5.7.26

Marinheiro em terra

Viver do mar, morrer no mar, amar o mar. Estamos em finais de Junho e eu em terra, em doca seca, com uma avaria na coluna. Nem vivo no mar nem morro dele. Amo-o simplesmente porque amo a minha vida, o que faço e o que faço e vivo é mar, no mar. Faço mais coisas, claro: escrevo, fotografo, cozinho. Mas nada disso me faz viver como o mar faz. A única parte da minha vida que posso trocar por dinheiro é a que amo. Talvez seja o único amor correspondido? Eu dou-lhe o que sei e ele dá-me uma razão de ser. Melhor: eu dou-lhe o que sou e ele explica-me o que sou: marinheiro. É fácil ser marinheiro: basta ser tudo e o seu contrário ao mesmo tempo. Corajoso e cobarde, solitário e gregário, poupado (no mar) e gastador (em terra). Crente e céptico. Saber que se é o elo mais fraco da cadeia e que nos safaremos, porque somos o mais fraco e o mais forte, porque queremos viver do mar mas não queremos morrer nele, porque ele tem força e nós também. É uma força diferente, uma força feita de saber, instinto – o nosso saber, o nosso instinto e o dos outros que nos precederam. Um marinheiro é um compêndio, um colectivo, um concentrado cronológico. Se se pegar no primeiro homem que teve a ideia de atar um pedaço de tecido a um pau e esse pau a uma embarcação e e assim ir para onde quer ir – e voltar porque um marinheiro vai e volta – e se se puser esse homem numa embarcação moderna ele vai estranhar muitas coisas: os materiais, os instrumentos, o leme, que já não é um remo. Mas passado esse momento inicial de espanto, o primeiro marinheiro estará em casa na embarcação mais recente porque os cabos, as velas, o casco podem ser feitos de materiais diferentes mas têm a mesma função e reagem da mesma forma ao vento e às vagas. Eu, marinheiro moderno, conhecedor de materiais e técnicas modernas, sou esse primeiro homem que amarrou um trapo a um pau e assim chegou aonde queria antes dos outros. A velocidade está para um marinheiro como a luz do sol para uma planta. O meio de transporte é lento? É. Mas nós somos tudo e o seu contrário e para nós a velocidade sempre foi aquilo que nos salvava a vida, nos permitia vender a nossa carga antes dos outros – ou seja, mais caro – ou, simplesmente, chegar a casa mais cedo. Um marinheiro avariado, em casa, sem saber quando poderá voltar ao mar continua a ser um marinheiro porque o mar continua dentro dele. Não o larga.

Um marinheiro aterrado amarrado ao mar.

(Seixas, 30-06-2026)

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