Genève, 2001 (Fête du 1er Août)
15.10.12
Coerência republicana
Mário Soares, que tanta repugnância tem pelo governo e acha que ele está a conduzir o país à desgraça devia ser coerente e recusar estes fundos.
Lições e lições
Os partidos em Portugal não são organizações que servem para aglutinar pessoas que propõem soluções mais ou menos semelhantes, ou próximas, para o governo do país. São máquinas cujo único objectivo é ganhar eleições, sendo que esse fim justifica que não se governe - se governar exigir medidas impopulares - nem se deixe governar (idem).
Claro que se poderia perguntar porque é assim. Mas seria uma pergunta inútil, retórica. Todos sabemos porquê.
Adenda - mais um.
Claro que se poderia perguntar porque é assim. Mas seria uma pergunta inútil, retórica. Todos sabemos porquê.
Adenda - mais um.
14.10.12
Noite, vidas
Um gajo passeia à noite sozinho por ruas das quais não é; ou seja, as ruas, a cidade não são as dele. Pergunta-se se a sua vida é como essa cidade, se os passos que dá na vida lhe são tão estranhos como os que dá nas ruas quase vazias à noite, e o fazem pensar que em breve estará noutra cidade, noutras ruas, noutra vida.
Uma vida fractal, uma vida de vidas, a quem o gajo que à noite passeia nas ruas é indiferente. As cidades não se preocupam muito com quem as percorre, tal como a vida com quem a vive. Já não está calor, mas ainda não está frio; a vida está entre duas vidas, duas estações, duas noites, dois passos nas ruas quase desertas.
Um fractal, uma vida entre vidas, um tempo entre tempos, uma noite entre noites: um homem faz-se passo a passo e só está feito quando dá o último.
II
A esperança não é para aqui chamada, nem a felicidade, nem o passado, a memória, o esquecimento, o medo. A vida está-se nas tintas para isso tudo, nada disso lhe interessa, são sombras, ersatz, irrelevâncias. Nada se não o homem e os passos que dá, as ruas que percorre, as cidades que deixa e aquelas para onde vai.
A noite, a vida e um passo.
Uma vida fractal, uma vida de vidas, a quem o gajo que à noite passeia nas ruas é indiferente. As cidades não se preocupam muito com quem as percorre, tal como a vida com quem a vive. Já não está calor, mas ainda não está frio; a vida está entre duas vidas, duas estações, duas noites, dois passos nas ruas quase desertas.
Um fractal, uma vida entre vidas, um tempo entre tempos, uma noite entre noites: um homem faz-se passo a passo e só está feito quando dá o último.
II
A esperança não é para aqui chamada, nem a felicidade, nem o passado, a memória, o esquecimento, o medo. A vida está-se nas tintas para isso tudo, nada disso lhe interessa, são sombras, ersatz, irrelevâncias. Nada se não o homem e os passos que dá, as ruas que percorre, as cidades que deixa e aquelas para onde vai.
A noite, a vida e um passo.
Telhados de vidro
Talvez no fundo a razão da "incapacidade" de reformar esteja aqui: ninguém vai para o governo sem telhados de vidro.
Impressão
É impressão minha ou José Pacheco Pereira está cada vez mais ansioso? Não deixa de ser curioso ver que aquela parte do PSD que contribuiu em muito para a situação actual (Cavaco incluído) não pára de atirar a quem, mal ou bem, vai pelo menos tentando endireitar o que nasceu torto.
O homem está a fazer erros? Está. Mas bolas, pelo menos que o seu próprio partido o deixe governar até ao fim. É realmente durante as crises que se vê o que são as pessoas, e esta está a destapar a careca a muitas delas.
O homem está a fazer erros? Está. Mas bolas, pelo menos que o seu próprio partido o deixe governar até ao fim. É realmente durante as crises que se vê o que são as pessoas, e esta está a destapar a careca a muitas delas.
13.10.12
Genève estuda uma baixa de impostos para empresas
"Avec son projet d’un taux unique d’imposition des personnes morales de 13%, contre 15% à Neuchâtel, Genève se lance-t-il dans la sous-enchère fiscale tant redoutée par certains?"
O link é só para assinantes, infelizmente. Mas a notícia é interessante. Inclusivamente pelo "tão receada por alguns".
(Para quem não sabe Genéve é um cantão socialista, com taxas fiscais elevadíssimas).
O link é só para assinantes, infelizmente. Mas a notícia é interessante. Inclusivamente pelo "tão receada por alguns".
(Para quem não sabe Genéve é um cantão socialista, com taxas fiscais elevadíssimas).
"O nosso problema não é de milhares de euros"?
Claro que não. É de atitude. E enquanto a nossa classe política não mudar de atitude ninguém vai sequer começar a querer ouvir falar de "cenários macro". É por isso que se devia ter começado por cortar a fundo nas mordomias - automóveis, subsídios de renda, refeições quase gratuitas, fundações (o que se fez veio tarde e pouco) -. A poupança não teria sido significativa? Não. Mas a cama estaria feita.
As pessoas que beneficiam dessas regalias encaram-nas como naturais; não se apercebem de que são um luxo, uma sorte, um privilégio; e sobretudo, pagos por outrém. É essa atitude que é preciso mudar.
Enfim, tentar mudar.
12.10.12
Planos, e um conselho
É tarde. Estou cheio de planos: ir deitar-me; encontrar um embarque; emagrecer; aprender a escrever coisas de jeito; aprender a tirar fotografias de jeito; correr os cem metros barreiras em menos de uma hora; e assim por diante. Tudo praticamente irrealizável, excepto talvez o primeiro e o segundo.
É preciso ter planos na vida - you have to have a plan, if you want to be able not to follow it -; mas não devem ser tão complicados.
Acabo por pedir mais um Túnel, no Antiquari. É preciso saber não respeitar os planos. Uma vez neste blog descrevi a minha vida (ou terá sido outra?) como uma casa da qual o arquitecto tivesse feito os planos depois de construída.
(Aconselho a versão Secas, no máximo Mezcladas. Dulces fica muito aquém da verdade.)
É preciso ter planos na vida - you have to have a plan, if you want to be able not to follow it -; mas não devem ser tão complicados.
Acabo por pedir mais um Túnel, no Antiquari. É preciso saber não respeitar os planos. Uma vez neste blog descrevi a minha vida (ou terá sido outra?) como uma casa da qual o arquitecto tivesse feito os planos depois de construída.
(Aconselho a versão Secas, no máximo Mezcladas. Dulces fica muito aquém da verdade.)
Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 12-10-2012 (cont.)
Uma cidade revela-se quando as ruas estão vazias; tal como um bar, de resto. Cheios não há um que seja feio, ou mau. As ruas vazias permitem-nos fazer delas o que queremos; podemos imaginá-las há duzentos anos, imaginá-las no inverno que aí vem e durante o qual não estarei aqui, ou na primavera passada, quando as flores começaram a aparecer às janelas e os ombros das senhoras a ver o sol.
Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 12-10-2012
Esteve a chover e é feriado. É uma boa combinação: as ruas ficam vazias e a luz bonita. Fui dar um passeio - mais precisamente passear a máquina fotográfica, farta de estar em casa.
Como sempre acabei numa das marinas. Pensei nos domingos em Genève nos quais me calhava escolher o destino do passeio familiar. "Lá vamos nós ver os barcos outra vez", ouvia-se pela casa fora mesmo antes de eu anunciar que íamos, oh surpresa, ver os barcos.
Em Palma há muito barcos e muitas marinas; escolher um destino seria provavelmente menos monótono para a criançada. Para mim não é, claro. Mas não há nada de metafísico nisto; é simplesmente falta de imaginação.
