Cozinhar é a arte de transformar uma série de operações químicas em alquimia (quando o resultado é bom. Quando não: ficaram na área da química).
24.8.26
23.8.26
Retratos
Eram duas irmãs. Mais do que beleza, os seus rostos mostravam carácter, temperamento, raça, força - uma série de qualidades que juntas se transformavam em beleza, movimento circular que provava a ausência de fronteiras entre o interior e o exterior.
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-08-2026
Ou seja: o programa está cumprido. Basta trocar a leitura por uma BA. O Enco é um café muito agradável e eu recomendo-o.
22.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-08-2026
21.8.26
Sortante, entrante
20.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 20-08-2026
Hoje fui à Bottega Bolognese comer uma carbonara. (Lembrete: a melhor que já comi fora da Itália e uma das melhores se incluir as italianas - a de Cannigione não me sairá da memória até morrer.) A Silvia contou-me esta história, que eu acho magnífica, daquelas que nem a imaginação delirante do Valério Romão ou do Pynchon conseguiriam inventar: duas alemoas, turistas, pedem um copo de pinot grigio e um de chianti. A Silvia serve-lhes os copos e uma delas pergunta: qual é o pinot grigio e qual é o chianti?
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Não sei se por causa da vitamina B12, se devido ao magnésio se - quanto a mim o mais provável - à quantidade de água que estou a beber diariamente, ando ligeiramente menos cansado e a minha capacidade de concentração aumentou. Pouco mas melhorou. Já consigo ler três ou quatro páginas do Padura - escritor que lamento só agora ter conhecido. O Pynchon também avança. O problema que tenho com a história do Trotsky é que me é difícil absorver notícias tristes. A ver se a água e ou as pílulas ajudam. Ou a fruta: todos os dias como metade do meu peso em melancia, melão, figos, pêssegos, ameixas e paraguaios. Ah, hoje comprei uvas moscatel.
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Fiz um tzatziki. Amanhã saberei como ficou. A novidade sendo que é preciso mais pepino do que até agora pensava. A receita sobre a qual por acaso caí e me motivou dizia "na verdade, é preciso ver o tzatziki como uma salada de pepino envolta em iogurte grego e não este com pepino". Pimenta Tellicherry com um toque de pimenta fumada e sal de cocó, claro. Aneto, menta, azeite, vinagre. O iogurte "grego" não é grande coisa mas é o que há. Qualquer dia encontrá-lo-ei sem aspas.
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Está a chover. O badanal previsto para hoje e amanhã limitou-se ao lado oeste da ilha.
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Hoje a Btwin levou-me a passear pelas ruas estreitas, sinuosas e frescas de Calatrava, um bairro que estranhamente sobrevive à ganância turística. Não creio que a sobrevivência se prolongue por muito mais tempo.
19.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-08-2026
18.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 18-08-2026
17.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 17-08-2026
Venho jantar ao Fidel. Os franceses têm uma expressão bonita para descrever como me sinto: je suis lessivé. Estou lexiviado. Em português não funciona: demasiado perto de lixado e eu não o estou. Estou lessivé, simplesmente. A temperatura está finalmente no ponto certo, as mulheres comtinuam belas como só esta cidade (e Genebra) sabem fazê-las, o Fidel recebe-me com o abração de sempre, trouxe canetas para escrever à mão mas estão vazias. A praça está cheia e e comovido com isto tudo, esta mistura de dor, beleza, vermute, calma (Palma-a-calma não é só uma rima). Paguei a renda e dei um adianto para a Btwin, esta burra é boa demais para estar longe de mim. Não sei aonde a vou pôr, mas iso é um pormenor de somenos nesta grande ordem das coisas. O vermute é excelente. Não há nada nesta casa que não o seja. Já em mim é o contrário: parece que estou a apodrecer aos bocados.
O charter acabou ontem mas hoje ainda tive de ir a Portocolom. Bancas, fazer água e pagar os dias de bóia. Comi lula frita no Mestral e vim com o M. para Palma. A meio do caminho tivemos uma avaria no carro. M. é um dos deuses do meu Olimpo de mecânicos, passem-me por favor o lugar-comum. Era uma peça partida. Desenrascou aquilo e para além do atraso o único impacto foi que me deixou no passeio marítimo em vez de me levar a casa.
