21.7.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 21-07-2025

O charter foi curto: saímos sábado às cinco ou seis da tarde de Can Pastilla e às dez os passageiros desembarcavam em Colonia San Jordi para irem para um hotel. As senhoras estavam enjoadas. Enfim, não é bem enjoadas. É: mortalmente enjoadas. No dia seguinte disseram-me o que já suspeitara na véspera: não queriam prosseguir a viagem. Não queriam ver um barco à frente nunca mais na vida. De maneira, desembarcámos o que sobrava de bagagem - o suficiente para trinta pessoas mudarem de casa e começarem uma nova vida num sítio sem lojas nem lavandarias - e voltámos para Can Pastilla. A A. fez uns camarões deliciosos, eu fui à terra beber um copo (estava tão cansado que pedi um amaretto em vez de um limoncello) e cá estou, de novo em casa mas com o frigorífico a abarratar de comida. Creio que se dividir o dinheiro que recebi pela quantidade de horas que trabalhei bati o recorde do salário horário e isto já sem incluir a comida na equação.

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Por razões que não vêm ao caso evito fazer compras em lojas chinesas. Hoje precisava de um objecto injustamente caído em desuso e procurei em não sei quantas lojas relacionadas. Foi preciso ir a um chinês para o encontrar. Por mais que tente, nem racista consigo ser.

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Estou orfão de sítios para escrever, sobretudo à tarde, depois da sesta; ultimamente tenho vindo a um café ao lado de casa. (Pausa. Um tempo. É tão bom poder outra vez chamar casa à Volta Dos... Fim da pausa.) Não gosto muito deste tipo de lugares, armados ao pingarelho, «speciality coffee» mai-lo raio que o parta. Mas pronto, não se pode ter tudo. Nem sequer uma ginger beer decente. Nem beer é. Esta nova geração - cuja de resto metade feminina está muito bem representada - anda a ser aldrabada... Pausa: o British Bar já não faz ginger beer

Passemos.

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Amanhã: charter de meio dia numa lancha. Ganho menos, claro, mas prefiro de longe meio dia a um dia inteiro. E quando são dois meios dias ainda gosto mais, mas isso é outra história, mais rara.

18.7.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-07-2025

Depois vim ao Moltabarra beber um vermute, decisão a posteriori.  Quando aqui cheguei hesitei entre isto euma imperial. Depois de quê? De um super-jantar com a A. e o V., depois de um copo no Guindilla, depois de ter ido a casa tentar dormir. O Moltabarra é uma piscina de anonimato que o ex-marido da U. (creio) tenta quebrar. Quer que eu vá assistir a não sei quê. Digo-lhe que não, quero estar sozinho. Talvez não seja inteiramente verdade.

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(Cont.)

17.7.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 17-07-2025 / II

Bebo um pink gin no bar Cuba. Quantos caminhos me trouxeram aqui? 

1 - Chegou o V., fomos almoçar ao Gustar (as regras são para se seguir à letra) e abri a garrafa de El Dorado 12 Anos que trouxe de Sint Maarten especialmente para esta ocasião;

2 - No caminho para aqui parámos na vermuteria San Jaime para beber um Padrón cada um, ficando assim saciada a necessidade premente de um vermute pós-prandial;

3 - Existe a possibilidade de a minha família (ex-mulher, filha, genro e netos) vir a Palma e ficar hospedada no hotel Hostal Cuba (não é coincidência e o nome do hotel é esse);

4 - O V. foi à marina deixar a bagagem e eu fiquei a esperá-lo;

5 - Esta cidade é mais bonita e mais amável do que todas as outras cidades que conheço, juntas ou separadas.

Grau de relevância de cada um destes pontos: um, dois, quatro e cinco: zero. Três: também. Podia ter ido para o bar em frente, chamado Habana.

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Ontem depois do concerto estava a morrer de sede e a precisar urgentemente de uma cerveja. Não tão urgente que não tivesse tempo para escolher o waterhole. Fui ao Ábaco. Acho importante que isto fique registado porque não é todos os dias que pago oito euros por uma cerveja e fico contente e penso que fiz a escolha certa. Ao contrário do magnetismo, em que pólos do mesmo sinal se repelem, na vida em geral pólos do mesmo sinal atraem-se. Qualidade atrai qualidade. 

(Curiosamente, isto deixa-me uma ferida, uma dúvida aberta: como é que consigo ter namoradas de qualidade? Resposta: elas ficam pouco tempo.)

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 17-07-2025

Por ordem cronológica inversa, a partir de agora, sentado no meu escritório da Plaza Mayor, ainda todo moído da boca e chateado com o olho direito que piora a olhos vistos. Dizem que o tempo tudo melhora mas deve haver excepções. Esta carcaça é de de certeza uma delas. Não a vejo melhor agota (sem jogo de palavras) do que há, digamos, vinte anos.

- Última sessão de dentista. A questão que se põe é: até quando? (Cf. supra);

- Sublime concerto de «música do mediterrâneo» (aspas porque cito) nas ses Voltes, um espaço ao ar livre nas muralhas, mesmo por baixo da Catedral. Um grupo de cinco gregos que reinterpretava a música dos Balcãs. Ao fim de três minutos tinha lágrimas nos olhos e só pararam porque estava demasiado cansado para chorar. Cada vez tenho menos dúvidas: sou europeu, mediterrânico e português. Só ainda não defini definitivamente a ordem.

- Dia de trabalho num Saxdor 320. Dois fora-de-borda de trezentos e cinquenta cavalos cada um. Não consegui usufruir plenamente, os clientes queriam ir devagar. À vinda, porque à ida ainda levei aquilo aos trinta nós. Pareceia que estava parado. Porto Adriana - Cala Llamp - Porto Adriano: cento e poucos litros de gasolina. (Ou seja: só cento e tal litros de gasolina, sem ironia.) Isto dito, prefiro de longe um Fjord ou um Frauscher

- Noite quase toda sem dormir. Foi um horror, mas tebe uma consequência positiva: era preciso repor o relógio para as horas normais. 

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Resumindo: dores de dentes, meia constipação e outras maleitas labiais debeladas. Chegaram todas ao mesmo tempo e vão-se idem. Não venham mais cinco que eu não estou cá. Isto de ter de apanhar um avião para ir a uma consulta médica é pior ainda do que ter de o fazer para ir votar.

