31.5.20

Ainda hoje, Palma

Perco-me ainda hoje nas ruas de Palma como me perdi - tantas vezes! - no coração de tantas mulheres que julgava conhecer. Montado na minha Peugot mágica percorro-lhe as ruas e nelas me perco, ainda, como dantes montado em ilusões lhes percorria a pele. Palma tem o coração do Mediterrâneo e a superfície de uma nórdica: nunca se sabe o que aquela cabeleira loira esconde, se os olhos azuis prometem ou gozam.

Amo-te, Palma, porque em ti me perco, apesar de em ti me perder, ainda hoje.

29.5.20

Pôr

O verbo «pôr» deixou pura e simplesmente de ser usado. Era um verbo tão bonito... Curto, com um chapelinho a protegê-lo da chuva e outras fechaduras, fácil de arrumar, rima com amor (que dispensa chapéus porque não se fecha, só se abre...)

Um dos meus livros favoritos da adolescência tardia e jovem idade adulta chamava-se (em português) A arte de viver para as novas gerações, ou coisa que o valha. Desafio meia dúzia de nós a escrever um mais adequado aos tempos que correm: A arte de falar para as novas gerações. Na volta, daqui a cinquenta anos acabam por nos agradecer, as gerações aqui postas sabe Deus como e que não tiveram a sorte de conhecer Raoul Vaneigem.

28.5.20

Orlas

Vagueio pelas orlas do tempo. Nunca me aventurei mais longe, com medo de ficar preso no futuro.

Margens

As margens dão força aos rios. Sem elas, que seria de mim, que não conheço outro lugar para viver?

Imperfeito e vasto

Vastas emoções e pensamentos imperfeitos, sim, mas agora há que organizar-lhes a vastidão e a imperfeição, as vastidões, os desertos nos quais os nómadas se perdem, as dunas que descemos e subimos, as bifurcações, dúvidas, o cantinho das certezas. São tão poucas, melhor tratá-las bem. Tão incertas, as certezas... Tão hesitantes, como as adolescentes bonitas que não sabem se são bonitas se mulheres. Estendes-te no campo das vastas emoções, deitada de costas na areia quente, desejo instável, desejo oferecido, os teus cabelos como areia, olhos de mar e amar, pernas afastadas à espera de um anjo que tive a sorte de ser eu, a bênção e hoje de toda essa vastidão não sobra senão a memória, tão imperfeita.

Vagueio, cego atrás de um cão hesitante, pele que um dia me acolheu, pele que um dia percorri cego de desejo, futuro imperfeito e vasto.

Diálogos, revisto

O mesmo texto, revisto e corrigido pelo Manuel Monteiro.

