27.3.04

Ausências

Um transporte para Vigo que levou mais tempo do que devia, quinze dias de cruzeiro nas Caraíbas, transporte de Vigo e regatas: este blog vai estar inactivo por mais duas ou três semanas, ao contrário de mim.

19.3.04

"Disgrace"?

Não. Um caso simples de senilidade política.

18.3.04

Lucidez

"É preciso imaginar Sísifo feliz e livre", dizia Camus, se bem me lembro no "Homem Revoltado".

Lúcido. É preciso imaginá-lo lúcido, para que o castigo seja completo, total, irremissível.

16.3.04

"Disgrace"

"Disgrace" é o título de um dos melhores livros que li ultimamente; fala da situação actual na Àfrica do Sul, um país em que os velhos valores já deixaram de o ser e os novos ainda não são; fala da desgraça que é a ausência de ética, substituída pela "sobrevivência", pela "adaptação à realidade", pelo "reconhecimento" da força e das relações de força como únicos parâmetros das relações humanas, num país em que a moral, a ética e tudo o que cimenta a vida em sociedade desapareceram. Sei que a comparação do que se passa, e diz, na Europa depois dos atentados em Madrid com a situação na África do Sul é exagerada. Mas é o único termo que me vem à mente, quando oiço pessoas como Francisco Louçã, ou Carlos Carvalhas, na televisão, e quando leio alguns dos blogs nacionais, e quando vejo as declarações de Zapatero sobre a retirada das tropas espanholas do Iraque.

"Disgrace".

15.3.04

Alessandro Baricco

De "Soie", ed. Gallimard, collections Folio, tradução de Françoise Brun.

A mais bela carta de amor que me foi dado ler:

"Mon seigneur bien-aimé,

n'aie pas peur, ne bouge pas, garde le silence, personne ne nous verra.

Reste ainsi, je veux te regarder, je t'ai tellement regardé mais tu n´étais pas pour moi et à présent tu es pour moi, ne t'approche pas, je t'en prie, reste comme tu es, nous avons une nuit pour nous seuls, et je veux te regarder, jamais je ne t'ai vu ainsi, ton corps pour moi, ta peaux, ferme les yeux, et caresse-toi, je t'en prie,

n'ouvre pas les yeux, si tu le peux, et caresse-toi, tes mains sont si belles, j'ai rêvé d'elles tant de fois que je veux les voir maintenant, j'aime les voir ainsi, sur ta peau, continue, je t'en prie, n'ouvre pas les yeux, je suis là, personne ne peux nous voir et je suis près de toi, caresse-toi mon bien-aimé seigneur, caresse ton sexe, je t'en prie, tout doucement,

elle est belle, ta main sur ton sexe, ne t'arrête pas, j'aime la regarder et te regarder, mon bien-aimé seigneur, n'ouvre pas les yeux, pas encore, tu ne dois pas avoir peur, je suis près de toi, m'entends-tu? je suis là, à te frôler, c'est de la soie, la sens-tu? c'est la sie de ma robe, n'ouvre pas les yeux et tu auras ma peau,

tu auras mes lèvres, quand je te toucherai pour la première fois ce sera avec mes lèvres, tu ne sauras pas où, à un certain moment tu sentiras la chaleur de mes lèvres, sur toi tu ne sauras pas où si tu n'ouvres pas les yeux, ne les ouvre pas, tu sentiras ma bouche, tu ne sauras pas où, tout à coup,

ce sera peut-être dans tes yeux, j'appuierai ma bouche sur tes paupières et sur tes cils, tu sentiras la chaleur pénétrer à l'intéreur de ta tête, et mes lèvres dans tes yeux, dedans, ou bien ce sera sur ton sexe, j'appuierai mes lèvres, là, et je les entrouvrirai en descendant peu à peu,

je laisserai ton sexe ouvrir ma bouche, pénétrer entre mes lèvres, presser contre ma langue, ma salive descendra le long de ta peau jusque dans ta main, mon baiser et ta main, l'un et l'autre mêlés, sur ton sexe,

et puis à la fin je baiserai ton coeur, parce que je te veux, je mordrai ta peau qui bat sur ton coeur, parce que je te veux, et quand j'aurai ton coeur sous mes lèvres tu seras à moi vraiment avec ma bouche dans ton coeur tu seras à moi, pour toujours, si tu ne crois pas alors ouvre les yeux mon bien-aimé seigneur et regarde-moi, je suis là, quelqu'un pourra-t-il jamais effacer cet instant, mon corps que la soie ne recouvre plus, tes mains qui le touchent, tes yeux qui le regardent,

tes doigts dans mon sexe, ta langue sur mes lèvres, toi qui glisses sur moi, et prends mes hanches, et me soulèves, et me laisses glisser sur tn sexe, doucement quelqu'un pourrait-il effacer cela, toi qui en mi lentement bouges, tes mains sur mon visage, tes doigts dans ma bouche, le plaisir dans tes yeux, ta voix, tu bouges lentement et cela me fait presque mal, mon plaisir, ma voix,

mon corps sur le tien, ton dos qui me soulève, tes bras qui ne me laissent pas partir, les coups à l'intérieur de moi, la violence et la douceur, je vois tes yeux chercher les miens, ils veulent savoir jusqu'où me faire mal, jusqu'où tu veux, mon bien-aimé seigneur, il n'y a pas de fin, cela ne peut finir, ne le vois-tu pas? personne jamais ne pourra effacer cet instant, pour toujours tu lanceras ta tête en arrière, en criant, pour toujours je fermerai les yeux, laissant mes larmes se détacher de mes cils, ma voix dans la tienne, ta violence à me sentir serrée, il n'y a plus de temps pour fuir ni de force pour résister, cet instant là devait être, cet instannt est, crois-moi mon bien-aimé seigneur et cet instant sera, maintenant et à jamais, il sera, jusqu'à la fin,

- Nous ne nous verrons plus, mon seigneur.

- Ce qui était pour nous nous l'avons fait, et vous le savez. Croyez-moi: nous l'avons fait pour toujours. Gardez votre vie à l'abri de moi. Et n'hésitez pas un instant, si c'est utile à votre bonheur, à oublier cette femme qui à présent vous dit, sans regret, adieu.


