16.2.12

O amor que sinto por ti

É difícil descrever o amor que sinto por ti porque o amor que sinto por ti é parte de mim. É difícil falar de mim, não é? Seria como falar do meu sangue: "és o sangue do meu sangue" (já li isso algures, não sei onde); ou como falar da vida: "és a vida da minha vida" (idem). Falar do amor que sinto por ti seria como falar das coisas que fazem de mim o que sou: "és o vento do meu vento, o mar do meu mar, o ar do meu ar, o céu dos meus albatrozes". Não sei como dizer a alguém "és o céu dos meus albatrozes" sem parecer patético, ridículo ou coisa que o valha.

Verdade seja dita que não há formas não-ridículas de falar do amor que sinto por ti;  vento, mar, sangue e por aí adiante não são menos ridículos do que um albatroz, a coisa mais bonita que jamais vi voar. Não há ventos feios, nem mares (nem amores).

O amor que sinto por ti é uma parte de mim, como a luz é do sol, não sei, ou a beleza da lua, ou esta noite de que a chuva deixou o rio cheio e lindo parte do dia  que foi lindo e cheio como o rio que agora flui largo e rápido para o mar, parte de mim.

15.2.12

Filosofia

Para uma jovem senhora em Antigua.




Vai ser lindo, vai

Que Portugal suporta mal as evidências já se sabia; e quanto mais evidentes menos. Sobretudo se forem ditas por alguém "de direita" (entre aspas porque se o CDS é de direita eu sou a mulher do Papa). 

Por uma vez que alguém do meio-partido diz alguma coisa sensata, evidente, vai ser lindo ver os rasgos de virtude que por aí virão. Aliás até creio que já vi um hoje, aqui.

Meu Deus, isto são os nossos puguessistas. Que dirão os outros...

Diário de bordos - 150212

I
Até aqui passou depressa. Dormitei, li, freecellei, redormitei, reli, refreecellei.

O dia está feio, coberto; mas sem chuva, ou muito pouca. A paisagem continua fascinante. Extensões quase marítimas de planície, ao fundo montanhas isoladas, como ilhas no horizonte. É fácil imaginar tudo verde - agora está meio seco, castanho. Daqui a dois meses, quando a época das chuva estive no seu auge, o verde será lindo.

A estrada ficou má outra vez, e este condutor vai mais depressa do que o anterior. É difícil escrever. O sol está baixo, a luz chega filtrada pelas nuvens e ilumina a paisagem com tons quase fantasmagóricos, como se fosse pintada. Savana lhana, interminável, às vezes densa e impenetrável, outras esparsa. Os terrenos estão cercados, e as bermas muito mais limpas do que da outra vez que aqui passei. Lembro-me de ter ficado impressionado, e desgostado com os sacos de plástico e lixo diverso que juncavam o campo, ininterruptamente. Agora não há lixo.

A viagem de autocarro é longa, mas mesmo assim melhor do que o avião. Tudo é melhor do que estar dentro de um avião, creio.

II
Da vida animal: chego à pousada onde vou ficar, uma coisa simples mas bem situada e com bastante charme. A senhora mostra-me um quarto, depois outro. Fico neste último. A certa altura, já sem os óculos, vejo uma mancha grande no chão, ao lado da cama. Parece-me grande de mais para ser uma barata (mesmo mutante, private joke). É um sapo, enorme, assustado. Não deve se aquele o seu ecossistema, mas agora não me apetece pô-lo fora. Ele entrou, que saia.

Hoje vi a porta do quarto que visitei aberta e entrei, para confirmar o ajuizado da escolha. Em cima da cama havia uma quantidade grande de excrementos, concentrados numa área de trinta e cinco por trinta e cinco centímetros, aproximadamente. Não reconheci a merda, passe o termo e perguntei à funcionária. "É de morcego", diz-me com um sorriso de orelha a orelha. "A porta ficou aberta e eles entraram". Não sei se foi "eles" se "ele" - ou eram vários e tinham bastante pontaria, ou era só um e estava de contenção há muito tempo.

Hallelujah!

Este blog (Má Despesa Pública) deve ser lido, comentado, acrescentado e divulgado. É a única maneira de tentar diminuir e controlar os gastos do Estado. O que nos separa da "Europa" e nos aproxima de África é a cultura do silêncio e o seu corolário, a impunidade.

