10.7.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 10-07-2021

08-07-2021

Dia em Cabrera e agora de regresso a Colonia San Jordi. Continuo com muitas bolas no ar - é daquelas coisas que nunca mudará - mas tenho pelo menos esta sorte: faço o que quero e gosto (é uma sorte só, não são duas).

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10-07-2021 (Palma)

O pedinte preto do Mercat de l'Olivar não está. Melhor: poupei um euro. É o único mendigo a quem dou dinheiro. Claramente: racismo, passe o jogo de palavras mais do que discutível.  

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A gorja foi boa, em relação aos dias de trabalho: só trabalhei três. É a minha forma favorita de aferir a satisfação dos clientes. A maior que recebi, em termos absolutos, foi de três mil e quinhentos dólares (correspondia aos habituais dez por cento do preço do charter). Partilhei-a metade metade com a stew, erro do qual ainda hoje me arrependo. Foi uma das piores stews com que tive de navegar. Só não me arruinou o charter por milagre (e possivelmente alguns dons de prestidigitação da minha parte). Em termos relativos, uma vez deram-me ou cem ou duzentos euros por meio dia de trabalho. (Hesito entre cem e duzentos: a minha memória exagera tudo, sempre.) Foi em Antigua e vivia demasiado perto da marina para conseguir beber tudo antes de chegar a casa. Gorjeta em francês diz-se pourboire e eu tento honrar esse termo, tão nobre.

Já foi há muito tempo, há uma vida. Agora, só idealmente bebo os pourboire. O de ontem, por exemplo, foi estreado num táxi: tinha peso a mais para andar os dez minutos que me separavam de casa. (Para além da massa recebi um montão de garrafas e alguma da comida que sobrou.)

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Dormi até ao meio-dia. Não há melhor forma de resumir o cansaço.

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Hoje vou escrever sobre o charter para o LMN. Ver se consigo traduzir bem em que consiste exactamente este trabalho, do qual os skippers sensatos só exportam as fotografias bonitas e não falam do trabalho que tiveram antes e depois delas.

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Reencontro a minha herança paisana: escrevo no Fidel, ontem fui jantar à Núria e ao Roberto, em Cascais comi magnificamente no Fernando, passe a redundância. Isto é atavismo próprio de homem do campo, daquele que anda de botas enlameadas e mãos pretas de terra. (As minhas estavam pretas quando escrevi isto, mas era de óleo da corrente da bicicleta Órbita, essa poltrona de rodas, que estava sempre a sair. Felizmente o Ivo já tomou conta do assunto e as mãos voltaram à cor inicial). No passado, em muitos países, agricultores e marinheiros eram os mesmos: na Bretanha, num passado recente; na Escandinávia, noutro mais antigo. Creio que são poucas as comunidades que vivam ou tenham vivido exclusivamente do mar. Tema a explorar. 

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Ontem ocorreu-me que no fundo António Costa e Pedro Sánchez são piores do que Trump e Bolsonaro. Estes, pelo menos, não enganam ninguém que não queira ser enganado. Aqueles, debaixo do manto diáfano da democracia, enganam muito mais gente e são muito mais perniciosos (do que Trump. Bolsonaro é outro campeonato). 

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