31.5.12

Marigot, St. Martin, 30-05-2012

Não me atrevo a dizer "Hoje é o último post de Saint Martin". Isso quereria dizer que perdi a esperança de voltar -- ainda não, porque a esperança é uma doença quase incurável. Direi, por isso, "Até Outubro, St. Martin", se Deus quiser

O armador saiu um dia depois do que tinha anunciado, para desespero de toda a tripulação e restante criadagem. O dia de ontem, aquele em que não partiu, foi interminável -- como têm, de resto, sido todos os meus dias aqui desde que esta viagem começou (resta-me perguntar se o conceito de viagem inclui isto que fazemos, não ir praticamente a lado nenhum, ficar nos lugares que já conhecemos sem os viver, não tirando deles mais do que uns minutos de vento que não é, felizmente, igual em todo o lado). Fiz uma bolognese impressionante no micro-ondas (impressionante exactamente por ter sido feita no micro-ondas), deixei cozer a massa de mais, comi todo o chocolate que o Luís me trouxe (não foi do Brasil, suponho que tenha sido do aeroporto) e mais algum que consegui encontrar. A ansiedade dá-me para comer, a angústia para não comer. A angústia já passou.

Os senhores despediram-se de mim com um «see you soon», como se me fossem ver na próxima "viagem". O pedido de desculpas não veio, claro, e o salário também ainda não. Há três coisas nesta família que me deixarão saudades: o sorriso do bebé quando lhe digo um disparate qualquer; o acenar do outro bebé pela manhã, que sabe que não falamos a mesma língua mas quer, ainda assim, comunicar; poder ficar com as caixas da Hermès que eles deitam fora como se não fossem peças de design extraordinárias para guardar pares de meias ou elásticos de cabelo, sei lá.

K., o cozinheiro, deu-me um abraço tão apertado e comovente que levou S. a dizer «get a room!» (às vezes sinto-me outra vez no liceu, só que ainda mais desajustada do que quando não sabia responder às piadas parvas da miudagem com quem nunca me identifiquei). Também vou ter saudades dele, e de ver M. atirar-se à água de cuecas porque perdeu uma aposta com o patrão.

O barco que vou deixar vai passar metade do Verão em Antígua, a terra que eu, em tão pouco tempo, aprendi a amar como se fosse a minha, onde fui mais feliz do que na minha, onde gostaria, um dia, de ser mais feliz ainda -- a esperança, já o disse, é uma doença quase incurável. Será que voltarei a sentar-me ao balcão do Mongoose e beber o melhor rum punch do mundo preparado com carinho pela Connie ou pelo Junior? Verei outro fim de dia do gazebo do Reef Gardens contigo e o gato Lager ao pé? Comerei outra refeição magnífica feita pelo Serge no Rum Baba? Abraçarei a Ilaria por me ter contratado com um ano de antecedência para cantar na noite de São Valentim? Ouvirei o clarinetista John tocar no Café Club enquanto seduz uma ou outra senhora à frente da mulher? Conhecerei mais mil pessoas diferentes que me sorrirão como se fôssemos amigas desde o princípio dos tempos, como aquela senhora adorável que adora Sintra e dança como se tivesse um Fred Astaire dentro dela mas ao mesmo tempo lhe faltassem os parafusos todos?

Na segunda-feira parto. Daqui para Charlotte, na Carolina do Norte, onde passo a noite; na tarde seguinte, de Charlotte para Toronto, onde vou estar duas horas com a minha querida L., que não vejo há tanto tempo, desde que emigrou; no mesmo dia, de Toronto para Ponta Delgada, onde chegarei na manhã do dia seguinte; à tarde, apanho um voo para a Horta onde espero embarcar no DARK HORSE, se Deus quiser

Por favor.

26.5.12

Gustavia, Saint Barthélemy, 26-05-2012

-- You are reckless! This is your salary, did you know that?