Para apreender a beleza deste texto em toda a sua plenitude é imprescindível ler o livro. Leiam-no. É imprescindível.

Nuno Júdice (Fragmentos)

Fragmentos porque não posso transcrever tudo...

"Recolhido a bordo, eu era a imagem do náufrago, sem possuir, porém, as suas qualidades profundas. Momentaneamente assimilado a uma situação, ou antes, surpreendido dentro dela sem a ter vivido, eu era mais o feto - e, sendo o feto, o inocente na exacta significação do termo. Nenhuma culpa me perturbava, e se o olhar dos homens, posto sobre mim, tinha por vezes brilhos acusadores, nem eles saberiam explicar completamente esse facto. ..."

"... O desenho informe, e no entanto claro, de uma alma desordenada; ...
... Subitamente lembro-me:
são as tuas mãos, os livros que nunca li, os sinais amontoados na sucessão
dos dias e das noites, a vertiginosa descida da gaivota em direcção ao mar.
Há quanto tempo, pois, me afasto da interminável vida, preso à obsessão da morte,
à presença fixa do desespero em cada olhar doente que fixo..."

"...Ser é um corpo que o efémero transforma. ..."

A verdade

é que o jantar foi uma m... - num restaurante chinês da Baixa, chamado Peace - sim, eu sei, devia ter desconfiado -. Mas estava cheio de chineses - critério incerto, em muitos sítios: em Genève também há muitos restaurantes portugueses cheios de portugueses, e não há um que se aproveite; e tinha um inglês de rabicho que falava chinês fluentemente (fez-me lembrar o livro de um amigo, cujo personagem principal, francês, falava chinês com o proprietário do restaurante chino onde ia assiduamente comer - inutilmente: o dono, da segunda geração de imigrantes, não percebia patavina do que o cliente lhe dizia).

E o tempo insiste em não passar, cada minuto maior que o anterior.

Agora, em casa, oiço Swayzak, que não posso senão aconselhar, e bebo uma vodka gelada, e penso nos dias em que o dia de hoje será passado.


Vinhos do Porto,

dois.

O primeiro, um Vintage da Ferreira, de 1997. Um falso alarme. Como é que se diz "falso alarme" em linguagem vínica? O nariz é rico, o ataque não é ataque, é uma explosão - and then they're gone. Desvaneceu-se. Nada.

O segundo, um LBV (1997) de uma casa que não conhecia: Sao Pedro das Águias. Não filtrado, apesar de nada haver no rótulo que o indique. Esplêndido: nariz rico também, um ataque e um final de boca equilibrados, um gosto que nos enche de vontade de ir ao Douro ver de onde vem.

Há tanta relação entre o preço de um vinho e o prazer que ele nos proporciona como o que há entre a beleza de uma mulher e o dito prazer. Pouca, ou efémera. Porque as fontes do prazer não se vêem - adivinham-se, por vezes e quando muito. Tal como no vinho, num livro, num filme, numa paisagem (ou num boletim meteorológico, mas isso é outra história).

Mais vale... estar calado.

13.3.04

Os malefícios do vinho e as ruas de Maputo

A saga continua: ontem fui para os copos - por qualquer razão o meu relógio enológico anda adiantado e saio às quintas em vez das sextas, como toda a gente - e hoje escorreguei, pela primeiríssima vez na vida, na banheira enquanto tomava o duche de Julho. A mão direita foi direitinha ao suporte do chuveiro e fiquei com um lindo golpe mesmo na base do polegar direito. Já merecia um ponto ou dois, mas deixei-o ficar assim para aprender.

Devo dizer que foi uma noite bonita, com um excelente grupo de batuque no Gil Vicente e uma garrafa de whisky que, devido a um ou mais buracos se esvaziou assim que se abriu.

Mas o mais giro são as ruas de Maputo. Graças às eleições que se avizinham, o Conselho Executivo (Câmara Municipal) resolveu alcatroar as ruas da cidade. Allah U Aqbar. E assim foi. África estando há séculos na época digital, zero ou um, fecharam avenidas inteiras. Uma pessoa sai do Polana para ir para a 24 de Julho e dá por ela na baixa, porque fecharam a Julius Nyerere (António Enes) toda. Mas África sendo África e tendo um avanço sobre todos os outros continentes no que respeita à hidráulica, fluidos e quejandos, a coisa resolveu-se num instante. E é portanto frequente verem-se carros com as fitas encarnadas e brancas usadas para fechar as ruas pegadas à grelha do radiador... Uma parte do tráfico faz-se pelas ruas que estão fechadas ao trânsito e outra pelas metades de sentido contrário das avenidas. Tudo isto sem confusão, sob o olhar plácido dos polícias, operários e dos outros condutores. Nos pontos de junção, os diferentes fluidos de tráfico juntam-se sem problemas, nem buzinadelas, nem acidentes. É como a água, corre sempre pelo sítio mais fácil, contorna os obstáculos e vai-os usando sem usar da força, por simples fricção. Que bonito!

Lord Gin

Ontem saí, afogar diabos e diluir tristezas. Cheguei a casa eram 3 da manhã. Hoje estou, como de costume, com o Menière aos gritos. Já não basta ter que ouvir o L. dizer-me que bebo muito, tenho agora também um polícia interno.

E a verdade é que não bebo muito, ou pelo menos não bebo demais: de vez em quando lá vou para a ginástica de balcão, mas está longe de ser frequente ou exagerado. E não chateio ninguém: bebo metodicamente e vou para casa dormir.

Em Lüderitz havia um piloto da barra chamado Jim. Era um viking enorme, parecia um arranha-céus. Tinha uma espessa cabeleira loira e uma barba meio arruivada. Era escocês, de Kintyre, e falava com o impenetrável sotaque daquelas bandas.

