31.5.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 31-05-2019

Escrever no meu quarto é como fazer amor na casa de banho de um avião: só funciona nos filmes. Acendo três velas para ver se o cheiro a merda desaparece e venho para a Tasquita, mistura perfeita de espaço para escrever e animação distractiva dos disparates, serão com certeza muitos. Desde Genebra (e Londres, vá lá) que não estou numa cidade tão cosmopolita como Palma (suponho que a Lisboa hodierna o seja, mas não faço parte da comunidade imigrante).

A mesa de hoje parecia uma viagem àquele tempo: uma argentina, uma meio-holandesa meio-inglesa, uma jamaicana, um não-sei, um inglês e um português, quanto às nacionalidades. Orientações sexuais: três. A jamaicana e a meio-holandesa são "casadas" (com ou sem aspas), o não-sei é "casado" com um maiorquino (idem, mas o marido é rico e não estava ali), o resto opta por parceiros daquilo a que a Marguerite Yourcenar chamava a "inefável diferença" (invento. As aspas são abusivas; além disso o marido da argentina também não deve sofrer de problemas financeiros agudos). Havia ainda três ou quatro cachorros. As línguas faladas eram espanhol, inglês e português: a meio-holandesa e a argentina falam um português do Brasil quase perfeito e têm orgulho em mostrá-lo. A única diferença com Genebra é que naquele tempo ninguém falava português e quem falava tinha vergonha de o mostrar.

Gosto de estar ali, com um pé dentro e outro fora, como sempre: não sei estar e não-estar aborrece-me. Foi divertido, gosto muito da meio-holandesa e só me vim embora por causa das mamas da argentina: oprimiam-me de tão belas. Não sei se a megalomania pode ser diacrónica, mas caso possa: estaria pronto a apostar que a Janis Joplin disse aquilo ao Leonard Cohen a pensar em mim. A beleza é opressiva, sobretudo quando não lhes podemos tocar.

........
Passei a tarde no carro, a guiar entre um dos múltiplos "poligonos" e o STP. Comprar ferramentas eléctricas, por um montante que já justifica estas viagens. Segunda-feira vou ter de devolver uma as máquinas que comprei, porque encontrei uma mais barata, mas não é isso que me marcou.

O que me marcou foi esta confirmação de que gosto muito de conduzir, sobretudo nas cidades. Só há duas coisas que não aprecio: a quantidade de manípulos, pedais, botões, volante que se devem manipular - três pedais, pisca-pisca, luzes, água atrás, água à frente, rádio, alavanca das mudanças, é um nunca mais acabar de coisas - e a atenção que se deve prestar à estrada. Conduzir seria uma actividade apaixonante se não incluísse estes dois escolhos.

.........
Há uns anos expliquei ao meu filho a teoria do Baudrillard sobre as duas funções das coisas: aquela para que são feitas e transmitir informação. Isto das velas é um exemplo magnífico. Comprei três no Mercadona (de tamanhos diferentes) por três euros. Na Rituals ontem pediam-me quinze euros pela mais barata, que não é fundamentalmente diferente e muito menos maior. Também as vi a vinte e vinte e cinco euros, numa loja cujo nome não recordo. Não sou especialmente frugal, mas pergunto-me o que levará um gajo a comprar velas pelo décuplo do preço.

Baudrillard explica e o tio Luís confirma: prefiro uma noite de mau cheiro a ser tomado por iletrado.

........
História de talentos por descobrir: fui recentemente ouvir uns músicos ao Door 13, um excelente bar em Palma. Eram francamente bons e fizeram-me pensar nos seus equivalentes na vela. Não há: não temos Peyron desconhecidos, ou Tabarly ou Desjoyeaux.

Não sei se isto é uma qualidade ou um sintoma, mas opto por aquela.

Light, grace

The unlit summer in your face.

Gelo

Recordo esse corpo que amei como o patinador percorre o lago gelado: levemente, mal tocando o gelo.