Limpar sanitas de ricos não é uma humilhação. Nem sequer apanhar as suas cuecas do chão. Muito menos o é ver o trabalho (duro, sem folgas) de um mês comparado com um objecto caro e piroso desenhado por uma das mais famosas casas de moda da nossa praça. A humilhação não pode ser infligida, apenas sentida. Aprendi isso nos últimos cinco dias (felizmente, só demorei 24 anos a aprendê-lo). Quando somos adultos e a nossa consciência funciona, não podemos ser magoados, apenas sentir-nos magoados. Parece um pormenor, mas faz toda a diferença. A humilhação que sofri só é real porque a senti. Saída da boca do meu patrão não é nada; só existe quando entra nas minhas células e causa a reacção de nojo que me causou. Isto é válido para a maioria dos sentimentos (vergonha, abandono, até amor), a menos que sejamos crianças. Quando somos crianças, o que os outros nos dizem é tão real como aquilo que sentimos. É por isso que educar uma criança é a tarefa mais difícil e mais subvalorizada de todas. A maioria dos pais faz o melhor que pode (aposto que os pais do meu patrão fizeram o melhor que puderam), e mesmo isso não parece suficiente. «You who must leave everything that you cannot control/It begins with or family but soon it comes round to your soul», canta Cohen. Ter-me libertado da humilhação que senti quando ouvi aquelas palavras significa que é possível controlar o poder das palavras dos outros. Resta-me aprender a controlar o das minhas.

Os barcos são meios de transporte. Uma pessoa pode chamar a um barco a sua casa, fazer dele a sua casa, mas isso não modifica o seu carácter: um barco é um meio de transporte. Se uma casa for sacudida por um terramoto, há uma possibilidade de os objectos que ela contém caírem e se destruírem. No mar existem ondas, equivalentes para um barco a pequenos terramotos. É por isso que a maioria dos mega-iates (usados como casas, como hotéis) têm tudo pregado ou colado às superfícies. As mesas e os sofás estão presos ao chão, os candeeiros às mesas, os objectos decorativos às prateleiras. Quando as coisas não estão coladas e o barco está em movimento, colocam-se num lugar onde se acredita que não se vão partir. Na última vez que viajámos, coloquei o objecto que se partiu entre dois almofadões de uma poltrona, onde sabia que estava seguro. Quando voltei ao camarote, onde o dono tinha estado, o objecto estava no chão. Parti do princípio de que, ainda que estivéssemos em movimento, o dono não queria o objecto onde ele estava, e preferia que estivesse no chão. Passei a colocá-lo sempre no chão. Fez algumas viagens curtas sempre no chão, sem se partir. Ontem partiu-se e o armador passou-se, perguntando-me porque não o tinha posto em segurança. É claro que não me deixou responder.

Acredite o leitor, se quiser, que não se perdeu nada. Tive mais pena das orquídeas que estavam no vaso e se despedaçaram com o impacto do que do vaso em si, da perda do dono ou do trabalho que tive a limpar a merda da carpete manchada de terra húmida. Sempre que olhava para a coisa achava que o mau gosto não tinha limites, ideia que só confirmei quando o armador terminou a "conversa" com a boca sobre o meu salário.

Disse ao capitão o que me fora dito, que o armador queria falar com ele. Informei-o de que estava mais do que disposta a abdicar do meu salário, mas que se o caso fosse esse desembarcaria no momento, porque não só não podia ser acusada de um acidente como não via necessidade de pagar com o meu salário e com o meu trabalho. Para meu espanto, quando o capitão voltou anunciou que o armador lhe tinha pedido desculpa pela maneira como falou comigo e que não queria tirar-me o salário. Não tentarei, sequer, perceber porque não me pediu desculpa a mim.

Desde que Gianni morreu que a Versace nunca mais foi a mesma.

21.5.12

Não vale a pena mudar nada

Anos e anos de sindicalismo dão nisto. E depois não querem que as coisas mudem. Acham que estão bem assim. 

"Dois terços dos trabalhadores em Portugal ganham menos de 900€" (Verdade seja dita que a maioria dos portugueses prefere 900 garantidos a 2000 incertos, e provavelmente é por isso que os ganham).

Marigot, St. Martin, Antilhas Francesas, 21-05-2012

Hoje é o último post de St. Martin. Depois do almoço largo para o Reino Unido, via Açores, no S/Y DARK HORSE, um magnífico Southern Ocean 60. Se tudo correr bem, dentro de duas a três semanas estarei na Horta, a beber um gin tónico.

