15.10.12

Cais das Colunas, 2008





Outro fim


(Fim)









(Cont.)





Mais do mesmo






Mais roupa, e mais velha






Genève e Versoix
(Não me tinha apercebido de que as digitalizações estavam tão mal feitas.)

Roupa velha (cont.)








Genève, 2001 (Fête du 1er Août)

Roupa velha





Lisboa, Dezembro de 2008

Haverão, não haverão?

Ou eu muito me engano ou alguém vai explodir com este título.

Coerência republicana

Mário Soares, que tanta repugnância tem pelo governo e acha que ele está a conduzir o país à desgraça devia ser coerente e recusar estes fundos.

Coluna Infame

Subscrevo palavra por palavra.

(Via Lourenço Cordeiro)

Lições e lições

Os partidos em Portugal não são organizações que servem para aglutinar pessoas que propõem soluções mais ou menos semelhantes, ou próximas, para o governo do país. São máquinas cujo único objectivo é ganhar eleições, sendo que esse fim justifica que não se governe - se governar exigir medidas impopulares - nem se deixe governar (idem).

Claro que se poderia perguntar porque é assim. Mas seria uma pergunta inútil, retórica. Todos sabemos porquê.

Adenda - mais um.

14.10.12

Noite, vidas

Um gajo passeia à noite sozinho por ruas das quais não é; ou seja, as ruas, a cidade não são as dele. Pergunta-se se a sua vida é como essa cidade, se os passos que dá na vida lhe são tão estranhos como os que dá nas ruas quase vazias à noite, e o fazem pensar que em breve estará noutra cidade, noutras ruas, noutra vida. 

Uma vida fractal, uma vida de vidas, a quem o gajo que à noite passeia nas ruas é indiferente. As cidades não se preocupam muito com quem as percorre, tal como a vida com quem a vive. Já não está calor, mas ainda não está frio; a vida está entre duas vidas, duas estações, duas noites, dois passos nas ruas quase desertas.

Um fractal, uma vida entre vidas, um tempo entre tempos, uma noite entre noites: um homem faz-se passo a passo e só está feito quando dá o último.

II
A esperança não é para aqui chamada, nem a felicidade, nem o passado, a memória, o esquecimento, o medo. A vida está-se nas tintas para isso tudo, nada disso lhe interessa, são sombras, ersatz, irrelevâncias. Nada se não o homem e os passos que dá, as ruas que percorre, as cidades que deixa e aquelas para onde vai.

A noite, a vida e um passo.  

Desditos portugueses

Coração quer alho.

Telhados de vidro

Talvez no fundo a razão da "incapacidade" de reformar esteja aqui: ninguém vai para o governo sem telhados de vidro.

Impressão

É impressão minha ou José Pacheco Pereira está cada vez mais ansioso? Não deixa de ser curioso ver que aquela parte do PSD que contribuiu em muito para a situação actual (Cavaco incluído) não pára de atirar a quem, mal ou bem, vai pelo menos tentando endireitar o que nasceu torto.

O homem está a fazer erros? Está. Mas bolas, pelo menos que o seu próprio partido o deixe governar até ao fim. É realmente durante as crises que se vê o que são as pessoas, e esta está a destapar a careca a muitas delas.

13.10.12

Genève estuda uma baixa de impostos para empresas

"Avec son projet d’un taux unique d’imposition des personnes morales de 13%, contre 15% à Neuchâtel, Genève se lance-t-il dans la sous-enchère fiscale tant redoutée par certains?"

O link é só para assinantes, infelizmente. Mas a notícia é interessante. Inclusivamente pelo "tão receada por alguns".

(Para quem não sabe Genéve é um cantão socialista, com taxas fiscais elevadíssimas).

Tempo

Uma boa forma de passar o tempo é passar com ele.

Utilidades

Este dicionário de especiarias é muito útil. Muito, mesmo.

"O nosso problema não é de milhares de euros"?

Claro que não. É de atitude. E enquanto a nossa classe política não mudar de atitude ninguém vai sequer começar a querer ouvir falar de "cenários macro". É por isso que se devia ter começado por cortar a fundo nas mordomias - automóveis, subsídios de renda, refeições quase gratuitas, fundações (o que se fez veio tarde e pouco) -. A poupança não teria sido significativa? Não. Mas a cama estaria feita.

As pessoas que beneficiam dessas regalias encaram-nas como naturais; não se apercebem de que são um luxo, uma sorte, um privilégio; e sobretudo, pagos por outrém. É essa atitude que é preciso mudar. 

