O vinho chama-se Vale d'aldeia Grande Reserva Sousão e é de 2022. É muito bom, vinho português como gosto deles, taninos que ficam mas não magoam, corpo denso e fino... Parece uma mulher portuguesa, não é? Algumas.
Veio com favas guisadas, estas feitas por mim. Abusei um bocadinho no rosmaninho, mas foi tão pouco que «abusar» não é o termo correcto. Além disso levou cebolinho, salsa e coentros, estes em quantidade comedida. O entrecosto foi temperado com paprika fumada picante e tudo com a pimenta de Tellicherry que fiquei a conhecer graças à irmã da L., a quem estou infinitamente grato. Se eu fosse obrigado a seleccionar duas ou três especiarias, a pimenta, a paprika (e o pimentão), o cravinho, os cominhos (penso nos de S. Luís do Maranhão, razão necessária e suficiente para lá voltar, no meio de centenas de outras), o cardamomo, a alcaravia (nota bene: tenho de fazer harissa), a pimenta fermentada do Cambodja que acabei há dias, a pimenta fumada que não sei de onde vem, o Merken (uma mistura que tenho de aprender a fazer), o macis (e a noz moscada, que envolve), o sal de Cocó, que é o melhor sal do mundo. Felizmente não tenho de fazer listas e tenho as prateleiras bem fornecidas.
Tudo isto - favas, vinho, especiarias e solidão - acompanhado pelos discos de Leonard Cohen, que oiço em fila com excepção do You want it darker porque não me apetece pensar na morte agora, pelo menos na dele. Na minha penso, às vezes, mas tão pouco a quero ver cantada assim agora porque é demasiado bonito e eu tenho três netos para ver crescer, alguns milhares de páginas para ler e outras tantas fotografias para fazer e ou arrumar.
Mas alguém morre com nada por fazer? Sorte...
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Não sei quem me trouxe este vinho mas suspeito que seja obra do B. F., a quem dedico este post. Como o dedico também ao C. G., que é uma forma desajeitada de lhes dizer que os quero muito, isto hoje é dia de ausências, não é?
Não sei. Chegou a vez do You want it darker porque já não há mais nada dele para ouvir e a resposta «é não, Leonard, não quero isto mais escuro nem estou pronto, não me importo de morrer e deixar um monte de coisas por fazer mas chateia-me deixar a carcaça em mau estado para os vermes que a hão-de comer.»
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A garrafa de vinho acabou. Tudo acaba, menos a vida.
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Hoje é o aniversário da minha primeira namorada. É uma das raras datas que retive nestes últimos cinquenta e tal anos.
Hoje é o aniversário da minha primeira namorada. É uma das raras datas que retive nestes últimos cinquenta e tal anos.
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Conhecem um poeta espanhol chamado Antonio Gamoneda? É das melhores coisas que a língua espanhola produziu e produziu tantas.
Conhecem um poeta espanhol chamado Antonio Gamoneda? É das melhores coisas que a língua espanhola produziu e produziu tantas.
«El óxido se posó en mi lengua como el sabor de una desaparición.
El olvido entró en mi lengua y no tuve otra conducta que el olvido,
y no accepté otro valor que la imposibilidad.
Como un barco calcificado en un pais del que se ha retirado el mar,
escuché la rendición de mis huesos depositandose en el descanso;
escuché la huida de los insectos y la retracción de la sombra al ingresar en lo que quedaba de mi;
y no pude resistir le perfección del silencio.»
Isto continua, o poema é enorme, chama-se Descripción de la mentira e está num livro chamado Esta Luz, poesía reunida, Volumen 1 (1947 - 2004), ed. da Galaxia Gutenberg.
«Puse mis manos en un rostro y las retiré heridas por el amor.
Ahora,
Ahora,
El olvido acaricia mis manos.»
Agora, o vinho acaricia... Agora, a música acaricia... Agora, a melancolia acaricia esta noite que se prolonga como um super-petroleiro avança, incapaz de guinar, como se a memória fosse azul e salgada.
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Melancolia? Lê Blake, meu caro. Cura-te isso mais depressa do que um paracetamol te cura a dor de cabeça.
«He who binds to himself a joy
Melancolia? Lê Blake, meu caro. Cura-te isso mais depressa do que um paracetamol te cura a dor de cabeça.
«He who binds to himself a joy
Does the winged life destroy;
But he who kisses the joy as it flies
But he who kisses the joy as it flies
Lives in eternity's sun rise.»
E ouve Vasco Duarte Abranches. E se o Vale d'aldeia acaba, abre uma garrafa de Quinta dos Termos Vinhas Velhas. E lembra-te: não estás em condições de ir desta para melhor. As bactérias não merecem uma coisa nestas condições. Melhor tratá-la, com uma pequena ajuda dos teus amigos.
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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.