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Verdade seja dita: não posso queixar-me. Faço o que quero e os meus livros têm casa. Podia ser pior.

14.7.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 14-07-2025

A questão que dias como estes (sim, no plural) me põem é: a paz é divisível? No sentido de compartimentável. Já não falo de felicidade, sequer. Não sou dado a esoterismos e não gosto de falar do que não sei. Mas a pergunta é pertinente. Tenho comido em casa, por razões facilmente quantificáveis. Sobretudo o jantar, que como no terraço, al fresco, depois de um dia (dias, já vai em muitos) a pedalar por essa cidade, a organizar a vida aqui, a fazer um portfolio fotográfico, a responder de vez em quando a um anúncio de trabalho, a procurar novos espaços de "trabalho", agora que os antigos fecham, mudam de mãos ou de alma. Volta e meia lá tenho um sobressalto: esta porra desta meia gripe / meia constipação / meia Covid que não há maneira de me deixar em paz (lá está, paz), uma proposta de trabalho que coincide com a única semana que tenho marcada, uma dúvida ou dúvida e meia. Mas tudo isso, todos esses soluços se dissolvem num magma pacificado, como quando se nada no mar num dia de calor e a água não está fria e não há vento nem vagas.

Por exemplo: o jantar de hoje não ficou muito bom. Carne picada cozida com pimentos brancos, cebola e um tomate em vinho tinto, temperada com aquela sublime pimenta verde fumada, esmagada no almofariz (foi um desperdício, entre nós fique dito).

Por exemplo: o vinho tinto que comprei ontem é uma merda sem nome e hoje fui comprar gasosa para o usar para tinto de verano. Enganei-me na gasosa, comprei uma sem açúcar e nem aquilo ficou potável.

Por exemplo, a porcaria do dentista, que por acaso é uma senhora e bastante competente e não tem fim. Ainda lá terei de voltar pelo menos mais uma vez. Será a quarta. Ou quinta? Teria de ir ver, escarafunchar como ela me faz na porcaria dos condutos. São três e um deles em mau estado. "Este dente não vai durar muitos anos."

Por exemplo... Sei lá, haveria tantos, se a paz fosse como um lego. Não é. É como uma nuvem, como o nevoeiro, como o mar ou como o azul do céu que se sente e se sabe que está lá mesmo quando não se vê.

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Ultimamente tenho vindo a desrespeitar uma norma de há muito: não comprar bilhetes de avião com mais de dois ou três dias de antecedência. Qualquer psicanalista de meia tigela perceberia porquê (isto é, porque desrespeito a norma) e não vale a pena alongar-me em palavrório inútil.

Mas a verdade é que comprei um bilhete para Lisboa para daqui a três semanas e agora estou em risco de não poder utilizá-lo ou de ter de pagar um balúrdio para o mudar.

Antigamente havia os open date. Hoje, o equivalente é uma fraude. Ou então sou eu que não descobri bem como é que aquilo funciona.

É o defeito das normas: desaprendem-nos. Impedem-nos de aprender. De explorar.  É por isso que os exploradores de antanho eram ricos: explorar sai caro.

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No outro dia encontrei o François, ex-dono do Antiquari. Explicou-me que estava farto, farto até à ponta dos cabelos e que a Covid tinha sido a gota de água.

Percebo, claro e não pude impedir-me de pensar naqueles conservadores que são contra tudo o que mude. Esquecem-se de que por trás de "tudo" há pessoas e as pessoas não são máquinas. Fartam-se, cansam-se, morrem, apaixonam-se, desapaixonam-se, querem mudar. As coisas não mudam. O que muda são as pessoas que lhes dão vida.

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Isto dito, vou procurando sítios para escrever. Neste momento estou reduzido ao Mise en Place, que fecha âs quatro da tarde mas outros vão aparecendo, pouco a pouco.

A cidade muda? É uma ilusão de óptica. É como quando a miúda de quem gostamos põe um vestido horrível: basta lembrarmo-nos do que está por baixo da roupa. Ou por dentro, que ainda é melhor.

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Acordei com o Joan uma exposição no bar Rita em Outubro. 

12.7.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 12-07-2025

«Vamos a um bar para esquecer», responde-me uma jovem senhora - por quem de resto tenho uma vasta admiração. Poderia passar horas a explicar-lhe que isso não é verdade.

E se for, não funciona. Talvez uma hora por cada ano de idade que nos separa?

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A noite acaba no meu quarto, com Leonard Cohen no telefone (sim, às vezes cometo pecados) e Legendario 7 Años no copo (ditto). Há muitos anos li uma porcaria qualquer segudo a qual as pessoas criativas não têm práticas muito repetitivas. Não são de se deitar cedo, por exemplo. Têm períodos de  ir para a cama com as galinhas intercalados com outros mais tardios; ou de beber rum de que não gostam; ou de ouvir música no telefone portátil. Se isso fosse verdade eu seria um tipo bastante criativo. Como não sou, não é.

Limito-me a pensar que há um fosso entre a monotonia e a vida; ou entre a repetição e a vida; «Où les routes sont tracées, je perds mon chemin.» (R. Tagore); «Rien n'est plus lent que la véritable naissance d'un homme.» (M. Yourcenar) Poder-se-ia quase mudar para: rien n'est plus lent que la naissance d'un homme véritable, não? Ou: rien n'est plus lent que la construction d'une vrai vie par un homme.» As variações são infinitas.

Como as horas, de resto. Pensamos que só há vinte e quatro delas em cada dia? Enganamo-nos, claro. Não sabemos sequer quantas vidas há em cada hora, em cada dia. Melhor limitar-nos a vivê-las, a fazê-la, tijolo a tijolo, hora a hora. Se são sempre iguais ou não pouco importa. «A repetição é um recurso do estilo», escreveu Nuno Júdice (aposto).

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Ou seja: oiço L. Cohen pela quinquagésima milésima terceira vez, bebo um copo de rum que não acho grande coisa e retardo o momento de me ir deitar porque não quero que se pense que vou sempre cedo para a cama. Às vezes vou tarde.