O jantar é uma espetada de carne com puré de batata picante, acompanhado por um Rioja que é "leve, fresco mas saboroso". Se há coisa que o Fidel e o Tom sabem fazer é escolher vinhos (e empregadas e cozinheiros - é o mesmo desde que os conheço). Vir comer aqui é como ir dar um passeio ao jardim das delícias, com estas elevadas à potência dez.
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Mantenho a decisão de acabar com os opióides: hoje sim, o meu analgésico será uma mistura de vermute, vinho e hierbas. O rum fica para depois, no Jaume.
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Está um bocadinho de vento mas parece-me demasiado tarde para ser térmico. É um sinóptico, ventos fiáveis, não estão de passagem. Mentira: vou ao ECMWF confirmar e diz-me que não há vento nenhum. Isto é um resto da térmica da tarde. Não tarda desvai-se. No meu quarto tenho sempre a ventoinha. É eléctrica, não depende de diferenças de temperatura nem de pressão.
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Tenho de encher as canetas. Não sei se pedirei uma sobremesa. Não tenho fome. Mas tão pouco tens sede e pediste mais um copo de vinho.
Desculpa: é tarde para discussões filosóficas. O que está em causa é: uma sobremesa aqui ou um gelado no Claudio? Ou os dois? Ou nenhum? Ou uma piña colada no After Landing? Ou ir para casa encharcar-me em comprimidos não opióides?
Ou, mais simplesmente, deixar que seja a cidade a decidir e ir a Santa Catalina beber um copo como deve ser?
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A cidade e a idade decidiram em conjunto: Santa Catalina é muito longe. Vim ao After Landing, pedi um pisco sour que está uma merda e não tarda estou na cama, feito uma merda eu também.
Raio de mania de "inovar". Vão prá pata que vos pôs mai-la inovação, foda-se! (Analgésico.)
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Há uma espécie de mimetismo entre mim e a cidade. Ela amplia-se e mingua em função do meu cansaço. Enfim, em função de mim. Eu não sou só cansaço.
16.8.26
Diário de Bordos - Portocolom, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-08-2026
15.8.26
Diário de Bordos - Cala Mitjiana e cala Guya, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-08-2026
Para a semana haverá pouco trabalho, com o tempo que aí vem a partir de quarta ou quinta-feiras. Pode ser que consiga dedicar-me às cantigas, que tanto quero fazer. Os gajos do totomilhões não ligam nenhuma aos meus planos, está visto. Bem podiam dar-me um adiantamentozito, eu prometo que voltarei a comprar aquilo quando chegar a Portugal. Se os meus impulsos altruístas se mantiverem, claro, qu'isto de ajudar os pobres tem limites. Sejam eles portugueses ou togoleses. Enfim, filantropia um pouco egoísta, desconfio. Não é porque as probabilidades de ganhar alguma coisa são infinitamente inferiores às de ajudar quem precisa que se deve deixar de jogar.
Voltámos para cala Guya. É porreira. Poucos barcos e muito espaço. Pouco vento e uma óptima atmosfera a bordo. É como digo: a coisa aqui não está preta.
14.8.26
Diário de Bordos - Cala Guya, Mallorca, Baleares, Espanha, 14-08-2026
Cenas de bar
13.8.26
Diário de Bordos - Es Trenc, Mallorca, Baleares, Espanha, 13-08-2026
A semana vai bem: vi o meu primeiro e provavelmente último eclipse total do Sol, as dores na perna só me atacam com violência à noite na cama - durante o dia dão-me apenas uma breve lembrança de que ainda por aí andam, coisa que me alivia bastante porque os clientes de charter não costumam gostar de skippers que mal se podem mexer - estes clientes são impecáveis e já só faltam três dias para regressar ao meu refúgio na casa Volta Dos, que tantas vezes me acolheu.