DIÁLOGOS DO CONFINAMENTO

—  Combinamos uma coisa? Doravante, aos domingos, não vamos mais passear à beira-rio como os nossos amigos burgueses e ficamos em casa a foder tudo o que não fodemos durante a semana, tu porque estás farta dos teus pacientes, e eu porque sou um homem cansado, inquieto e ansioso. Queres? É altura de mudar de vida, anda para aí toda a gente a dizer.
— Nunca te vi sensível ao que «toda a gente» diz. Nem a mim me ouves, quanto mais a «toda a gente».
— Estás enganada. Sempre te ouvi. E mais: obedeci-te. Sempre te considerei a cabeça do casal.
— Nesse caso, sempre tiveste uma forma estranha de manifestar essa obediência. Não me faças rir, por favor.
— Depende do que se entende por «ouvir» e por «obedecer».
— ...
— Ouvir-te faz-me ser mais eu. Sou o que sou, e muito do que sou devo-o a ti.
— Ou seja, sou a tua síndroma de Peer Gynt? Be thyself.
— Estás a brincar, mas a resposta é sim. Sou o que sou — posso ser o que sou — porque tu és tu.
— ...
— ...
— Cala-te e vamos para a cama.
— Hoje não é domingo.
— A tua capacidade de fingires que és parvo sempre me fascinou.
— A tua de pretenderes que não o sou também.
— Estamos casados há quinze anos. Reconheço que a nossa vida sexual nos últimos cinco anos não moveu montanhas. Mas nos primeiros dez fizemos amor para três vidas, não achas? Importas-te de me explicar o que te aconteceu?
— Não, não me importo.
— ...
— ...
— O teu laconismo é apreciável e há quinze anos que tenho o privilégio de usufruir dele. Ainda assim: importas-te de elaborar?
— Não, não me importo.
— ...
— Estes dois meses fechado...
— Desculpa interromper. Não estiveste fechado. Saías duas vezes por dia.
— Sim, saía. Mas não para ir aonde queria e sim aonde podia...
— Continua.
— Pensei que me seria fácil. Estou habituado a estar fechado.
— Não estás, e além disso nunca gostaste de relações simbióticas, não é? Dois meses fechado comigo deram-te cabo da libido.
— Se tivessem «dado cabo», não te teria falado de sexo todos os domingos, como fiz há meia hora.
— Touchée.
— Quando estou fechado, é porque quero. Agora, não. Esta clausura foi-me imposta. Sair duas vezes por dia para ir aos supermercados não é sair. É simplesmente um prolongamento, como o pátio é para os presos. Tu trabalhavas, davas as tuas consultas por computador, nunca gostaste muito de bares e cafés. Muitos dos meus amigos da noite não sabiam sequer que sou casado.
— Nunca falaste muito, é verdade.
— A ti, que te faltou nestes dois meses? O cabeleireiro, a universidade, as tuas «amigas».
— As aspas nesse «amigas» são audíveis e desagradáveis.
— Desculpa. Como sabes, não me importo nada.
— Nunca te importaste com nada que me dissesse respeito.
— Só me importo com o que em ti me diz respeito.
— É um tema que prefiro evitar, se não te importas.
— Não me importo nada.
— Sabes porque te amo tanto passados estes anos todos?
— Não.
— Porque tu dizes coisas como «Só me importo com o que em ti me diz respeito», e eu sei que não é por te julgares o centro do mundo. É exactamente ao contrário: tu dás a toda a gente o espaço que reclamas para ti.
— Sabes porque te amo tanto?
— Porque sou «a única pessoa que te conhece como se te tivesse feito».
— ...
— Não digas disparates. Continua com o confinamento, por favor. É um tema que me interessa mais.
— O que mais me põe fora de mim é ter-me enganado. Pensei que seria fácil, que isto passaria levemente como uns dias sem cervejas no bar. Não foi assim. Quem se revoltou nem fui eu sequer, foi o meu corpo. Somatizei como um adolescente: dores aqui, dores ali...
— Eu vi.
— A minha raiva deixou de ter um objectivo único. Bifurcou-se: eu de um lado, quem me impôs isto do outro. Odiava-me por não ter «aguentado» e odiava as «autoridades» por me terem confrontado com a minha incapacidade. Raivas múltiplas não são saudáveis.
— Eu que o diga.
— Tu estavas de fora, sempre estiveste.
— Como se estivesse fora da tua vida, não é?
— O único que pode dizer disparates aqui sou eu, lembras-te? Comprei o monopólio quando nos casámos.
— Quando nos casámos, disseste-me que estava a fazer o maior disparate da minha vida.
— Enganei-te?
— Não. Enganaste-te.
— Suporto mal a estupidez e ela suporta-me menos ainda. Não consigo disfarçar. Mal dei conta de que tudo isto não passava de um gigantesco embuste...
— ... Mal deste conta de que tudo isto podia não passar de um gigantesco embuste...
— ... Sim. Isso. Podia não passar de uma gigantesca mistificação. Aí, tudo mudou. Deixou de ser fácil.
— E as dores começaram.
— Sim. As dores começaram. Só viste a parte exterior delas. A parte visível, por assim dizer. As dores são como um barco na água. Têm um lado visível e outro que não se vê.
— A menos que alguém mergulhe.
— A menos que alguém mergulhe.
—...
— Não sei como teria sido sem ti.
— Teria sido como foi, mas sem mim.
— És modesta e injusta. Teria sido ainda pior.
— Duvido. Estamos casados há quinze anos e nunca te vi sofrer tanto.
— Curioso. Penso muitas vezes que nunca te vi tão próxima de mim como nestes dias.
— O distanciamento era social, não era afectivo. Há bocadinho, disse que te amo. Não sei há quanto tempo não to dizia. Não foi o pior erro da minha vida. Foi o melhor. O mais inesperado. Há muito tempo que não tenho «amigas». Sem ti, o sexo não vale a pena. Prefiro ter-te e não ter sexo. Prefiro ouvir-te e ver-te e falar-te a foder seja com quem for.

Mas se pudesse foder-te, seria ainda melhor. Tem de ser só aos domingos?