20.5.12

Perguntas, respostas e dúvidas


"Que fazer num domingo pluvioso?" pergunta algures no ciber-espaço uma jovem senhora. É uma pergunta legítima (todas o são, menos as que incidem sobre a idade das jovens senhoras e dois ou três pormenores inconvenientes de todos nós) e cuja resposta tem vindo a ser dada há milénios, suponho (desde que há domingos, pelo menos; ou sábados, ou sextas-feiras).

Suponho também que a resposta de um velho gordo e careca será substancialmente diferente da que uma jovem e bonita senhora procura.

Ou seja, este post não é uma resposta àquela pergunta em particular, mas à abstracção daquela pergunta.

Deverei começar por dizer que aqui em St. Martin o dia está bonito, ventoso, ligeiramente nebulado como convém à época? Talvez, não sei. Na verdade detesto praia, e apesar de ter à portée de pied meia dúzia (pelo menos) de praias lindas a ideia de ir a uma delas só me passaria pela cabeça mil anos depois de gastas todas as outras opções.

E quais são, essas opções?

a) Ir para a cama com a pessoa amada, caso esta esteja à portée de main;
b) Ir para a cama com uma pessoa de quem se gosta, caso haja alguma nas imediações disposta a isso;
c) Ir para a cama com uma pessoa que se suporta, idem;
d) Ir para a cama com uma pessoa que se detesta, ibidem;
e) Ir para a cama sozinho;
f) Beber uma bela golada de rum da garrafa que se guarda no quarto para situações de emergência e optar por uma qualquer das alternativas anteriores;
g) Aproveitar a chuva e o rum para tomar decisões sobre o futuro próximo: Maldivas, Panamá ou Inglaterra;

Notas:

  • As alíneas d) e e) são intercambiáveis. Isto é, dependem muito da idade da pessoa que deve fazer a escolha. Normalmente, quanto mais novo mais d) e quanto mais velho mais e);
  • Não sei porque é que a chuva ajuda a tomar decisões, mas é uma coisa que se vê em todos os filmes e livros sérios que abordaram a questão. O rum ajuda, sem sombra de dúvida;
  • A alínea f) devia ser anterior a todas as outras, mas se fosse não conseguiria dar-lhe a forma que, ao fim de muito pensar, encontrei e me parece adequada.

Claro que cada uma destas alternativas tem várias objecções de várias ordems: moral, prática, exequibilidade, interesse, etc.

As alternativas c) e d), por exemplo serão decerto o objecto da ira de muita gente; de mais gente ainda, a b); e) será aprovada por uma multidão e desaprovada por outra, quando na realidade será a única, de qualquer foma.

Tudo isto enquanto se deve pensar no futuro próximo: Inglaterra, Maldivas ou Panamá?

A única maneira de resolver é uma boa golada de rum, seguida de outra boa golada de rum, e assim por diante até se acabar o rum. Nessa altura a solução deixará de nos aparecer como uma solução, e apresentar-se-á como uma evidência, que é um dos destinos das soluções.  

Porque hoje é domingo

Alberto Gonçalves.

Marigot, St. Martin, Antilhas Francesas, 19-05-2012

Todas as marinas têm um restaurante cujo mercado são as pessoas que nela trabalham, os marinheiros entre dois embarques, todos aqueles que não estão de férias. Na marina Royale, em Marigot, esse restaurante chama-se Le Sous-Marin e hoje fui lá jantar. Inequívoco sinal de que aterrei em St. Martin, e estou em casa. E em França, a França de que gosto, a França do bom gosto barato, da simpatia real, humana - por oposição à simpatia profissional, pré-fabricada, quero dizer -.

O senhor do Sous-Marin - um lugar um bocadinho tristounet, verdade seja dita, mas onde se come muito bem e barato - é casado com uma portuguesa de S. Pedro de Alva. Não sei onde fica S. Pedro de Alva, mas algo me diz que na segunda-feira vou saber: ele mostrou-me uma brandade de morue e eu respondi-lhe com um bacalhau assado no forno. Não que seja dado a saudades, mas a ideia de ter uma senhora a fazer-me um bom bacalhau no forno enche-me as medidas todas, tão por baixo que elas estão, coitadas.