A loucura provocada pela Lua a passar à frente do parceiro é descriptível mas não muito interessante: milhares de pessoas no cabo Ses Salines, outros milhares na costa da Colonia San Jordi, larguíssimas centenas de embarcações fundeadas em Es Trenc. Tive sorte, arranjei um poiso decente um bocadinho antes de Ses Covetes e aqui ficámos. Hoje passamos de novo a noite aqui. Amanhã, cala Mitjiana, que já foi pertença de uma grande família aqui da ilha e agora é pública. Por curiosidade, essa família é uma das clientes de uma das senhoras que trago a bordo e é consultora em transmissão de gerações em empresas familiares. Não sei se transmissão é o termo exacto. Já tive uma consultora em pricing e agora tenho uma em mudança de gerações.
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A vantagem destas dores para os meus leitores é que os posts são curtos.
12.8.26
Eclipse, século XXI
As pessoas que gostam de dizer "estamos no século vinte e um e..." segue-se uma coisa qualquer que elas pensam antiquada ou inaceitável nos tempos modernos deviam analisar a excitação que por aí vai com o eclipse. Não mudou desde os Neandarthal, aposto.
11.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, 11-08-2026
Vim finalmente jantar ao Gigi's Piccolo Ristorante. É igualzinho a um outro restaurante do género que conheço. Falta só esta réstea de oceano que os separa. Não recordo aonde era. Tendo a pensar em Marselha mas duvido: o ruído seria dez vezes pior; também não foi nas ihas Borromeo. Talvez Paris, talvez o restaurante não fosse italiano ou americano ou coisa que o valha. Talvez fosse apenas um pobre diabo a fugir de qualquer coisa: o cansaço, as dores, isto de a partir de amanhã ter mais cinco de charter, o seu país... que sei eu? Que quero saber? Nada, na verdade. Excepto ir para casa, arrumar a bicicleta, ir para a cama.
A qual cama é, de resto, um dos piores sítios aonde posso estar. É là que as dores são piores e menos suportáveis. Hoje no charter portou-se tudo bem, vá lá. A ver como vai ser amanhã. Cinco dias incluindo o do eclipse - amanhã, por sinal. Está tudo doido com o eclipse. Já vi um ou dois da Lua e um parcial do Sol. Este vai ser o primeiro total for Sol. Confesso que não estou muito excitado com o fenómeno. A ver vamos, dirão os sobreviventes. E eu, se for um deles.
Apesar do que bebi ao jantar, tomei um desses comprimidos que não se devem misturar com álcool. Paciência. Tudo é melhor do que a noite que passei ontem. Até não morrer.
9.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 09-08-2026
A livraria inglesa de Palma está fechada para férias. Encomendei is livros sugeridos pelo G. C. na de Lisboa. Vão ter de esperar pelo meu regresso. Esse pelo menos tem die.
8.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 08-08-2026
A farmácia que não me deixava entrar com a bicicleta fechou. Tenho pena. Não contribuí muito para tâo triste desfecho. Apesar de ter de deixar a burra à porta ia lá mais do que às outras. O senhor inspirava-me confiança. Hoje fui a uma das sobreviventes (Eram três. Agora são duas). Comprei vitamina B12. Parece que ajuda a combater o cansaço. Estou cansado de me ouvir dizer que estou cansado. Também comprei Voltarene, ver se curo esta porra desta inflamação no polegar direito. Três semanas de incómodo justificam o investimento. Aquela porcaria é cara pra burro mas a verdade é que é eficaz. Depois fui à roupa e agora tomo o pequeno-almoço no mercado. Vou comprar especiarias ao Cristian. Hoje vai ser o dia das paprikas e pimentões. Tenho de comprar um almofariz na Culinarium. Se tivesse de fazer um desenho da minha vida em Palma sairia um círculo com centro no Olivar? Circulo não, mas elipse sim e um dos focos seria aqui de certeza. O meu café favorito no mercado chama-se Can Jaume. "Artesans des de 1927", verbatim. Porém, é raro comer aqui. Prefiro os "restaurantes" - o Xisco, o Hugo, o Corner aonde já só vou para o vermute. As tapas são boas e caras. O Can Jaume é um sítio honesto, tem tapas correctas a preços idem. Hoje vou almoçar ao Xisco com o V. Se tiver secretos, claro. Se não vou à Selecta para uma sandocha de presunto. E se em vez de ser uma figura geométrica a minha vida em Palma fosse um sistema de caminhos de ferro? Carris, agulhas, estações, apeadeiros, salas de espera... Märklin de vida, deslumbramento infantil, com uma diferença: este não passará.