Palma, 23-05-2020

Dias

Como se de repente os dias saíssem a esvoaçar à tua frente. É isso: tu estás parado numa praça de uma cidade que não identificas. Rossio, Terreiro do Paço em Lisboa? Bastions, em Genebra? Concorde, em Paris (uma incongruência, mas enfim)? Talvez até mais: estás no Parthenon, Atenas num daqueles dias raros e santos sem poluição estende-se até ao Pireus e de repente, sem pré-aviso, à tua frente passam os dias a voar. Não sabes para onde vão mas sabes de onde vêm: de ti. São os teus dias. Não corras atrás deles, de nada vale. Já se foram, já foram. Melhor tratares bem os que aí vêm, que tenham vontade de ficar contigo.

27.5.20

Red & sad

A história conta-se em poucos minutos, coisa que me leva a perguntar-me se todas as histórias tristes são tão rápidas e se não são, porquê.

Encontro um israelita no Abrakadabra. Temos amigos comuns em St. Maarten, super simpático, tudo. A certa altura falamos da Jamaica, quem diz Jamaica diz Red Stripe, o rapaz diz-me que há um bar em Palma que tem Red Stripe, eu monto na minha bicicleta Peugeot de repente feita voadora e...

...adivinharam. O bar não tem nem nunca teve Red Stripe. 

Pronto. Será isto a história da minha vida, contada através de uma cerveja jamaicana?

26.5.20

Voodoo virus

As lojas estão cheias de rituais que para combater o vírus têm a eficácia de um ritual voodoo, mas enchem os seguranças encarregados de as aplicar de uma importância nova e eles visivelmente apreciam-na.

Talvez pudessem pôr uma efígie grande do vírus à porta e cada cliente para entrar espeta um alfinete. Assim divertir-nos-íamos todos.

Indiferente

E se de repente de ti para mim um gemido chegasse, se de ti para mim de repente um «sim!», se de ti de repente um repente saísse, se de ti? De ti, só de ti e de mais ninguém além de ti? Como se fosses tu o princípio do fim do princípio e eu o princípio do abismo contigo? De quedas em ti eu sei, de futuros contigo, de tardes assim de hoje: vento fraco e sol, árvores a dar sombra como só tu dás, Dvorak e esta vida que em ti e em mim se espraia, indiferente.

Prisão, leve ou não

Dou por mim a regozijar-me porque a prisão está mais leve.

Isto é aterrador: uma prisão leve é uma prisão, estúpido.

25.5.20

O conhecimento e o Zeitgeist

O conhecimento tem uma óbvia componente ideológica, mas ela não está onde muitas vezes se pensa.

Podemos admitir que até à jovem idade adulta todo o conhecimento nos chega via zeitgeist - deve haver excepções em algumas  universidades ou professores universitário, mas a julgar pelo que vi e pelo que vejo são poucas. A ideologia consiste em escolher uma de duas opções: ou mantermo-nos agarrados ao que aprendemos ou investigar fora dele.

O zeitgeist é um professor amável e compreensivo, tão amável quanto pouco fiável. Por isso é tão difícil escapar-lhe.

Nem sempre dês aos outros o que eles te pedem

É óbvio que quem impôs o confinamento e a paragem da economia não foi quem vive num casebre "social" e não sofre de cortes nos salários. Vive em casas espaçosas e tem a massa assegurada ao fim do mês. O facto de terem sido as massas panicadas a exigir-lhes o que agora têm não é grande argumento. Poderia ser, não lhe fosse a desumanidade. Há uma assimetria na informação. As massas não tinham acesso às informações de Jorge Torgal ou de Pedro Simas (não falo de André Dias, embora na minha opinião devesse ser incluído no mix). As massas panicadas têm o que pediram e agora vão para as filas das misericórdias pedir comida e eu acho indecente que tenham tido o que pediram e que agora tenham de ir pedir comida.

Isto tudo vai obrigar-me a rever / aprofundar / afinar o meu apreço pela democracia directa, coisa que farei mal chegue à Suíça e tenha informações mais fiáveis. Até lá, continuarei a achar lamentável que um cobardolas que ao primeiro alarme se refugiou num casarão em Cascais venha agora pedir ajuda para as quatrocentas mil pessoas que segundo ele estão com fome. («Segundo ele» porque provavelmente serão mais.)