A felicidade é uma sucessão de momentos que se devem agarrar, um a um; e acumular antes que fundam como chocolate ao sol, o que inevitavelmente acontecerá.

Procuro um trabalho para o verão. As possibilidades são muitas: desde o Pacífico às Maldivas, passando (claro) pelo Mediterrâneo, pela Alemanha (é o destino de um barco que vai sair em breve dos Estados Unidos com o qual estou em negociações) ou, mais modestamente, Trinidad, aqui ao lado. Não sei qual delas prefiro. Nenhuma, na verdade: todas me atraem igualmente. Preciso de navegar, só. Onde e porquê interessa-me pouco. [Vou ter de dizer não ao da Alemanha, apesar da viagem ser magnífica: "...up the eastcoast to New Foundland, Greenland, Iceland, Faroes, Shetland, Norway into the Baltic to Germany". Paciência. Não estou - nunca estarei - em maré de partilha de custos, excepto com amigos, e próximos].

Ou seja: o mundo desfila-nos à porta como um metro com um condutor bêbedo.  Às vezes o senhor lá consegue acertar com uma paragem e abrir as portas; às vezes essas portas abrem-se à nossa frente; às vezes nós damos o passo em frente antes de o condutor bêbedo do metro as fechar de novo. E lá vamos, numa viagem de que não conhecemos o fim; mas sabemos que tudo é melhor do que estar na paragem do metro à espera que passe o próximo.

Acredito muito no destino que fazemos, e pouco no que sofremos. 

Redifusão

F. - Breve e fragmentada biografia

Ainda hoje se está para saber se F. tinha aquilo a que, muitos anos mais tarde, se viria a chamar "uma visão integrada do mundo": um conjunto coerente de ideias sobre a luz, o mar, o amor ou, por exemplo, um arco-íris que por vezes via de manhã, redondo e perfeito como a vida de alguns santos, e suspeito (de falsas promessas) como as de algumas putas. Que pensava ele das montanhas verdes e crespas como o cabelo de um negro que lhe enquadravam os dias? Veria uma relação entre elas e o enorme vazio do céu, que hoje está, por exemplo, de um cinzento incolor e sem sombra de sombra como alguns futuros, e muitos passados? Que pensava F. da empregada de bar pequena e empertigada, magra e malcriada a quem um dia oferecera uma cerveja para que "engordasse um bocadinho e se tornasse enfim fodível" (esta história, provavelmente apócrifa ainda hoje percorre os bares da América Central)?

F. tinha opiniões formadas e firmes sobre algumas coisas: as senhoras passam à frente nas portas e atràs nas escadas, por exemplo; um cabo empandeira-se de uma determinada forma e não de outra; vento forte é melhor do que ausência total de vento; mais vale amar do que ser amado ("é mais fácil, ao contrário do que parece, e menos sujeito a erros", explicava).

Apesar disso a dúvida permanece: teria F. uma visão integrada da vida?

Pessoalmente duvido. E se tinha tentava (e conseguia) de tal forma dilui-la numa mistura aleatória de vinho, cerveja, rum, whisky e sexo (em doses extremamente desiguais) que era como se não tivesse.

Quando uma mulher o atraía F. criava, isso está mais do que estabelecido, a ilusão de ter essa tal coisa da visão "integrada". Numa mulher com nome de flor, por exemplo, via um tratado de botânica, um compêndio de metafisica e um manual de química pura; numa outra com nome de rainha via um futuro claro como cristal e um presente negro como um poço num dia de chuva. ("Quando cessará o presente e começara enfim o futuro?", perguntou-se um dia. Para F. presente era o que via do seu cubículo estreito com um pequeno guichet, frente ao qual desfilava o tempo e aquilo a que um jovem jornalista chamou, um dia, "vida". F. vivia na bilheteira de um teatro, e nenhum jovem jornalista resiste a um bom cliché).

As diferentes vidas de F. - nao me refiro às diferentes componentes da sua vida, refiro-me às suas diferentes vidas (por exemplo: social, afectiva, profissional) - eram, ou pareciam, caóticas, complexas, fragmentadas. Terá ele conseguido integrá-las, ele que tanto desejava dar-lhes uma unidade coerente, sólida, direita como o mastro de uma embarcação de vela ou o membro erecto de um homem?