30.5.19

Graus, penas e humor

Uma das muitas coisas boas da idade é um gajo aprender que a maioria das pessoas não percebe o humor. O segundo grau já é muito alto. E apesar disso divertir-se a servir-lhes piadas no quinquagésimo quarto grau, sem sequer sentir pena.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 30-05-2019

Devia fazer um roteiro de bebidas e bares: Painkiller no Soggy Dollar Bar em Jost van Dyke, uma das Ilhas Virgens Britânicas (BVI para os íntimos). Alexander no Procópio, em Lisboa, indubitavelmente o melhor bar do mundo e arredores, que certamente por simples coincidência tem o melhor barman do mundo (e arredores, vá lá). Margarita no bar de uma das marinas de Puerto Vallarta, no México. Não me lembro de qual mas aposto que seria capaz de lá voltar de olhos vendados, tão boa é a recordação que tenho daqueles baldes - piscinas - da mistura hipnotizante de doce e amargo, coabitam mas não se misturam, como aqueles rios no Brasil que correm lado a lado durante centenas de quilómetros. Piña Colada no Barrachino, em S. Juan de Puerto Rico, o bar onde foram inventadas e onde me embebedei com a minha filha, creio (que me embebedei. Estava com a minha filha, isso é certo). Mai Tai no Trader Vic's, em Oakland, onde me engrossei com uma das melhores tripulações com as quais me foi dado navegar.

Em La Guaira (ou pelo menos lá perto) bebi há muitos anos o melhor Cuba Libre de sempre - isto é um duplo oxímoro: para além daqueloutro óbvio, o Cuba Libre é um cocktail horrível. O do Paolo, um fascista italiano daqueles que defendia Mussolini porque põs os comboios italianos a andar a horas era simplesmente esplêndido. Não era o melhor por manifesta ausência de concorrência. Já não deve existir, vai para o arquivo. Mojito no Rana Dorada (o do Casco Viejo), na cidade de Panamá (nunca mais bebi um igual e o sacana do colombiano que mos fazia foi-se embora sem pré-aviso. Fiquei descalço de calças na mão). Whisky de malte no Piano Pub de La Rochelle, onde tive o privilégio, a honra, o prazer de aprender tudo sobre essa bebida pelas mãos do... do... do dono do lugar, uma torre com duas pernas e um bigode, jogador de rugby, montanha de sensibilidade com a qual hesitaria duas vezes - não, duas mil - antes de me bater com ele: um murro demolidor dado com sensibilidade é ainda mais demolidor, não é?

Escrevo no Tasquita d'Esquina, o único sítio em Palma que consegue rivalizar com o Antiquari e ganhar-lhe, tantas vezes. É provável que esta lista vá sendo acrescentada - lembro-me de uma Cachaceria em S. Luís, por exemplo; da Pilotine, em Dunkerque, também já passada àquele vasto terreno baldio da memória; da Casa do Largo, que era do Largo e do Luís e minha, onde escrevi algumas das poucas páginas decentes que escrevi; o Door 13 ainda não entrou para este panteão, mas falta muito pouco. Basta eu começar a gostar de cocktails modernos; lembro-me de um Dry Martini divino, genial, sublime - mas não me lembro de onde era...  Pouco importa: o roteiro é sobre bares, não sobre memórias. [Skullduggery, porra. Como consegues esquecer-te de mencionar o Skull? E o Palmar Tent Lodge, em Bastimentos, Bocas del Toro, Panamá??? Dark & Stormy em St. John's, Corral Bay. Come se chamava o bar? Quero lá ir agora.]

(Nota: o medronho da Tasquita acabou. Isto ou é maldição ou é azar: ao Fernet do Antiquari aconteceu o mesmo, ao vermute do qual eu gostava no Ca na Chinchilla também.)

..........
Animula vagula, blandula. Deambula, animula, passeia por essas ruas que ora te levam a um bar ora a ontem, bifurcações imprevistas: ou secas a adega aqui ou a secas ali e em todo o lado és bem vindo. Como é que fazem para não ver? Se calhar vêem e nesse caso quem não vê és tu, animula vagula, blandula, hóspede deste corpo que nunca verdadeiramente amaste e tanto te maltratou.

.........
Bifurcados, unifurcados, enforcados, forcados: morro num mundo no qual se morre por uma vírgula.

........
Hoje quis comprar um livro de Gamoneda, mas a Babel não tinha.

"Detrás de la oscuridad están los rostros que me han abandonado.

Yo ví su piel trabajada por relámpagos. Ahora

ya sólo veo, en el instante amarillo,

el resplandor de sus lejanos párpados."