Como sempre acabei numa das marinas. Pensei nos domingos em Genève nos quais me calhava escolher o destino do passeio familiar. "Lá vamos nós ver os barcos outra vez", ouvia-se pela casa fora mesmo antes de eu anunciar que íamos, oh surpresa, ver os barcos.
Em Palma há muito barcos e muitas marinas; escolher um destino seria provavelmente menos monótono para a criançada. Para mim não é, claro. Mas não há nada de metafísico nisto; é simplesmente falta de imaginação.
11.10.12
Uma (grande) receita improvisada - galinha com pera-abacate
[Começo por pedir desculpa pela imodéstia. O qualificativo, apesar de entre parênteses, é resultado da exultação, do entusiasmo, da surpresa - todas reais - e não da soberba, de que felizmente não sofro.
Os quais entusiasmo, exultação e surpresa nasceram de dois dramas tão existenciais como quotidianos: a) que vou fazer para o almoço?, e b) que vou fazer para o almoço quando o banco começa a dar pré-avisos de greve?
Ia a caminho do supermercado quando bati de frente na ideia: galinha com pera-abacate, das quais tinha duas em casa; e o frango é barato, bem aproveitadinhos quatro euros dão para o dobro de refeições, se sefor criativo e tiver um congelador em casa.
Galinha com pera abacate! Sinto-me um Arquimedes a sair da banheira.
Infelizmente entre a galinha e a pera-abacate da ideia original meteram-se cebolas a mais, e cenoura; e a pera abacate que tinha em casa estava menos madura do que eu pensava. Mas vai voltar à berlinda, a dita ideia.
Contudo, porém, manda a verdade que se diga que não estava mau, o resultado derivado. Amanhã estará decerto melhor.]
Comecei por saisir o frango a fogo vivo; na mesma gordura uma cebola grande mal cortada em rodelas; depois - estou pelas frigideiras separadas, estes dias - cenouras às rodelas.
Quando estava tudo douradinho misturei numa panela, juntei uma lata de tomate (e meio pacote de gazpacho) deixei ferver um bocadinho e temperei: rosmaninho, pimenta preta - muita -, cominhos - idem -, piripiri, orégãos. Mais um bocadinho de calor e foi a vez do cava.
[Isto de cozinhar sistematicamente com cava tem que se lhe diga. Para começar, é bom de mais, e pôr quase uma garrafa numa panela em vez de num copo às vezes dói; por outro é baratíssimo e pergunto-me como farei, quando deixar estas paragens.]
Enfim, a coisa lá foi cozendo, devagarinho, delicadamente. Quase no fim (isto é, meia hora antes) juntei-lhe duas boas mãos cheias de espinafres. Comi com arroz integral e estava bom. Amanhã estará melhor. E quando fizer a ideia original estará melhor ainda, aposto.
Os quais entusiasmo, exultação e surpresa nasceram de dois dramas tão existenciais como quotidianos: a) que vou fazer para o almoço?, e b) que vou fazer para o almoço quando o banco começa a dar pré-avisos de greve?
Ia a caminho do supermercado quando bati de frente na ideia: galinha com pera-abacate, das quais tinha duas em casa; e o frango é barato, bem aproveitadinhos quatro euros dão para o dobro de refeições, se sefor criativo e tiver um congelador em casa.
Galinha com pera abacate! Sinto-me um Arquimedes a sair da banheira.
Infelizmente entre a galinha e a pera-abacate da ideia original meteram-se cebolas a mais, e cenoura; e a pera abacate que tinha em casa estava menos madura do que eu pensava. Mas vai voltar à berlinda, a dita ideia.
Contudo, porém, manda a verdade que se diga que não estava mau, o resultado derivado. Amanhã estará decerto melhor.]
Comecei por saisir o frango a fogo vivo; na mesma gordura uma cebola grande mal cortada em rodelas; depois - estou pelas frigideiras separadas, estes dias - cenouras às rodelas.
Quando estava tudo douradinho misturei numa panela, juntei uma lata de tomate (e meio pacote de gazpacho) deixei ferver um bocadinho e temperei: rosmaninho, pimenta preta - muita -, cominhos - idem -, piripiri, orégãos. Mais um bocadinho de calor e foi a vez do cava.
[Isto de cozinhar sistematicamente com cava tem que se lhe diga. Para começar, é bom de mais, e pôr quase uma garrafa numa panela em vez de num copo às vezes dói; por outro é baratíssimo e pergunto-me como farei, quando deixar estas paragens.]
Enfim, a coisa lá foi cozendo, devagarinho, delicadamente. Quase no fim (isto é, meia hora antes) juntei-lhe duas boas mãos cheias de espinafres. Comi com arroz integral e estava bom. Amanhã estará melhor. E quando fizer a ideia original estará melhor ainda, aposto.
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Receitas
A esquerda e os factos
A esquerda tem um problema intelectual fácil de perceber mas difícil de tratar (se fosse fácil não haveria esquerda, qed): a relação com os factos.
Para uma pessoa de direita uma asserção é discutida, comentada, aprovada ou não pelo que diz: Salazar era um governante honesto. Uma pessoa de direita ouve isto e pensa: é verdade? É falso? Sim ou não?
Perante tal afirmação uma pessoa de esquerda começa por pensar que se está a defender o salazarismo. Depois a máquina embala-se e em menos de nada somos fassistas. Não somos, claro. Um governante pode ser honesto (como Salazar), ser uma desgraça para o país (idem) e não ser fassista (ibidem).
Outro dos problemas da esquerda com a realidade é que a toma em bloco: o mundo esquerdista é digital. Zero ou um. Nada entra zero e um. Salazar foi uma desgraça para o país? Sim. Mas. Três mas:
- Foi uma consequência mais ou menos inevitável do que vinha de trás (poucas nações se suicidam e quando estão em situações difíceis tendem a encontrar soluções drásticas. Salazar em Portugal, Franco em Espanha, um genocídio no Rwanda são coisas que me vêm ao espírito assim de repente, salvas claro as devidas proporções);
- A maioria da população portuguesa apoiava-o. É uma sorte ele não ter organizado eleições, porque tê-las-ia ganho todas;
- Durante muitos anos as alterativas a Salazar não eram muito melhores do que ele.
Dizer isto não faz de quem o diz um salazarista. Excepto, claro, se estiver a falar com uma pessoa de esquerda. Infelizmente não sou cientista político nem psicólogo e não consigo explicar porquê.
Para uma pessoa de direita uma asserção é discutida, comentada, aprovada ou não pelo que diz: Salazar era um governante honesto. Uma pessoa de direita ouve isto e pensa: é verdade? É falso? Sim ou não?
Perante tal afirmação uma pessoa de esquerda começa por pensar que se está a defender o salazarismo. Depois a máquina embala-se e em menos de nada somos fassistas. Não somos, claro. Um governante pode ser honesto (como Salazar), ser uma desgraça para o país (idem) e não ser fassista (ibidem).
Outro dos problemas da esquerda com a realidade é que a toma em bloco: o mundo esquerdista é digital. Zero ou um. Nada entra zero e um. Salazar foi uma desgraça para o país? Sim. Mas. Três mas:
- Foi uma consequência mais ou menos inevitável do que vinha de trás (poucas nações se suicidam e quando estão em situações difíceis tendem a encontrar soluções drásticas. Salazar em Portugal, Franco em Espanha, um genocídio no Rwanda são coisas que me vêm ao espírito assim de repente, salvas claro as devidas proporções);
- A maioria da população portuguesa apoiava-o. É uma sorte ele não ter organizado eleições, porque tê-las-ia ganho todas;
- Durante muitos anos as alterativas a Salazar não eram muito melhores do que ele.
