24.8.26

Definição: cozinhar

Cozinhar é a arte de transformar uma série de operações químicas em  alquimia (quando o resultado é bom. Quando não: ficaram na área da química).

23.8.26

Retratos

Eram duas irmãs. Mais do que beleza, os seus rostos mostravam carácter, temperamento, raça, força - uma série de qualidades que juntas se transformavam em beleza, movimento circular que provava a ausência de fronteiras entre o interior e o exterior. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-08-2026

Contrariamente ao que diz o tio Segismundo, os meus sonhos estão intimamente ligados ao meu dia-a-dia e são fáceis de interpretar: se está tudo bem tenho sonhos agradáveis e bastante positivos; assim que deixa de estar tudo bem esses são substituídos por pesadelos. É um mecanismo simples e primário mas é o que me corresponde melhor. Esta noite, por exemplo, tive alguns três pesadelos de rajada. As coisas ainda não devem estar muito muito mal porque nenhum deles foi de querer enterrar-me logo ao despertar. O que tiveram de assustador foi simplesmente a sucessão. Deram-me a ideia de criar uma escala de pesadelos inspirada nas de Beaufort ou Richter. Vou começar a trabalhar nisso.

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O ano começou mal, continuou mal e estou de novo no mercado de trabalho a ver se encontro alguma coisa para o Inverno. A história de Cancún não me convence. Com grande pena minha, devo dizer. Aquilo deve ter um potencial bastante elevado. O que me faz desconfiar é o método de trabalho do F., de que não sou grande fã.

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Almoço sem querer: venho à Cantina para entregar umas coisas que os últimos clientes esqueceram a bordo e peço uma tapa. «Pequena», insisto. Excelente, como sempre e enorme, idem. Estou almoçado e refastelado em alembranças enquanto bebo um tinto de verano e penso na quantidade de horas que passei nesta mesma mesa.

A térmica começa a entrar. Está na hora sesta.

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A ideia era sair de casa, levar a burra dar um passeio, que tem saído pouco, fazer uma fotografia ou duas, sentar-me numa esplanada, ler, escrever, beber um copo... Vasto programa, como dizia de Gaulle. Vasto programa. (Admitidamente o programa era outro. Era «mort aux cons.»)

Várias coisas se intrometeram em tão delicado mecanismo: comecei por ter de voltar a casa trocar a bateria da máquina, depois tive de ficar de guarda a uma senhora que caiu perto de mim até chegar o 112 - demorou pouco mais de meia-hora, o que me parece muito mas enfim. Não vi bem o que aconteceu: a senhora estava a andar à minha frente, eu entretanto procurava um caminho para passar com a Btwin, ouvi um pequeno grito e quando a voltei a ver estava no chão. Falava, mas muito baixinho. Chamei o 112 e fiquei ali à espera. Verdade seja dita, já tinha feito duas ou três fotografias e quando a polícia local chegou disseram-me que podia ir-me embora e vim directamente para o Enco do Passeio Marítimo beber um affogato all'amaretto e aprender a fazer aperolspritz porque tenho uma garrafa em casa (veio do cata, que de repente me lembre nunca comprei uma coisa daquelas) e como estou em período de contenção de custos mais vale bebê-la em casa, na rua custa uma barbaridad, como eles aqui dizem. Em casa tenho cordon bleu da Terravera e tzatziki, que afinal acabou por ficar razoável, aquilo de se espremer bem o pepino é uma boa ideia. E a pimenta, claro, uma boa pimenta é importante. Agora só falta encontrar iogurte grego autêntico e não esta mistura leitosa e enfadonha. O senhor que me fazia o affogato não está cá e tive de o mandar para trás para porem outra bola de gelado. À segunda tentativa veio correcto e aproveito a embalagem para averiguar a diferença entre Aperol e Campari. Isto da inteligência artificial tem muitas vantagens. Um gajo faz uma pergunta e ooops, hey, presto, ecco signor, a resposta é. Não sei qual é a que estou a usar - é a que o browser (Brave) me apresenta. Para as minhas necessidades chega.

Ou seja: o programa está cumprido. Basta trocar a leitura por uma BA. O Enco é um café muito agradável e eu recomendo-o.

PS - Recomendo-o salvo seja. Só a quem não esteja em contenção de custos. O sacana debitou-me a bola de gelado que lhe pedi porque a primeira era minúscula. Não posso levar esta carteira à rua. Cada vez que o faço, ela faz tudo o que pode para justificar a alcunha que lhe dei: vaporizador de dinheiro.

PPS - Voltei para casa pelo Passeig Mallorca e pelas Avingudes, até à Plaza de España (Plaça d'Espanya, para manter a coerência). A burra não se pode queixar. Eu tão pouco.

22.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-08-2026

A primeira imperial já não é bebida em dois golos. Já não preciso de três duches e três polos por dia. Já não bebo tanta água. Já me espanto menos: para onde foi a minha resistência ao calor? Já de manhã é um prazer pegar na Btwin - que agora é quase minha, oficialmente quase minha. Acaba Agosto! Acaba depressa. Quanto mais depressa acabares mais gosto de ti, Agosto.