Ou então:

"Vienen con lámparas, conducen

serpientes ciegas a

las arenas albarizas.



Hay un incendio de campanas. Se

oye gemir el acero

en la ciudad rodeada de llanto."



É por causa destas coisas que queria comprar Gamoneda. Felizmente tenho a argentina selenita e sublime em casa, na cama mesmo ao lado da minha.

"La memoria es mortal. Algunas tardes, Billie Holliday pone su rosa enferma en mis oídos.

Algunas tardes me sorprendo

lejos de mí, llorando."


Nunca choro perto de mim, ou só raramente: detesto que me vejam chorar. É como ser apanhado a roubar no supermercado: toda a gente sabe que o fazemos por necessidade, mas isso não invalida a fundamental ilicitude do acto.

........
Ontem pensava na resiliência da depressão; hoje penso na da vida, muito maior: "Somos todos uns farsantes, sobrevivemos aos nossos problemas".

A ver vamos onde isto vai parar

Compara-se tantas vezes o nevoeiro ao algodão. É compreensível, têm muitas coisas em comum. Não que eu as veja, claro: para mim, algodão é algodão e nevoeiro nevoeiro. Não percebo onde vão eles buscar parecenças. Devem ter um saco delas e depois tiram uma ao acaso. Eu gosto: são melhores do que as minhas, inexistentes de tão limitadas.

29.5.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 29-05-2019

Swing no Door 13. A banda é excelente: um viola, um senhor que alterna entre viola ritmo e clarinete e uma cantora com o físico do emprego - fina e alta - vestida a preceito e com uma energia impecável. Toca gaita de beiços e dança divinamente. É Suíça, fico a saber agora.

Começo com um Mai Tai, marginalmente melhor do que o do No Stress, onde estive antes (e provavelmente ao dobro do preço). Já a Marguerita é dez vezes melhor (e se calhar só custa o dobro). As coisas equilibram-se.

Seja como for, com música desta até whisky traficado se beberia. Felizmente o Door 13 é um bar sério, um speakeasy moderno, com produtos excelentes e profissionais quase tão bons como o Luís do Procópio, o Luís da ex-Casa do Largo ou o Senhor Miguel do Pavilhão Chinês.

Não me interpretam mal: este quase não tem nada a ver com a qualidade intrínseca dos senhores. Tem a ver com o facto de eu não os conhecer bem e nunca ter falado com eles.

Quem é quase sou eu.

.........
Somos o que somos quando interagimos com os outros. Sozinhos não passamos de nós próprios.

(A ideia não é nova mas a formulação é e preciso de a pensar. Era Borges que dizia "Todos acabamos por nos parecer com a ideia que os outros fazem de nós"? Era, creio.)

........
Um gajo vai para a cama com uma senhora - bonita, por sinal - e a coisa resulta horrível, mais ou menos como tentar entrar numa parede de granito com uma colher de sobremesa. É uma situação que não tem culpados. Não há culpa. A coisa não funcionou, é tudo, seja qual for a razão.

Infelizmente, o nosso tempo transformou a culpa numa coisa pervasiva. Está em todo o lado. O acaso, a força das coisas, o tinha de ser desapareceram. Hoje há um culpado para tudo o que corre mal (e concomitantemente um herói para tudo o que sai bem).

Megalomania, é o que é. Precisaria de ser um Titan para sobreviver a tudo o que me correu mal se fosse eu o culpado, ou outro inocente qualquer. Reconhecer que as coisas são o que são e não há muito que possamos fazer é simultaneamente um reconhecimento de impotência e uma prova de força: não sou culpado e convivo muito bem com isso - e comigo.

.........
Uma das coisas que me impressiona na depressão é a sua resiliência.

(Cont.)

Transparência, opacidade

Transparência. É da transparência que gostaria de te falar, se por acaso tu gostasses de me ouvir. Nada é menos certo, o que só demonstra a opacidade do teu gosto.

Lembro-me de ti de costas à minha frente, mais opaca do que um passado. Nunca vi ninguém com tanta vontade de fazer do passado uma transparência como as que se vêem nos lagos de montanha. Bom, não importa. Não digas ainda, mas amar-te vai ser melhor hoje do que foi ontem.