Ainda hoje não se sabe. F. nutria pelas mulheres um amor constante e uma atracção irregular; vivia por vezes na paisagem e doutras não se apercebia sequer da existência de um mundo exterior; um dos seus magnéticos sorrisos tanto podia ser dirigido à pessoa com quem falava como a uma longínqua memória que lhe tivesse aflorado a mente.

F. morreu ontem. Não deixou nada escrito; e como nos últimos meses se recusou a dirigir a palavra a quem quer que fosse - uma pedra no caminho arrancava-lhe mais palavras do que a presença dedicada da sua irmã, que vagamente entrevia (e claramente ouvia) à cabeceira da cama; dos seus colegas e inúmeros amigos - tão pouco se lhe recorda uma afirmação, uma opinião, uma pergunta, uma dúvida.

Sabe-se que F. integrava em duas categorias distintas as mulheres magras com grandes seios e as gordas com eles pequenos, como se não fossem da mesma espécie (o que apesar de tudo lhes conferia uma certa unidade, um eixo comum horizontal - as mamas - e outro vertical: o desejo, de passagem se diga). Conheciam-se ainda de F. as opiniões sobre o vento ideal - superior a quinze nós e inferior a trinta e cinco; o mar - deve ser mais quente e mais azul do que o ar; as nuvens - "cumulus bom, tudo o resto mau", sintetizava. Sabemos igualmente que preferia as mulheres de olhos abertos às que os usam fechados, mas ainda não sabemos a que chamava "olhos abertos".

Nutria bastantes dúvidas sobre a capacidade desalterante da água; gostava de ler (mas passava por vezes meses seguidos sem tocar num livro, para logo de seguida ler quatro por semana).

Como unificar tudo isto?

As dezenas de biográfos de F. (um grupo heterogéneo que incluía as mulheres, os primos, os irmãos, alguns amigos e quase todos os inimigos) tinham opiniões divergentes.

F. escrevia e por vezes falava na rádio ou na televisão, mas tentava economizar o que dizia. "Só há duas coisas que merecem e devem ser poupadas, porque são os únicos luxos: a água doce e as palavras". Percebia claramente a relação entre o sexo e o aparecimento posterior de crianças ou chatices. Ou entre o vento e o movimento de alguns corpos; entre o som e o movimento de outros; mas teria por exemplo percebido a relação entre o vento, o som e o amor? Nada é menos seguro: era pouco dado a pensamentos complexos, não se sabe se por gosto se por incapacidade.

E que pensava ele da relação, hoje estabelecida como inevitável, entre o desejo, o acto sexual e o amor? Não sabemos. Tão pouco sabemos se reconhecia o fastio como um dos possíveis motores do desejo.

F. morreu jovem, pouco mais de cinquenta anos. Mas teria tido tempo de deixar obra: uma biografia, um panegírico, uma explicação, uma visão, uma (ou várias) listas.

Não deixou.

19.5.12

A minha vida sexual (algumas notas para uso posterior, salvo seja)

A vida sexual de um talhante tem muito pouco interesse. Não sei, portanto, porque há tantas pessoas (de ambos os sexos) a pedir-me que a conte. Como já devo ter dito sou proprietário de um talho numa cidade média do interior do país. Sou extremamente rigoroso - até comprei uma balança Mettler-Toledo, apesar do seu preço -; e casado com uma senhora chamada Teresa que, antes de eu a proibir de trabalhar fora de casa era psicóloga e agora escreve coisas num sítio chamado Facebook e noutro chamado Blog (não leio nenhum deles, nem nenhum outro, de resto; a informática não me interessa. Gosto de coisas com cheiro e sangue).

Mas a verdade é que as pessoas pedem-me e, como é meu hábito, eu digo que sim.  Foi desta forma que juntei um apreciável tesouro de guerra - dizendo "sim, minha senhora" (e às vezes "sim senhor", há cada vez mais homens a viver sozinhos e a fazer compras). Por isso aqui deixo uma breve descrição da minha vida sexual, salvaguardando, claro, todos os dados comprometedores (e excluindo liminarmente a minha vida conjugal, porque todos conhecem a Teresa).