(Via Tempo Político.)

14.2.12

Diário de bordos - Fortaleza, Ceará, Brasil,13-02-2012

Um dos recepcionistas do hotel chama-se Mardónio. Mardónio, perdoem-me a repetição.

Amanhã vou-me embora para Parnaíba. É aqui que o filme começa; até agora foi só o genérico. Dez horas de autocarro. O que me aborrece mais são os vidros fumados. Da outra vez encontrei uma janela através da qual se conseguia ver qualquer coisa, e a viagem passou num instante.

Hoje fui passear ao centro de Fortaleza. Visitei a Catedral. Um vitral informa que a construção (enfim, a "benção da pedra fundamental") começou em 1939 e que a inauguração foi em 1978. Por fora não é particularmente bonita (é aliás bastante pirosa) mas o interior é claro, arejado. Sentei-me um bom momento para tentar lembrar-me de quantas catedrais conheço tão ventosas por dentro como esta. Não consegui lembrar-me de nenhuma, mas penso que as haverá decerto em África, por exemplo.

O Centro (é o nome do bairro também) é bonito, vivo. Calçada à portuguesa, edifícios interessantes (poucos, valha a verdade) e a habitual confusão. Nestas cidades o comércio de luxo refugia-se nos centros comerciais, mas o comércio popular mantém a vida e a animação dos bairros centrais. A cidade é muito menos barulhenta do que Salvador, um grande ponto a seu favor, para além da segurança. Foi difícil encontrar uma esplanada para me sentar e beber uma cerveja. Quando finalmente encontrei, lembrei-me do Cidadania Lx: quanto trabalho teria aqui... Não se pode dizer que o Centro está descaracterizado - a vida não se descaracteriza, e provavelmente assim é mais interessante do que seria se tivesse transformado em museu. Mas cadeiras e mesas de plástico, ainda por cima velhas e de várias marcas de cerveja (ou refrigerante, não me lembro) numa praça tão bonita é pena. É a praça onde se concentram os vendedores de livros, em pequenas barracas ou tendas, não sei como chamar-lhes. Os livros estão acumulados em pilhas às vezes directamente no chão, outras em cima de um tecido. O cenário não gera grande vontade de ir flanar (pensei inevitavelmente no que seria a praça se fosse em França, daí o galicismo).

Descubro-me com saudades de Antigua. Não me refiro apenas às saudades de T., mas às que sinto pelo país. É uma surpresa, confesso. Caro que sabia que gostava daquilo, mas nunca pensei que fosse tanto; ou talvez a surpresa venha de ainda sentir saudades de um país, vá saber-se.

13.2.12

Desgraçados

Estes desgraçados vão para a Suíça sem, provavelmente, saber que lá não há salário mínimo, não há despedimentos com ou sem justa causa (há despedimentos tout court e o empregador não precisa sequer de explicar porquê), não há pontes, o trabalho extraordinário é pago - quando é - a 125%, em caso de despedimento a indemnização é no máximo três meses de salário (não é três meses por cada ano trabalhado; é três meses). Coitados, imagino o que os levará a aceitar condições tão exploradoras, tão severas. 

E não percebo como raio de carga de água é que há empregos, num país em que os trabalhadores são tão desprotegidos. A julgar pelas opiniães (sic) dos nossos sindicalistas, num país em que uma empresa pode despedir sem sequer ter de apresentar razões toda a gente deveria estar na rua, não é? Logo, imediatamente. Aliás é para isso que contratam os imigrantes - para os despedir imediatamente, sonho de qualquer patrão.

12.2.12

Ena tantos

300,000 pessoas?  É muita gente. Será que a CGTP usa a base dez, como todos nós?

Enfim, é conhecido o hábito de os comunistas se encavalitarem em quem trabalha; chamam a isso defender os trabalhadores. É portanto plausível que o Terreiro do Paço tenha albergado mais gente do que aquela para que linearmente tem capacidade.

Diário de bordos - Fortaleza, Ceará, Brasil,12-02-2012

Chega-se ao Brasil e muda-se de mundo, de língua; aparecem os sorrisos. Mas não se muda de tempo: o conceito de que as pessoas podem ter mais que fazer, ou querer fazer mais do que esperar numa bicha para os passaportes (2 funcionários para as chegadas internacionais, num aeroporto como o de S. Paulo, é obra; e mais obra ainda é um deles ausentar-se tranquilamente do seu guichet e ir-se embora com um sorriso), para um café, para mudar um bilhete, para o que qur que seja é tão estranha aqui como em Antigua, Portugal ou na maioria dos países africanos. Há tempo; há sempre tempo, nunca se esgota.