Sombra de los días a venir

A Ivonne A. Bordelois

Mañana
me vestirán con cenizas al alba,
me llenarán la boca de flores.
Aprendré a dormir
en la memoria de un muro,
en la respiración
de un animal que sueña.

Alejandra Pizarnik, in Poesía Completa, ed. Penguin Random House, col. Lumen, pág. 202

28.5.19

Pergunta nómada

Viajar por onde já se andou conta como viajar ou é simplesmente regressar a casa?

Uma questão simples

A questão é simples: falar de mim é enjoativo; do resto irrelevante, porque há quem o faça muito melhor do que eu. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 28-05-2019

Menos três / duzentos e vinte e oito / zero. Três números que definem e delimitam outro glorioso embarque num avião: três boras antes da descolagem estava a duzentos e vinte e oito quilómetros do aeroporto, com zero meios de transporte definidos e muito menos reservados. Se volto a ouvir alguém dizer mal da internet, dos telefones portáteis e da modernidade em geral não sei o que faço. (Provavelmente nada; limito-me a pensar "idiota", ou "coitado", no caso de ele o ser já de antes). Desta vez quem me tirou de apuros foi a Blablacar e quem me meteu neles foi a habitual mistura de desleixo, falta de vontade de pactuar com companhias aéreas que de baixo so têm o serviço e a aplicação daquela regra simples da ética que diz "Não faças aos outros o que não queres que fe façam a ti."

As recompensas do outro mundo motivam-me pouco. Desta vez confirmei apenas que se pode ser correcto e atingir os nossos objectivos. Dependendo desses objectivos, claro. Devemos escolhê-los de forma a podermos comportarmo-nos de uma forma aceitável.

Enfim, vasto debate. A ética sai caro, é coisa de ricos. Ou se tem dinheiro para ela ou se aceita não o ter. Seja como for: agora é tarde para ser dono de um avião privado (a menos que me saia o toto-milhões, pouco provável porque raramente o compro), mas não é tarde para continuar a não fazer aos outros o que não quero que me façam a mim.

(Devo dizer que a minha bondade foi premiada com um par de mamas do outro mundo - o mundo jovem - generosa mas não devassamente expostas mesmo ao meu lado no avião? A ética compensa.)

..........
Chego a Palma e sou recebido de braços abertos, graciosa e opulentamente: depois de tratadas as formalidades do automóvel acorro ao Aurélio, que está a fechar e só me pode servir um vermute na brasa e me aconselha uma tasca do outro lado da rua que é, diz ele, muito boa. Diz ele, digo eu e dirá qualquer pessoa de bom senso ou bom gosto, coisa que às vezes sou. 

27.5.19

Monossílabos

Deito-me e embrulho-me em calor. O quarto tem ar condicionado mas não o ligo. Prefiro esta atmosfera quente, terna, aconchegante, na qual me dissolvo serenamente.

É segunda-feira mas a praça à frente do hotel está a abarrotar de gente. O barulho chega-me filtrado, como se ao ar quente faltasse energia para fazer de relai.

Apago a luz e preparo-me para não dormir: deixo-me simplesmente invadir por esta sensação de bem-estar com que um simples monossílabo conseguiu encher todos os interstícios da minha vida.

Diário de Bordos - Sevilla, Andaluzia, Espanha, 27-05-2019

Não é só as árvores, o calor e as mulheres bonitas. Há mais qualquer coisa que torna impossível um gajo não gostar destas cidades do Mediterrâneo mal lhes dá um passo pelos centros tortuosos, apertados e contorcidos como uma toalha de praia que se espreme para se lhe tirar o excesso de agua, depois de uma rajada a ter levado à água.

É o desleixo. O poder apelativo do desleixo é sistematicamente mal apreciado, passa despercebido mas a estética que dele resulta é poderosa. Esta mistura de arquitecturas imponente, pragmática, "o-que-pôde-ser", "estou-me-nas-tintas-para-o-que-os-outros-pensam", de ruas que não estão sujas mas tão pouco limpas, mesas que nascem como árvores e árvores onde não cabe uma cadeira só prova uma coisa: um mediterrânico é um tipo que sabe o que é a grandeza e convive com a desordem, sabe o que é belo e aceita a fealdade, é simultaneamente asseado em privado e sujo no público, entende que o caminho mais curto entre dois pontos é o mais bonito e não uma linha recta e - sobretudo - sabe dar valor ao que o merece e não dar ao resto.