Ora bem: é preciso começar por dizer que a minha vida sexual tem pouco interesse. Sou um homem rigoroso, e o rigor, dizem-me por vezes algumas senhoras, não vai bem com a actividade sexual. Eu acho que sim, que o rigor vai bem com tudo; mas algumas das senhoras discordam, e eu não as contradigo. Antes pelo contrário, digo "sim, querida" e cada um vai à sua vida.

Por exemplo, a questão das posições. Identifiquei dez posições de que gosto, e mudo-as todos os domingos. Se uma senhora quer variedade, basta-lhe começar por exemplo a um sábado e ficar comigo até segunda-feira. Raras são as que aguentam tanto tempo (dizem elas; por mim, três dias passam num instante); mas as que ficam gostam e elogiam-me bastante.

Devo dizer que é muito raro não ter "uma senhora". Penso que aquela mistura de precisão e de sangue, de carne viva, excita a líbido de muitas das minhas clientes, que me deixam, imaginem, números de telefone no meio das notas com que me pagam (em francês isso vê-se logo, basta atentar na semelhança entre bite e bidoche: a mesma primeira sílaba, a mesma letra final). Eu ligo a quase todas - basta não serem demasiado magras ou demasiado gordas, demasiado altas ou baixas, novas ou velhas. Sou um homem mediano e quero manter-me assim. Só abro excepções se elas o merecerem, ou eu estiver um bocadinho a seco. Porque também tenho necessidades, não se pense que lá por ser talhante (há quem me chame açougueiro, mas eu acho o termo inadequado e incorrecto) estou isento delas.

Outra coisa importante: a conversa. Eu sou contra a conversa. Acho que as pessoas se encontram com um determinado objectivo, e esse objectivo deve ser atingido o mais depressa possível. Raras, porém - se bem existam - são as senhoras que partilham esse ponto de vista. Como sempre e em tudo, eu acedo e falo com elas. Mas falo o mínimo necessário para as satisfazer. Nada de conversa de chacha, comigo. Querem conversa, têm-na; têm conversa que chega, eu calo-me (descobri que uma maneira de chegar a esta fase rapidamente é falar-lhes do prazer que a minha profissão me dá, e contar-lhes um máximo de pormenores).

Práticas: quer queiramos quer não, sexo consiste na penetração de uma vagina por um pénis. Tudo o mais é redundante; off topic, como dizem alguns ingleses que eu conheço. Mas algumas senhoras insistem e querem fazer-me coisas. Eu deixo, mas aviso-as sempre "não haverá reciprocidade" (não gosto de surpresas, seja de fazê-las ou de as sofrer).

Quantidade: é o único ponto em que todas as senhoras (pelo menos até agora) concordaram imediatamente comigo. Ainda não tive uma opinião divergente: a penetração deve ocorrer um mínimo de três vezes e um máximo de cinco por noite (é verdade que algumas senhoras exprimem uma certa insatisfação devido à - na opinião delas - "monotonia das posições"; mas isso diz respeito a outro tema. Na questão da quantidade tem havido uma agradável unanimidade). Porquê um máximo, perguntar-me-ão alguns?  Porque acima de cinco penetrações por noite a vagina da senhora fica muito dorida e ela deixa de ter prazer.

Estes são os aspectos da minha vida sexual que acho mais interessantes. Espero ter satisfeito todos aqueles dos meus clientes que me têm pedido "conta, conta". E, sobretudo, que voltem ao talho, claro.

Teologia francesa

O Reblochon é um queijo da Haute Savoie; o Camembert é feito na Normandie; o Brie na Champagne e o Maroilles no Nord Pas de Calais. 

E há pessoas que duvidam que Deus é francês. Ou era, quando existia.

Anatomia teológica, ou teologia anatómica

Os homens nunca sabem onde pôr as mãos; é por isso que Deus pôs seios nas mulheres.

(O que demonstra que era homem e heterossexual, mas isso é outra história).

Origens

Cada vez mais lisboeta e cada vez menos português.