Quando chegávamos à bóia de espera o Jim entrava a bordo e nós mandávamos vir uma garrafa de whisky para a ponte. Sentava-se num dos armários e começava a beber. Quando chegava a meio da garrafa desatava a cantar o Mule of Kintyre, com uma voz bonita, de barítono - uma vez explicou-me o que é um Mule, mas ou me esqueci ou não percebi nada, o inglês dele era incompreensível mesmo quando sóbrio.

O trajecto entre a barra e o porto demorava quase uma hora. Quando chegávamos o Jim tinha acabado a garrafa, estava totalmente grosso e tínhamos que ser nós a fazer a manobra. Uma vez atracados, ele voltava-se para mim ou para o capitão e dizia: "agora que já acabou o trabalho, que tal se fôssemos beber um copo?"

Lüderitz era uma cidadezinha fascinante no sul da Namíbia: estava rodeada de deserto, mas a primeira coisa que se via à chegada era uma igreja gótica, coisa que não dava de todo com o resto. As pessoas gostavam muito do nosso navio porque dávamos muitas festas. O capitão tinha uma amante cujo marido gostava muito de nós, também, e nunca percebeu que uma das minha tarefas era entretê-lo enquanto o capitão e a mulher pecavam no camarote ao lado.

De resto o navio era querido por todos na África do Sul, excepto pelos colegas, invejosos: quando chegávamos a Cape Town todas as prostitutas flutuantes vinham esperar-nos ao cais e mudavam-se em peso para bordo do Altair. Na primeira saída ficámos muito tempo no mar, quase dois meses porque estávamos a pescar mal. Quando voltámos tínhamos as raparigas todas no cais a gritar "Alter, Alter" em coro, para raiva e frustração das outras tripulações, que achavam injusto. A maioria era muito feia, mas os marinheiros gostavam de as ter a bordo, e tratavam-nas bem.

Era um grupo grande de prostitutas que vivia nos navios, não tinham casa. Por vezes havia problemas: um dia houve uma zaragata entre duas delas e tive que ir acalmar a coisa. Uma estava furiosa, tinha na mão um facalhão que roubara da cozinha e não deixava ninguém aproximar-se. Fartei-me de falar com ela, a tentar pô-la numa posição que permitisse a alguém ir por trás e tirar-lhe a faca. Foi o cozinheiro, finalmente que o conseguiu. Era um homem porreiro, chamava-se M. e fazia o melhor bacalhau à Brás que jamais comi. Todos os dias vinha à rede comigo escolher um peixe para mim, que deixavámos depois no sal até ao dia seguinte. É um erro comer peixe no dia em que sai do mar, é muito melhor pô-lo no sal uma noite, enrijece as carnes e apura o gosto.

O Bacalhau à Brás do M. era conhecidíssimo em Cape Town. Cada vez que lá íamos tínhamos que convidar um dos diplomatas de Portugal. O homem arrefinfava no gargalo - ainda por cima acabávamos o almoço com uma queimada divina, tradição do navio - e eu tinha que o acompanhar para ele não cair ao mar, agarrava-lhe delicadamente num braço e ia até ao carro assim, diplomaticamente.

Cape Town foi uma grande escola para mim, em muitas coisas. Como toda a gente nós pescávamos com redes de malha inferior à permitida. O capitão tinha-me avisado que os inspectores de redes eram gajos porreiros, mas que detestavam que os tomassem por estúpidos. Quando vieram inspeccionar as nossas redes mostrei-lhes a rede legal ainda na embalagem de fábrica - nunca tinha sido usada. Eles fizeram um buraco no plástico, mediram a malha, apertaram-me a mão muito sérios e fizeram o certificado. Nem o olho piscaram.

Mas o país onde vi beber mais - e onde eu próprio mais bebi - foi na Rússia, em Nakhodka. Quando se pedia um vodka orange vinha um copo grande, de água, cheio de vodka e um cálicezinho pequeno de sumo de laranja. A vodka vendia-se aos gramas, por unidades de cem gramas. Um duplo eram duzentas gramas. Mas o pedido mais frequente era trezentas gramas. E era preciso estar sempre a beber, porque volta e meia alguém dizia "Nazdharovia" e tínhamos que beber o conteúdo do copo de uma vez só. O truque consistia, naturalmente, em ter o copo o mais vazio possível, e cada vez que ele era cheio dar uma grande golada para ficar a meio. Uma vez saí de um restaurante que ficava no primeiro andar e quando cheguei às escadas apercebi-me que nunca iria conseguir descer aquilo. Deitei-me no chão e fui a rebolar até lá abaixo. Depois levantei-me, ainda um pouco tonto, mas digno, e fui para o navio.

Noutra noite fiquei a bordo e dei uma festa no meu camarote. Essas festas eram uma tradição, mas a maior parte da malta chateava-se porque eu e o imediato tínhamos o hábito de recitar Fernando Pessoa. Eles gostavam mais dos Cantos de Maldoror, que o imediato detestava. Mas enfim, a verdade é que a malta ia aparecendo e apesar dos protestos havia sempre uma récitazinha de poesia. À medida que as garrafas se iam esvaziando eu ia deitando-as fora pela vigia, atirando-as com muita força para ver se se partiam. No dia seguinte quando desci o portaló esperava-me um guarda (cada navio tinha 3, um à proa, outro ao portaló e o último à popa) totalmente enraivecido: a vigia dava para o portaló, para o sítio exacto onde ele estava, e ia apanhando com cada uma das garrafas que foram despachadas via aérea. O navio tinha mudado de lado e eu pensava que as estava a atirar para o gelo.

Em Nakhodka tinha uma namorada chamada Vicky, que era linda como um dia de sol. Era do Konsomol e desaprovava vigorosamente os meus excessos vodkistas. O primeiro presente que lhe dei foi uma escova de dentes - a rapariga não lavava os dentes havia anos, estavam verdes como os dólares que tanta falta me fazem. Mas era bonita, e ainda mais bonita ficou com os dentes lavadinhos.

Se houvesse um pouco de justiça no mundo o fígado seria um músculo, e fortalecer-se-ia cada vez que se bebesse um copo. Mas não é, nesse aspecto a evolução tomou o caminho errado.

Um nome giro para um bar seria "Lord Gin", não?


