30.11.17

Em defesa de nós

O português está a ser agredido por todos os lados: ele é o AO90, os anglicismos, os brasileirismos, a falta de leitura, a ignorância. Acabo de ler num jornal - enfim, não é bem um jornal, é o jornal - "coloque um termo à vida".

Bolas, há limites, Acho que precisamos não só de um grupo contra o AO90, mas de um grupo pró-língua portuguesa. Uma defesa de nós. Da nossa língua materna. Do que somos.

Infelizmente o jornal está a ficar cada vez mais como os outros. Não escrevesse Alberto Gonçalves lá e ia pelo caminho do Público e do DN.

Definição - Luxo

Luxo é vir tomar o pequeno-almoço a uma padaria que tem dois painéis de azulejos lindos, alusivos - um representa a ceifa outro uma antiga padaria em laboração -, balcão de mármore, paredes de azulejos brancos com um friso azul elaborado, delicado e um LP dos Smiths a tocar num daqueles gira-discos Philips portáteis pelos quais estávamos prontos a matar quando tínhamos dezasseis anos.

Sono

O sono chega, finalmente. Descubro com prazer o prazer que dormir é. Não por ser o fim de um dia, mas o princípio de outro: dormir é o amanhã a chegar, a instalar-se confortavelmente em mim, a agradecer-me a porta que lhe abro. 

Viver-te

É de ti que falo quando falo da vida. Isto é, daquele conjunto de coisas dispersas às quais chamamos vida: um pôr-do-Sol, um miúdo que faz os trabalhos de casa, um cocktail decente num bar inesperado, um aquecedor potente numa noite gélida. Tu és parte dessas coisas todas, és essas coisas todas, estás nelas como a vida em ti e em mim o desejo de viver.

Dir-me-ás que simplifico demasiado, que há tanta vida num aquecedor cujo sistema de segurança decifrei como num bombom de chocolate e mel: pouca, longínqua e irrelevante. Eu ouvirei, direi que sim tranquilamente, como quem respira num jardim ao fim da tarde. De vida sei mais do que tu jamais saberás. Viver-te é mais fácil do que viver.

Diálogos possíveis

- A sua linguagem corporal diz-me o contrário de tudo o que você me tem dito sobre si.
- É que eu não minto só com quantos dentes tenho. Minto com o corpo todo.
- Os corpos não sabem mentir.
- Claro que sabem. Olhe para mim: não lhe parece que estou vivo?  

29.11.17

Quase - II

Quase pele, quase visível no horizonte. Estendo o braço. Volta com uma fruta, talvez uma maçã, uma pera, um dióspiro. "Meu fruto de morder, todas as horas" é o título mais bonito que conheço, categoria livros de poesia nos quais se pensa tarde na noite. "O sumo do fruto coagula nas mãos". Não tenho os meus livros, faltam-me tanto como a metade de dia que não vivi, a metade da vida que me espera pela metade, o quase que falta para completar o quase.

"Todos os meus livros tiveram um carácter de urgência", disse Al Berto pouco antes de morrer.

Vou dormir, descansado nesta urgência que partilho inteira.

Quase inteira.

Quase

Ideias vagas, pouco claras, difusas, como fotografias desfocadas. Chuva, mas pouca; frio; vou a pé, não me apetece levar a bicicleta para tão perto; na Portugália já se comeu bem, mas foi há séculos; já esteve pior, verdade seja dita; vou ao bar do hostel de que A. me falou recentemente e onde estive com ela; descubro que têm Alexander; D., a miúda que trabalha no hostel vem ter comigo; é gira e simpática. O Alexander está entre o medíocre mais e o suficiente menos. Decido-me por este último. Suficiente menos. Têm vários runs, Plantation. Bebo um shot, pergunto-me que amamos quando amamos? Amo mamas mas não são mamas o que amo; e ventres, olhos. Cabelos. Amo tudo, mas o que amo não está nesse tudo que vejo e que por vezes me acontece beijar, tocar, amar. Hoje fui a uma entrevista para um trabalho. Ontem fui a outra. Nada disto encaixa em nada disto: puzzles diferentes cujas peças se misturaram. Chove. Amanhã talvez haja nevoeiro no Tejo, talvez o meu levante. Gosto de conversar com a D., penso na chuva, no frio, nas fotografias desfocadas, na dor no cotovelo que quase desapareceu,  quase não o sinto, quase o esqueço, quase. Talvez seja este o termo que procuro: quase. No outro dia escrevi que quase e meio são sinónimos, a partir e uma certa idade: meio dia; meia vida.