Dizer isto não faz de quem o diz um salazarista. Excepto, claro, se estiver a falar com uma pessoa de esquerda. Infelizmente não sou cientista político nem psicólogo e não consigo explicar porquê.
10.10.12
Fealdade, palavras
Cada vez suporto menos a fealdade. Porque será? (Abro uma excepção para o poema aí de baixo, que é fraquinho, eu sei. Mas como não sou poeta profissional e também feio feio não é, é só fraquinho, que se lixe).
Não deve ser da idade, que nos habitua a ver tanta coisa e tanta gente feia; nem da felicidade, que hoje está um bocadinho melancólica; nem da melancolia, porque não é só hoje. Gente feia, a cuspir fealdade, a ver fealdade, a criar fealdade...
Porra, mandai as palavras para o lupanar de onde nunca deviam ter saído (elas, as palavras).
Não deve ser da idade, que nos habitua a ver tanta coisa e tanta gente feia; nem da felicidade, que hoje está um bocadinho melancólica; nem da melancolia, porque não é só hoje. Gente feia, a cuspir fealdade, a ver fealdade, a criar fealdade...
Porra, mandai as palavras para o lupanar de onde nunca deviam ter saído (elas, as palavras).
Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 10-10-2012
À frente do Antiquari - ou seja, imediatamente por baixo da nossa casa - está o Café Lounge (cito) Mari-Lin.
A rua terá talvez três metros e meio de largura, mas parece que estão em dois planetas diferentes. O Mari-Lin é quadrado, no sentido literal e no do antigo calão, square, branco, limpo. Tem uma esplanada grande (enfim, o maior possível) com as mesas ao longo do muro que separa a rua de umas escadas; durante o dia protege-as com chapéus de sol grandes, beiges, quadrados (claro). A empregada é uma loira incaracterística (às vezes acontece) que anda muito direita, com os seios a abanar e a travessa por cima da cabeça, como se tivesse medo que chova e os seios fossem limpa-pára-brisas preventivos. A clientela é constituída na sua maioria por turistas; a minoria são casais square, grupos square; é raro haver uma pessoa só a uma mesa, e quando há é, terão adivinhado, square.
O Antiquari tem uma esplanada minúscula - duas mesas, às vezes três. As pessoas sentam-se nos degraus da escada (em Palma há muitas ruas que são, ou têm, escadas como Lisboa). Vêem em grupos grandes, em pares, sozinhas. Só ao meio dia, quando abre, há alguns turistas; depois a fauna local toma o local de assalto e a de fora senta-se nas mesas em frente, tristonha. Por dentro é castanho, escuro, vivo, pequeno.
Não sei se as mulheres do Antiquari são mais bonitas do que as do Mari-Lin. Os nomes prestar-se-iam a alguns interessantes jogos de palavras, se se quisesse. Desde que cheguei entrei duas vezes no vizinho de baixo - uma delas para ver se havia net, porque a que temos em casa é-nos fornecida, simpática e involuntariamente por ele. Ao Antiquari vou muitas vezes - como hoje, beber um Hierbas Tunel, bebida na qual estaria viciado, se fosse de vícios; ou pensar que a tristeza se dissolve melhor no degrau de umas escadas a olhar para tristes do que no meio dos tristes a olhar para gente como nós.
Ou ouvir Hildegarde von Bingen seguida pela Orchestra Baobab e pensar na quantidade de planetas que habitamos.
........
Às quartas o Antiquari organiza um Clube de Línguas: pessoas que falam uma determinada língua juntam-se com quem a quer aprender e passam uma hora ou duas, não vi bem, a conversar, contar histórias, trocar experiências ou expectativas.
A rua terá talvez três metros e meio de largura, mas parece que estão em dois planetas diferentes. O Mari-Lin é quadrado, no sentido literal e no do antigo calão, square, branco, limpo. Tem uma esplanada grande (enfim, o maior possível) com as mesas ao longo do muro que separa a rua de umas escadas; durante o dia protege-as com chapéus de sol grandes, beiges, quadrados (claro). A empregada é uma loira incaracterística (às vezes acontece) que anda muito direita, com os seios a abanar e a travessa por cima da cabeça, como se tivesse medo que chova e os seios fossem limpa-pára-brisas preventivos. A clientela é constituída na sua maioria por turistas; a minoria são casais square, grupos square; é raro haver uma pessoa só a uma mesa, e quando há é, terão adivinhado, square.
O Antiquari tem uma esplanada minúscula - duas mesas, às vezes três. As pessoas sentam-se nos degraus da escada (em Palma há muitas ruas que são, ou têm, escadas como Lisboa). Vêem em grupos grandes, em pares, sozinhas. Só ao meio dia, quando abre, há alguns turistas; depois a fauna local toma o local de assalto e a de fora senta-se nas mesas em frente, tristonha. Por dentro é castanho, escuro, vivo, pequeno.
Não sei se as mulheres do Antiquari são mais bonitas do que as do Mari-Lin. Os nomes prestar-se-iam a alguns interessantes jogos de palavras, se se quisesse. Desde que cheguei entrei duas vezes no vizinho de baixo - uma delas para ver se havia net, porque a que temos em casa é-nos fornecida, simpática e involuntariamente por ele. Ao Antiquari vou muitas vezes - como hoje, beber um Hierbas Tunel, bebida na qual estaria viciado, se fosse de vícios; ou pensar que a tristeza se dissolve melhor no degrau de umas escadas a olhar para tristes do que no meio dos tristes a olhar para gente como nós.
Ou ouvir Hildegarde von Bingen seguida pela Orchestra Baobab e pensar na quantidade de planetas que habitamos.
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Às quartas o Antiquari organiza um Clube de Línguas: pessoas que falam uma determinada língua juntam-se com quem a quer aprender e passam uma hora ou duas, não vi bem, a conversar, contar histórias, trocar experiências ou expectativas.
8.10.12
Terra
Tu és a terra; eu sou o fruto e bebo
da fonte directamente,
até que o incêndio se ateie e o
grito afaste a morte.
Gosto desta imagem: a planície,
uma fonte, um incêndio que alastra
célere, urgente;
abutres assustados.
Da convivência diária com a sede
aprendi o calor, o fogo, a luz,
a simples, irrefutável urgência.
Tu és a terra.
(Para a T. com amor, carinho, ternura e essas mariquices todas)
da fonte directamente,
até que o incêndio se ateie e o
grito afaste a morte.
Gosto desta imagem: a planície,
uma fonte, um incêndio que alastra
célere, urgente;
abutres assustados.
Da convivência diária com a sede
aprendi o calor, o fogo, a luz,
a simples, irrefutável urgência.
Tu és a terra.
(Para a T. com amor, carinho, ternura e essas mariquices todas)
Roupagens
A negaçao permanente está para a sabedoria como a roupa larga para um corpo gordo: ambas servem para esconder defeitos.
5.10.12
Almoço improvisado (e jantar)
Para quem vive em Portugal - ou melhor, para quem nao vive em Palma - encontrar sobreasada nao sera provavelmente fácil. Talvez o Corte Inglés tenha, nao sei.
A ideia inicial era fazer um almoço simples em torno de dois sabores fortes: o gengibre (no salmao) e o rosmaninho (nas batatas). Mas o forno nao estava a funcionar e em vez de assar os tubérculos do senhor Parmentier numa travessa de barro com azeite, muito rosmaninho e três ou quatro dentes de alho (en chemise, que isto agora anda prude) fritei-os na frigideira, acrescentando meia sobreasada a tudo o que estava na travessa.
A qual sobreasada é um enchido feito com carne de porco, pimentao e muitas mais coisas que podem ver aqui, especialidade das Baleares e que por si só justifica uma viagem ao arquipélago, e uma longa estadia.