Enfim, tentar mudar.  

12.10.12

Planos, e um conselho

É tarde. Estou cheio de planos: ir deitar-me; encontrar um embarque; emagrecer; aprender a escrever coisas de jeito; aprender a tirar fotografias de jeito; correr os cem metros barreiras em menos de uma hora; e assim por diante. Tudo praticamente irrealizável, excepto talvez o primeiro e o segundo.

É preciso ter planos na vida - you have to have a plan, if you want to be able not to follow it -; mas não devem ser tão complicados.

Acabo por pedir mais um Túnel, no Antiquari. É preciso saber não respeitar os planos. Uma vez neste blog descrevi a minha vida (ou terá sido outra?) como uma casa da qual o arquitecto tivesse feito os planos depois de construída.

(Aconselho a versão Secas, no máximo Mezcladas. Dulces fica muito aquém da verdade.)

Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 12-10-2012 (cont.)

Uma cidade revela-se quando as ruas estão vazias; tal como um bar, de resto. Cheios não há um que seja feio, ou mau. As ruas vazias permitem-nos fazer delas o que queremos; podemos imaginá-las há duzentos anos, imaginá-las no inverno que aí vem e durante o qual não estarei aqui, ou na primavera passada, quando as flores começaram a aparecer às janelas e os ombros das senhoras a ver o sol. 








Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 12-10-2012

Esteve a chover e é feriado. É uma boa combinação: as ruas ficam vazias e a luz bonita. Fui dar um passeio - mais precisamente passear a máquina fotográfica, farta de estar em casa.

Como sempre acabei numa das marinas. Pensei nos domingos em Genève nos quais me calhava escolher o destino do passeio familiar. "Lá vamos nós ver os barcos outra vez", ouvia-se pela casa fora mesmo antes de eu anunciar que íamos, oh surpresa, ver os barcos.

Em Palma há muito barcos e muitas marinas; escolher um destino seria provavelmente menos monótono para a criançada. Para mim não é, claro. Mas não há nada de metafísico nisto; é simplesmente falta de imaginação.




11.10.12

Uma (grande) receita improvisada - galinha com pera-abacate

[Começo por pedir desculpa pela imodéstia. O qualificativo, apesar de entre parênteses, é resultado da exultação, do entusiasmo, da surpresa - todas reais - e não da soberba, de que felizmente não sofro.

Os quais entusiasmo, exultação e surpresa nasceram de dois dramas tão existenciais como quotidianos: a) que vou fazer para o almoço?, e b) que vou fazer para o almoço quando o banco começa a dar pré-avisos de greve?

Ia a caminho do supermercado quando bati de frente na ideia: galinha com pera-abacate, das quais tinha duas em casa; e o frango é barato, bem aproveitadinhos quatro euros dão para o dobro de refeições, se sefor criativo e tiver um congelador em casa.

Galinha com pera abacate! Sinto-me um Arquimedes a sair da banheira.

Infelizmente entre a galinha e a pera-abacate da ideia original meteram-se cebolas a mais, e cenoura; e a pera abacate que tinha em casa estava menos madura do que eu pensava. Mas vai voltar à berlinda, a dita ideia.

Contudo, porém, manda a verdade que se diga que não estava mau, o resultado derivado. Amanhã estará decerto melhor.] 

Comecei por saisir o frango a fogo vivo; na mesma gordura uma cebola grande mal cortada em rodelas; depois - estou pelas frigideiras separadas, estes dias - cenouras às rodelas.

Quando estava tudo douradinho misturei numa panela, juntei uma lata de tomate (e meio pacote de gazpacho) deixei ferver um bocadinho e temperei: rosmaninho, pimenta preta - muita -, cominhos - idem -, piripiri, orégãos. Mais um bocadinho de calor e foi a vez do cava.

[Isto de cozinhar sistematicamente com cava tem que se lhe diga. Para começar, é bom de mais, e pôr quase uma garrafa numa panela em vez de num copo às vezes dói; por outro é baratíssimo e pergunto-me como farei, quando deixar estas paragens.]

Enfim, a coisa lá foi cozendo, devagarinho, delicadamente. Quase no fim (isto é, meia hora antes) juntei-lhe duas boas mãos cheias de espinafres. Comi com arroz integral e estava bom. Amanhã estará melhor. E quando fizer a ideia original estará melhor ainda, aposto.

A esquerda e os factos

A esquerda tem um problema intelectual fácil de perceber mas difícil de tratar (se fosse fácil não haveria esquerda, qed): a relação com os factos.