Tomara a minha paciência fosse igual. Não é, mas pelo menos aprendi (já há algum tempo, é certo; tanto que por vezes esqueço-me do que aprendi) a não exteriorizar a impaciência, o que já é um progresso notável.

Não gosto de Fortaleza, já por aqui o devo ter dito; a verdade é que não gosto do Brasil e Fortaleza parece-me um condensado, pior do que Salvador; a qual tem pelo menos a graça de ter graça, ser linda e ter história, histórias. Fortaleza é um amontoado de arranha-céus milionários frente ao mar (para onde, de resto, descarregam os esgotos directamente. Não sei se as pessoas que compram os apartamentos por milhões de reais tomam banho na sua própria merda, mas duvido) e de barracas, ou quase barracas, por trás. Talvez devido ao clima as ruas têm pouquíssima vegetação.

Há uma coisa de que gosto: a Beira-mar. Seis quilómetros de passeio, que percorro de manhã cedo, eu e bastante mais gente; alguns andam, outros correm, pedalam, patinam (muito poucos) sozinhos, em grupo, a conversar e rir ou com o ar concentrado e sério de quem está a desempenhar uma missão, a cumprir uma promessa. A vista é linda, a temperatura agradável, o vento refresca.

Por todo o lado perspassa a falta de qualidade. Tudo é imperfeito, partido, negligenciado, mal feito, improvisado. Como se, satisfeitos com a beleza da paisagem, os brasileiros achassem que nada a pode estragar; ou que ela chega para compensar a fealdade de tudo o resto, o lixo, os esgotos a céu aberto, os pedintes, os buracos nas ruas, os vendedores ambulantes, as crianças famintas (muito poucas, felizmente, aqui). A frente de mar é linda, mas as cadeiras das esplanadas são de plástico (fazem-me lembrar um outro país cujo nome agora de repente não me ocorre), estão sujas, desarrumadas, as garrafas e copos vazios não são levantados das mesas.

O Brasil deve a sua prosperidade actual ao facto de a China lhe estar a comprar tudo e mais alguma coisa, não são mudanças estruturais que lhe justificam e sustentam o progresso.

Uma coisa que acho fascinante aqui é o amor que este povo tem pelo país: pobre por mais pobre que seja pode reclamar contra os políticos, contra os ricos, contra tudo - mas acha que o país é o melhor do mundo. Hoje vi uma jangada com uma vela que era a bandeira brasileira.

Há países em que uma pessoa se pergunta "como é que num país tão pobre pode haver gente tão rica?". Aqui a pergunta é a inversa: "como é que num país tão rico pode haver gente tão pobre?" (Não venham com a história dos EUA, etc. Um pobre nos Estados Unidos é muito mais do que um remediado aqui). Uma das razões é o proteccionismo, demente. É incompreensível como o país insiste nestas políticas e se recusa a ver o resultado - todos, mesmo as vítimas delas, as aprovam. Faz-me lembrar um texto de Jorge Luis Borges no qual um povo não sabe que há uma relação entre o acto sexual e o nascimento, nove meses mais tarde, de uma criança.

9.2.12

Diário de bordos -090212

As despedidas foram comoventes (disse adeus ao Skullduggery, à Ondeck, à Connie e ao Billy, claro e ao Rum Baba, onde fomos almoçar). O jantar de ontem acabou por ficar óptimo apesar de o habitual atraso ter sido ainda maior do que o habitual. Divertimo-nos, comemos bem (passe a imodéstia) e reuni o essencial das pessoas que significaram alguma coisa para nós nestes últimos meses.

Quando se deixa um país são pessoas que se deixam para trás. "E paisagens", reflectia no táxi que me trouxe. "Estou em Antigua desde meados de Outubro e conheço esta estrada como se cá tivesse vivido desde os cinco anos". "É a única estrada que conheço em Antigua, para além das de Jolly Harbour e Falmouth Harbour", lembro-me.

Onde quer que vá vivo entre aeroportos e o mar. Pena que goste tanto de um e tanto deteste os outros.