O resultado foi uma explosao de sabores, passe o cliché. Uma explosao boa, sensual, rica, gulosa, mulata; e páro aqui para nao descambar, que isto agora anda prude.
É cedo de mais para falar no jantar: ainda está ao lume. Comecei por saltear um bocado de toucinho cru, pimento verde (dos de Maiorca, nao os habituais), cebola picada, meio pimento encarnado, um pouco de aipo, um tomate, uma beringela - tudo isto separadamente e em lume forte - e por fim um belo naco de carne de guisar.
Depois pus tudo no lume muito fraco, em vinho tinto e com pimentao doce, rosmaninho, orégaos e pimenta preta como especiarias. Ficou a burburinhar, fui beber um Hierbas Tunel (ou aqui) e vim escrever disparates no locutorio onde tenho de vir escrevê-los enquanto o meu computador estiver na sua forçada greve de fome.
Verdade seja dita que nao venho só escrevê-los: também os leio, e muitos.
A ideia inicial era fazer um almoço simples em torno de dois sabores fortes: o gengibre (no salmao) e o rosmaninho (nas batatas). Mas o forno nao estava a funcionar e em vez de assar os tubérculos do senhor Parmentier numa travessa de barro com azeite, muito rosmaninho e três ou quatro dentes de alho (en chemise, que isto agora anda prude) fritei-os na frigideira, acrescentando meia sobreasada a tudo o que estava na travessa.
A qual sobreasada é um enchido feito com carne de porco, pimentao e muitas mais coisas que podem ver aqui, especialidade das Baleares e que por si só justifica uma viagem ao arquipélago, e uma longa estadia.
O resultado foi uma explosao de sabores, passe o cliché. Uma explosao boa, sensual, rica, gulosa, mulata; e páro aqui para nao descambar, que isto agora anda prude.
É cedo de mais para falar no jantar: ainda está ao lume. Comecei por saltear um bocado de toucinho cru, pimento verde (dos de Maiorca, nao os habituais), cebola picada, meio pimento encarnado, um pouco de aipo, um tomate, uma beringela - tudo isto separadamente e em lume forte - e por fim um belo naco de carne de guisar.
Depois pus tudo no lume muito fraco, em vinho tinto e com pimentao doce, rosmaninho, orégaos e pimenta preta como especiarias. Ficou a burburinhar, fui beber um Hierbas Tunel (ou aqui) e vim escrever disparates no locutorio onde tenho de vir escrevê-los enquanto o meu computador estiver na sua forçada greve de fome.
Verdade seja dita que nao venho só escrevê-los: também os leio, e muitos.
Fortunas, estupidez
Há várias maneiras de dilapidar fortunas. Por estupidez é a única forma inaceitável de o fazer.
Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 05-10-2012
Porto
Fui a um restaurante sugerido pela mais portuense das minhas amigas, e amigos. Chama-se O Buraco e fica na rua do Bolhao (estou sem tis, por uns dias). Todos os restaurantes deviam ser assim. O senhor Manuel, que suponho seja o dono, cumprimenta todos os clientes que entram pelo nome ou pelo título. Pergunto-lhe "o que vou comer" e ele diz-me que tem uma feijoada muito boa. É um understatement, modéstia tao louvável como excessiva. Para beber o empregado pergunta-me se quero beber um verde tinto "feito pela casa". O vinho é excelente, picante, complemento ideal da feijoada.
É proibido vendê-lo. Mesmo admitindo que a ASAE mais nao faz do que aplicar a legislaçao, por que nao se a altera no sentido de permitir a venda do fruto do trabalho e dedicaçao das pessoas? Podia por exemplo tornar-se obrigatório a informaçao de que o produto é caseiro; quem quer come quem nao quer compra outro.
Foi uma passagem muito curta, demasiado curta. É bom saber que ha uma linha aérea directa e barata para lá.
Palma
O Antiquari é uma mistura de Café Tati, Café Buenos Aires, Marchand de Sable e mais meia dúzia doutros cafés cujo nome agora me escapa, mas sao bons, bonitos, conviviais, com boa música e melhor ambiente.
É aqui que espero N. pois nao levei as chaves de casa para a viagem. Ainda esta calor em Palma, a cidade está na rua, bonita e sorridente. E eu nela, como se aqui tivesse nascido.
........
Agora temos um músico residente nas escadinhas à frente do Antiquari. É lamentável, coitado, o senhor. Toca mal e canta pior, com uma voz fanhosa, cançoes de Bob Dylan, Beatles, Neil Young ou Eric Clapton. É tanto pior quanto partilho a casa com dois músicos, um dos quais, pelo menos, excelente; e tenho uma namorada que canta melhor (e mais raramente, infelizmente) do que escreve.
Só dou dinheiro a músicos de rua que tenham um mínimo de qualidade - por isso apoio a política do metro de Paris de seleccionar quem nele toca - e agora encontro uma razao suplementar: solidariedade com os moradores das redondezas.
É proibido vendê-lo. Mesmo admitindo que a ASAE mais nao faz do que aplicar a legislaçao, por que nao se a altera no sentido de permitir a venda do fruto do trabalho e dedicaçao das pessoas? Podia por exemplo tornar-se obrigatório a informaçao de que o produto é caseiro; quem quer come quem nao quer compra outro.
Foi uma passagem muito curta, demasiado curta. É bom saber que ha uma linha aérea directa e barata para lá.
Palma
O Antiquari é uma mistura de Café Tati, Café Buenos Aires, Marchand de Sable e mais meia dúzia doutros cafés cujo nome agora me escapa, mas sao bons, bonitos, conviviais, com boa música e melhor ambiente.
É aqui que espero N. pois nao levei as chaves de casa para a viagem. Ainda esta calor em Palma, a cidade está na rua, bonita e sorridente. E eu nela, como se aqui tivesse nascido.
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Agora temos um músico residente nas escadinhas à frente do Antiquari. É lamentável, coitado, o senhor. Toca mal e canta pior, com uma voz fanhosa, cançoes de Bob Dylan, Beatles, Neil Young ou Eric Clapton. É tanto pior quanto partilho a casa com dois músicos, um dos quais, pelo menos, excelente; e tenho uma namorada que canta melhor (e mais raramente, infelizmente) do que escreve.
Só dou dinheiro a músicos de rua que tenham um mínimo de qualidade - por isso apoio a política do metro de Paris de seleccionar quem nele toca - e agora encontro uma razao suplementar: solidariedade com os moradores das redondezas.
3.10.12
Pai
Este senhor gosta de se apresentar como o pai da pátria. Depois há quem se admire...
"O dinheiro fabrica-se quando é preciso".
(Para não mencionar a ironia de o ver a defender políticas financeiras dos EUA, país que não é, portanto, neoliberal - Ámen. Cruzes canhoto. Vade retro. Santinho).
"O dinheiro fabrica-se quando é preciso".
(Para não mencionar a ironia de o ver a defender políticas financeiras dos EUA, país que não é, portanto, neoliberal - Ámen. Cruzes canhoto. Vade retro. Santinho).
2.10.12
Pergunta
Aquele velho e honorável princípio "antes fazer mal do que deitar fora" também se aplica ao gin tónico quando (ou seja sempre) sobra água tónica e falta gin?
Lisboa, Portugal, 02-10-2012
Às vezes parece-me que a minha residência principal é um aeroporto qualquer, um aeroporto-todos-os-aeroportos do mundo; e tudo o resto - barcos, hotéis, quartos - não passa de residências secundárias.
........
Durante o quarto o tempo é deformável, irregular. Um gajo entra de quarto às três da manhã, por exemplo; uma eternidade depois são três e dez. Não acontece nada e num ápice são quatro, é preciso preencher o diário de bordo: posição, rumo, velocidade, vento, mar, dados das máquinas. Demora cinco minutos e quando acaba já são cinco da manhã e é preciso recomeçar. De repente são seis, o quarto acaba e o mesmo gajo começa a pensar que os quartos de quatro horas são muito melhores.