Um mediterrânico sabe que o desleixo é a vida e a ordem morte. Ainda os termos entropia e neguentropia não existiam e já os mediterrânicos os aplicavam consciente e apelativamente.

........
Por razões que têm a ver com o que têm a ver tive de ficar em Sevilha esta noite. Passei a tarde a dormir. Sonos velhos, acumulados, quase a perder a validade. Até amanhã terei de contar os cêntimos, literalmemte. O desleixo é bonito e caro, quase tanto como o voto.

........
Escrevo numa tasca mesmo debaixo da televisão que aqui, ao contrário de Portugal, tem som. Programa de culinária. Um gajo qualquer que não vejo mas oiço diz que os "embutidos" são opcionales. Há alguma coisa que o não seja, minha besta? Tabarly (admitidamente a coisa mais perto de um deus que a evolução jamais criou) um dia fez um Pato com Laranja sem pato e sem laranja, só com arroz e diz quem o provou que estava óptimo, que foi o melhor pato com laranja de sempre.

(Verdada que tinha muito humor, um ingrediente que substitui praticamente tudo, na cozinha e fora dela.)

.......
Sacana do tele-cozinheiro não se cala. vou pregar para outra freguesia.

26.5.19

Pequeno dicionário de sinónimos modernos

Neoliberal: demónio, maligno, Satanás, Lúcifer;

Neoliberalismo: pecado, obras do demo, conjunto de acções, teorias e sonhos que junta ou separadamente constituem o Mal;

Aquecimento global: método pelo qual o Maligno tenta levar a humanidade ao Inferno, Mafarrico;

Ambientalismo: resposta das forças do Bem na luta de vida ou de morte contra o Mafarrico;

Capitalismo: outro método do demo para levar a humanidade à morte. É um metodo traiçoeiro porque finge que espalha prosperidade por onde passa. É mentira: só na aparência as pessoas ficam mais ricas, comem melhor, são mais livres e vivem nais tempo;

Verdes: pessoas, animais e outros seres que existem para desmascarar os malefícios do capitalismo, recorrendo às armas e artimanhas deste.

25.5.19

Votos

Que a tristeza te seja tão fugaz como a felicidade. 

Coisas, espanto

As "coisas" estão a correr bem, finalmente. Como um rio que corre do delta para a nascente: vasto rio, vasto e indefinível delta.

Daí as aspas: a que coisas se refere esse "coisas" que tão bem correm? Coisas atléticas? Coisas dessas geografias todas de que é feita uma vida: geografias de amores, trabalhos, geografias (passe a redundância)?

"Não sei, não quero saber e tenho raiva a quem sabe", diz a fórmula: limito-me a timonar o correr do rio, um bocadinho ofegante de cansaço, isento de impaciência... espantado, quase.

Compondo (como se pode)

A idade não me provoca engulhos de maior: sou indubitavelmente melhor pessoa agora do que há quarenta anos. Algumas funções estarão talvez longe do seu melhor nivel, mas enfim. Lá se vai  compondo.

24.5.19

Viver?

Mais ou menos como estar deitado em cima de uma passadeira rolante, acordar mesmo antes do fim, levantares-te ainda estremunhado de sono e correr para a outra ponta, tentar refazer o percurso sem dormir na forma.

23.5.19

Realidade, cânticos e tudo

"Human kind / cannot bear very much reality", dizia um tipo que percebia de terrenos e da humanidade. Penso nisto porque esta conversa do ambientalismo me leva àquela que me parece a verdadeira questão: por que raio de carga de água não pode a humanidade viver sem um demónio, sem um mal? Um gajo mata Deus e mata o Diabo ao mesmo tempo, claro; e a primeira coisa que o homem faz é substituir um e outro. Porque não se substitui só um deles, o bom, o Deus?

Porque um não pode existir sem o outro, estúpido. Que raio de religião seria o ambiente sem a ameaça de cheias, cancros e desgraças múltiplas?

Tenho absolutamente de reler o Cântico para Leibowitz. Estava lá tudo e lembro-me de tão pouco.