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Comprei um bilhete de avião para Lisboa. Isto é importante: é para daqui a três semanas, ou coisa que o valha. Para quem não comprava viagens com mais de três dias de antecedência não está mal. Deve ser essa treta da criatividade. Não se repetir. Mudar as rotinas. Etc.  

Mudar as rotinas de tal forma que essa mudança seja uma rotina.

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Ouvir música no telefone é muito cansativo. Espero conseguir resistir à tentação de comprar mais um par de colunas. 

Há quem deixe pedrinhas brancas para encontrar o caminho de volta. Eu deixo colunas, sempre se vêem melhor. Não tenho é caminho de volta, mas isso é outra história.

(Vindo de quem está a ouvir a música da sua adolescência.)

Joan Baez: Balada de Sacco e Vanzetti. Não tarda estou a ouvir o Geraldo Vandré. No tablet, tem melhor som.

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Pus um peito de frango a marinar: sumo de um limão, rosmaninho, sumac, pimenta verde fumada e sal. Amanhã veremos, como dizia o ceguinho à mulher - que não tinha papilas gustativas.

11.7.25

Elaborar é preciso

Escrevi há pouco que se vai a um bar para reflectir. Não é inteiramente verdade. Vai-se a um bar, também, para orar. Para rezar, se quiserem quebrar a cacofonia. 

Um bar é um templo cujo sacerdote, ministro ou cura (o termo mais adequado, provavelmente) é o barman, profissão nobre s'il en est.

Vai-se a um bar rezar e essa reza pode ser solitária, a dois ou três ou muitos. Pouco importa o  número, desde que haja comunhão. Vai-se a um bar para pensar, para se beber (se tendo aqui duas funções gramaticais), vai-se a um bar para celebrar, explicar-se ou tentar compreender-se. Vai-se a um bar para fechar um dia, um ciclo, uma época ou começá-los - dia, ciclo, tempos.

Só não se vai a um bar para gritar, ouvir música ou falar da espuma dos dias. Para isso fica-se em casa ou vai-se ao café da esquina.

10.7.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 10-07-2025

O dia começou tarde - estou engripado / constipado / covidado (riscar o que não interessa) - e com uma comedia dell'arte que já comecei a descrever mas que agora me parece demasiado sem interesse para transcrever. Gritos, uma casal de maricas e eu completamente ao lado, como de costume. É aflitivo, o que as coisas conseguem passar-me ao lado.

Cenas da vida quotidiana na Volta Dos. Não tarda tê-las-ei esquecido. O que não falta na minha vida são cenas da vida quotidiana.

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Fui jantar a um italiano indiferente porque o Gigi's está fechado. Chama-se Amayó. Já ali tinha estado. Deve ser o restaurante mais central de Palma - não é bom nem é mau, não é caro nem barato, não é longe nem é perto, o serviço não é bom nem é mau (isto é mentira. Retórica. Apreciei bastante. Simpático, eficaz e rápido). A grappa não era nada de especial e resolvi vir ao Gibson's, na esperança de que a «minha» mesa estivesse vazia. Está. 

Pára de viver no passado, porra!

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A mesa é num canto, em baixo, no caminho para a casa de banho, num sítio aonde raramente há alguém (hoje há. Há sempre que lá em cima está cheio). A vida passa por mim e não pára. E eu estacionado ao lado dela.

Há porém razões objectivas para gostar desta mesa: parece uma área de repouso na autostrada da vida. Enfim, do bar. Ouve-se o barulho mas não se é parte dele.

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Esta constipação / gripe / covid aborrece-me. Um homem só deve adoecer se tiver alguém para cuidar dele. Sozinho não chega sequer a ser doença. É como aquela história do barulho na floresta: se ninguém ouvir, é barulho?

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Razões para gostar do Gibson's: as doses são grandes, comparativamente baratas e está perto.

E tem uma mesa para mim quando eu preciso.

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Cedo piaste: o meu canto encheu-se de gente ruidosa e que ainda por cima me pediu a cadeira aonde tinha o saco e o chapéu.

Tudo isto antes de o Baileys acabar.

É impossível explicar a um espanhol que um bar é um lugar aonde se vem para reflectir, não para gritar. Infelizmente não são os únicos.

8.7.25

Cemitério

São onze da noite. Desço para beber um sake no Otaku (a razão oficial sendo que tenho de pôr a burra no prédio) e está fechado. Tudo está fechado aqui à volta. Acabo na mini-pizzeria da Plaza Mayor, que já mudou de nome, de dono e de empregados algumas vinte vezes desde que comecei a frequentá-la. A porra das leis anti-ruído deu isto: preferem dormir num cemitério a viver numa cidade.

7.7.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 07-07-2025

A ideia de que posso entrar na Babel e não comprar um livro - tendo para isso dinheiro suficiente no banco - é infantil, claro. Risível, diria quem melhor me conhece. Patética, digo eu, que por vezes me descubro e outras me cubro. À saída estava o novo livro de Nazareth Castellano. Chama-se El Puente donde habitan las mariposas - Biosofía de la respiración. Nazareth Castellanos, que o José Luis prometeu apresentar-me porque é amiga da casa, está para a neurologia como Pizarnik para a poesia: faz-me descobrir a face oculta, o outro lado - não o avesso, note-se, a poesia de Pizarnik não tem nada de avesso, é mais com um holofote que de repente se acende no outro lado da cena. Um livro de Nazareth Castellanos mudou a minha maneira de ver o mundo. Já aqui falei dele: chama-se La Neurociencia del cuerpo. Aposto que este vai confirmar essa mudança, aprofundá-la e consolidá-la.

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A fraqueza da minha força de vontade - a minha fraqueza de vontade, por assim dizer - manifestou-se uma vez mais. Vim ao Johnny's Dhaba para lanchar e fiquei para jantar. Não que a comida seja excelente. Não é. Mas a simpatia do homem, o espaço praticamente vazio e a falta de vontade de ir para casa conjugaram-se com a vontade de escrever e de falar deste dia.