Para uma pessoa de direita uma asserção é discutida, comentada, aprovada ou não pelo que diz:  Salazar era um governante honesto. Uma pessoa de direita ouve isto e pensa: é verdade? É falso? Sim ou não?

Perante tal afirmação uma pessoa de esquerda começa por pensar que se está a defender o salazarismo.  Depois a máquina embala-se e em menos de nada somos fassistas. Não somos, claro. Um governante pode ser honesto (como Salazar), ser uma desgraça para o país (idem) e não ser fassista (ibidem).

Outro dos problemas da esquerda com a realidade é que a toma em bloco: o mundo esquerdista é digital. Zero ou um. Nada entra zero e um. Salazar foi uma desgraça para o país? Sim. Mas. Três mas:

- Foi uma consequência mais ou menos inevitável do que vinha de trás (poucas nações se suicidam e quando estão em situações difíceis tendem a encontrar soluções drásticas. Salazar em Portugal, Franco em Espanha, um genocídio no Rwanda são coisas que me vêm ao espírito assim de repente, salvas claro as devidas proporções);

- A maioria da população portuguesa apoiava-o. É uma sorte ele não ter organizado eleições, porque tê-las-ia ganho todas;

- Durante muitos anos as alterativas a Salazar não eram muito melhores do que ele.

Dizer isto não faz de quem o diz um salazarista. Excepto, claro, se estiver a falar com uma pessoa de esquerda. Infelizmente não sou cientista político nem psicólogo e não consigo explicar porquê.

10.10.12

Fealdade, palavras

Cada vez suporto menos a fealdade. Porque será? (Abro uma excepção para o poema aí de baixo, que é fraquinho, eu sei. Mas como não sou poeta profissional e também feio feio não é, é só fraquinho, que se lixe).

Não deve ser da idade, que nos habitua a ver tanta coisa e tanta gente feia; nem da felicidade, que hoje está um bocadinho melancólica; nem da melancolia, porque não é só hoje. Gente feia, a cuspir fealdade, a ver fealdade, a criar fealdade...

Porra, mandai as palavras para o lupanar de onde nunca deviam ter saído (elas, as palavras).

Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 10-10-2012

À frente do Antiquari - ou seja, imediatamente por baixo da nossa casa - está o Café Lounge (cito) Mari-Lin.

A rua terá talvez três metros e meio de largura, mas parece que estão em dois planetas diferentes. O Mari-Lin é quadrado, no sentido literal e no do antigo calão, square, branco, limpo. Tem uma esplanada grande (enfim, o maior possível) com as mesas ao longo do muro que separa a rua de umas escadas; durante o dia protege-as com chapéus de sol grandes, beiges, quadrados (claro). A empregada é uma loira incaracterística (às vezes acontece) que anda muito direita, com os seios a abanar e a travessa por cima da cabeça, como se tivesse medo que chova e os seios fossem limpa-pára-brisas preventivos. A clientela é constituída na sua maioria por turistas; a minoria são casais square, grupos square; é raro haver uma pessoa só a uma mesa, e quando há é, terão adivinhado, square.

O Antiquari tem uma esplanada minúscula - duas mesas, às vezes três. As pessoas sentam-se nos degraus da escada (em Palma há muitas ruas que são, ou têm, escadas como Lisboa). Vêem em grupos grandes, em pares, sozinhas. Só ao meio dia, quando abre, há alguns turistas; depois a fauna local toma o local de assalto e a de fora senta-se nas mesas em frente, tristonha. Por dentro é castanho, escuro, vivo, pequeno.

Não sei se as mulheres do Antiquari são mais bonitas do que as do Mari-Lin. Os nomes prestar-se-iam a alguns interessantes jogos de palavras, se se quisesse. Desde que cheguei entrei duas vezes no vizinho de baixo - uma delas para ver se havia net, porque a que temos em casa é-nos fornecida, simpática e involuntariamente por ele. Ao Antiquari vou muitas vezes - como hoje, beber um Hierbas Tunel, bebida na qual estaria viciado, se fosse de vícios; ou pensar que a tristeza se dissolve melhor no degrau de umas escadas a olhar para tristes do que no meio dos tristes a olhar para gente como nós.

Ou ouvir Hildegarde von Bingen seguida pela Orchestra Baobab e pensar na quantidade de planetas que habitamos.

........
Às quartas o Antiquari organiza um Clube de Línguas: pessoas que falam uma determinada língua juntam-se com quem a quer aprender e passam uma hora ou duas, não vi bem, a conversar, contar histórias, trocar experiências ou expectativas.