Coisos, espumas e debates

Os portugueses, é sabido, emprenham pelos ouvidos. Preferiram como primeiro-ministro um delinquente a uma senhora séria porque ela falava mal (e era feia, característica relevantíssima para um primeiro-ministro); e, de forma geral, inflamam-se muito com a forma das coisas,  e pouco com o seu conteúdo.

Depois admiram-se, queixam-se, lamentam o estado do país e a qualidade dos políticos.

A razão é, provavelmente, que não sabem reconhecer a qualidade quando a têm pela proa; por isso refugiam-se no pechisbeque, nos coisos. É como se em vez de discutirem cervejas discutissem as respectivas espumas (sim, na terceira pessoa; cada vez mais na terceira pessoa).

Fechado

Não gosto de estar fechado dentro de coisas, nem de pessoas. Nunca estive fechado dentro do que quer que fosse, ou de quem quer que fosse. 

Enfim, talvez tenha estado; mas não me lembro.

17.5.12

Marigot, St. Martin, Antilhas Francesas, 17-05-2012

Apanhei o avião na Segunda-feira dia 14, à tarde; ele chegou uma hora depois, mas eu só aterrei ontem. Un léger décalage, diria um francês. Três dias a décaler: accras, boudin créole, colombos divers, assiettes créoles, vinho tinto e branco, pastis (enfim, Ricard), rhum vieux, rhum blanc, tartines, civilização sob todas as suas formas, tudo isto culminou ontem num braai a bordo do J., o mega-iate onde a metade pensante de mim trabalha muito, de mais, e se diverte um pouco.

Um braai para um sul-africano é muito mais do que um barbecue para um francês, um barbeque americano, um churrasco em Portugal. É identitário; a comparação que me parece mais próxima é a do churrasco gaúcho. Um dia em Kindu propus aos pilotos - uma equipe sul-africana - que fizéssemos um braai. Andy, o co-piloto, olhou para mim zangado e respondeu "com que direito usas a palvra braai?" As condições eram dificeis, é preciso dizê-lo; quase todos os dias nos atiravam para o avião, e se bem nenhuma bala tenha furado a blindagem o barulho (um blang surdo, que me fazia pensar nos livros que li sobre submarinos e de como eles recebiam o bling dos sonares) acabava por se tornar maçador.

Disse-lhe que era de Moçambique, e fui aceite.

Ontem o braai estava magnífico. Estava também a tripulação de um monocasco de 74' lindo e consegui, finalmente, tirar de mim o Brasil.

........
Preciso dizer que a viagem de avião foi muito bonita: na primeira parte, de Belém para Guadeloupe, havia praticamente todas as nuvens do catálogo. Não vi cumulo-nimbus (felizmente); mas de resto estavam todas.

No dia seguinte, da Guadeloupe para St. Martin, o reflexo do sol fazia do mar um tapete brilhante, prateado, sulcado pela ondulação como se estivesse lavrado. Nessa folha branca, ou cinzenta muito clara, brilhante, havia por vezes um buracos, crateras negras, claramente demarcadas em três dimensões - era a sombra das nuvens.

Por vezes não havia nuvens, e os buracos negros tinham realmente três dimensões - eram ilhas, não ilusões de óptica fascinantes, hipnotizantes.

........
De maneira já fomos a duas entrevistas e já temos emprego  para Outubro. Agora basta encontrar qualquer coisa até lá. Podia ser pior. 

Risos

A nossa esquerda, que tanto troçou da história das viagens de avião em classe económica, e achou completamente secundária a multa de Soares vai de certeza rir às lágrimas com estas: "...des déplacements en train autant que faire se peut et un strict respect du code de la route".

14.5.12

Prioridades, ordens

Em caso de dúvida, ouvir sempre primeiro aquilo que se sente, e depois aquilo que se pensa. O contrário não funciona, anyway.

Incompreensões

Não percebo porque é que a imagem do drunken sailor é usada para fins tão depreciativos. Afinal contribuímos para as economias locais, não?

Dissonância cognitiva, uma tentativa de definição

Almoço na Guadeloupe enquanto leio as notícias sobre a Grécia.

(PS - É bom ser esquizofrénico.)

Não política

Ou seja, padres e militares?