O quarto acaba. Oríon já não está onde estava às três; nem a lua, quase a rebentar, de tão cheia; nem o A., que entretanto já andou trinta milhas. Nada está no mesmo sítio, nada é igual. Daqui a pouco aparece o sol, as cores mudam, talvez o vento sei lá; talvez apareça um eco no radar, ou desapareçam os que lá estão.
Nada é igual, nem o passar do tempo.
........
Um homem no mar não gasta dinheiro. A essa imagem - de que tanto gosto - do marinheiro perdulário há que acrescentar, sempre, a do marinheiro franciscano. Quanto mais não seja por falta de franciscas, o que é um bocadinho contraditório.
........
Helletvoetsluis
A viagem acaba aqui. Por mim podia ter continuado três semanas, ou meia dúzia de meses.
O chauffeur de táxi vem buscar-nos de casaco e gravata, num carro também ele engravatado. É delicado, educado, conduz como fala, suavemente, sem solavancos. Não sou muito dado a comparações, mas é impossível não pensar nos chauffeurs de táxi de outras paragens.
........
Amsterdam
Um dos meus objectivos era comer um Nasi Goreng, ou Bakmie Goreng, com um monte de Sambal a acompanhar e a excitar tudo o que há de glândulas no corpo. Mas "já não há pure Indonesian restaurants como antigamente", diz-me um senhor da minha idade que vende flores (e o diz como se tivesse acabado de comer uma por engano). "Vai àquele chinês, também fazem pratos indonésios". Não fui; fui ao De Roode Leeuw, um restaurante lindo, bom e (surpresa) caro na Damrak, que "há cem anos serve autêntica cozinha holandesa" (dizem isto e não se apercebem do oxímoro) comer mexilhões.
Passei uma hora e meia em Amsterdam; não fiquei a morrer de vontade de lá voltar. Que será daquela cidade sem as tascas indonésias, agora substituídas por restaurantes argentinos, em cada esquina um?
E cheia de miúdos a fumar charros, como se estivessem a descobrir a Lua.
Vou de comboio de Rotterdam para Amsterdam. A Holanda é um país que só tem litoral, não tem interior. No meio do campo aparece volta e meia uma marina - e grande - ou um porto de batelões.
As placas de sinalização em Rotterdam indicam tanto as ruas como os números dos cais.
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De passagem em Lisboa, de novo. Mas estive cá há quatro dias. Quero ir-me embora. Uma vez vistos e conversados os amigos pouco me prende aqui.
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Durante o quarto o tempo é deformável, irregular. Um gajo entra de quarto às três da manhã, por exemplo; uma eternidade depois são três e dez. Não acontece nada e num ápice são quatro, é preciso preencher o diário de bordo: posição, rumo, velocidade, vento, mar, dados das máquinas. Demora cinco minutos e quando acaba já são cinco da manhã e é preciso recomeçar. De repente são seis, o quarto acaba e o mesmo gajo começa a pensar que os quartos de quatro horas são muito melhores.
O quarto acaba. Oríon já não está onde estava às três; nem a lua, quase a rebentar, de tão cheia; nem o A., que entretanto já andou trinta milhas. Nada está no mesmo sítio, nada é igual. Daqui a pouco aparece o sol, as cores mudam, talvez o vento sei lá; talvez apareça um eco no radar, ou desapareçam os que lá estão.
Nada é igual, nem o passar do tempo.
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Um homem no mar não gasta dinheiro. A essa imagem - de que tanto gosto - do marinheiro perdulário há que acrescentar, sempre, a do marinheiro franciscano. Quanto mais não seja por falta de franciscas, o que é um bocadinho contraditório.
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Helletvoetsluis
A viagem acaba aqui. Por mim podia ter continuado três semanas, ou meia dúzia de meses.
O chauffeur de táxi vem buscar-nos de casaco e gravata, num carro também ele engravatado. É delicado, educado, conduz como fala, suavemente, sem solavancos. Não sou muito dado a comparações, mas é impossível não pensar nos chauffeurs de táxi de outras paragens.
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Amsterdam
Um dos meus objectivos era comer um Nasi Goreng, ou Bakmie Goreng, com um monte de Sambal a acompanhar e a excitar tudo o que há de glândulas no corpo. Mas "já não há pure Indonesian restaurants como antigamente", diz-me um senhor da minha idade que vende flores (e o diz como se tivesse acabado de comer uma por engano). "Vai àquele chinês, também fazem pratos indonésios". Não fui; fui ao De Roode Leeuw, um restaurante lindo, bom e (surpresa) caro na Damrak, que "há cem anos serve autêntica cozinha holandesa" (dizem isto e não se apercebem do oxímoro) comer mexilhões.
Passei uma hora e meia em Amsterdam; não fiquei a morrer de vontade de lá voltar. Que será daquela cidade sem as tascas indonésias, agora substituídas por restaurantes argentinos, em cada esquina um?
E cheia de miúdos a fumar charros, como se estivessem a descobrir a Lua.
Vou de comboio de Rotterdam para Amsterdam. A Holanda é um país que só tem litoral, não tem interior. No meio do campo aparece volta e meia uma marina - e grande - ou um porto de batelões.
As placas de sinalização em Rotterdam indicam tanto as ruas como os números dos cais.
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De passagem em Lisboa, de novo. Mas estive cá há quatro dias. Quero ir-me embora. Uma vez vistos e conversados os amigos pouco me prende aqui.
24.9.12
Fragmento
",,,Um dia vai ser preciso que tu me expliques; e outro que eu perceba.Tem de ser em dias diferentes porque explicar e perceber são coisas difíceis, mágicas, de consequências pesadas. Sabemos lá, nós, nós, o que dali virá.
Eu por exemplo preciso de perceber hoje, só hoje, porque estou no mar e me faltas tanto, como se fosses outro mar; e tu já tantas vezes mo explicaste.
Talvez num dia de menos mar e mais tu, vai saber; não há dias de menos tu e mais mar - é outra coisa que preciso de perceber, e tu tantas vezes explicaste..."
23.9.12
Prémios
Não sei quando é que isto foi escrito; pode ser uma coisa de adolescência, ou resultado de uma ressaca colossal, como a que me fez vomitar, no outro dia. Mas a verdade é que me pergunto se o resto é igual; e fico sem vontade de saber.
"Porque das nádegas
a curva
sempre oferece
a fenda
o rio
o fundo do buraco"
(Via Alberto Gonçalves.)
Portimão, Algarve, Portugal, 23-09-2012
220912
Golfinhos na proa. Gosto de os ver porque estão a divertir-se como loucos. Dois deles lutam pela posição mais perto da roda de proa. A agilidade destes animais é impressionante. Que estão a divertir-se é um facto incontestável; mas a impressão é acentuada pela expressão: parece que estão a rir-se, embora isso seja pouco provável, pois nunca vi nenhum com ar sério. Mesmo quando estão visivelmente de passagem ou ocupados com outras coisas, como caçar (ou pescar? Não sei).
O serviço meteorológico espanhol é mais ou menos como o português, mas para pior. Nós ainda acertamos no tempo que fez ontem (apesar de eu nem sempre o reconhecer); eles nem isso. Vams com um levante força 3, tinham previsto poniente 4... O que eu não percebo é que continuam a difundir a previsão, que data de ontem à noite, como se nada fosse. Já me tinha apercebido disso durante a viagem do SOGNO, e agora confirma-se.
É meio dia e a habitual luta entre o nevoeiro e o sol está no auge. Espero que ganhe o sol, claro, mas devo reconhecer que gosto deste monocromatismo cinzento (ainda há um bocadinho de visibilidade, milha e meia, duas milhas).