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O jantar foi metade do resto da arepa que trouxe do Cric & Croc, a sobra do vinho branco de ontem, a sobra da melancia (uma boa merda, de passagem seja dito), um mochi de maracujá e cento e vinte e cinco de sake da casa no Otaku. A resposta à pergunta "Porque é que todos gostam de Palma?", que eu tantas vezes me fazia quando aqui cheguei, está em cada esquina.
7.8.26
Diário de Bordos - Palma ,Mallorca, Baleares, Espanha, 07-08-2026
Convido V. para jantar. Frango à Gaston Gérard, uma dessas receitas francesas que requerem três panelas, duas frigideiras e um ralador de queijo por cada cem gramas de carne. Não me queixo do resultado: penso que pode ser um pouco melhorado, é tudo. V. gostou e provou-o servindo-se várias vezes. Não digo quantas por discrição. Depois do jantar fomos beber um sake ao Otaku. É uma escala importante antes do sono.
Chego a casa cansado, como ando sempre. L. mandou-me uma dessas tretas da net segundo a qual esta fatiga perene é provocada pela falta de vitamina B 12, ela mesma consequência da metformina. Amanhã vou comprar a tal vitamina - que de resto já tomei por recomendação da M. durante a parte aguda da crise. Por muito céptico que seja a respeito desses milagres do FB o efeito placebo não é mito nenhum.
J., a filha de M. (dona da casa) e o namorado dizem-me que me lavam a loiça e venho deitar-me.
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O charter com as miúdas acabou bem. Cinco raparigas jovens, bem educadas, bonitas. Não acredito que seja aqui o virar da maré mas se vier será muito bem recebido. Já tem pelo menos dois prenúncios.
6.8.26
Diário de Bordos - Puerto Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 06-08-2026
Estaria pronto a apostar que estes foram os piores saltimbocca alla romana da minha vida. Só não o faço porque não gosto de apostar quando tenho a certeza de que vou ganhar. A única coisa em meu favor é que não foi uma surpresa. Ou melhor, foi-o só parcialmente: estavam piores do que esperava. Vim a um restaurante que dantes era o melhor italiano de Puerto Andratx. Depois foi comprado por uns indianos que mantiveram o menu. Não é a primeira vez que aqui venho depois da mudança. Mas como hoje comi razoavelmente ao almoço, no Foradada com nova gerência (atenção: razoavelmente. A paella estava a léguas da do Sa Premsa) e como não quero gastar muito dinheiro e como continuo a não conseguir comer pizza e de qualquer forma estou em modo peregrinatio e... e... e... cá vim. E hei-de voltar, eu sei. Não preciso de um cilício para me mortificar. Um mau restaurante serve perfeitamente.
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Quando chegou a hora de pagar mostro o cartão e o senhor, desolado, aponta para uma folha de papel colada à porta e que aparentemente fazia referência à não aceitação de cartões. Digo "aparentemente" porque não a tinha visto e continuei a não lhe ler o conteúdo. Pergunto aonde é a máquina mais perto e o senhor diz-me que não é preciso. Posso pagar amanhã ou depois. Digo-lhe que não e vou levantar o dinheiro. Amanhã quero sair cedo. Não deixo porém de ficar igualmente impressionado com a técnica de marketing e comovido. Sou um rapazinho sensível, essa é que é essa.
Lá paguei ao homem e fui para bordo esvaziar o dinghy. Parecia uma piscina.
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Recupero desta mistura de emoções e esforço físico com um Negroni no bar N° 11, um bar calmo adequado a um senhor que sofre de excesso de aniversários. As piquenas estão no Tim's, mais feito para aquela faixa etária.