........
Porque a verdade, a verdadeira verdade é que os dias de repouso em Genebra foram necessários mas não suficientes. O rendimento da carcaça diminuiu um bocadinho. O que aumentou exponencialmente foi o tempo necessário para recuperar. Coisa que aqui faço, temperando com umas preocupaçõezitas e umas imersões na cultura local: comprei uma saco de ir às compras, alpergatas, continuo a minha peregrinação aos locais que fazem de Palma a minha casa. Hoje foi o Johnny agora ao jantar, um hamburguer no Igor ao almoço, a visita quotidiana ao Olivar, os passeios por estas ruas que me permitem descobrir novidades a cada esquina e confirmar que os meus amores têm uma base concreta, tangível. Não caem do céu. 

Por isso nunca acabam.

Pizarnik, Estar

Venho à Babel, não para comprar um livro mas para beber uma cerveja. A minha condição de sem abrigo piorou com o fim do Antiquari.

Para resistir mais facilmente à tentação escolho um livro que já tenho: Poesía Completa, de Pizarnik. (Como desculpa, já vi nelhor: esta edição é diferente da que eu tenho. Não faz mal. Fica assim.)

ESTAR

Vigilas desde este cuarto
donde la sombra temible es la tuya.

No hay silencio aquí 
sino frases que evitas oír. 

Signos en los muros
narran la bella lejanía. 

(Haz que no muera
sin volver a verte.)

6.7.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 06-07-2025

Prequela:

Ou seja, consegui jantar por menos de quarenta euros. A questão que esta inusitada situação põe é: aonde vou gastar os dez euros que poupei?

(Assinado: escola LMS de gestão de finanças pessoais. Uma escola que eu sugiro fortemente a quem queira empobrecer com estilo ou enriquecer sem classe.)

Resposta: quase metade já o foi na gorja. A beleza, a simpatia, esta singular conjução de rabos, a energia, a juventude, o sorriso, o quadro e a quantidade de serotonina que este jantar provocou mais do que legitimam a decisão. 

(Assinado: escola LMS de saber viver, sobretudo quando não se tem aonde cair morto.)

(Continua, por definição.)

(Cont. 1)

Resposta: em lado nenhum. Vim para casa. a) Sou um homem responsável, b) tenho rum em casa, c) não pensei que o quarto estava tão quente, d) o Antiquari fechou, e) não dormi à tarde e f) o Gibson's obrigaria a uma subida da Costa de sa Pols. Por muito boa que seja a burra - é - não é eléctrica. É muscular. Funciona a açúcar.

........

Pós-quela:

O restaurante El Mariscal del Jamón é uma casa clássica com uma «decoração» que me faz pensar nos refeitórios das fábricas de produtos de «luxo» (tudo isto entre aspas porque sim). Já cá tentei vir uma vez mas estava cheio. Hoje consegui mesa, «no interior, señor, si está solo». Estou e agradeço. Prefiro de longe o ar condicionado ao ar desregulado das alterações climáticas, aquecimentos globais e outros sinónimos de Verão em Maiorca.

A simpatia dos empregados é contagiosa; sendo que desta vez me sinto obrigado a separar os géneros: lá fora foi um, cá dentro são duas ou três, que parecem estar num concurso de sorrisos e simpatia.

Os preços são os habituais neste tipo de sítios mas há dois pratos a menos de dez euros (cinco cêntimos menos). Escolho um desses: deixar por deixar prefiro que o que sobra seja barato. A miúda que me serve tem vinte e alguns anos, um rabo de cavalo e um rabo tout court bastante bonitos, a energia de um puro-sangue e um sorriso de me fazer querer voltar quarenta e muitos ans atrás*. Quel bonheur!

Bebo Lopez de Haro a três e cinquenta o copo, consegui comer a carne (toucinho na chapa, delicioso) quase toda, pergunto-me se é hoje que vou ao Gibson's e se amanhã esta sorte continuará. A pergunta é retórica. 

* - Dos quais seria injusto queixar-me. Passei muitos deles sozinho e outros tantos acompanhado. Querer melhor seria irrealista.

No restaurante só se ouve espanhol e maiorquin. Não vou esperar quarenta e tantos anos para cá voltar.

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Sequela:

O rum Legendario 7 anos que comprei em Gibraltar confirma a péssima opinião que tinha deste rum. Espero que o El Dorado 12 anos que me aguarda no armário faça a mesma coisa. Isto é: confirme a maravilhosa opinião, etc.

5.7.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 05-07-2025

O tema do dia é a morte de um jogador de futebol e a ida ou não ida de outro ao funeral do primeiro. E ainda há quem me critique por eu viver à côté de la plaque. (Isto dito, tenho imensa pena do senhor e da família. Dos fãs do homem também tenho, mas pouca. Ganhem juízo ou pelo menos não desperdicem o pouco que têm.)

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Cantinho vaidoso: fui à Tipika - na vedade fui ao Morey beber um vermute e como a Tipika fica em frente fui lá, aquela loja é uma maravilha. A Petra disse-me que uma senhora alemã dona de uma galeria de arte que expõe muita fotografia adorou as minhas.

É preciso acreditar nas virtudes do abulismo. Dito de outra forma: acredito nas virtudes do tempo.

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Cantinho do vaidoso II

Ontem, a senhora do filtro de segurança do aeroporto de Genebra elogiou o meu chapéu. «Muito bonito», disse ela (em francês, claro). Hoje o Ivo disse o mesmo da minha mochila de couro (em espanhol).

Gosto muito destes elogios, mas prefiro o das fotografias. E os que me fazem aos livros, mais raros mas mais comoventes - escrever é mais custoso do que fotografar, por uma razão que não percebo e talvez por isso acho injusta.

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Venho ao Café Verde beber um tinto de verano. «Más tinto que verano», explico ao senhor que me serve. Ele ri-se e faz o que lhe peço. Está calor mas há uma brisa leve, restos da térmica da tarde. Em breve desvanecer-se-á. O café Verde fica na praça de la Mercê, a dois minutos de casa. Há muito pouco trânsito porque a zona é acire (acesso restrito). Vai calma a tarde: Palma entra-me pelos poros, também; e não só pela boca ou pelos olhos. Pergunto-me aonde ir jantar, penso na senhora alemã dona de uma galeria de arte - vai abrir uma em Palma e talvez me contacte, penso no transporte para o Panamá que muito provavelmente não terei e tanto gostaria de ter, mesmo sendo só da República Dominicana, penso no que devia escrever e não escrevo e no que escrevo, penso nas virtudes da espera e de como não me tornar a personagem da Fera na Selva, que morreu de esperar. Ou melhor: não viveu, de tanto esperar. Há um equilíbrio a encontrar, uma linha muito fina, uma indecisão... Uma força vital, diria Nietzsche. Um pêndulo titubeante, indiferente, resistente à gravidade. Respirar sem querer. Introduzir Beckett na equação.