8.10.12

Palma de Maiorca, Baleares, Espanha

L'Antiquari




Passeig des Born

Terra

Tu és a terra; eu sou o fruto e bebo
da fonte directamente,
até que o incêndio se ateie e o
grito afaste a morte.

Gosto desta imagem: a planície,
uma fonte, um incêndio que alastra
célere, urgente;
abutres assustados.

Da convivência diária com a sede
aprendi o calor, o fogo, a luz,
a simples, irrefutável urgência.

Tu és a terra.

(Para a T. com amor, carinho, ternura e essas mariquices todas)

Roupagens

A negaçao permanente está para a sabedoria como a roupa larga para um corpo gordo: ambas servem para esconder defeitos.

5.10.12

Almoço improvisado (e jantar)

Para quem vive em Portugal - ou melhor, para quem nao vive em Palma - encontrar sobreasada nao sera provavelmente fácil. Talvez o Corte Inglés tenha, nao sei.

A ideia inicial era fazer um almoço simples em torno de dois sabores fortes: o gengibre (no salmao) e o rosmaninho (nas batatas). Mas o forno nao estava a funcionar e em vez de assar os tubérculos do senhor Parmentier numa travessa de barro com azeite, muito rosmaninho e três ou quatro dentes de alho (en chemise, que isto agora anda prude) fritei-os na frigideira, acrescentando meia sobreasada a tudo o que estava na travessa.

A qual sobreasada é um enchido feito com carne de porco, pimentao e muitas mais coisas que podem ver aqui, especialidade das Baleares e que por si só justifica uma viagem ao arquipélago, e uma longa estadia.

O resultado foi uma explosao de sabores, passe o cliché. Uma explosao boa, sensual, rica, gulosa, mulata; e páro aqui para nao descambar, que isto agora anda prude.

É cedo de mais para falar no jantar: ainda está ao lume. Comecei por saltear um bocado de toucinho cru, pimento verde (dos de Maiorca, nao os habituais), cebola picada, meio pimento encarnado, um pouco de aipo, um tomate, uma beringela - tudo isto separadamente e em lume forte - e por fim um belo naco de carne de guisar.

Depois pus tudo no lume muito fraco, em vinho tinto e com pimentao doce, rosmaninho, orégaos e pimenta preta como especiarias. Ficou a burburinhar, fui beber um Hierbas Tunel (ou aqui) e vim escrever disparates no locutorio onde tenho de vir escrevê-los enquanto o meu computador estiver na sua forçada greve de fome.

Verdade seja dita que nao venho só escrevê-los: também os leio, e muitos.

Fortunas, estupidez

Há várias maneiras de dilapidar fortunas. Por estupidez é a única forma inaceitável de o fazer.

Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 05-10-2012

Porto

Fui a um restaurante sugerido pela mais portuense das minhas amigas, e amigos. Chama-se O Buraco e fica na rua do Bolhao (estou sem tis, por uns dias). Todos os restaurantes deviam ser assim. O senhor Manuel, que suponho seja o dono, cumprimenta todos os clientes que entram pelo nome ou pelo título. Pergunto-lhe "o que vou comer" e ele diz-me que tem uma feijoada muito boa. É um understatement, modéstia tao louvável como excessiva. Para beber o empregado pergunta-me se quero beber um verde tinto "feito pela casa". O vinho é excelente, picante, complemento ideal da feijoada.

É proibido vendê-lo. Mesmo admitindo que a ASAE mais nao faz do que aplicar a legislaçao, por que nao se a altera no sentido de permitir a venda do fruto do trabalho e dedicaçao das pessoas? Podia por exemplo tornar-se obrigatório a informaçao de que o produto é caseiro; quem quer come quem nao quer compra outro.

Foi uma passagem muito curta, demasiado curta. É bom saber que ha uma linha aérea directa e barata para lá.

Palma
O Antiquari é uma mistura de Café Tati, Café Buenos Aires, Marchand de Sable e mais meia dúzia doutros cafés cujo nome agora me escapa, mas sao bons, bonitos, conviviais, com boa música e melhor ambiente.

É aqui que espero N. pois nao levei as chaves de casa para a viagem. Ainda esta calor em Palma, a cidade está na rua, bonita e sorridente. E eu nela, como se aqui tivesse nascido.