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Sim, é verdade. Comprei a Btwin. Já só falta uma pequeníssima prestação para que ela seja toda minha. Alguns pensariam que o preço é demasiado elevado. Talvez alguns tenham razão. Não sei. A mim, na minha óptica, do meu ponto de vista, pessoalmente, na minha perspectiva, vendo as coisas como e de aonde eu as vejo, não acho. É uma Btwin especial, diferente das outras. É daquelas bicicletas que mal um tipo dá duas pedaladas nela pensa: esta burra foi feita para mim. Dir-me-ão os cépticos:
- Sim, mas quantas vezes te aconteceu isso com outras coisas? Incluindo com senhoras? Quantas vezes pensaste "esta mulher" ou "esta embarcação" ou "este vinho" foram feitos para ti? E não os compraste, pois não?

A discussão é académica. As respostas a essas perguntas são demasiado óbvias para que valha a pena responder-lhes. Não precisei do acordo da Btwin para a comprar e o dinheiro que dei por ela é igual ao montante que teria de pagar pelo aluguer. Como não alugo senhoras - muito menos as que teriam eventualmente sido feitas para mim e eu para elas - e os fabricantes dos barcos feitos para mim acham, "prenhes de razão", que eu não fui feito para eles, a conclusão é imediata: simetria sim, mas só com bicicletas.

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As dores reduziram-se bastante, mas não o suficiente para que possa dizer  "je suis sorti de l'auberge". Ainda não, mas a porta não está longe. Atribuo a causa deste pequeno milagre ao repouso dos últimos dias e penso naqueles aristocratas que diziam "o trabalho é para quem não sabe fazer mais nada". Quando regressar a Portugal vou falar com o senhor do totomilhões, ver se ele entende esta verdade. Não foi feita para mim mas podia ter sido.

21.8.26

Sortante, entrante

Todas as gerações que estão de saída, têm, ao longo dos tempos, tecido duras críticas às que as vão substituir. Para mim, não passa de uma forma simpática que o tempo tem de nos mandar embora, nos mandar às malvas, dar de comer às bactérias. Seria muito mais difícil deixar-se um mundo perfeito, como aquele que idealizámos quando éramos nós a geração entrante.

20.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 20-08-2026

Hoje fui à Bottega Bolognese comer uma carbonara. (Lembrete: a melhor que já comi fora da Itália e uma das melhores se incluir as italianas - a de Cannigione não me sairá da memória até morrer.) A Silvia contou-me esta história, que eu acho magnífica, daquelas que nem a imaginação delirante do Valério Romão ou do Pynchon conseguiriam inventar: duas alemoas, turistas, pedem um copo de pinot grigio e um de chianti. A Silvia serve-lhes os copos e uma delas pergunta: qual é o pinot grigio e qual é o chianti?

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Não sei se por causa da vitamina B12, se devido ao magnésio se - quanto a mim o mais provável - à quantidade de água que estou a beber diariamente, ando ligeiramente menos cansado e a minha capacidade de concentração aumentou. Pouco mas melhorou. Já consigo ler três ou quatro páginas do Padura - escritor que lamento só agora ter conhecido. O Pynchon também avança. O problema que tenho com a história do Trotsky é que me é difícil absorver notícias tristes. A ver se a água e ou as pílulas ajudam. Ou a fruta: todos os dias como metade do meu peso em melancia, melão, figos, pêssegos, ameixas e paraguaios. Ah, hoje comprei uvas moscatel. 

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Fiz um tzatziki. Amanhã saberei como ficou. A novidade sendo que é preciso mais pepino do que até agora pensava. A receita sobre a qual por acaso caí e me motivou dizia "na verdade, é preciso ver o tzatziki como uma salada de pepino envolta em iogurte grego e não este com pepino". Pimenta Tellicherry com um toque de pimenta fumada e sal de cocó, claro. Aneto, menta, azeite, vinagre. O iogurte "grego" não é grande coisa mas é o que há. Qualquer dia encontrá-lo-ei sem aspas.

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Está a chover. O badanal previsto para hoje e amanhã limitou-se ao lado oeste da ilha. 

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Hoje a Btwin levou-me a passear pelas ruas estreitas, sinuosas e frescas de Calatrava, um bairro que estranhamente sobrevive à ganância turística. Não creio que a sobrevivência se prolongue por muito mais tempo.

19.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-08-2026

Se escrevesse agora uma autobiografia daquelas «do princípio ao fim» o título que primeiro me ocorre seria Uma vida incompleta. Claro que este seria o título de noventa e nove por cento das autobiografias por publicar - e provavelmente das publicadas também, se os respectivos autores não tivessem optado por qualquer coisa menos banal. Ironicamente, o que talvez salve este ano - insisto no talvez, neste caso concreto só conta quando estiver cá fora, ao contrário do habitual - seja a saída do Não Sei, continuação desta espécie de autobiografia às pastilhas que o Don Vivo é. Uma alternativa seria O halterofilista da ansiedade, por enganador ou parcial que fosse: só há pouco tempo me parece demasiado pesada. Coisa de poucos anos. Sempre lhe fui particularmente receptivo, é verdade, mas também sempre a suportei. Talvez porque tivesse muito tempo pela proa. Agora que esse tempo se reduz a coisa parece mais pesada. Ou porque a proa está cheia de rombos, talvez.

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Ontem fui à Biblioteca de Babel pela primeira vez desde que aqui cheguei. Comprei dois livros e deixei outros dois a clamar por mim. O José Luis não estava, não pude falar com ele. Penso que da incompleição da minha vida não faz parte ter tido a sorte de conhecer livreiros extraordinários. O dono da Babel, a senhora da Galileu, a da Palavra de Viajante, os da Snob... Tenho pelas livrarias o amor que tenho por cafés, bares e restaurantes. São duas profissões nobres, dar de comer e dar a ler. Prenhes de responsabilidade.  