Ir a casa deixar as compras e ir jantar.

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ADENDA 

A ideia original era jantar num sítio novo mas acabei no Jaume e num polvo à galega que é, continua a ser, o melhor de Palma. Juntai-lhe música mais do que decente, um quadro lindo, o melhor vermute de sempre, a habitual recepção reservada do Jaume (o outro) e calorosa da mulher do Jaume (o dono, que hoje não está), a sequência de mulheres bonitas que desfilam à minha frente, juntai tudo isso, agitai devagarinho, docemente, como quem faz uma festa a um bebé que está a dormir e a pergunta é óbvia: ir aonde? Estás louco?

O vermute, já aqui o disse e repito, chama-se Luis XIV. Não venham a Palma não que não é preciso. Não amem Palma. Não mergulhem nesta cidade como no corpo de uma mulher amada. Não façam nada disso que não é preciso. Não respirem.

.........
Já aqui expliquei a diferença entre pairar e derivar: esta é involuntária, aquela não. Estou a pairar. Máquinas paradas, panos arreados, ansiedade em suspensão. Tenho uma vaga ideia de para onde a corrente me leva mas não quero pensar muito nisso. Não quero pensar muito, aliás. Quero beber vermute, pedalar para casa e dormir. É um programa que preenche o espaço todo entre mim e o horizonte. Os horizontes: são muitos.

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Tratar da vista, por exemplo. E comer uma sobremesa aqui em vez de ir ao Gibson beber um rum.

4.7.25

(Cont.)

O marinheiro sensato não sai do 7 Machos com o objectivo de ir ao Moltabarra, o que só demonstra que não sou uma coisa nem outra.

O "marinheiro bêbado" da mitologia tão pouco. Ficaria aonde estava, a beber mezcal como se o mundo acabasse amanhã (acaba, qualquer marinheiro sabe).

Ou seja: não sou sensato nem bêbado. Sou um simples marinheiro, sem qualificativos nem apodos. E sim, vou ao Moltabarra porque Palma celebra-se, ama-se, vive-se e bebe-se.

PS - O Moltabarra está fechado:  "evento privado"; o Flexas está fechado: é o Flexas. Acabo no Jugueteria, depois de uma conversa com o Claudio, que está fechado. Palma vive-se, percorre-se, sonha-se e ao fim e ao cabo a Jugueteria não me parece assim tão mal.

Não se deve julgar um livro pela capa nem um bar pelo nome.

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Palma percorre-se, respira-se, palmeia-se. Ama-se com os pés, os olhos, os ouvidos, o olfacto e - para marinheiros sem casa longe de casa - com aquilo a que quem não sabe chama alma e quem sabe também. 

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Palma é uma cidade cara, sem dúvida.

Mas as notas aqui duram mais tempo do que em Genebra. Questão de latitude, suponho. 

Diário de Bordos - Aeroporto de Genebra, Suíça, 04-07-2025

Quatro dias em Genebra a fazer praticamente nada passam depressa, demasiado depressa. Espero que o Verão passe igualmente depressa, para poder cá voltar antes de uma séria crise de saudades.

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Até ao embarque tudo parecía normal. É verdade que se sabía da greve dos controladores aéreos franceses mas a Easyjet não anunciara nenhum atraso. Embarcámos a tempo, esperámos meia hora por três passageiros e só depois vem a bomba. "O slot para a descolagem está comprometido, irregular e de momento o que sabemos é que só sairemos daqui a duas horas". Segue-se uma explicação razoável de porque temos de esperar dentro do avião - parabéns ao piloto, que nos mantém informados - e aqui estamos.

Tenho um asco particular pelos controladores aéreos franceses - bastante atenuado, de passagem se diga, porque durante ano e meio namorei uma senhora que fazia parte do grupo de organizadores destas greves (desta já não deve ser. Deve estar reformada). Era de extrema-esquerda, tinha um salário elevado, trabalhava dois ou três dias por semana e poucas horas - ainda bem - era muito bonita e ainda mais inteligente, o que não estraga nada. Para preservar a paz do ménage tínhamos decidido que não se falava de política quando estávamos juntos.

Ou seja: o meu asco por este grupo de abusadores privilegiados é tingido por alembranças pessoais, uma mistura de sensualidades e sentidos e conversas e risos - a senhora tinha um sentido de humor devastador -, pelo que me deu a conhecer de Paris, que é muito. Temos mais uma hora e meia de espera e a tripulação decidiu oferecer-nos um snack. O voo é de uma hora e meia e o atraso será de duas e meia ou três horas. 

Para a senhora, a greve era a única forma de diálogo laboral possível. Para mim não é. Prefiro a solução Reagan.(Agora posso dizê-lo sem arriscar represálias.)

Os passageiros estão calmos. A língua predominante é o francês com sotaque genebrino e talvez estes dois factos estejam unidos por uma relação de causalidade. Não sei. Não sei sequer se a língua predominante é o francês. É-o na minha entourage, mas não sei o que se fala para lá dela. Como amostra não chega mas há que acolher um preconceito ou dois. Estão para a vida como a beleza e a inteligência das senhoras para os amores.

........
Oiço português, duas ou três filas atrás de mim. «Estão a foder-me as férias, caralho», alto e bom som. E pensava eu que o nível da nosso emigração tinha subido...

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(Cont.)

30.6.25

Fim do dia à beira lago

A bise caiu, o crepúsculo vai longo, o lago anoitece lentamente. Tudo é lento neste país. O quadro é inexcedível de bonito: uma propriedade na margem sul a apontar directamente para Oeste. O Sol ainda está por cima do Jura. Em breve os seus cumes recortar-se-ão contra o céu cada vez menos azul e mais violeta. Tudo isto encharcado em calma, em tempo, em devagar. Em saber. A conversa flui, o jantar é excelente - o anfitrião cozinha bem, a S. já me tinha prevenido - o Sol desce, as nuvens estão imóveis. Amanhã não haverá vento.