Genève, 2000

Photos et videurs

L'autre jour je me suis "ivré" à mort. "A mort" est l'expression clé: il devrait être interdit de conduire dans cet état, c'est dangereux. Après le Marchand de Sable et une bouteille de vin chez un copain je suis allé au Bar du Nord, qui a été, pendant longtemps, le seul bar à Genève digne de ce nom, et au café da la P…. La serveuse y est très belle, avec des seins comme la Tour Eiffel, en plus petit. Le bistrot était vide. Il n'était pas sordide, ou triste, ou déprimant; non. Il était seulement vide. J'eus envie de photographier un bistrot vide et des seins qui se ressemblaient à la tour Eiffel, mais j'étais complètement ivre. Je n'aurai pas pu photographier mon ombre, l’eussiez-je voulu. Je voulais penser à Baudrillard, mais je ne voyais qu'un bistrot vide et des seins magnifiques, de ceux pour lesquels la lune se lève les nuits de pleine lune. Je suis allé à la voiture chercher l'appareil et mettre un film dedans. J'ai oublié de régler la sensibilité du photomètre, ce qui n'était pas très grave car de toute façon je ne voyais rien de ce qui se passait dans le viseur, je ne voyais même pas ce que je photographiais.

Comment dit-on « bouncer » en français? Singe? Malabar? Videur? Toujours est-il qu'il est arrivé très vite, après deux ou trois prises seulement. Je suppose qu'il m'a dit que je ne pouvais pas faire de photos. Je n'en suis pas très sûr. Après, il m'a demandé la caméra et a enlevé la pellicule, avec une certaine difficulté. Je l'ai laissé faire sans réclamer, car je me suis dit qu'il croyait probablement que j'avais volé plein de magnifiques photos et que lui, le justicier, allait rendre justice à toutes les victimes innocentes de cette canaille, qui osait photographier une innocente serveuse dans un bar totalement vide. Je me pensais vaguement à l’Afrique, où l'on doit argumenter pendant des heures avec un policier à cause d'une photo, ou à ces mauvais films sur les dictateurs sud-américains. Pourtant le videur n'avait pas ces moustaches des dictateurs d'opérette ; et de toute façon je ne pouvais pas argumenter, ma bouche n'arrivant à proférer que des monosyllabes plus ou moins pâteux.

Il a enlevé le film et m'a rendu l'appareil avec une correction toute suisse. Le bien était fait et le mal vaincu. Que Dieu soit loué.

Je suis rentré et j'ai vomi tout ce que je pouvais vomir: le poulet du souper, les whiskies du Bar du Nord, les seins de la serveuse et le videur de la P…, Baudrillard et les souvenirs de photos autrement plus drôles, comme celles de l'aéroport de Kindu, ou d'autres bouncers, comme l'arabe de Gibraltar.

Célestin était douanier à Kindu quand j'y suis arrivé pour la première fois. Avec nous dans l'avion venait un belge d’une autre organisation qui s'est mis à mitrailler son appareil photo aussitôt arrivé à l'aéroport. Comme tout policier, douanier ou quelqu'un investi du moindre pouvoir en Afrique Célestin lui a dit qu'il ne pouvait pas faire de photos. Le belge a râlé quelque chose et Célestin s'est fâché.
- Donnez-moi le film - a-t-il dit au belge.
- Non - répliqua celui-ci.
- Je vais vous demander le film encore une fois. Si vous ne me le donnez pas, je vous demanderai l'appareil.
- Non.
- Donnez-moi l'appareil, s'il vous plaît, Monsieur, dit Célestin mielleux.
- Non.
- Je vais vous demander l'appareil encore une fois. Si vous ne me le donnez pas, je vais appeler l'armée et vous irez en prison.

Kindu était la ville la plus importante encore aux mains du gouvernement zaïrois. Il y avait une garnison conséquente et, comme je ne tarderais pas à découvrir, assez nerveuse.

- Non.
- Bon, alors je vais appeler l'armée. Vous êtes en état d'arrestation.
Célestin avait vu plein de films français, visiblement. Nous essayions d'aider le Belge et de convaincre Célestin à le laisser partir, mais il n'y avait rien à faire.

J'ai appelé Célestin de côté et je lui ai dit qu'il avait tout à fait raison. Il devait toutefois penser que le gars était seulement un peu bête et ne pas lui faire trop de mal.
- Ca ne dépend plus de moi: l'armée va arriver - répondit-il, souriant.

L'armée est arrivée, le Belge a perdu son appareil et a passé la nuit en tôle tout nu; il ne fût pas battu car nous avons intercédé pour lui autant que nous avons pu. Aussitôt le gars parti, Célestin nous invita à faire une photo souvenir avec lui, sur le tarmac de l'aéroport. A l'endroit précis où le belge avait fait sa dernière photo. Il sortit le lendemain de tôle, râlant encore contre les Zaïrois. On n'a pas réussi à convaincre l'armée à lui rendre son appareil.

Le bouncer du Café de la P… n'avait pas la moitié de la grâce de Célestin. Son regard était aussi vide que son bistrot et que mon estomac après que je l'ai eus vidé, une main contre la baignoire et une autre appuyée au grand téléphone blanc.

A Gibraltar un de mes bistrots favoris était un café horrible, vil et sordide comme la Londres de Dickens, au premier étage d'un vieil immeuble. C'était le point de réunion d'une grande partie des 10,000 soldats alors en poste dans la ville et n'était jamais vide, jamais. Le videur était un arabe énorme, qui ne parlait pas, ne riait pas, ne s'excitait pas. Quand il prévoyait des troubles, par ailleurs assez réguliers, il se plaçait tranquillement derrière le probable futur fautif. Si ses prévisions se concrétisaient, il prenait le gars par le fond des pantalons et par le col de la chemise et le balançait en bas de l'escalier. J'ai vu cette manœuvre plusieurs fois; jamais aucun des soldats n'est retourné en haut ni aucun de ses collègues ne s'en est pris à l'arabe, ce qui me faisait imaginer les scènes prodigieuses de bastonnade qui se sont certainement passées lors des débuts de service du videur. J'étais, alors comme maintenant, du côté des anglais dans la dispute sur Gibraltar et tout ce que je désirais était qu'il ne se mette pas au service des espagnols en cas de guerre: il était une espèce d'Obelix capable de décimer l'armée anglaise à lui tout seul (à la différence près que les victimes descendaient au lieu de monter).