Vê se dormes

Enrodilho-me debaixo do edredom mas o calor não vem, tenho de pôr o cobertor, está frio, penso nas escadas tão íngremes que até para descer são desconfortáveis, a música da Renascença, a constipação, as escadas são frias como o coração de uma mulher que recusa um apaixonado, são duras, hoje para as subir depois do almoço vi-me grego, fui arrumar a bicicleta?, inquieto-me, sim, foste, com o cobertor fica melhor, amanhã tenho os dois I. a bordo, o M. ainda não me mandou o contrato, tenho de responder ao T. Z., apetece-me explicar tudo o que me aborreceu e aborrece estes dias, vem calor, diz a meteorologia, sim, tomaste o comprimido, vê mas é se dormes, não tarda vais ter calor de mais, com o cobertor, dorme, porra, dorme. 

24.5.20

Ilusão, ou Retrato de rua

A senhora falava ternamente com o cão. Explicava-lhe qualquer coisa que não percebi bem o que era. O cão também não deve ter percebido, pelo menos não dava sinal nenhum disso ou de achar relevante a voz doce, suave, quase um murmúrio da mulher, ainda jovem, talvez quarenta, quarenta e poucos,  que lhe segurava a trela e o deixava esgaravatar no canteiro.

"Se não falasse com o cão", pensei, "só lhe restariam as paredes. O efeito seria o mesmo, mas o cão permite uma certa ilusão."

Vidas, mediadas

Uma das coisas que o Facebook nos ensina é que a vida só é suportável nos romances, nos filmes, na banda desenhada e - em menor grau - na fotografia. Uma tranche de vie no primeiro grau, em bruto, incendeia as hostes de críticos, indignados profissionais e amadores, amigos dos animais e outras bestas que povoam as redes sociais. A mesmíssima tranche de vie mediada pelo talento do dia desencadearia ahs! e ohs! comovidos, encómios entendidos, acenos de quem se compreende.

A vida real tem o inconveniente do cheiro, que a da literatura obfusca e os narizes sensíveis das massas, coitados, resentem-se. De caminho incendeiam, insultam ou - na melhor das hipóteses - não compreendem. Não compreendem nada, verdade seja dita, mas isso é outra história.

Cretinice unida

Não me sinto propriamente um Ignatius Reilly, mas nestes dias não consigo impedir-me de pensar na Conspiração de cretinos (A confederacy of dunces, para quem preferir). Fique em casa! Use máscara! Proteja-se e proteja os outros! A Suécia tem o maior número de mortos por milhão de habitantes!

Cretinos unidos jamais serão vencidos.

22.5.20

Felizmente...

... a raiva é solúvel em ternura.

O lugar da raiva

Vês? Eu bem te dizia. A noite desce calmamente - à velocidade das ilhas, diria o I. - e abafa em ternura a tua raiva.

Enraivece-te apenas contra aquilo que te pode dar luta. A estupidez não pode, coitada. É demasiado vasta, é infinita. Terias mais probabilidades de ganhar se decidisses que o Sol deve nascer a Norte e pôr-se a Sul, para acabar de vez com os pólos.

Não há raiva que resista à cozinha do Joan do Bar Rita. Nada resiste a nada que tu decidas não deve resistir. Deixa a raiva ir para o esgoto, é o lugar dela.

O teu é alhures.

Conselho: não dês de beber à raiva

Não é  - infelizmente - garantido que hoje consiga embebedar-me a sério,  apesar de querer muito.

Não. Ao contrário: é pouco provável que hoje queira embebedar-me muito, apesar de ser o que devia fazer.

Não. "Não te embebedes por raiva", diz-me a idiota que vive comigo e se chama Vida (alcunha: Experiência). "Não dissolvas a raiva em álcool, o cocktail sai amargo. Dissolve a alegria, as boas emoções, os "vastos sentimentos". Não dês de beber à raiva. Ela não saberá apreciar. A raiva é um touro cego a quem alguém deu um pontapé nos tomates.

Amacia-a. Dá-lhe croquetas de sépia, dá-lhe uma praça bonita, dá-lhe mulheres lindas a ver e outras a lembrar, dá-lhe a consciência deste fim de tarde cálido e doce. Transfere a raiva para a desobediência, para a vasta arena da liberdade que nunca ninguém te invadirá, para o azul tímido do céu de hoje, escondido num véu de cirrus.

Manda a raiva foder-se, não a deixes foder-te ela a ti. Nem um bico sabe fazer, usa os dentes e morde-te a pila. Deixa-a num canto e vem antes para a cama comigo."