- Amanhã serei quem sou hoje?
- Não sei.
- Não sabes?
- Não. Nada sabemos de nós senão a posteriori. O presente só serve para nos enganar e o passado para nos dar um pouco de esperança: piores do que já fomos não seremos.

29.6.25

Ciclos

A sete anos de vacas gordas sucedem outros tantos delas magras. Estes ciclos não datam de hoje. A questão não é essa. É: o que se segue a seis anos e meio de altos muito altos e baixos muito baixos? O que se segue a seis anos e meio de caminhar à borda do abismo?

Diário de Bordos - Aeroporto de Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 29-06-2925

(No seguimento de uma longa ladaínha de queixas que apaguei sem querer): saio da fila (da Paul), sento-me de novo à mesa e decido comer no avião. Não me reconheço neste aeroporto, que não cessa de crescer e de mudar-me os trajectos. O meu café favorito (StrEat, se por acaso) está fechado. São quase cinco da manhã, o aeroporto está cheio mas aparentemente não o suficiente para que todos os cafés estejam abertos. Bem feita: ninguém me mandou chegar tão cedo. Abomino este meu hábito recente tanto quanto abominava quando andava sempre a correr, afogueado, para apanhar os aviões. O mau gosto é aterrador. Esta gente é feia, gorda, tatuada e veste-se mal. O walk-through está do tamanho de um campo de futebol (parece-me) e não tem nenhm frasco de Fahrenheit aberto. Os gajos que estavam à minha frente na bicha acabam de passar, sandes na mão,  vestidos como se fossem fazer jardinagem (ou lavar a loiça do jantar da véspera. Não têm cara de quem tdm hardim). Vou para a porta. Pode ser que não haja comida lá perto.

28.6.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 28-06-2025

À já longa lista de desaparecidos de Palma tenho agora de acrescentar um dos que me dói mais: o Antiquari fechou, chama-se Antigua Esquina, a decoração mudou, o pessoal mudou, a música mudou e a minha Palma ficou mais pobre. O Antigua Esquina é um lugar banal, com uma empregada cheia de poercings, decoração merdosa, taperia e mai-la pata que o pôs. Tudo muda, claro, eu sei. Só não percebo é por que raio de carga de água não muda para melhor. Enfim, percebo: a neguentropia exige mais energia do que a entropia.

A lista é grande:
- Ca na Chinchila;
- Sa Sifoneria;
- Lo Divino;
- Antiquari;
- Es 20 de Bonaire
- Ca la Seu, meu Deus, o Ca la Seu!
- ...e muitos mais.

Vou ter de me adaptar à cidade, mudar de poisos, mudar. Afinal a «minha» Palma sobreviveu a todas estas mortes. A mais sobreviverá.

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Janto de novo no Gustar, desta vez no exterior. Não tenho a certeza de preferir a praça ao interior. À minha esquerda dois casais nos sessentas (pelo menos eles. Elas parecem mais novas). O homem que está mais perto de mim veste umas bermudas azul celeste, camisa cor de rosa e um daqueles bonés com uma pala, mas com esta para trás. Presto um bocadinho de atenção e apercebo-me de que não são casais, não se conhecem. A senhora mais perto de mim está a explicar o que faz. Não ouvi. Pouco me interessa, ou nada. Além de que o esforço não valeria a pena. À minha direita uma mesa de franceses. Uma das senhoras tem um penteado um bocadinho esotérico, faz lembrar os anos cinquenta. A certa altura anuncia alto e bom tom "J'ai du caractère !" Como se não se visse, logo ao primeiro olhar.

Là dentro não há ninguém, é o espaço que o Tom e o Fidel reservam para quem não fez reservas. Além de que não preciso de ar livre. É coisa que não me falta.

Tento abstrair-me das mesas vizinhas. Penso no ceviche de gambas, em ter que me levantar daqui a seis horas... Eles são nórdicos, elas alemãs. Trouxe a máquina fotográfica para nada. Os franceses baixaram o volume e de qualquer forma estão à minha direita, o lado de que sou mais surdo. Este cozinheiro quando morrer vai para o céu dos cozinheiros. Só espero que não seja amanhã a véspera desse dia fatal. A conversa da mesa da esquerda irrita-me. Gostaria de ser surdo e ter um aparelho que me permitisse seleccionar o que oiço. O meu almoço foi uma arancina e um tiramisú no Hugo. As arancinas vêm da Sicília, explicou-me. Por isso são pequenas. São boas, Hugo, se bem não sejam excepcionais. Em Setembro estarei em Palermo. Com sorte passo lá o meu aniversário e se não for em Palermo será na ilha, a da da Goliarda e do Gattopardo. Sessenta e oito anos e dois netos, uma quantidade razoável de milhas náuticas percorridas, palavras escritas, corpos, cidades e outras coisas.

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Palma partilhada: o tiramisú com a L., o ceviche com o V. Palma é feita para se estar acompanhado, mesmo quando se está sozinho. 

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Os senhores da mesa ao lado trabalham para uma empresa multinacional que fabrica cotonetes. Vou-me embora e venho ao Claudio. É quase obrigatório não fazer este trajecto. Seria como para uma formiga querer fugir da fila. Continuo com vergonha de ir ao balcão lateral e faço bicha. Tornou-se impossível vir aqui sem ter de esperar. 