Dans ce bar travaillaient deux filles que le patron forniquait en alternance, un jour l'une, le lendemain l'autre, assises sur la table de la cuisine, juste derrière le comptoir. Il n'y avait qu'un mince tissu qui séparait le bar de la cuisine. Chaque soir à la même heure il appelait la désignée du jour, l'asseyait sur la table et l'embrochait comme un poulet. La scène, projetée en ombres chinoises sur le tissu qui faisait office de rideau, était parfaitement visible par les clients assis au bar, mais plus personne ne faisait attention. En attendant, l'autre employée, à qui je n'ai jamais entendu le moindre susurre de protestation ou de remerciement, assurait le service. Je n'y mangeais pas, naturellement, car je n'ai jamais suivi la scène jusqu'à la fin et je ne savais pas s'ils (ou plutôt elle) nettoyaient la table après.

Un jour j'ai eu besoin de boire du Tia Maria, en souvenir des temps où je diluais mon adolescence dans Nietzsche, le whisky et le Tia Maria. J'étais assis au bar et quand je suis arrivé au dixième ou onzième verre l'Arabe est venu se placer derrière moi; vers le quinzième le patron m'a dit qu'il m'offrait les suivants; quand la bouteille était vide je me suis levé très dignement, j'ai dit bonsoir à tout le monde et je suis retourné à bord, où j'ai passé une nuit cruelle. Le mal de tête qui s'en est suivit a été très grand et s'est étendu sur plusieurs jours. Mais j'avais acquis le statut de héros, et désormais le videur me souriait chaque fois qu'il me voyait arriver en haut de l'escalier, sa place habituelle.

As primeiras chuvas

Chove a rodos. São as primeiras chuvas. Esperemos que desta vez não haja inundações. No Burundi, quando chovia, podia ver-se o capim a crescer. Enfim, quase: saía-se de casa de manhã e à tarde quando voltávamos a erva tinha crescido uns bons centímetros. Era mágico.

Eu, continuo à espera da chuva, a outra, que faça crescer o negócio e prosperar quem nele trabalha. A situação é grave. Enfim, desculpem-me chatear-vos com estas histórias e com a chuva metafórica que se faz esperar. Às vezes, a vontade de dizer o que me vai no coração é grande, enquanto oiço os Madrigais do Monteverdi e a chuva não-metafórica continua a cair.

Não serve de nada ir tabalhar: está um tempo para ficar em casa com um bom livro e uma má companhia, e enchermo-nos de cultura, de whisky e de seios.

A chuva cai, violenta, cinzenta, aborrecida, chuva. Em breve as ruas estarão inundadas. A Câmara refê-las, recentemente, mas utilizou um cascalho demasiado grande, que entope os escoamentos. É preciso dizer que há vinte e cinco anos que as ruas se enchem de água a cada chuvada - mas dantes eram necessárias três ou quatro horas de chuva, e agora uma chega. Ninguém consegue parar o progresso.


A chuva abrandou. Os Madrigais são esplêndidos. Oiço agora um cujo título é apropriado: "Omni amante é guerrier". Lamento não perceber o texto: o título faz crescer água na boca.


"C'était du sang, c'était
ce que tu as répandu, Seigneur.

Ca brillait."

" Nos yeux et notre bouche sont si vides, Seigneur.
Nous avons bu, Seigneur,
Le sang et l'image qui était dans le sang, Seigneur."

Termino com Celan, chave de ouro para um sábado lamuriento e pluvioso.



Maputo, 1999

Domingo

A chuva ontem foi-se subitamente e ficou só a metade fria e ventosa da frente. Hoje até essa se foi embora e está um dia magnífico, tão domingo, "tão sem vento". Quando cheguei à Friedrich Engels (ex- Duques de Connaught) tudo estava branco, um branco azulado, envolvente: nem a Xefina se via. Ao longe tudo era branco, branco, quase azul: um navio que entrava no porto, os restos do Hotel 4 Estações, a areia da praia, o ar, os pescadores na baía.

Tudo branco, tão domingo. Lembro-me de um poema que escrevi há uns anos, "mon âme est blanche / comme un dimanche matin dans une ville étrangère" e realizo que estou condenado a viver em cidades estrangeiras para o resto dos meus dias.


Maputo, 1998 (?)

PS 2004 - não estou, não.

CONTRA PHOTO GRAPHARE

Como na velha blague do Guitry: "Você vai casar-se? Contra quem?"

Porque a luz também serve para esconder as coisas.

Contra a morte, a solidão, o medo.
Contra. Por. Com.
As palavras.

Insónia

A vida é uma longa insónia; um dia olhamos para trás, e perguntamo-nos « que fiz eu esta noite, desta noite ? »

Matéria

Nada somos, se não carne para sonhos.

Jantar improvisado - Frango "orientalizante"

Ou fusionante, talvez seja mais correcto: começa-se por saltear chouriço, bacon, cebola, pimentos e uma cenoura. Retiram-se da frigideira e nessa gordura salteia-se o frango cortado aos pedaços - frango esse que terá, é importante, marinado uma ou duas horas em sumo de lima e sal.

Uma vez tudo bem dourado, põe-se a cozer numa panela, com caldo de legumes e um pouco da marinada do frango.

Especiarias:
Gengibre, curcuma (açafrão-das-índias), piri-piri, noz moscada (essa droga dos antigos marinheiros, que parece dá uma ressaca terrível), cravinho, coentros moídos, funcho, orégãos e pimenta preta, muita.

Não menciono o nabo que incluí, porque me parece dispensável.