Bem sei que faltam milhares deles mas enfim, uma vida não dá para tudo. Não há vidas completas.

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Grandes manifestações de amizade da Paloma, que me viu chegar à Babel. Que já estava com saudades minhas, que se passa com ele que nem à livraria vem... Não consigo deixar de considerar infantil o apreço que tenho por ser bem recebido em todo o lado e tão pouco consigo deixar de gostar. 

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Jantar al fresco no terraço da Volta 2. Febras compradas na Terravera, precedidas por uma salada de tomate, pimento branco e cebola, tudo isto acompanhado por um vinho maiorquino chamado Ciclop. A pimenta foi a de Tellicherry, uma pimenta que conheci em casa da irmã da L. e que é simplesmente fascinante: parece uma pimenta normal e depois vê-se que não é. É uma sublimação. Sal: de cocó, claro. Esse vê-se logo à partida que não é normal. Quando vos vierem falar de flor de sal, perguntem imediatamente se essa pessoa conhece o sal de cocó de Mallorca. Exagerei um bocadinho na paprika picante. Tudo isto precisa de um período de aprendizagem, de ajustamento. Mecanismos delicados.

O fresco acentua-se. Vou lavar a loiça, parte integrante do jantar. 

PS - Manda-me a honestidade dizer que a pimenta do Cristian é melhor do que a do El Corte Inglés.

PPS - Acabei por ir a Santa Catalina. Bebi uma piña colada no Lisboa e outra no Diem, coisa que não conhecia. O primeiro estava excelente mas a música era uma merda. No segundo isto invertia-se. Paciência. Volto para casa - é a subir, a bicicleta precisa de assistência muscular. O elevador da Praça Mayor ainda estava aberto. Em cima havia uma festa popular: música, pessoas a dançar. Tão bonito. Folclore, não sei se daqui. Uma grande roda de dançarinos, mesas com comidas e bebidas. Apanho uma cadeira vazia, sento-me e sou prontamente informado de que aquilo é um BYO. Bring your own. Tenho pena, gostava de ficar ali mais um bom momento, ando muito emocional,  eu sei mas enfim, mais vale aproveitar,  não é  todos os dias (é).

Decido que tanta emoção precisa de um saké, ninguém consegue dormir neste estado. O empregado serve-me e diz-me que o saké acabou. Isto é, não há mais. Isto anda tudo ligado. Se há alcunha que nunca tive e bem mereceria ter é seca-adegas. Tudo aquilo de que eu gosto tende a acabar.

Percebo o porquê do aviso do empregado: ele serviu-me uma dose maior do que devia para acabar com a garrafa. Agora só na sexta. Gostava que amanhã chovesse. 

18.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 18-08-2026

Desenergizado. A palavra existe, diz o Priberam e eu acredito. Sempre é mais bonita do que cansado. 

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Para vir de casa ao Jaume (também conhecido por Bodega Can Rigo) desço o Carrer de Santo Domingo, que em Agosto está cheio de gente e é um inferno, atravesso a Plaça del Rosari e desemboco no Carrer Constitució, atravesso o Passeig des Born e entro na Sant Feliu, quase ao fim da qual está a dita bodega. O troço mais bonito, a esta hora, é o da Constitució: está orientada a oeste, mais coisa menos coisa e quando lá chego a esta hora tenho o Sol pela frente e um momento de ausência quase total de visão. Depois, logo a seguir, o contra-luz envolve pessoas, árvores, carros num halo que santifica tudo e todos, uma espécie de procissão laica que o meu estado emocional transforma em experiência religiosa. 

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Hoje passei mais tempo na cama do que na bicicleta ou num café. Se calhar é por isso que me sinto tão reenergizado. E que as dores diminuíram, apesar de ter cortado os opióides.

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O jantar vai ser em casa: a M. ofereceu-me um pouco do caril que fez para o almoço. Só preciso de comprar meia dúzia de cervejas e de passar pela Babel encomendar um livro recomendado pelo M. R. Não é deixando de comprar livros que a capacidade de concentração volta.

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Estou fartinho até à medula de ouvir toda a gente reclamar contra o calor mas vejo-me obrigado a juntar-me ao coro: este calor derreia-me.

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Fui comprar o Padura e a livraria, traiçoeira e oportunista, aproveitou-de minha presença para me pôr um Pynchon nas mãos. Gosto deste duplo exercício: comprar livros que não lerei com dinheiro que não tenho.

(Gostar não é bem o verbo adequado...)

17.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 17-08-2026

Venho jantar ao Fidel. Os franceses têm uma expressão bonita para descrever como me sinto: je suis lessivé. Estou lexiviado. Em português não funciona: demasiado perto de lixado e eu não o estou. Estou lessivé, simplesmente. A temperatura está finalmente no ponto certo, as mulheres comtinuam belas como só esta cidade (e Genebra) sabem fazê-las, o Fidel recebe-me com o abração de sempre, trouxe canetas para escrever à mão mas estão vazias. A praça está cheia e e comovido com isto tudo, esta mistura de dor, beleza, vermute, calma (Palma-a-calma não é só uma rima). Paguei a renda e dei um adianto para a Btwin, esta burra é boa demais para estar longe de mim. Não sei aonde a vou pôr, mas iso é um pormenor de somenos nesta grande ordem das coisas. O vermute é excelente. Não há nada nesta casa que não o seja. Já em mim é o contrário: parece que estou a apodrecer aos bocados. 

