddy, mesmo que seja num telefone merdoso, porque tu és um desses invisíveis caminhos. Há vozes assim, vozes invisíveis, vozes que nos fazem ver o invisível. A Nico tem uma dessas vozes. A Dalton também. Vozes que nos fazem agradecer a falta de sono, considerá-la uma dádiva, uma sorte, uma bênção.
Nico: I'll be your mirror.
Agostinho: "Se os pecadores usam mal a lei, que é boa, os justos usam bem a morte, que é má."
Nico: The fairest of seasons (escolha do youcoiso, da qual näo me queixo).
Agostinho: "a vida é eterna para os justos, a morte eterna para os pecadores." (Cito de memória.) Péssimo incentivo, deixa-me dizer-te. Antes a morte eterna.
Ou seja: Chants de la liturgie slavonne, pelos monges benedictinos de Chevetogne, aonde um dia irei em peregrinação.
Karen Dalton: esta voz vem das entranhas da terra. Dá-nos a ver as tripas. Impede-me de ler.
Agostinho: "Desde que se começa a estar neste corpo, que há-de morrer, nunca se deixa de caminhar para a morte." A Dalton ilustra bem isso, mas não é a única.
Comecei a insónia com o objectivo de escutar vozes femininas, com uma espécie de lista mais ou menos (mais menos que mais) definida. Aqui chegado, o tube apresenta-me Charlotte Gainsbourg - Un part et l'autre reste, a mais bela canção de amor de sempre - e Barbara: Dis, quand reviendras-tu? Deixo o Agostinho. Que sabia ele de amor, de distância, da ausência? (Não sei. Ainda não o li todo.)
Tenho vontade de voltar ao tema, mas a Annette Peacock interpõe-se e não lhe encontro pouso nesta série, passo ao Broken English da Marianne Faithfull ("what are you dying for? / It's not my reality") e penso inevitavelmente na Pietra Montecorvino. É ela quem me vai abrir as portas do sono. Notte che se ne va. Voz cheia de pedregulhos, saída de um tremor de terra.
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