Vinho: um DJ 2001, vinho da Estremadura, Touriga Nacional e Touriga Franca. Um vinho que suscita uma pergunta interessante: queremos beber um bom vinho, ou um bom vinho "português"? No primeiro caso, aconselho-o: é um vinho bom, equilibrado, com um nariz rico e um ataque suave. O final de boca é um pouco fugidio demais para o meu gosto, mas sem chegar a ser inexistente. No segundo não: é um vinho feito para a exportação, de taninos fracos, sem o corpo e a adstringência que caracterizam os nossos tintos. Acompanhou bem o jantar condimentado, mas não se deu muito por ele.

Prazeres da vela

O amor, claro, quando é o barco que dita o ritmo, e o desejo.

Os golfinhos, dos quais nunca me canso.

O duche, quando se volta para bordo depois de um banho no mar.

Nadar à noite no mar alto, sobretudo nos trópicos, onde a fosforecência da água faz parecer que estamos a nadar no meio de uma miríade de estrelas, ou cometas.

Uma sopa quente quando se acaba um quarto de noite.

Ir a nado para o restaurante.

Ver os miúdos, num barco que os tenha, chegar à terra - e a velocidade alucinante com que aprendem uma língua nova. Nos pontos de encontro de muitos barcos, como os Açores, Gibraltar, as Canárias, é frequente verem-se crianças de 4 ou 5 nacionalidades diferentes a brincar juntas e a falar uma das línguas do grupo, adoptada por todas.

Infecção urinária

Esta história passa-se em Quelimane, nos anos sessenta:

Um padre vai ao médico com uma "infecção urinária".
- Sabe, sr. Doutor - sente-se na obrigação de explicar - numa destas noites acordei cheio de calor, levantei-me para ir à cozinha buscar uma cerveja, fui descalço e, catrapás, apanhei esta infecção urinária.

"Esta infecção urinária" era, claro, uma gonorreia, que o Dr. V. tratou. No último dia do tratamento (naquele tempo, injecções ao que parece muito dolorosas de penicilina, creio) o médico volta-se para o padre e diz-lhe:

- Aqui está, senhor Padre, está curado. Mas, lembre-se: a próxima vez que quiser beber uma cerveja à noite, ponha uma camisa de Vénus no gargalo da garrafa, está bem?

Agradecimento

Um mais do que devido, mais do que atrasado e mais do que sentido Obrigado ao João Vaz, do Marítimo. Aqu fica o agradecimento, o pedido de desculpas e o link.

11.3.04

"A SMALL MULTILINGUAL VIDEO ABOUT POETRY, THEATRE AND LIFE"

CIORAN

Les "vérités", nous ne voulons plus en supporter le poids, ni en être dupes ou complices. Je rêve d'un monde où l'on mourrait pour une virgule.

L'histoire des idées est l'histoire de la rancune des solitaires.

Seuls les esprits superficiels abordent une idée avec délicatesse.

Rien ne dessèche tant un esprit que sa répugnance à concevoir des idées obscures.

Tout occidental tourmenté fait penser à un héros dostoïevskien qui aurait un compte en banque.

Si nous croyons avec tant d'ingénuité aux idées c'est que nous oublions qu'elles ont été conçues par des mammifères.

Les abouliques, laissant les idées telles quelles, devraient seuls y avoir accés. Quand les affairés s'en emparent, la douce pagaille quotidienne s'organise en tragédie.

Lorsque, liquidés les sujets de révolte, on ne sait plus contre quoi s'insurger, on est pris d'un tel vertige qu'on donnerait sa vie en échange d'un préjugé.

Plus un esprit court de dangers, plus il ressent le besoin de paraître superficiel, de se donner un air de frivolité, et de multiplier les malentendus à son sujet.

S'il me fallait renoncer à mon dilettantisme, c'est dans le hurlement que je me spécialiserais.



FERNANDO PESSOA

"Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes"

"Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há a vida..."

"A minha dor é silenciosa e triste
como a parte da praia onde o mar não chega."

"Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?"


EUGÉNIO DE ANDRADE

"Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas de sobra e ninguém te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela pátria, isso é contigo: pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te pertença, pois sempre pátrias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a direcção das nascentes."

"Porque palavra começar, porque desordem?"


PAUL ELUARD

"Je suis le germe du désordre."

"Je suis devant ce paysage féminin
Comme un enfant devant le feu"


BAUDOIN

Mais l’air du printemps est une chose souple et tendre.
Les pores s’ouvrent, tout l’espace entre
en nous et nous nous répandons délicieusement en lui.


T. S. Eliot

Human kind
Cannot bear much reality.

MILORAD PAVIC (Le Dictionnaire Khazar)

"Car le temps n'est que la partie de l'éternité qui retarde"

"Personne ne croit un homme nu même s'il dit qu'il a beaucoup de robes."


JORGE LUIS BORGES

"Todos nos parecemos com as imagens que os outros têm de nós."

Solo una cosa no hay. Es el olvido.
Dios, que salva el metal, salva la escoria
y cifra en su profetica memoria
las lunas que seran y las que han sido.

WILLIAM BLAKE

"Tyger, Tyger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?"

"The tygers of wrath are wiser then the horses of instruction."

"Every thing possible to be believ'd is an image of truth."

"The road of excess leads to the palace of wisdom"

"He who desires but acts not, breeds pestilence."


RUY BELO

"É antes do anoitecer suavíssimo dos deuses
antes do começar das sombras rente às árvores"


SOPHIA DE MELLO BREYNER

Nus se banharam em grandes praias lisas
Outros se perderam no repentino azul dos temporais"

"Ele porém dobrou o cabo e não achou a Índia
E o mar o devorou com o instinto de destino que há no mar."


RICARDO REIS

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.


HAIKU

Caracol,
lento, lento, lento - sobe
o Fuji.
(Issa)


BECKETT

Without a hope, a friend, a plan, a prospect (Watt)

The wild country roads where your dead walk beside you (Watt)

For Watt now found himself in the midst of things which, if they consented to be named, did so with reluctance.
(Watt)

For it is rare that the feeling of necessity is not followed by the feeling of absurdity.
(Watt)

Petites annonces

Estrangeiro, 42 anos, gordo, careca, surdo de uma orelha e completamente depressivo, procura mulher 30-40 anos, alegre, bonita, sã, para explorar complementaridades e refazer um futuro.