8.2.12

Resumo (continuação)

I (28.01.2011)

Dia 10 de Outubro [de 2010] apanhei um avião da TACV para ir ao Brasil buscar uma embarcação de vela; a qual devia levar de seguida para Portugal, fazendo assim uma viagem com a qual sonho há muito tempo: atravessar o Atlântico (à vela) no sentido Oeste - Leste. Por razões diversas essa viagem atrasou-se e, em vez de regressar à Europa e lá esperar que o barco ficasse pronto resolvi vir para as Caraíbas - realizando assim um outro sonho, ainda mais antigo: vir por terra do Brasil à Guiana Francesa.

Escolhi viajar como "antigamente": camionetes, pensões baratas (podia haver uma vírgula entre "pensões" e "baratas") e, sobretudo, a passagem mágica de barco entre Belém do Pará e Macapá - 24 horas pelo delta do Amazonas que  só elas justificam não ter voltado para Lisboa.

A ideia original era chegar a Trinidade e aí embarcar para as Antilhas; mais uma vez por razões diversas acabei por apanhar um avião e vir directamente para a Martinique, onde não vinha há 27 anos.

A partir do Marin - o porto no sul da Martinique para onde se transferiram todas as actividades da náutica de recreio desta ilha - embarquei algumas vezes (não tantas quanto teria desejado), conheci ilhas como St. Kitts e St. Martin, voltei a Grenada, onde estive pela primeira vez em 2004, encontrei pessoas com quem liguei laços de amizade fortes.

Hoje estou de novo no Marin, onde espero conseguir uma equivalência entre o meu curso e as exigências da legislação francesa; tenho um círculo de amigos e uma vida social; actualizei os meus conhecimentos sobre o mercado do aluguer de embarcações de recreio. Daqui a três semanas começo um trabalho de skipper que vai ser o culminar desta experiência. Uma vez terminado esse serviço regresso ao Brasil para ir buscar a embarcação que me fez, em Outubro de 2010, apanhar uma avião da TACV, ver uma jovem senhora no aeroporto do Sal que parecia saída de um livro do Corto Maltese e trazia ao peito um badge que dizia "Temporário", para o qual todos os homens olhavam como se fosse uma promessa e não uma informação, dormir num backpackers de Belém onde conheci duas alemãs que davam aulas na Universidade local sobre "climate changes" (não sabia que já era tema de aulas nas Universidades), comprar um hamac para dormir no barco entre Belém e Macapá, aborrecer-me mortalmente em Cayenne, apanhar um arraial de pancada entre Grenada e Bequia num catamaran de 40', viajar num super-iate de 82' entre o Marin e St. Martin, conhecer uma velejadora solitária de 66 anos, um skipper filipino de 33, um casal dono de um pequeno teatro em Avignon, um francês cuja única actividade na vida parece ser construir um muro à sua volta para se refugiar sabe Deus de quê, um tipo que atravessa o Equador pelo menos duas vezes por semana e não sabe o que é o Equador, e, sobretudo, descobrir que ao contrário do que pensava não perdi a capacidade de ser feliz.

Uma linha recta talvez seja o caminho mais curto entre dois pontos; não é de certeza o melhor.

II - (08.02.2012)

Escrevi este texto em faz hoje pouco mais de um ano. Afinal não voltei ao Brasil "uma vez terminado esse serviço": vou amanhã. Muitas coisas aconteceram nos doze meses e poucos dias que vivi desde então.

Utilizo o verbo viver propositadamente: depois de ter escrito aquelas linhas arranjei muitos mais "serviços" de skipper; conheci uma jovem (não é fórmula) senhora com quem, todas as coisas bem pesadas, me vou casar, um dia; desesperei: estive quase,  e por várias vezes, a deixar cair o projecto do Brasil, que me condicionou desde que naquele dia de Outubro apanhei o avião; fui infeliz, muito, nos meses de Verão que passei em Portugal e voltei a ser feliz, muito mais do que fui infeliz, nos meses que passei em Antigua; tive comigo a minha filha, dois meses e meio nos quais navegámos duas mil e quinhentas milhas, viagens inesquecíveis que moldarão, tenho a certeza, toda a nossa relação daqui para a frente. Provei cerveja colombiana e a simpatia daquele povo; passei quinze dias à bolina cerrada (o meu recorde até agora); fui rebocado pela primeira vez na vida para um porto por causa de uma avaria, vivi num sítio magnífico em Falmouth Harbour; deixo - pela primeira vez em muitos anos - um país com pena de o deixar.