O Negroni estava bom e resolvi aventurar-me num Mai Tai. Grotesco. Tenho de voltar ao Trader Joe em Oakland. Acabar a noite no nível de qualidade com que a comecei faz-me pensar em elevadores circulares.
4.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 04-08-2026
Oito horas numa Saxdor 320. Dois motores Mercury fora-de-borda de trezentos cavalos cada, electrónica última geração, oito horas das quais pouco mais de uma a navegar e o resto fundeado em Ses Iletes. Deve ser a primeira vez que alguém me pede para passar um dia inteiro naquele sítio, mas bom. Estar seis horas parado a fazer nada senão prestar atenção a quem chega e a quem vai, ainda por cima sem comida por esquecimento (meu), tanto faz estar aqui, ali ou acolá. A «cala» - aspas porque aquilo não é propriamente uma cala - estava cheia, como sempre. Encontrei um canto perto da praia e por ali fiquei. Os clientes eram porreiros, não chatearam nem um minuto. Tinha o fato de banho no saco mas decidi não usar a velha desculpa do «vou verificar o ferro». Estoicismo, meu caro. Estoicismo. No regresso apanhei um táxi, uma senhora linda e deliciosa de mais para ser descrita em palavras. Acabámos a falar de política. Acha o Sanchéz um psicopata e tem pena de não poder sair de Maiorca porque o namorado não quer nem ouvir falar disso. Tudo numa voz juvenil, doce, suave, sorridente. É tão bom ter a idade que tenho e ser capaz de apreciar estas coisas só por elas, só porque são bonitas.
2.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-08-2026
1.8.26
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-08-2026
Janto no Mestis, restaurante de que me tenho mantido afastado não sabia bem porquê. O principal impedimento talvez fosse o nome: demasiado perto do meu bem-amado Café Métis, em Genebra; ou porque é demasiado zeitgeist para meu gosto. Não sei. Sei que saí de lá nem vencido nem convencido. Terei de lá voltar, tirar dúvidas. Amanhã, contudo, não será a véspera desse dia. Agora só quando aparecer mais trabalho. Nunca vi nada de errado em trabalhar para comer e não é agora que vou começar. Tanto mais que os dias que aí vêm são de forte contenção.
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Pequeno incidente na cala S'Algar: ia atropelando três nadadores. É um daqueles casos em que a culpa ou não é de ninguém ou é de todos mas apanhei um susto que me pôs o sangue a circular à velocidade de um Fórmula Um na recta final de um percurso. Felizmente não aconteceu nada e as três quase vítimas - que seriam tão culpadas como eu e como o skipper do barco aonde estavam - riram-se e disseram que estava tudo bem. Esta é uma daquelas vezes em que penso nas invectivas que Paulo Pernão faz aos skippers de charter. Numa cala enorme e cheia de espaço para fundear aquele idiota vem fundear mesmo em cima de mim e do barco que estava à minha proa. Quando fui para levantar ferro houve confusão, claro. Bom, um lembrete para mim e uma boa lição para o marinheiro, que estava à proa no ferro e também não viu as pessoas na água. As quais pessoas tinham abandonado o sítio aonde estavam quando isto tudo começou e se dirigiam para a sua embarcação sem ter a precaução de olhar. Não tarda paro de vez com o charter.
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A entidade que gere as instalações da estação Intermodal de Palma aumentou o parque de estacionamento de bicicletas. Continua insuficiente, claro. O que me intriga é porque não multiplicaram logo o número de lugares por três ou quatro. Tenho encontrado lugar, mas à custa de malabarismos para os quais me faltam a agilidade e a paciência.
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Descansar, esperar que a injecção esteja à boa temperatura, relaxar e dormir. Assim de repente parece-me um bom programa. Só falta ver qual as partes que não se concretizam.
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A injecção não estava à boa temperatura. Não é grave: dói um bocadinho mas passa depressa. Tentei ler, mas a luz é horrível e não consigo. As alpergatas velhas vão para o lixo. Com sorte, amanhã terei o meu cinto, que tanta falta me faz. E ainda há quem creia que isto é uma vida monótona?