O charter acabou ontem mas hoje ainda tive de ir a Portocolom. Bancas, fazer água e pagar os dias de bóia. Comi lula frita no Mestral e vim com o M. para Palma. A meio do caminho tivemos uma avaria no carro. M. é um dos deuses do meu Olimpo de mecânicos, passem-me por favor o lugar-comum. Era uma peça partida. Desenrascou aquilo e para além do atraso o único impacto foi que me deixou no passeio marítimo em vez de me levar a casa. 

O jantar é uma espetada de carne com puré de batata picante, acompanhado por um Rioja que é "leve, fresco mas saboroso". Se há coisa que o Fidel e o Tom sabem fazer é escolher vinhos (e empregadas e cozinheiros - é o mesmo desde que os conheço). Vir comer aqui é como ir dar um passeio ao jardim das delícias, com estas elevadas à potência dez.

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Mantenho a decisão de acabar com os opióides: hoje sim, o meu analgésico será uma mistura de vermute, vinho e hierbas. O rum fica para depois, no Jaume.

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Está um bocadinho de vento mas parece-me demasiado tarde para ser térmico. É um sinóptico, ventos fiáveis, não estão de passagem. Mentira: vou ao ECMWF confirmar e diz-me que não há vento nenhum. Isto é um resto da térmica da tarde. Não tarda desvai-se. No meu quarto tenho sempre a ventoinha. É eléctrica, não depende de diferenças de temperatura nem de pressão. 

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Tenho de encher as canetas. Não sei se pedirei uma sobremesa. Não tenho fome. Mas tão pouco tens sede e pediste mais um copo de vinho. 

Desculpa: é tarde para discussões filosóficas. O que está em causa é: uma sobremesa aqui ou um gelado no Claudio? Ou os dois? Ou nenhum? Ou uma piña colada no After Landing? Ou ir para casa encharcar-me em comprimidos não opióides?

Ou, mais simplesmente, deixar que seja a cidade a decidir e ir a Santa Catalina beber um copo como deve ser?

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A cidade e a idade decidiram em conjunto: Santa Catalina é muito longe. Vim ao After Landing, pedi um pisco sour que está uma merda e não tarda estou na cama, feito uma merda eu também. 

Raio de mania de "inovar". Vão prá pata que vos pôs mai-la inovação, foda-se! (Analgésico.)

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Há uma espécie de mimetismo entre mim e a cidade. Ela amplia-se e mingua em função do meu cansaço. Enfim, em função de mim. Eu não sou só cansaço. 

16.8.26

Diário de Bordos - Portocolom, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-08-2026

Gosto de planos oscilantes e esta vida é rica neles. Plano A: vou dormir a Palma: plano A1: durmo aqui em Portocolom, a bordo; plano A2: vou para Palma e amanhã volto aqui para ir a bancas e fazer água. Mas gosto igualmente de planos que não mudam: o meu analgésico de hoje vai ser a mistura de cerveja, hierbas secas e rum, em copos separados,  claro. Copos e corpos não perdem nada em separar-se, de vez em quando.

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O calor já não está infernal e quarta ou quinta entra badanal. Com um pouco de sorte vou poder descansar. Com muita sorte, terei trabalho. 

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Espero o autocarro para Palma. Deixei a bicicleta na Intermodal. A ver se ainda lá está quando eu chegar. Aposto que sim. (Só faço apostas quando não sei se vou ganhar...) [Estava.]

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No autocarro: porra, estou cansado! Pergunto-me se terei energia para pedalar até ao 7 Machos.

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Nunca gostei da palavra moinha mas agora aprecio-a bastante. Tornou-se uma companhia mais leve do que a irmã mais velha, a dor. Não me larga.

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A Lua está em crescente, como de resto não podia deixar de ser depois de um eclipse. Anda com Vénus atrelada. Está bonita, parece estar a piscar o olho à outra. São os únicos astros que vejo do autocarro. Demasiada luz.

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Os transportes das ilhas Baleares (TIB para os habitués) tem visivelmente três categorias de condutores: a) os de corrida, b) os "normais" e c) os aprendizes de corredor. Os meus favoritos são os da classe b) que só levam aspas porque não sei que outro nome lhe dar. Este de agora faz parte desse grupo e a viagem decorre pacificamente. A moinha e eu.

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Releio tudo isto e concluo que o meu mal é fome. Estamos quase a chegar, a moinha e eu. Resultado: parámos numa porcaria meio-infecta (falta-me energia para ir até ao fim) a caminho de casa. A idade média do target deve andar pelos oito anos mas a cerveja é boa, El Aguila. Hoje não vai haver rum nem hierbas secas.

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Para meu grande espanto consegui comer o "hamburger" até ao fim, se bem a última garfada já tenha sido um bocado forçada. Hamburger leva aspas. A única coisa que as não merece é a cerveja. Estou pronto para a segunda fase do plano: pagar a renda e mandar guito para o banco, se o monhé da esquina estiver aberto. Se não: amanhã também é dia.

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Volta 2, Palma

O hamburger era uma valente merda mas deu-me pelo menos energia para o escrever.

O monhé da esquina estava aberto. O ritual é sempre o mesmo: primeiro o cartão de cidadão, depois a massa, a seguir ele pergunta:
- Quanto?
- X - respondo.
Ele conta e hoje diz-me:
- Aqui estão X mais cem.
- Então manda X mais cem. 
Se o miúdo não me tivesse dito eu não me teria apercebido. E ainda há quem se pergunte porque é que eu gosto tanto de Palma.