A norte vê-se bem Tarifa, que estamos a passar; a sul nada: uma parede cinzenta com manchas de luz dispersas aqui e ali, cinzentas elas igualmente, se bem mais claras. Cinzento a bombordo, azul a estibordo - o cenário não é monocromático, é bicromático.
Gosto destes barcos de deslocamento pesado. Um gajo não tem a impressão de estar a gastar gasóleo para nada: 80 litros / hora para fazer 10 - 11 nós.
Não gosto de ouvir música quando estou de quarto; mas tanto A. como R. o fazem. Têm ambos um bom gosto surpreendente, pouco habitual nestas paragens. Escrevo estas linhas ao som de Muddy Waters (é o quarto de A.); R. deixa-me regularmente o computador, ou o iQualquercoisa. Vai de Cat Stevens a Jimi Hendrix, passando por tudo o que eu ouvia quando tinha a idade dele. Oiço cinco ou dez minutos e depois apago-o. Prefiro abrir a porta da ponte e ouvir o mar.
Enfim, não é bem o mar: é o diálogo do A. com o mar.
O levante cresce e o sol ganha, pouco a pouco, dificilmente, a batalha. Em breve a paisagem será monocromática e bitonal: o azul do céu e o do mar. Entro de quarto às quatro da tarde.Espero pelo almoço para ir dormir a sesta. Há pessoas que acham o mar monótono. Provavelmente são as mesmas que não acham a terra mortalmente aborrecida.
23-09-2012
Sobretudo se for Portimão, que nesta tarde de domingo chuvosa e triste é uma desolação. Salvam-na a simpatia e eficácia do pessoal da marina, os doces da Casa Inglesa e pouco mais.
Como a memória das melhores sardinhas da minha vida, comidas no Forte e Feio com o Júlio. Ou a da Ambassador Cup, talvez não a maior, mas de certeza a mais bonita e mais espectacular desgraça que cometi (estamos atracados no pontão onde fizemos o desenho dos barcos que participaram).
Autoretratos diversos.
Golfinhos na proa. Gosto de os ver porque estão a divertir-se como loucos. Dois deles lutam pela posição mais perto da roda de proa. A agilidade destes animais é impressionante. Que estão a divertir-se é um facto incontestável; mas a impressão é acentuada pela expressão: parece que estão a rir-se, embora isso seja pouco provável, pois nunca vi nenhum com ar sério. Mesmo quando estão visivelmente de passagem ou ocupados com outras coisas, como caçar (ou pescar? Não sei).
O serviço meteorológico espanhol é mais ou menos como o português, mas para pior. Nós ainda acertamos no tempo que fez ontem (apesar de eu nem sempre o reconhecer); eles nem isso. Vams com um levante força 3, tinham previsto poniente 4... O que eu não percebo é que continuam a difundir a previsão, que data de ontem à noite, como se nada fosse. Já me tinha apercebido disso durante a viagem do SOGNO, e agora confirma-se.
É meio dia e a habitual luta entre o nevoeiro e o sol está no auge. Espero que ganhe o sol, claro, mas devo reconhecer que gosto deste monocromatismo cinzento (ainda há um bocadinho de visibilidade, milha e meia, duas milhas).
A norte vê-se bem Tarifa, que estamos a passar; a sul nada: uma parede cinzenta com manchas de luz dispersas aqui e ali, cinzentas elas igualmente, se bem mais claras. Cinzento a bombordo, azul a estibordo - o cenário não é monocromático, é bicromático.
Gosto destes barcos de deslocamento pesado. Um gajo não tem a impressão de estar a gastar gasóleo para nada: 80 litros / hora para fazer 10 - 11 nós.
Não gosto de ouvir música quando estou de quarto; mas tanto A. como R. o fazem. Têm ambos um bom gosto surpreendente, pouco habitual nestas paragens. Escrevo estas linhas ao som de Muddy Waters (é o quarto de A.); R. deixa-me regularmente o computador, ou o iQualquercoisa. Vai de Cat Stevens a Jimi Hendrix, passando por tudo o que eu ouvia quando tinha a idade dele. Oiço cinco ou dez minutos e depois apago-o. Prefiro abrir a porta da ponte e ouvir o mar.
Enfim, não é bem o mar: é o diálogo do A. com o mar.
O levante cresce e o sol ganha, pouco a pouco, dificilmente, a batalha. Em breve a paisagem será monocromática e bitonal: o azul do céu e o do mar. Entro de quarto às quatro da tarde.Espero pelo almoço para ir dormir a sesta. Há pessoas que acham o mar monótono. Provavelmente são as mesmas que não acham a terra mortalmente aborrecida.
23-09-2012
Sobretudo se for Portimão, que nesta tarde de domingo chuvosa e triste é uma desolação. Salvam-na a simpatia e eficácia do pessoal da marina, os doces da Casa Inglesa e pouco mais.
Como a memória das melhores sardinhas da minha vida, comidas no Forte e Feio com o Júlio. Ou a da Ambassador Cup, talvez não a maior, mas de certeza a mais bonita e mais espectacular desgraça que cometi (estamos atracados no pontão onde fizemos o desenho dos barcos que participaram).
Autoretratos diversos.
19.9.12
Felicidade, morte
Há qualquer coisa de mortífero na felicidade. Que importa morrer agora, se morrer feliz?
Palma de Maiorca, Ilhas Baleares, Espanha, 19-09-2012
Seria muito mais dramático dizer "no dia em que o dinheiro acabou arranjámos os dois emprego". Mas o quotidiano não é, por definição, dramático; e isto é um diário, um quase diário, não uma obra de ficção.
Não arranjámos os dois trabalho: a Tatiana começou a trabalhar, e eu tive uma entrevista de cuja resposta estou à espera. Quanto ao dinheiro acabar: é um conceito fluido, esse do fim do dinheiro. Fugidio como o dinheiro ele próprio.
Para mim, dinheiro acabar é isso mesmo: quando a quantidade de euros, libras esterlinas, US ou EC dólares que tenho no bolso (o meu banco é o bolso) chega a zero. Simpaticamente, o meu banco manda-me um aviso na véspera desse dia e diz-me que devia talvez, quiçá, eventualmente começar a preocupar-me; o meu apetite aumenta vertiginosamente e oops, o dinheiro acaba. Para a Tatiana "dinheiro acabar" é diferente. É sinónimo de ter pouco - o que para mim é um pleonasmo, mas enfim, cada um é como cada qual e a semântica é de todos.
A verdade é que ainda tínhamos dinheiro para comer dois ou três dias, se comêssemos muito barato. Mesmo assim pusemos o iPad à venda num site de vendas em segunda mão. Nenhum de nós o usava, estava novo, e com dezoito e-mails e telefonemas de pessoas interessadas a coisa foi-se num ápice. Ficámos com dinheiro para mais uns dias (muitos, porque fizemos promessas de não o gastar) e fomo-nos de tapas, antes de ir comer ao restaurante.
Pouco a pouco a Tatiana vai aprendendo aquela grande verdade marinheira segundo a qual se não formos nós a gastar a massa ela gasta-se sozinha; mais vale gastá-la enquanto a temos. Ainda não chegou aos vinte e cinco anos (está quase); eu vou nos segundos e uma fracção dos terceiros. É natural que já tenha passado várias vezes por estas coisas, que a maioria das pessoas só vive uma vez.
Enfim, seja como for a jovem metade pensante de mim tem um emprego no M/Y D.; eu estou à espera que me respondam do A., igualmente a motor mas de 26 metros, para ir de tripulante até à Holanda. Temos dinheiro, livrámo-nos do iCoiso que era um peso inútil e continuamos a gostar de Palma - tanto que até já temos saudades antecipadas, para quando nos formos embora de vez.