Meio amor. Apaixonar-se e ser correspondido, como naquelas fotografias turísticas, banais, chatas do sol sobre a relva verde ou o mar azul, uma rua "very typical". Indeed. Um supremo amor, no saxofone do outro: ser amado pela pessoa que nos ama.

Ser meio-amado pela pessoa que se meio-ama. Meio-viver a meia-vida. Meias perguntas: o quê? em vez de porquê?, por exemplo.

(Por isso gosto de estar com jovens: mais perguntas e menos explicações.)

Meio corpo, meia noite, quase um dia - que se recompõe agora, em palavras vagas, difusas, desfocadas -. Quase uma vida, quase feliz.

Quase te amo; quando me amares amar-te-ei completamente. Quase te vivo, quase te toco e te olho e te digo.

Quase.

........
(Por isso gosto tanto das cidades. No campo não há quase).

26.11.17

Azar, vontade, sorte

Não ter dinheiro é uma coisa; não ter dinheiro é outra, completamente diferente. Eu por agora não tenho dinheiro, por exemplo. Em contrapartida tenho sorte. Não tenho dinheiro mas tenho sorte, coisa que muitos considerariam um azar e eu não. Isto é: não ter dinheiro é diferente de não ter sorte e ter azar mais diferente ainda. A diferença reside na vontade: não tenho dinheiro apesar de poder tê-lo e tenho sorte porque quero.

Enfim, não é bem vontade: é mais uma questão de azar. Não tenho sorte nem quando quero nem quando devia tê-la. Só quando ela quer, o que é azar.

Dissonância cognitiva desconcertante

Um bom exemplo de dissonância cognitiva: todos os automóveis que buzinam quando vêem um ciclista em sentido contrário ou a passar um sinal encarnado ou uma passadeira sem desmontar param quando os semáforos ficam cor-de-laranja? Não estacionam em cima do passeio nem em segunda fila? Respeitam os limites de velocidade? Põem o pisca-pisca sempre que vão mudar de faixa ou virar para outra rua?

É que a quantidade de carros que vejo a fazer tudo isto simultaneamente é desconcertante.

Diálogos: sinónimos

Oiça, vou dizer-lhe uma coisa, mas você promete não dizer a ninguém. Prometido? Então cá vai: a minha meia-namorada é a mulher do patrão. O que é isso o quê? Uma meia-namorada ou uma mulher do patrão? Ah, meia-namorada? Há várias fórmulas: ou alguém que amamos e não fodemos, alguém que fodemos e não amamos, alguém que quase amamos e quase fodemos. Quase e meia não são sinónimos? Viva meia dúzia de anos mais e vai ver que são. 

24.11.17

Rendas e Ferraris

Pergunto-me se as pessoas que reclamam contra as rendas e não poderem viver no centro porque são tão caras e ai o turismo e a ganância aplicam o mesmo raciocínio aos automóveis. É que a Ferrari, por exemplo, exclui milhões de pessoas que gostariam de ter um e não têm porque são caríssimos e isso é uma injustiça. 

23.11.17

Condenação

- Senhor Doutor Juiz, não tenho nada a alegar em minha defesa. Só preciso que alguém me explique por que razão me encontro regularmente nesta situação.
- Senhor Zero Silva, não sou psicólogo. Estou aqui para julgar e aplicar penas.
- Qualquer pena que o Senhor Doutor Juiz aplique será mais leve do que o inferno que agora vivo.
- Ora, meu caro. Deixe-se disso. A pena de morte foi abolida em Portugal em 1976.
- Eu disse qualquer, não disse a melhor.

22.11.17

Futuro

Estou verdadeiramente optimista em relação ao futuro. Vai ser brilhante. O problema é lá chegar. Vivo, se possível.