Já só falta conhecer a decisão da companheira moinha. 

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Decidiu foder-me a noite. Já vou no terceiro Dolocalma em duas horas e ela continua. Também não me esqueço de que no pior da crise andei com dois pensos de Fentanil no braço e não serviram para nada. A continuar assim volto ao hospital. 

15.8.26

Diário de Bordos - Cala Mitjiana e cala Guya, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-08-2026

Não se pode dizer que a coisa aqui esteja preta. Não está. Mas tão pouco está branquinha. Ele é a dor nas costas, a vista que continua a chatear, a concentração que não se concentra. É como se estivesse no meio de uma batalha e não soubesse exactamente para que lado vou cair. Enfim, para que lado eu sei. Só não sei é quando. Estamos fundeados em cala Mitjiana, a outra. Esta é na costa norte de ilha. É uma baía enorme com uma praia pequenina ao fundo. Os clientes falam, eu tento ler, tratar das fotografias e agora escrever. Tudo com pouco êxito. Também tentei dormir uma sesta  mas não estou muito à vontade: e se quiserem ir para outro lado? Acordam-me? Ná. Prefiro ir enganando a dor nas costas fazendo-lhe crer que logo vai ter direito à sua dose de comprimidos (vai, menor do que a habitual porque alguns acabaram e outros estão quase). Esta tarde não houve sol. Foi bom, um bocadinho de frescura. Agora está quase a reaparecer. A temperatura já subiu, a térmica foi-se e só temos um mar residual, mal se sente. Amanhã volto para Palma, pago a renda e vou comer ao 7 Machos. Ou seja: amanhã nada de opióides. Quero beber cerveja sem pensar nos efeitos aterradores da mistura daqueles com esta - pelo menos é o que dizem as bulas, consultadas em papel e na net. Verdade seja dita, já o fiz. Mas sou adepto daquele velho ditado segundo o qual púcaro que vai muitas vezes à fonte um dia deixa lá metade.

Enfim, isto é uma questão em aberto: esta rampa vai continuar a descer sem parar ou vai voltar a subir? Estatisticamente ainda tenho dez anos de vida e não vejo grande vantagem em vivê-los neste estado. Por outro lado, também não vejo grande benefício em não os viver. Não ver os meus netos crescer como não vi os meus filhos não me parece uma ideia atractiva por aí além. 

Parece uma vida aos bocados, não parece? Puzzle ao qual faltam peças e agora é tarde para as procurar.

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Para a semana haverá pouco trabalho, com o tempo que aí vem a partir de quarta ou quinta-feiras. Pode ser que consiga dedicar-me às cantigas, que tanto quero fazer. Os gajos do totomilhões não ligam nenhuma aos meus planos, está visto. Bem podiam dar-me um adiantamentozito, eu prometo que voltarei a comprar aquilo quando chegar a Portugal. Se os meus impulsos altruístas se mantiverem, claro, qu'isto de ajudar os pobres tem limites. Sejam eles portugueses ou togoleses. Enfim, filantropia um pouco egoísta, desconfio. Não é porque as probabilidades de ganhar alguma coisa são infinitamente inferiores às de ajudar quem precisa que se deve deixar de jogar.

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Voltámos para cala Guya. É porreira. Poucos barcos e muito espaço. Pouco vento e uma óptima atmosfera a bordo. É como digo: a coisa aqui não está preta.

14.8.26

Diário de Bordos - Cala Guya, Mallorca, Baleares, Espanha, 14-08-2026

Fundeado em Cala Guya, no canto nordeste da ilha. Da vida a bordo pouco há a dizer: entendo-me com os clientes como Deus com os anjos - ou um anjo com os deuses, para ser mais preciso.

O único senão é a porra da dor nas costas, que não me deixa beber nem uma cerveja por causa dos remédios e que ainda por cima só se torna francamente incomodativa à noite na cama. Durante o dia mexo-me como um cabritinho selvagem.  Para adormecer vejo-me e desejo-me e tenho de carregar no opióide - o tal que me faz andar a água e Coca-Cola há não sei quanto tempo. Devo estar a pagar caro esta incapacidade de vergar a coluna. Ou então de a ter vergado demais,  naquela versão "vergar a mola" com que na marinha mercante se designava trabalhar. Não sei. Sei que isto é uma porra infecta, é o que é e já não é pouco.

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Este charter acaba domingo. Não tenho mais nada marcado depois. Vai cair ao pingos, como água da chuva de uma folha de árvore. Talvez até tenha tempo e disponibilidade mental (e física) para me dedicar às cantigas de amor. O plano de ganhar o totomilhões está temporariamente suspenso: aqui em Espanha não compro aquela porcaria. Ajudo os pobres, sim, mas os portugueses. Os espanhóis que tratem dos deles.

Cenas de bar

O rapaz olha para ela com uns olhos de caramelizar mas não percebo se a consegue pôr à boa temperatura. 

13.8.26

Diário de Bordos - Es Trenc, Mallorca, Baleares, Espanha, 13-08-2026

A semana vai bem: vi o meu primeiro e provavelmente último eclipse total do Sol, as dores na perna só me atacam com violência à noite na cama - durante o dia dão-me apenas uma breve lembrança de que ainda por aí andam,  coisa que me alivia bastante porque os clientes de charter não costumam gostar de skippers que mal se podem mexer - estes clientes são impecáveis e já só faltam três dias para regressar ao meu refúgio na casa Volta Dos, que tantas vezes me acolheu.