Palma é uma cidade amável; quando passeamos nas ruas as árvores dão-nos sombra; inúmeros cafés e restaurantes propõem-nos de comer a um preço razoável e qualidade altíssima; há muitas livrarias e lojas de discos - algumas das quais, simpaticamente, mesmo ao lado de nossa casa. É uma cidade cosmopolita por causa dos turistas e dos yachties, dois grupos de que não sou fã nem faço parte mas que contribuem, sem dúvida, para fazer de Palma o que é.
Ontem começámos as tapas no 5ª Punheta (em espanhol de Espanha é o equivalente de "atrás do sol posto"); pergunto ao jovem e simpático senhor do balcão se sabe o que significa em português e ele responde-me num escorreito português do Brasil que sim; e que no espanhol da América Latina também. As tapas estavam óptimas, o tinto da casa igualmente, e o meu vocabulário saiu enriquecido.
........
Acabo de ter a confirmação de que tenho o trabalho no A. Largamos amanhã para a Holanda, não sei que porto. Dez a quinze dias de viagem. Gostaria que fosse um bocadinho mais, mas é melhor do que nada. Melhor do que Palma, até.
........
Hoje fui cumprir uma promessa e fui almoçar ao mini restaurannte Casa Julio.
Nunca tinha ido a um mini restaurante e além disso estou a morrer de saudades do meu amigo Júlio, que agora cria cães d'água portugueses no Alentejo.
Afinal o mini restaurante Casa Julio (do qual, aliás, já tinha tido as melhores referências) de mini não tem nada.
Muito pelo contrário, como se pode ver. E come-se lindamente, Júlio. Vê lá se vendes meia dúzia de ninhadas até ao fim do mês, que lá por volta da primeira semana de Outubro estarei por cá de novo.
A luz de Palma não é tão bonita como a de Lisboa, mas também tem coisas giras. Gosto muito da Rambla, mesmo ao lado de nossa casa,
e deste prédios, não muito longe.
De maneira agora hesito entre ir beber o que sobra do iPad (é uma expressão literária, querida, nada de sustos) ou ir dormir a sesta. Com um bocadinho de sorte e uma gestão apertada do tempo posso fazer as duas coisas.
Não arranjámos os dois trabalho: a Tatiana começou a trabalhar, e eu tive uma entrevista de cuja resposta estou à espera. Quanto ao dinheiro acabar: é um conceito fluido, esse do fim do dinheiro. Fugidio como o dinheiro ele próprio.
Para mim, dinheiro acabar é isso mesmo: quando a quantidade de euros, libras esterlinas, US ou EC dólares que tenho no bolso (o meu banco é o bolso) chega a zero. Simpaticamente, o meu banco manda-me um aviso na véspera desse dia e diz-me que devia talvez, quiçá, eventualmente começar a preocupar-me; o meu apetite aumenta vertiginosamente e oops, o dinheiro acaba. Para a Tatiana "dinheiro acabar" é diferente. É sinónimo de ter pouco - o que para mim é um pleonasmo, mas enfim, cada um é como cada qual e a semântica é de todos.
A verdade é que ainda tínhamos dinheiro para comer dois ou três dias, se comêssemos muito barato. Mesmo assim pusemos o iPad à venda num site de vendas em segunda mão. Nenhum de nós o usava, estava novo, e com dezoito e-mails e telefonemas de pessoas interessadas a coisa foi-se num ápice. Ficámos com dinheiro para mais uns dias (muitos, porque fizemos promessas de não o gastar) e fomo-nos de tapas, antes de ir comer ao restaurante.
Pouco a pouco a Tatiana vai aprendendo aquela grande verdade marinheira segundo a qual se não formos nós a gastar a massa ela gasta-se sozinha; mais vale gastá-la enquanto a temos. Ainda não chegou aos vinte e cinco anos (está quase); eu vou nos segundos e uma fracção dos terceiros. É natural que já tenha passado várias vezes por estas coisas, que a maioria das pessoas só vive uma vez.
Enfim, seja como for a jovem metade pensante de mim tem um emprego no M/Y D.; eu estou à espera que me respondam do A., igualmente a motor mas de 26 metros, para ir de tripulante até à Holanda. Temos dinheiro, livrámo-nos do iCoiso que era um peso inútil e continuamos a gostar de Palma - tanto que até já temos saudades antecipadas, para quando nos formos embora de vez.
Palma é uma cidade amável; quando passeamos nas ruas as árvores dão-nos sombra; inúmeros cafés e restaurantes propõem-nos de comer a um preço razoável e qualidade altíssima; há muitas livrarias e lojas de discos - algumas das quais, simpaticamente, mesmo ao lado de nossa casa. É uma cidade cosmopolita por causa dos turistas e dos yachties, dois grupos de que não sou fã nem faço parte mas que contribuem, sem dúvida, para fazer de Palma o que é.
Ontem começámos as tapas no 5ª Punheta (em espanhol de Espanha é o equivalente de "atrás do sol posto"); pergunto ao jovem e simpático senhor do balcão se sabe o que significa em português e ele responde-me num escorreito português do Brasil que sim; e que no espanhol da América Latina também. As tapas estavam óptimas, o tinto da casa igualmente, e o meu vocabulário saiu enriquecido.
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Acabo de ter a confirmação de que tenho o trabalho no A. Largamos amanhã para a Holanda, não sei que porto. Dez a quinze dias de viagem. Gostaria que fosse um bocadinho mais, mas é melhor do que nada. Melhor do que Palma, até.
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Hoje fui cumprir uma promessa e fui almoçar ao mini restaurannte Casa Julio.
Nunca tinha ido a um mini restaurante e além disso estou a morrer de saudades do meu amigo Júlio, que agora cria cães d'água portugueses no Alentejo.
Afinal o mini restaurante Casa Julio (do qual, aliás, já tinha tido as melhores referências) de mini não tem nada.
Muito pelo contrário, como se pode ver. E come-se lindamente, Júlio. Vê lá se vendes meia dúzia de ninhadas até ao fim do mês, que lá por volta da primeira semana de Outubro estarei por cá de novo.
A luz de Palma não é tão bonita como a de Lisboa, mas também tem coisas giras. Gosto muito da Rambla, mesmo ao lado de nossa casa,
e deste prédios, não muito longe.
De maneira agora hesito entre ir beber o que sobra do iPad (é uma expressão literária, querida, nada de sustos) ou ir dormir a sesta. Com um bocadinho de sorte e uma gestão apertada do tempo posso fazer as duas coisas.
16.9.12
Palma de Maiorca, Ilhas Baleares, Espanha, 16-09-2012
Muito devagar, passo a passo, espirro a espirro, o verão vai-se embora. Já de vez em quando à noite é preciso uma manta; de manhã um pico, um arrepio, uma surpresa estimulam o passo e fazem-me querer chegar depressa à minha mesa, esperar pelo café que já vem mesmo sem ser pedido e sem açúcar nem colher.
O sol está perto do Equador, muito perto; meia dúzia de dias e passa para o lado de lá. A T. também está perto do seu equador: mais um dia ou dois e começa a trabalhar. Agora falto eu; onde estará a linha? Preciso de voltar para o mar, por muito que goste de Palma. Nem que seja para uma saída de fim-de-semana, para meia dúzia de horas.
A terra tem poucas supresas, é sempre igual; o mar não. Muda constantemente, apesar de parecer o contrário a quem o vê de fora. Em terra todo o marinheiro é triste; ou será a terra que é triste?