Home, 42, tímido, feminista avant la lettre, sabendo cozinhar, passar a ferro, aspirar a casa e passear o cão procura mulher, 30 - 40, que goste das tarefas domésticas, para se tornar, enfim, o machista dos seus sonhos.



Homme 42, à l'ego hypotrophié, cherche femme 30-40 sachant masser les âmes et gonfler les états d'esprit pour partager vie spirituelle riche et variée et vie matérielle pauvre et monotone.

Homme 42, aveugle et sourd d'une oreille, ayant les œuvres complètes de Jorge Luis Borges dans l'original et tous les disques de Miles Davis cherche femme 30-40, aimant la musique, parlant espagnol et sachant lire.

Homme, 42, infidèle, cherche femme 30-40 infidèle pour vie commune mais pas ordinaire.

Homme, 42, poète, rêveur, plurilingue, aimant l'amour, la mer, les genoux de Claire et les nuits de pleine lune cherche femme 30-40, terre-à-terre, pour l'aider à remplir le frigo et sa déclaration d'impôts.

Homme, 42, sexuellement hyperactif, cherche femme 30-40 pour devenir l'objet de la susmentionnée hyperactivité.

Veuf, 42 ans, mélomane, casanier, 5 enfants adorables, cherche femme 30-40, pédagogue, aimant le restaurant, le cinéma te les arts en général. Minibus indispensable.

Homme, 42, maçon de profession et psychologue amateur cherche femme 30-40, intellectuelle, gaie, aimant la lecture, la discussion et les tâches ménagères.

Homme, 42, fin navigateur mais déboussolé, cherche femme 30-40 n'ayant pas perdu le nord pour l'aider à se retrouver.

Homme, 42, plein de projets, voyant mieux au loin que près cherche femme 30-40. Physique indifférent.

Beta mâle chercha femelle alpha pour inversion de rôles.

Homme 42, beau, intelligent, malheureusement avec des tendances misogynes, cherche femme 30-40, niveau intellectuel et beauté indifférents. De toute façon…

Si la femme est l'avenir de l'homme, moi, homme 42, cherche un avenir brillant, intelligent, beau, joyeux.

Femme, 42, 5 enfants, veuve, intelligente et cultivée cherche homme 40-50 ayant vie intérieure riche. Myope bienvenu.

Femme, quarantaine, pas très jolie mais très photogénique cherche homme myope, ou photographe, pour relation durable.

Lua

Quando acordaste,
Tinhas a lua nas mãos:
Redonda, encarnada, quente,
Acabada de sair da água.

Lisboa

Nasci em Lisboa, mas não vivi aqui muito tempo (não vivi muito tempo em parte nenhuma, de resto). Abordo portanto esta cidade com um olhar mixto: o de um estrangeiro que o não é, o de um nativo que tão pouco o é. Lisboa não se deixa seduzir facilmente, e deste olhar indefinido desconfia particularmente.

É fácil estar triste em Lisboa, como em qualquer outro lado, mas poucas cidades há em que estar triste seja mais suportável, ou mais agradável: porque em Lisboa nunca se está verdadeiramente sozinho, salvo se o quisermos estar.

Clochard du Bonheur

Le jour de distribution du bonheur j’étais, probablement, en train de cuire la cuite de la veille – ou de préparer celle du lendemain, méthodiquement, comme d’habitude. Toujours est-il que ce jour-là le bonheur, ou plutôt la capacité d’être heureux, m’est passé à côté. Depuis, je dois me contenter de miettes de félicité, que j’ai appris à apprécier goulûment, plus que le vin ou le whisky, comme un clochard.

Dispute

- Tout ce qui est inévitable est stupide - dit-il;
- Verbiage! – répondit-elle.

Odd couples

Volto para casa, como um ganso. Como um tanso.

"A fala do falo fá-lo falar. / É falaz e falha".

I am happy with your being happy.

(Continua).

Um dia (cont.)

II

Nessa dia fomos deixar as crianças a casa do M. R., onde ficariam para dormir. Quando chegámos ao nosso apartamento, Bruno pôs água a correr para um banho e fez-me um sorriso. Queria uma felação. É um ritual ao qual me submeto de bom grado: gosto de me ajoelhar ao lado da banheira como se estivesse num confessionário, essa estranha instituição católica da qual já por duas ou três vezes tentei inutilmente usufruir; gosto de sentir o falo dele na minha boca, vibrante e contido; gosto de lhe sentir a glande, com a língua, os lábios, a parte interior das bochechas, sempre tomando o cuidado de não lhe tocar com os dentes; gosto da horrível assimetria do prazer - aliás, mantenho-me sempre fora do alcance das suas mãos, porque quero concentrar-me naquilo - e sobretudo, que ele não tenha outras fontes de gozo, para que também ele se concentre nesta.

Bruno teve a sua felação; em seguida entrei na banheira, suficientemente grande para nós os dois. Ele obtinha sempre o que queria, porque por detrás, ou por baixo, daquele sorriso e daquela bonomia escondia-se uma vontade que não falhava, não vergava, não esquecia. No dia em que quis subir na carreira subiu, e quando quis uma mulher encontrou-me, e tudo o que quis ter teve quando quis, como um gato, uma mãe manipuladora ou um bulldozer silencioso.

Eu não: para mim, sempre tudo foi difícil, sangrento e doloroso como um primeiro parto. Tudo: o curso, a tese, o lugar que tenho presentemente, o primeiro namorado, e o segundo e o terceiro - todos, até que quando Bruno me propôs o casamento eu aceitei, porque o amava perdidamente. Como ainda hoje o amo. Mas não sei se o amava, ou amo, por gratidão, inveja, alívio ou preguiça. Estava fascinada por aquele sorriso, aquele corpo grande e bem feito, aquela nonchalance; se fosse necessária uma só palavra para definir Bruno, essa palavra seria "facilidade", e essa palavra ainda hoje me fascina.