A loucura provocada pela Lua a passar à frente do parceiro é descriptível mas não muito interessante: milhares de pessoas no cabo Ses Salines, outros milhares na costa da Colonia San Jordi, larguíssimas centenas de embarcações fundeadas em Es Trenc. Tive sorte, arranjei um poiso decente um bocadinho antes de Ses Covetes e aqui ficámos. Hoje passamos de novo a noite aqui. Amanhã,  cala Mitjiana, que já foi pertença de uma grande família aqui da ilha e agora é pública. Por curiosidade, essa família é uma das clientes de uma das senhoras que trago a bordo e é consultora em transmissão de gerações em empresas familiares. Não sei se transmissão é o termo exacto. Já tive uma consultora em pricing e agora tenho uma em mudança de gerações.  

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A vantagem destas dores para os meus leitores é que os posts são curtos.

12.8.26

Eclipse, século XXI

As pessoas que gostam de dizer "estamos no século vinte e um e..." segue-se uma coisa qualquer que elas pensam antiquada ou inaceitável  nos tempos modernos deviam analisar a excitação que por aí vai com o eclipse. Não mudou desde os Neandarthal, aposto.

11.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, 11-08-2026

Vim finalmente jantar ao Gigi's Piccolo Ristorante. É igualzinho a um outro restaurante do género que conheço. Falta só esta réstea de oceano que os separa. Não recordo aonde era. Tendo a pensar em Marselha mas duvido: o ruído seria dez vezes pior; também não foi nas ihas Borromeo. Talvez Paris, talvez o restaurante não fosse italiano ou americano ou coisa que o valha. Talvez fosse apenas um pobre diabo a fugir de qualquer coisa: o cansaço, as dores, isto de a partir de amanhã ter mais cinco de charter, o seu país... que sei eu? Que quero saber? Nada, na verdade. Excepto ir para casa, arrumar a bicicleta, ir para a cama.

A qual cama é, de resto, um dos piores sítios aonde posso estar. É là que as dores são piores e menos suportáveis. Hoje no charter portou-se tudo bem, vá lá. A ver como vai ser amanhã. Cinco dias incluindo o do eclipse - amanhã, por sinal. Está tudo doido com o eclipse. Já vi um ou dois da Lua e um parcial do Sol. Este vai ser o primeiro total for Sol. Confesso que não estou muito excitado com o fenómeno. A ver vamos, dirão os sobreviventes. E eu, se for um deles. 

Apesar do que bebi ao jantar, tomei um desses comprimidos que não se devem misturar com álcool. Paciência. Tudo é melhor do que a noite que passei ontem. Até não morrer.

9.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 09-08-2026

É domingo (de manhã, preciso), está sol e Palma-a-calma anima-se devagarinho. Fui à Tipika gastar dinheiro - bem gasto, claro: siruells, postais e livros de cozinha, dois de cada - e depois vim ao Mise en Place, escritório matinal na Plaza Mayor. O meu projecto de ir à praia ficou adiado sine die. Tudo está adiado sine die, parece-me, excepto este desejo de emoldurar os postais que comprei hoje e os pendurar na parede ao lado do frigorífico, de pôr os siruells novos na estante aonde já estão os outros e de me deitar no sofá da sala com um copo de vinho verde branco. A vontade de ver este tinnitus desaparecer também se mantém viva. Vêm-me à memória as palavras de Cristo na cruz, um bocadinho adaptadas: «Corpo, corpo, porque me abandonaste?»

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O Mise en Place encheu-se com um grupo de franceses. Ocupam a mesa grande, a que está no meio da sala. São alguns catorze (doze, numa contagem mais atenta) e eu vou para casa cozinhar. Ontem comprei um avental e tenho de o estrear. Carne picada, beringelas, patató, cebolinho - alguma coisa daqui sairá, se Deus quiser. Tenho uma garrafa de tinto correcto no frigorífico. Só me faltam hierbaspalo e um pouco de rum. Pouco tenho bebido álcoois fort6es, lapso esse que compenso com cerveja em quantidades razoáveis.

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A livraria inglesa de Palma está fechada para férias. Encomendei is livros sugeridos pelo G. C. na de Lisboa. Vão ter de esperar pelo meu regresso. Esse pelo menos tem die.

(Cont.)


8.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 08-08-2026

A farmácia que não me deixava entrar com a bicicleta fechou. Tenho pena. Não contribuí muito para tâo triste desfecho. Apesar de ter de deixar a burra à porta ia lá mais do que às outras. O senhor inspirava-me confiança. Hoje fui a uma das sobreviventes (Eram três. Agora são duas). Comprei vitamina B12. Parece que ajuda a combater o cansaço. Estou cansado de me ouvir dizer que estou cansado. Também comprei Voltarene, ver se curo esta porra desta inflamação no polegar direito. Três semanas de incómodo justificam o investimento. Aquela porcaria é cara pra burro mas a verdade é que é eficaz. Depois fui à roupa e agora tomo o pequeno-almoço no mercado. Vou comprar especiarias ao Cristian. Hoje vai ser o dia das paprikas e pimentões. Tenho de comprar um almofariz na Culinarium. Se tivesse de fazer um desenho da minha vida em Palma sairia um círculo com centro no Olivar? Circulo não, mas elipse sim e um dos focos seria aqui de certeza. O meu café favorito no mercado chama-se Can Jaume. "Artesans des de 1927", verbatim. Porém, é raro comer aqui. Prefiro os "restaurantes" - o Xisco, o Hugo, o Corner aonde já só vou para o vermute. As tapas são boas e caras. O Can Jaume é um sítio honesto, tem tapas correctas a preços idem. Hoje vou almoçar ao Xisco com o V. Se tiver secretos, claro. Se não vou à Selecta para uma sandocha de presunto. E se em vez de ser uma figura geométrica a minha vida em Palma fosse um sistema de caminhos de ferro? Carris, agulhas, estações, apeadeiros, salas de espera... Märklin de vida, deslumbramento infantil, com uma diferença: este não passará.