Ontem fomos ao concerto do G. e da sua banda, os Fruto de la Manga. São muito bons, o Bluesville estava apinhado. T. cantou duas canções. Foi a primeira vez que a ouvi cantar num sítio assim, "profissional"; o público gostu muito. Eu também, apesar de preferir ouvi-la a cantar jazz.
A vontade é um labirinto misterioso, incompreensível até se lhe ver os resultados.
O sol está perto do Equador, muito perto; meia dúzia de dias e passa para o lado de lá. A T. também está perto do seu equador: mais um dia ou dois e começa a trabalhar. Agora falto eu; onde estará a linha? Preciso de voltar para o mar, por muito que goste de Palma. Nem que seja para uma saída de fim-de-semana, para meia dúzia de horas.
A terra tem poucas supresas, é sempre igual; o mar não. Muda constantemente, apesar de parecer o contrário a quem o vê de fora. Em terra todo o marinheiro é triste; ou será a terra que é triste?
Ontem fomos ao concerto do G. e da sua banda, os Fruto de la Manga. São muito bons, o Bluesville estava apinhado. T. cantou duas canções. Foi a primeira vez que a ouvi cantar num sítio assim, "profissional"; o público gostu muito. Eu também, apesar de preferir ouvi-la a cantar jazz.
A vontade é um labirinto misterioso, incompreensível até se lhe ver os resultados.
Salvação, futuro
O século XIX e parte do XX viam a salvação no futuro; para melhorar era preciso andar, olhar, sonhar para a frente. É lamentável que para a nossa época a "salvação", a solução estejam no passado.
As pessoas olham para trás, desconfiam da ciência, têm medo do que as espera. Talvez seja por isso: habituaram-se a esperar pelo futuro, em vez de o fazer.
As pessoas olham para trás, desconfiam da ciência, têm medo do que as espera. Talvez seja por isso: habituaram-se a esperar pelo futuro, em vez de o fazer.
15.9.12
Relação ou consequência
Jorge Luís Borges fala de um povo que não vê relação entre o acto sexual e a gravidez (ou o nascimento, não me lembro).
As pessoas que pedem menos austeridade fazem-me pensar nesse povo: Sócrates andou a fornicar o país durante anos e elas não vêem a relação dessa fornicação com a presente austeridade.
(E pedem menos austeridade, mas isso é porque o homem falava bem, provavelmente; e muita gente gosta de emprenhar pelos ouvidos, dá menos trabalho).
As pessoas que pedem menos austeridade fazem-me pensar nesse povo: Sócrates andou a fornicar o país durante anos e elas não vêem a relação dessa fornicação com a presente austeridade.
(E pedem menos austeridade, mas isso é porque o homem falava bem, provavelmente; e muita gente gosta de emprenhar pelos ouvidos, dá menos trabalho).
Destinário errado?
As pessoas que "querem as suas vidas" deviam talvez dirigir o pedido a Sócrates, não?
(Além de que uma manif em Paris tem outro chic.)
Resgates e orgulho
A Espanha está a fazer tudo o que teria de fazer se pedisse um resgate; assim, quando o pedir, poderá negociar as condições e pretender que continua a mandar.
13.9.12
Palma de Maiorca, Ilhas Baleares, Espanha, 13-09-2012
Hoje vamos a uma festa em casa de G. Ia levar tapenade e hummus mas a verdade é que estou um bocadinho farto de ambos e acabámos por optar por uma bola de carne, que nunca fiz.
A minha maneira de cozinhar faz-me pensar naquela história dos dois cegos que entram num avião e, tacteando com as bengalas, perguntando aos passageiros da primeira fila de cadeiras onde é a cabine de pilotagem, lá acabam por encontrá-la. Sentam-se, ligam os motores e os passageiros, que até ali tinham pensado que era uma piada respiram funda e audivelmente.
O avião dirigiu-se para o início da pista e o aaahhhh dos passageiros tornou-se mais audível; acelerou e começou a corrida para descolar e o barulho do medo sobrepôs-se ao dos motores; até que o avião chega quase ao fim da pista, os passageiros não aguentam mais e gritam AAAAAAAAAAHHHHH. Nesse momento o avião descola e um dos pilotos diz ao outro "qualquer dia eles não gritam e espatifamo-nos".
Hoje foi assim com a bola; vamos ver se está boa. Se as pessoas gritarem acertei.
Não nos podemos queixar: temos comido a preços módicos e mais ou menos correctamente. No outro dia comprámos um frango que deu para uma canja, um frango corado no forno e acabou, honoravelmente, como recheio de fajitas.
Por vezes comemos fora: tapas, pintxos, porciones. Sempre me deu prazer descobrir que os meus preconceitos estão errados; mas poucas correcções foram tão agradáveis como a descoberta de que, contrariamente ao que pensei durante anos (seria mais correcto dizer gerações) a comida espanhola é excelente. Não é uma iluminação recente, mas a sua confirmação ainda hoje me faz dar graças a tão persistente preconceito - quanto mais enraizados e persistentes mais agradável é descobrir-lhes o engano.
Tivemos sorte com os nossos amigos de Palma. São ambos argentinos mas de planetas diferentes - um músico, outro técnico em electrónica naval; conheceram-se em Antigua, onde G. foi tocar o inverno passado. Através deles, cada um por seu lado, temos vindo a descobrir a cidade de uma forma particularmente aprazível: a Palma dos argentinos talvez não seja muito diferente da outra, mas é de certeza muito mais simpática.
A ver se a simpatia se mantém depois de provarem a broa.
A minha maneira de cozinhar faz-me pensar naquela história dos dois cegos que entram num avião e, tacteando com as bengalas, perguntando aos passageiros da primeira fila de cadeiras onde é a cabine de pilotagem, lá acabam por encontrá-la. Sentam-se, ligam os motores e os passageiros, que até ali tinham pensado que era uma piada respiram funda e audivelmente.
O avião dirigiu-se para o início da pista e o aaahhhh dos passageiros tornou-se mais audível; acelerou e começou a corrida para descolar e o barulho do medo sobrepôs-se ao dos motores; até que o avião chega quase ao fim da pista, os passageiros não aguentam mais e gritam AAAAAAAAAAHHHHH. Nesse momento o avião descola e um dos pilotos diz ao outro "qualquer dia eles não gritam e espatifamo-nos".
Hoje foi assim com a bola; vamos ver se está boa. Se as pessoas gritarem acertei.
Não nos podemos queixar: temos comido a preços módicos e mais ou menos correctamente. No outro dia comprámos um frango que deu para uma canja, um frango corado no forno e acabou, honoravelmente, como recheio de fajitas.
Por vezes comemos fora: tapas, pintxos, porciones. Sempre me deu prazer descobrir que os meus preconceitos estão errados; mas poucas correcções foram tão agradáveis como a descoberta de que, contrariamente ao que pensei durante anos (seria mais correcto dizer gerações) a comida espanhola é excelente. Não é uma iluminação recente, mas a sua confirmação ainda hoje me faz dar graças a tão persistente preconceito - quanto mais enraizados e persistentes mais agradável é descobrir-lhes o engano.
Tivemos sorte com os nossos amigos de Palma. São ambos argentinos mas de planetas diferentes - um músico, outro técnico em electrónica naval; conheceram-se em Antigua, onde G. foi tocar o inverno passado. Através deles, cada um por seu lado, temos vindo a descobrir a cidade de uma forma particularmente aprazível: a Palma dos argentinos talvez não seja muito diferente da outra, mas é de certeza muito mais simpática.
A ver se a simpatia se mantém depois de provarem a broa.
Pacote dois em um
O PSD apresenta sobre os outros partidos a vantagem de ser simultaneamente governo e oposição.
Já agora...
...alguém me pode dizer como é que a esquerda portuguesa reagiu aos anúncios do (ámen, genuflexão e vénia) Hollande?
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