Bruno está no banho, e eu ao lado dele. Tem a cara peganhenta porque gosto de lhe esfregar o esperma na cara e de o lamber depois, aos poucos. Ele detesta, eu sei - pelo menos quando por acaso lhe passo com a mão perto da boca. Lembro-me de um dia em que fizémos amor numa praia, com as rochas ao fundo, e um amigo à nossa espera no carro, adormecido. Estávamos longe da areia, mas imagino que havia dezenas de pescadores a olhar para nós do alto das falésias - a maioria não leva binóculos, espero. E que levassem! Estávamos sós, tão sós com estamos agora, envoltos numa esfera de paz e prazer. Acaricio-o devagarinho, tiro-lhe o esperma da face, passo-lhe a mão pelo sexo que amolece e cai, devagarinho como o sol de hoje.

E penso em Daniel. Nao sei o que me atrai nele. É uma questão de raízes - sou uma desenraizada, afectiva, geográfica, social, profissional; ou de vingança: os rapazes nunca me foram fáceis. E hoje, que conheço os mecanismos da sedução, pergunto-me por vezes se o objectivo desta relação nao é, simplesmente, a vingança. É, sim. Mas há mais. Aceito ver Daniel pagar por todos os outros - mas não só Daniel, houve mais como ele, se bem que mais fugazes, mais breves, mais inócuos. Nós, os desenraízados, passamos a vida a tentar fazer crescer raízes, ou a vingar-nos de quem no-las tirou.

10.3.04

Changer de vie

"L'on devrait changer de vie tous les quinze ans", dizia-me I.. Eu mudo, efectivamente - mas de dez em dez.

Classificados

Por vezes pergunto-me se as pessoas que escrevem anúncios classificados ("man seeks woman", em todas as combinações possíveis) não virão de outro planeta...

Parecenças inesperadas

De um artigo no FT, tiro esta auto-definição de Sigmund:

"I am not really a man of science, not an experimenter, and not a thinker. I am nothing but, by temperament, a conquistador - an adventurer, if you want to translate the term - with the curiosity, the boldness, and the tenacity that belongs to that type of being." E vou ao Google buscar a continuação: "Such people are apt to be treasured if they succeed, if they have discovered something; otherwise they are thrown aside. And that is not altogether unjust."

How very accurate...

8.3.04

8 de Março, dia da Mulher

De um desenho de Herrman (link ao lado):

Ela: "A trabalho igual o salário das mulheres é inferior ao dos homens";
Ele: "Sim, mas a salário igual as mulheres têm um trabalho melhor".

Almoço improvisado, rápido...

... e leve, oh tão leve:

Refogar 1 cebola picada em lume forte, juntar alho, tomate e bacon aos quadradinhos, mantendo o lume forte.

Quando bem dourado, reduzir o lume e juntar natas. Condimentos: paprika (um dos complementos directos das natas) e pimenta (muito de ambas), noz moscada, orégãos, gengibre e caril (muito pouco de ambos).

Deixar cozer dez a quinze minutos e flamber com cognac (outro dos complementos directos das natas).

Faz um bom molho para restos de carne, e um bom exercício para as meninas do Plano XL - davam saltos, se soubessem.

Suiça

Nada se mexe, neste país - nem as nuvens.

Genève, no autocarro: à minha frente um casal fala espanhol; eu falo português e francês com a minha filha; atrás de mim, uma senhora, provavelmente suiça-italiana, pergunta, em italiano, a um indonesiano de onde vem. "De Bali", responde, após muitas repetições e insistências. "E as pessoas são felizes em Bali?", retorque a senhora. Nada a fazer: o indonesiano não percebe a pergunta, por muito que a senhora insista.

6.3.04

Notas de viagem

Londres:

A primeira coisa é, evidentemente, a exposição de El Greco, na National Gallery: parece uma antecipação de tudo o que está para vir na pintura, desde Rembrandt à Pop Art, passando por Matisse e os Impressionistas. Até 23 de Maio.

A "Congestion Tax" fez milagres: o tráfico automóvel diminuíu drasticamente. Ir a Londres sempre foi uma golada de ar fresco, no sentido metafórico - agora é-o (um pouco) também literalmente.
Seria interessante ver os efeitos das políticas de presidentes de Câmara de extrema-esquerda - desde que convenientemente controlados claro. O Maire de Genebra também é de extrema-esquerda, e baba-se cada vez que fala em Londres - para ele, os automóveis são "montes de lata"; mas a verdade é que a vida em Genebra está bastante melhor, e os transportes públicos irreconhecíveis.
(Se bem que os condutores sejam tão mal-criados e arrogantes e desagradáveis como sempre foram).

Os preços continuam aberrantes - não consigo imaginar que houve uma época em que as pessoas iam a Londres fazer compras porque era barato.


Genève:

É tão bom, a ordem - só é pena que tenha um preço tão elevado.

5.3.04

Um pequeno post...

...para avisar que estou fora de Portugal e sem muitos acessos à net. Os posts vão ser escassos.

3.3.04

Suiça

Num café du Pays d'en Haut:

Jean: voilá le troupeau de Pierre qui rentre.

Silêncio. Dez minutos depois -

Joseph: ce n'est pas le troupeau de Pierre. C'est celui de Fernand.

Silêncio. Dez minutos depois -

O dono do café: vous deux, je ne veux pas de disputes!!


Provérbios suiços:
"Em cada cidadão há um polícia adormecido. Na Suiça, ele está acordado."

"Aviso: tudo o que não é obrigatório é proibido"

2.3.04

A dois passos de sua casa...

...aquilo que se vai rapidamente transformar no melhor restaurante de Lisboa (para mim - tudo o que digo não é objectivo, relembro): o Nariz de Vinho Tinto, na rua do Conde, 75, à Lapa, tel 213 953 035.

1.3.04

Lovable people

"...

I am sick of lovable people,
somehow they are a lie."

D. H. Lawrence, Elemental

"Strange how we suffer in spite of this..."

"...
Only the twilight now and the soft sound of "Sh!"
Of the river that will last forever.

...

You are the call, and I am the answer,
You are the wish, and I the fulfillment,
You are the night, and I the day,
What else - it is perfect enough.
It is perfectly complete,
You and I - What more?

Strange how we suffer in spite of this... "


D. H. Lawrence, Bei Hennef