Se isto não é viver não sei o que viver é.

Ou melhor, sei: é o que me espera. O objectivo é  simples: entregar o barco aos (agora) armadores como gostaria de o ter feito em 2010. Isto significa organizar um reboque de 200 milhas (é pouco, mas é contra o vento e a corrente e não vai ser simples); preparar o barco a minima para uma viagem de 1700 milhas até Grenada (é muito, mas é com vento e corrente a favor, vai ser simples); supervisionar os acabamentos em Grenada, uma ilha de que gosto quase tanto como gosto de Bequia. Quatro meses apaixonantes, quatro meses para fechar um círculo que se abriu há mais de quinze, antes da minha partida de Lisboa. Depois não sei. Um novo círculo começará, uma nova etapa.

A vida é uma sequência de portas que se fecham e portas que se abrem. O importante é fazer com que não fiquem portas mal fechadas para trás, e que se as abram bem abertas para a frente.  

Serviço público - Restaurantes St. Johns, Antigua

O cenário só não é surrealista porque "surrealista" é um termo demasiado gasto. Se não fosse, o cenário seria surrealista. Uma estação de gasolina numa zona mais ou menos afastada da cidade; por trás um farol fora de uso - a torre ainda com as riscas, um catavento no topo, mas sem vidros nem lanterna. É aí que se encontra o restaurante Taste of India (até o nome é surrealista. Se eu tivesse um milhão de dólares por cada Taste of India que conheço seria quase rico).

É um dos melhores indianos que conheço, ponto final parágrafo.

Éramos cinco, comemos cinco pratos diferentes - dos mais banais, como chicken tandoori até coisas menos frequentes, como danya fish (peixe num molho de coentros) -. Tudo entre o bom e o excelente. Os chefs vieram da Índia, de Mumbay (Bombaim para nós, creio).

Uma morada a não perder:

Taste of India
Independence Drive
St. Johns, Antigua

7.2.12

Discurso e respectivos gargarejos

Pedro Passos Coelho faz aquilo que só pode ser classificado como um grande discurso, mais coisa menos coisa. A intelligentsia nacional (em itálico não por ser estrangeiro, mas por ser irónico) espuma baba e ranho, claro. Num discurso de 25 minutos, eivado de verdades irrefutáveis, escolhe uma frase, faz o que pode para a tresler - coisa que consegue com uma facilidade desconcertante, sem qualquer esforço - e ooops, voilà, ecco, habemus gargarizandum.

Imaginem o que para aí iria se o homem tivesse dito, correctamente, que os portugueses deviam ser menos cobardolas, menos merdosos, menos enconados, menos pilinhas à volta do penico, menos não fode nem sai de cima.

6.2.12

Pobres deles

Uma má notícia para os canadianos, coitados. Sobreviverão?

"Falta de apoios financeiros põe em causa apresentação da música portuguesa no Canadá"

Basto rasca

A rasteirice do povo português - ou de parte dele, pelo menos - continua a surpreender-me. Há mais dignidade em qualquer minhoca, e em alguns ratos do que em algumas pessoas que me foi dado conhecer no meu querido país.

Adenda - acabo de ver isto. É magnífico e aterrador ao mesmo tempo. Magnífico pela precisão e concisão; aterrador porque demonstra que Portugal não vai mudar nos próximos séculos - esta descrição poderia ter sido feita há duzentos anos.

Diário de bordos - 060212

Posso averbar um Super Bowl no CV.

A primeira coisa que me fez estremecer foi aperceber-me de quanto eu sei de futebol, afinal. Isto é, olho para um jogo de futebol e sei o que as pessoas que correm atrás da bola tentam fazer. Levei meia-hora e dois artigos pescados na net para chegar quase ao mesmo ponto no que respeita ao futebol americano. Quase é um exagero.

O Mad Mongoose estava cheio, mas menos do que eu esperava; e mais silencioso - se fosse um jogo de futebol equivalente (uma Taça do Mundo, suponho) haveria gritos, exclamações, urros, reclamações, encorajamentos, ameaças, avisos, comentários a um ritmo aproximadamente mil vezes superior às manifestações daquele público ordeiro.