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Agora temos um músico residente nas escadinhas à frente do Antiquari. É lamentável, coitado, o senhor. Toca mal e canta pior, com uma voz fanhosa, cançoes de Bob Dylan, Beatles, Neil Young ou Eric Clapton. É tanto pior quanto partilho a casa com dois músicos, um dos quais, pelo menos, excelente; e tenho uma namorada que canta melhor (e mais raramente, infelizmente) do que escreve.

Só dou dinheiro a músicos de rua que tenham um mínimo de qualidade - por isso apoio a política do metro de Paris de seleccionar quem nele toca - e agora encontro uma razao suplementar: solidariedade com os moradores das redondezas.

3.10.12

Pai

Este senhor gosta de se apresentar como o pai da pátria. Depois há quem se admire...

"O dinheiro fabrica-se quando é preciso".

(Para não mencionar a ironia de o ver a defender políticas financeiras dos EUA, país que não é, portanto, neoliberal - Ámen. Cruzes canhoto. Vade retro. Santinho).

Lisboa, Portugal




2.10.12

Amor, amizade

Gosto de amizades femininas. Poupam-nos o amor, uma bênção.

Pergunta

Aquele velho e honorável princípio "antes fazer mal do que deitar fora" também se aplica ao gin tónico quando (ou seja sempre) sobra água tónica e falta gin?

Amar, Holanda

Amar-te eu como o mar a terra, na Holanda.

Lisboa, Portugal, 02-10-2012

Às vezes parece-me que a minha residência principal é um aeroporto qualquer, um aeroporto-todos-os-aeroportos do mundo; e tudo o resto - barcos, hotéis, quartos - não passa de residências secundárias.
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Durante o quarto o tempo é deformável, irregular. Um gajo entra de quarto às três da manhã, por exemplo; uma eternidade depois são três e dez. Não acontece nada e num ápice são quatro, é preciso preencher o diário de bordo: posição, rumo, velocidade, vento, mar, dados das máquinas. Demora cinco minutos e quando acaba já são cinco da manhã e é preciso recomeçar. De repente são seis, o quarto acaba e o mesmo gajo começa a pensar que os quartos de quatro horas são muito melhores.

O quarto acaba. Oríon já não está onde estava às três; nem a lua, quase a rebentar, de tão cheia; nem o A., que entretanto já andou trinta milhas. Nada está no mesmo sítio, nada é igual. Daqui a pouco aparece o sol, as cores mudam, talvez o vento sei lá; talvez apareça um eco no radar, ou desapareçam os que lá estão.

Nada é igual, nem o passar do tempo.

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Um homem no mar não gasta dinheiro. A essa imagem - de que tanto gosto - do marinheiro perdulário há que acrescentar, sempre, a do marinheiro franciscano. Quanto mais não seja por falta de franciscas, o que é um bocadinho contraditório.

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Helletvoetsluis

A viagem acaba aqui. Por mim podia ter continuado três semanas, ou meia dúzia de meses.

O chauffeur de táxi vem buscar-nos de casaco e gravata, num carro também ele engravatado. É delicado, educado, conduz como fala, suavemente, sem solavancos. Não sou muito dado a comparações, mas é impossível não pensar nos chauffeurs de táxi de outras paragens.

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Amsterdam

Um dos meus objectivos era comer um  Nasi Goreng, ou Bakmie Goreng, com um monte de Sambal a acompanhar e a excitar tudo o que há de glândulas no corpo. Mas "já não há pure Indonesian restaurants como antigamente", diz-me um senhor da minha idade que vende flores (e o diz como se tivesse acabado de comer uma por engano). "Vai àquele chinês, também fazem pratos indonésios". Não fui; fui ao De Roode Leeuw, um restaurante lindo, bom e (surpresa) caro na Damrak, que "há cem anos serve autêntica cozinha holandesa" (dizem isto e não se apercebem do oxímoro) comer mexilhões.

Passei uma hora e meia em Amsterdam; não fiquei a morrer de vontade de lá voltar. Que será daquela cidade sem as tascas indonésias, agora substituídas por restaurantes argentinos, em cada esquina um?

E cheia de miúdos a fumar charros, como se estivessem a descobrir a Lua.

Vou de comboio de Rotterdam para Amsterdam. A Holanda é um país que só tem litoral, não tem interior. No meio do campo aparece volta e meia uma marina - e grande - ou um porto de batelões.

As placas de sinalização em Rotterdam indicam tanto as ruas como os números dos cais.

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De passagem em Lisboa, de novo. Mas estive cá há quatro dias. Quero ir-me embora. Uma vez vistos e conversados os amigos pouco me prende aqui.