Retranca, Tejo & Amerigo Vespucci



Amor e quilómetros

É preciso dar de comer ao amor, levá-lo a pastar; mas são mais os quilómetros do que os euros que há para os percorrer e olha, paciência. temos de os preencher com algum vinho e muita pena, que sempre custam pouco ou nada. Um dia rir-nos-emos, ir-se-ão as penas e ficarão os vinhos.

E o amor, claro.

21.11.17

Censura e homens do lixo

Propuseram-me um trabalho de censor - pomposamente apelidado de "gestor de conteúdos" - por quinhentos e sessenta e cinco euros por mês, seis euros e trinta de subsídio de refeição "em cartão" como no Continente e "até quarenta euros" de subsídio de transporte "contra factura".

Era preciso ter "uma personalidade forte" para resistir aos conteúdos "racistas, homofóbicos, machistas. Ou então florzinhas e fotografias de gatinhos".

Não deixei a senhora acabar: mal disse o salário levantei-me e disse-lhe que não valia a pena perdermos o nosso respectivo tempo.

Censurar os outros é um trabalho desprezível; pagar mal para o fazer é como pagar mal aos homens do lixo.

Isto não é uma jeremíada

Não é que esteja a queixar-me. Não estou, juro. Mas ficaria muito mais descansado se me garantissem que não há vida depois da morte ou que, quando for desta para melhor vou mesmo para melhor e não reencarnar num diplomata, presidente de banco ou jogador de hóquei em patins. 

20.11.17

Bulimia e caos

Imagens díspares que se atrapalham (ou será atropelam?) mutuamente: infortúnio, abrir uma porta com a chave depois de tocar a campainha, pôr-do-Sol no campo, um passeio de mota à beira-rio, um quarto frio no qual uma personagem solitária tenta escrever e tapar-se ao mesmo tempo, a esperança, um diálogo num carro entre duas pessoas que acabam de se conhecer, uma lavandaria self-serviço onde às três de manhã um casal discute. Podia tentar ordená-las cronologicamente, por ordem alfabética ou por ordem crescente da quantidade de letras de cada uma, de tempo que se lhe mantêm no espírito antes de ser substituídas pela seguinte. Ou talvez arrumá-las por pessoa que lhes está na origem: A. e J. na lavandaria, por exemplo (começa mal: a imagem da lavandaria não se baseia em factos reais, mas sim possíveis). T. no automóvel a caminho de Sintra, onde vamos passar a nossa primeira noite juntos; T. e o infortúnio.

Nada disto funciona. A única maneira de lhes dar ordem ou forma é escrever-las num quarto gélido, à noite, sozinho enquanto tento pensar em A., B., C. e não pensar em T., U., V.

Parece difícil mas não é: uma vez escritas a ordem regressa. Escolho uma ao acaso: a discussão entre dois amantes numa lavandaria self-service às três de manhã, por exemplo. Pouco importa que só exista na minha imaginação: a partir dela posso construir uma cadeia de imagens igualmente fictícias, mais ou menos verosímeis. Uma das pessoas do casal tem um gelado na mão. Às três da manhã um gelado? Deve ser Verão e eles devem estar perto de casa.

O frio quase desaparece, a personagem que escreve deixa de estar sozinha, da atrapalhação nasceu uma certa ordem, um sonho de ordem.

A ordem da ficção é omnívora e bulímica e tão parecida com o caos que quase se confundem. 

19.11.17

Sintomas, distâncias

Tudo é sintoma de qualquer coisa. Tudo: este beijo que te quero dar, tão longe; esta noite fria e sem luz, sem lua, sem gente.

Sintomas, sem dúvida, mas não sei de quê, de que anomalia, de que cansaço.

........
(Cansaço rima com abraço; mas como preencher o que lhes fica entre?)
(É tão curta a distância entre abraço e cansaço, não é?)
(Há um mundo sem fundo, uma distância sem importância.)
(Depende de quem é o abraço - teu ou meu? - e o cansaço.)

Onomatopaicas

"Quero mostrar-te as onomatopaicas do amor", diz o apaixonado pelas palavras. "Antes que me esqueças de vez. Ou eu ensurdeça. Ou emudeça. Ou nos esqueçamos um do outro, de tão silencioso foi o nosso amor".