A equipa de B. perdeu. O homem estava destroçado, devastado, desfeito. Encontrei-o hoje de manhã. "Então, estás melhor?" "Não." "Ora, isso vai passar; é só um jogo." "Não vai passar. Vou pensar nisto o ano todo, até ao próximo."

Vi Madonna pela primeira vez. Um gajo pode não gostar da música, mas é impossível não ficar subjugado pelo profissionalismo da mulher, pela qualidade do espectáculo.

Os anúncios são fantásticos; vale a pena vê-los apesar de serem várias vezes interrompidos pelo jogo.

Num jogo que é, passe o eufemismo, violento vi dois jogadores deitar-se ao chão lesionados. Mais ou menos a mesma coisa do que no futebol a cada dois minutos. Com uma diferença: estavam mesmo lesionados.

Foi uma noite gira (sobretudo graças à escassez de ruidosas manifestações de "emoções"), a comida excelente, gostei de perceber um bocadinho do jogo - que me parece mais interessante e complexo do que o nosso futebol, mas isso deve ser por não gostar dele, passe o eufemismo. Não creio contudo que vá reservar já um lugar para o do ano que vem. Mesmo se soubesse onde estarei daqui a um ano.

4.2.12

Erro crasso

António Capucho, quanto a mim um erro crasso ele próprio diz que. Pelo menos sabe do que fala, coitado. Há poucos mais crassos do que ele.

«António Capucho "Não dar o Carnaval é um erro crasso"»

Diário de bordos - Antigua,04-02-2012

Frequentemente há eventos de beneficência, aos quais as pessoas aderem com entusiasmo. Hoje é uma goat race, uma corrida de estafetas pelos caminhos de montanha. Fui enrolado como voluntário e cheguei ao Mad Mongoose às seis da manhã. Houve muitas inscrições e algumas equipas já tinham começado - coisa notável, na manhã a seguir a uma noite de sexta-feira. 

Inscreveram-se oito equipas, mas é possível que ainda haja mais uma ou duas inscrições. Cada uma tem três pessoas. Ganha a que completar mais voltas.

Afinal acabei por não ser preciso - a senhora do organismo para o qual as receitas vão reverter trouxe mais gente do que o previsto - de maneira fui tomar o pequeno-almoço ao Skullduggery, Skull para os íntimos. É sábado em grande parte do mundo e tento lembrar-me de como eram os sábados nos diversos sítios por onde passei. Começavam invariavelmente com a edição semanal de um jornal - o FT (e às vezes também o Independent) em Londres, Le Monde em Paris e em Genebra, o Expresso, claro, em Lisboa (em Genebra lia-o aos domingos, porque chegava sábado à noite) - e um longo, longo café. Aqui não há jornais (há, mas são demasiado caros e chegam também com um dia ou dois de atraso). Nem jornais nem uma boa livraria onde comprar os livros que cada vez menos leio.

Vejo que morreu Ben Gazzara. A primeira vez que o vi foi em "They All Laughed", uma maravilhosa comédia romântica de Peter Bogdanovich, que tem um grande plano de perfil de Patti Hansen com um boné até às orelhas a guiar um táxi numa das pontes de Nova Iorque. Também gostava de ir ao cinema um bocadinho mais - quando estava em Lisboa pouco ia, mas há uma diferença muito grande entre não ir e não poder ir, não é? Há sempre, em tudo.

Hoje é sábado. No charter todos os dias são sábado, e nenhum é. Amanhã vou comprar o FT Weekend, para que o calendário não pense que ganha sempre.

E amanhã é domingo de Super Bowl. Pela primeira vez na vida vou assistir (pela televisão, claro) a essa mítica coisa, que só conheço devido à publicidade e de "ouvir ler". O nosso vizinho B. é um fanático. Já nos ensinou muita coisa; uma das quais é o preço demente dos bilhetes - os mais baratos começam nos mil e quinhentos dólares. Não é propriamente caridade.

Já reservámos os nossos lugares no Mad Mongoose (desnecessário é dizer), na primeira fila. O jantar vai ser chili con carne, entrecosto grelhado, hamburgers, cachorros quentes - game food, chama-lhe Connie. B. está excitado; nós curiosos. Gosto mais de ver futebol americano do que futebol do nosso, se calhar por ser exótico. Amanhã vou, talvez, perceber um bocadinho do jogo.