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O jantar foi metade do resto da arepa que trouxe do Cric & Croc, a sobra do vinho branco de ontem, a sobra da melancia (uma boa merda, de passagem seja dito), um mochi de maracujá e cento e vinte e cinco de sake da casa no Otaku. A resposta à pergunta "Porque é que todos gostam de Palma?", que eu tantas vezes me fazia quando aqui cheguei, está em cada esquina. 

7.8.26

Diário de Bordos - Palma ,Mallorca, Baleares, Espanha, 07-08-2026

Convido V. para jantar. Frango à Gaston Gérard, uma dessas receitas francesas que requerem três panelas, duas frigideiras e um ralador de queijo por cada cem gramas de carne. Não me queixo do resultado: penso que pode ser um pouco melhorado, é tudo. V. gostou e provou-o servindo-se várias vezes. Não digo quantas por discrição. Depois do jantar fomos beber um sake ao Otaku. É uma escala importante antes do sono.

Chego a casa cansado, como ando sempre. L. mandou-me uma dessas tretas da net segundo a qual esta fatiga perene é provocada pela falta de vitamina B 12, ela mesma consequência da metformina. Amanhã vou comprar a tal vitamina - que de resto já tomei por recomendação da M. durante a parte aguda da crise. Por muito céptico que seja a respeito desses milagres do FB o efeito placebo não é mito nenhum.

J., a filha de M. (dona da casa) e o namorado dizem-me que me lavam a loiça e venho deitar-me.

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O charter com as miúdas acabou bem. Cinco raparigas jovens, bem educadas, bonitas. Não acredito que seja aqui o virar da maré mas se vier será muito bem recebido. Já tem pelo menos dois prenúncios.

6.8.26

Diário de Bordos - Puerto Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 06-08-2026

Estaria pronto a apostar que estes foram os piores saltimbocca alla romana da minha vida. Só não o faço porque não gosto de apostar quando tenho a certeza de que vou ganhar. A única coisa em meu favor é que não foi uma surpresa. Ou melhor, foi-o só parcialmente: estavam piores do que esperava. Vim a um restaurante que dantes era o melhor italiano de Puerto Andratx. Depois foi comprado por uns indianos que mantiveram o menu. Não é a primeira vez que aqui venho depois da mudança. Mas como hoje comi razoavelmente ao almoço, no Foradada com nova gerência (atenção: razoavelmente. A paella estava a léguas da do Sa Premsa) e como não quero gastar muito dinheiro e como continuo a não conseguir comer pizza e de qualquer forma estou em modo peregrinatio e... e... e... cá vim. E hei-de voltar, eu sei. Não preciso de um cilício para me mortificar. Um mau restaurante serve perfeitamente. 

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Quando chegou a hora de pagar mostro o cartão e o senhor, desolado,  aponta para uma folha de papel colada à porta e que aparentemente fazia referência à não aceitação de cartões. Digo "aparentemente" porque não a tinha visto e continuei a não lhe ler o conteúdo. Pergunto aonde é a máquina mais perto e o senhor diz-me que não é preciso. Posso pagar amanhã ou depois. Digo-lhe que não e vou levantar o dinheiro. Amanhã quero sair cedo. Não deixo porém de ficar igualmente impressionado com a técnica de marketing e comovido. Sou um rapazinho sensível, essa é que é essa.

Lá paguei ao homem e fui para bordo esvaziar o dinghy. Parecia uma piscina.

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Recupero desta mistura de emoções e esforço físico com um Negroni no bar N° 11, um bar calmo adequado a um senhor que sofre de excesso de aniversários. As piquenas estão no Tim's, mais feito para aquela faixa etária.

O Negroni estava bom e resolvi aventurar-me num Mai Tai. Grotesco. Tenho de voltar ao Trader Joe em Oakland. Acabar a noite no nível de qualidade com que a comecei faz-me pensar em elevadores circulares.

4.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 04-08-2026

Oito horas numa Saxdor 320. Dois motores Mercury fora-de-borda de trezentos cavalos cada, electrónica última geração, oito horas das quais pouco mais de uma a navegar e o resto fundeado em Ses Iletes. Deve ser a primeira vez que alguém me pede para passar um dia inteiro naquele sítio, mas bom. Estar seis horas parado a fazer nada senão prestar atenção a quem chega e a quem vai, ainda por cima sem comida por esquecimento (meu), tanto faz estar aqui, ali ou acolá. A «cala» - aspas porque aquilo não é propriamente uma cala - estava cheia, como sempre. Encontrei um canto perto da praia e por ali fiquei. Os clientes eram porreiros, não chatearam nem um minuto. Tinha o fato de banho no saco mas decidi não usar a velha desculpa do «vou verificar o ferro». Estoicismo, meu caro. Estoicismo. No regresso apanhei um táxi, uma senhora linda e deliciosa de mais para ser descrita em palavras. Acabámos a falar de política. Acha o Sanchéz um psicopata e tem pena de não poder sair de Maiorca porque o namorado não quer nem ouvir falar disso. Tudo numa voz juvenil, doce, suave, sorridente. É tão bom ter a idade que tenho e ser capaz de apreciar estas coisas só por elas, só porque são bonitas.