27.6.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 27-06-2025

Deixem-me começar pelo fim, não vá eu adormecer na burra e só acordar amanhã, no Volta Dos, meio estremunhado e não me lembrar de nada. 

z) Melhor vermute de sempre, para sempre: Luis XIV, no Jaume. Abençoado sejas, Jaume, ad seculum seculorum;

y) Jantar no Gustar. Vitello tonnato. Há dias em que se é forçado a acreditar na existência de Deus. Quem não acredita, pode sempre pensar que Ele se fez substituir pelo cozinheiro do Gustar e que quando quer dar sinais de vida faz um vitello tonnato. Ou outra coisa qualquer. Tudo o que sai daquelas mãos é milagre;

x) Aluguer de bicicleta no Ivo, a que se seguiu uma passagem pelo passeig des Born. Porque é que mais cidade nenhuma do mundo tem um passeig des Born? Genebra tem uma coisa parecida, mas é coisa e é parecida. Chama-se Parc des Bastions. Não é a mesma coisa, reitero o aviso;

w) Lavandaria. A Erika já não trabalha lá. Foi para outra loja. Quem pensa que as coisas não devem mudar vê-as (as coisas) unilateralmente, por assim dizer.

a) (Salto para a a)): Palma é tão parte de mim como eu dela.

z1) Volto ao fim. Gelado no Claudio. Não só está aberto mas tem uma fila de dez pessoas à minha frente. Tenho vergonha de passar pelo balcão lateral e acrescento meia dúzia de linhas ao disparate de hoje.

Penso no que me pode levar a comparar o Parc des Bastions com o Passeig des Born. A única coisa que têm em comum são as árvores e eu.

As cidades não são o que são. São o que somos quando nelas estamos, as olhamos e nelas somos. Isto é: somos nós e elas, misturados em partes desiguais e variáveis. As cidades mudam connosco, louvadas sejam. 

z2) O Claudio ofereceu-me o gelado. Diz que é o primeiro da época e que "tem projectos". "Desde que não percas a qualidade, Claudio", respondo. 

É impossível comparar Lisboa ou Genebra com Palma. São as três pernas de um tripé cujo vértice sou eu. Isto é, eu hoje. Eu, todos os eus.

26.6.25

Diário de Bordos - Fundeado em Magaluf, Mallorca, Baleares, Espanha, 26-06-2025

Último dia deste charter. Amanhã estou livre e domingo em Genebra. O ideal seria ter o mar para viver e deixar a massa noutras sedes, mas não tenho nenhuma sede que me traga o que traz o mar. Massa e vida, impossível dissociar as duas. Amanhã e depois durmo na Volta Dos e janto no Gustar. Às vezes parece-me que tenho um prego espetado no mercado do Olivar, ao qual estou ligado por um cabo, como as vacas nos Açores e ando à volta desse prego, afastando-me mais ou menos consoante o tamanho do cabo. Só não sei quem o muda, o cabo, se eu se o acaso.

Gosto de pensar que sou eu e gosto de pensar no que gosto de me enganar.

25.6.25

Diário de Bordos - Puerto de Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 25-06-2025

Passemos as circunstâncias. Não passam disso mesmo. Puerto de Andratx é a habitual mistura das cidades turísticas (como sempre, emprego o termo cidades no sentido lato): restaurantes, lojas de roupa (cara), lojas de decoração (idem), galerias de arte (isto creio ser específico de Maiorca mas não tenho a certeza), imobiliárias (de luxo, cela va sans dire). Coincidência das coincidências: retomei contacto com a Nuria do Divino em Palma e aterro no Divino em Porto de Andratx. Não há qualquer relação, responde-me o senhor. Já sabia, perguntei por perguntar. O vinho é decente, a música também - tudo muda - e apetece-me escrever as palermices do quarto de hoje de manhã. Não é bem um quarto mas são palermices, portanto passa. Tinha a ver com a relação esquisita que mantenho com a realidade, etc. Passemos.

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Porto de Andratx bem podia ser uma cidade alemã. Felizmente faz demasiado calor para isso.

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A realidade é um terreno no qual me perco, naufrago, encalho, derivo, divago. Não fui feito para ela - nem ela para ela mesma, de resto. Quantas vezes já a vi encalhar em si própria tal como eu encalho nela e em mim, sem parar? 

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Havia mais disparates. Acho injusto só me lembrar deste.

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A política comercial do Club de Vela Puerto de Andratx não deixará nunca de me surpreender. Chegámos aqui para ficar numa bóia mas devido a um conjunto de circunstâncias que não vêm agora ao caso os senhores decidiram atracar para terem acesso à piscina do clube. Como primeiro pagámos a bóia e só depois decidimos (decidiram) atracar perguntei se deduziriam o que já tínhamos pago.

- Niet (em espanhol, claro).

Resultado: a ida à piscina ficou em duzentos e sessenta euros, mais cêntimo menos euro. A dividir por sete (eu não fui, apesar de poder, se quisesse) dá trinta e sete euros e catorze cêntimos por pessoa. Podia ser pior, comento-me encolhendo os ombros. Se tivesse ido seriam trinta e dois e meio, um número mais «redondo». O único problema é que não é a dividir por sete, nem por oito. É a dividir por um. 

Ao qual um estou infinitamente grato. Não me apetecia nada passar mais uma noite fundeado. Amanhã tenho roupa lavada e hoje posso passear por Porto de Andratx, aonde aterrei quando vim para Maliorca tratar do «meu» P., que já não é meu mas o será sempre porque amores verdadeiros não se apagam.

Por mais que tentem apagá-los.

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Por falar nisso: como é que se lida com alguém de quem se tem pena?

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O Divino (Puerto de Andratx) tem Palos mas não tem sifón. Em contrapartida tem vermute. Rumbo, bastante aceitável e adequado. Vai um Rumbo, maestro.

Sai um prato de «podia ser pior» e venham mais cinco.

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Já me esquecia: hoje comi (ou bebi?) os melhores affogati da minha extensa vida. Geladaria Vito, puerto de Andratx.

Isto demonstra várias coisas:
1 - Sei que o plural de affogato é affogati (tive o cuidado de confirmar com o Vito ele próprio, para não fazer figura de parvo. Basta sê-lo, não preciso de parecê-lo);
2 - Sei o que é um affogato (uma mistura de café, gelado de baunilha e amaretto, para quem não sabe);
3 - Mesmo no mais infecto buraco de turistas se encontram pérolas. (Uma investigação cuidada demonstraria talvez uma relação de causalidade mas agora estou a jantar.)

24.6.25

Diário de Bordos - Sa Calobra, Mallorca, Baleares, Espanha, 24-06-2025

À primeira vista pensa-se que a Tramunttana é masculina, uma versão adocicada - mas igualmente bonita - dos Alpes. Mas quanto mais se a frequenta mais perceptível é a sua natureza profundamente feminina. Por vezes esconde-se, tal menina púdica, por baixo de uma neblina que lhe esconde as formas, as transforma em promessas, nada mais do que promessas. Outras vezes faz-nos pensar naquelas mulheres entre os trinta e os quarentas, pujantes, bonitas, boas, que o sabem e nos espicaçam o desejo cada vez que olhamos para elas - isto é, cerca de cem vezes por dia.