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Andava à procura de um sítio para vir comer, passei tudo em revista e acabei no Cric & Croc (o nosso Buca e Estica, para quem não sabe). Melhor ideia do dia. A arepa continua deliciosa e demasiado grande. O que sobrou vai para casa e amanhã faço um jantar de restos. Depois da praia, aonde irei sem falta. Só me resta decidir qual. A primeira escolha é Estellencs, cela va sans dire. A ver vamos o que será avec dire. Depende do horário dos autocarros e da força nas pernas, que subir aquilo à pata é um esforço que não sei se terei coragem de pedir aos meus músculos sofredores. (Pefiro pensar que são eles os doentes.)

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Amanhã não tenho hora para acordar. Preciso de mais dias assim. Tanto quanto preciso deles com horas.

2.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-08-2026

Não é o double bind perfeito, esse dilema tão querido aos teóricos (e práticos) da escola de Palo Alto. Antes, é muito desequilibrado: de um lado, uma enorme necessidade de descansar. Do outro, uma igualmente vasta necessidade de trabalhar. Claro que a balança pende imediatamente e sem apelo para o lado do trabalho e amanhã lá vou para outro day charter de meio-dia em Portocolom. Ou seja: quatro horas de trabalho e três de trajectos. Pouco importa. Um dos pratos da balança é mais pesado do que o outro, como toda a gente sabe. A vida é injusta.

En attendant, hoje vou cozinhar para a M. e companhia. Frango korma e bebo cerveja no Ivo (?), que por sinal está grosso e é ainda mais insuportável do que quando não está. Terça-feira vou comprar especiarias ao Cristian e em Outubro vou a Genebra. O plano não poderia ser melhor, mesmo que eu quisesse. Não quero. Encomendei frascos de vidro vai para duas ou três semanas e já devem ter chegado. O korma de hoje vai ser feito com um produto enfrascado, pré-fabricado, coisa de que não sou grande fã. Mas enfim. Mais vale ter trabalho amanhã do que não ter. O Watzlawick concordaria.

E a verdade é que hoje descansei. Saí da cama eram dez e meia da manhã e a tarde ainda me proporcionou uma belíssima sesta. Descubro que o Ivo do Bistrot Bar é mais ou menos família do Ivo das bicicletas: este era casado com uma sobrinha daquele. Quando eu falo aos meus tripulantes que quando chegamos a um porto as pessoas estão ligadas por fios que nós não vemos...

1.8.26

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-08-2026

Janto no Mestis, restaurante de que me tenho mantido afastado não sabia bem porquê. O principal impedimento talvez fosse o nome: demasiado perto do meu bem-amado Café Métis, em Genebra; ou porque é demasiado zeitgeist para  meu gosto. Não sei. Sei que saí de lá nem vencido nem convencido. Terei de lá voltar, tirar dúvidas. Amanhã, contudo, não será a véspera desse dia. Agora só quando aparecer mais trabalho. Nunca vi nada de errado em trabalhar para comer e não é agora que vou começar. Tanto mais que os dias que aí vêm são de forte contenção. 

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Pequeno incidente na cala S'Algar: ia atropelando três nadadores. É um daqueles casos em que a culpa ou não é de ninguém ou é de todos mas apanhei um susto que me pôs o sangue a circular à velocidade de um Fórmula Um na recta final de um percurso. Felizmente não aconteceu nada e as três quase vítimas - que seriam tão culpadas como eu e como o skipper do barco aonde estavam - riram-se e disseram que estava tudo bem. Esta é uma daquelas vezes em que penso nas invectivas que Paulo Pernão faz aos skippers de charter. Numa cala enorme e cheia de espaço para fundear aquele idiota vem fundear mesmo em cima de mim e do barco que estava à minha proa. Quando fui para levantar ferro houve confusão, claro. Bom, um lembrete  para mim e uma boa lição para o marinheiro, que estava à proa no ferro e também não viu as pessoas na água. As quais pessoas tinham abandonado o sítio aonde estavam quando isto tudo começou e se dirigiam para a sua embarcação sem ter a precaução de olhar. Não tarda paro de vez com o charter. 

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A entidade que gere as instalações da estação Intermodal de Palma aumentou o parque de estacionamento de bicicletas. Continua insuficiente, claro. O que me intriga é porque não multiplicaram logo o número de lugares por três ou quatro. Tenho encontrado lugar, mas à custa de malabarismos para os quais me faltam a agilidade e a paciência. 

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Descansar,  esperar que a injecção esteja à boa temperatura, relaxar e dormir. Assim de repente parece-me um bom programa. Só falta ver qual as partes que não se concretizam.

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A injecção não estava à boa temperatura. Não é grave: dói um bocadinho mas passa depressa. Tentei ler, mas a luz é horrível e não consigo. As alpergatas velhas vão para o lixo. Com sorte, amanhã terei o meu cinto, que tanta falta me faz. E ainda há quem creia que isto é uma vida monótona?