Hoje tive direito às duas. Estes clientes gostam da minha prática de largar muito cedo e quando acordam estão num sítio diferente daquele aonde estavam de véspera. Levantei ferro de Santelmo às sete da manhã e vim por aí fora, como gosto: sozinho, a olhar para a costa, a pensar numa série de coisas - a lista seria demasiado longa e desinteressante para a escarrapachar aqui mas mantém-me ocupado o tempo todo do trajecto. Hoje, como quase sempre, cerca de três horas. Pouco tempo depois a maldita música começa. É uma família peruana do uppercrust e eu não percebo como podem a) ouvir aquilo, b) àquele volume (já lhes pedi duas vezes para a porem mais baixo e ultimamente têm aceitado a sugestão) e c) o tempo todo. É que é todo. Não saem de bordo senão para nadar ou dar uma volta no dinghy e como são muitos - sete ao todo - entretêm-se a si próprios.

Tenho pelo menos a sorte de serem simpáticos e bem-educados, ao menos isso.

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Escapo vindo a terra e todas as noites lhes agradeço não serem de noitadas. Ficam acordados até às tantas mas a bordo, a jogar uma porcaria qualquer que não sei o que é, eu vou deitar-me e o dia esvai-se tranquilamente. Amanhã vai ser assim também: levanto ferro de Sa Calobra, paro para almoçar em Ses Higueras, dormimos em Andratx. Basta não pensar na música.

23.6.25

Diário de Bordos - Puerto de Soller, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-06-2025

De novo na Soller do meu coração, da minha memória, do coração da memória e da memória deste. Hoje no bar Es Cantó, o bar dos reformados locais, um dos meus indícios favoritos para escolher waterholes. (No caso presente, beerhole.) O Es Cantó fica à frente do Bon Gust, aonde espero vir jantar hoje, se arranjar maneira de me desenfiar dos clientes.

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Dos quais, de resto, não me posso queixar. Se não fosse a merda da música seriam perfeitos. 

Mas essa coisada da perfeição está sobrevalorizada,  de maneira mais vale contentar-me com o que tenho, que é bom; e como toda a gente sabe o óptimo é inimigo do bom.

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Uma vez em Soller perdi a carteira com o salário da semana lá dentro. Acessoriamente, era o dinheiro todo que tinha.

A carteira foi encontrada por uma família americana, que ma devolveu intacta.

Até na cidade mais feia do mundo eu ficaria apaixonado por ela. Numa vila com a beleza de Soller (porto de Soller, mais precisamente) o amor pré-existente não podia senão expandir-se até ao infinito, de mãos dadas com a gratidão. 

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É Junho e as hordas de hunos ainda não chegaram. O que eu gostaria de poder não trabalhar em Julho e Agosto e refugiar-me numa montanha com os meus netos e os meus livros...

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O Bon Gust não abriu. Comi umas beringelas recheadas e medíocres no Sa Paella, por sugestão do senhor do Es Cantó e agora venho turistar para uma esplanada na marginal enquanto a cidade (? - no sentido lato) desfila à minha frente. Turistas, imigrantes, alguns indígenas, que os há. Estou com uma dor de cabeça monstruosa, bebo hierbas secas, espero pelos clientes, que finalmente desembarcaram e pela hora de me ir deitar. 

Dias, horas, números e por aí fora

O S/Y M. tem um grupo electrogéneo - ou seja: um gerador - uma dessalinizadora, ar condicionado, três frigoríficos e dois congeladores. Os seus actuais e simpáticos sete clientes gastam um pouco menos de setecentos litros de água doce por dia e precisam de ar condicionado as vinte e quatro horas desse mesmo dia. Compraram comida para muitos mais dias do que os sete que aqui vão passar (o que, de passagem seja dito, é habitual). Até agora (ou seja, um dia) navegámos zero horas à vela e aproximadamente cinco a motor. Faltam cinco dias para o meu trabalho acabar e seis para ir a Genebra - aonde ficarei seis dias - ver os meus dois netos, a minha filha e respectivo marido, a minha ex-mulher e presente amiga e provavelmente um ou dois outros amigos.

Mini-azulejos, vida.

(Para o Tago Taron.)

22.6.25

Diário de Bordos - Santelmo, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-06-2025

Salto de uma travessia para um transporte e deste para um charter. Felizmente sou novinho. Se tivesse sessenta anos não sei se teria pedalada para este ritmo. Felizmente tive excelentes tripulações, tanto na travessia como no transporte para Maiorca e esta do charter... bem, é um charter e para os parâmetros desta magnífica actividade os clientes - que o ramo insiste em tratar por hóspedes - não estão nada mal. De maneira aqui estou, de novo na Maiorca, na Santelmo, no restaurante Flexas do meu coração. «Coração grande», dir-me-ão. «Ainda bem», responderei. «Tem lugar para este mundo e metade do outro.

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Sempre gostei do que se esconde, do que não se dá a ver, de quem deixa às aparências o serem isso mesmo. Já em miúdo os meus «carros» eram os Corgy Toys mais velhos, nos quais eu imaginava motores modernos e potentes. Hoje, a minha paixão por barcos antigos é levada ao infinito se forem modernos por dentro. O mesmo se aplica às pessoas que são uma coisa e parecem outra. Esta simpatia aplica-se sempre, qualquer que seja o sentido do «disfarce». Aprecio tanto uma pessoa inteligente que se esforça por parecer estúpida, infantil e irracional como o contrário, se bem este seja mais frequente (a Covid que o diga).

É verdade que o primeiro caso é um bocadinho confrangedor quando a pessoa nos é próxima e expõe a face má a quem não a conhece mas esse é um desconforto que passa depressa. Afinal, gostar de alguém é gostar dos seus defeitos, não é? É. E aprender a viver com eles, por muito aborrecido que seja.

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Amanhã reencontro a Tramontana e estarei em Soller. É como andar às voltas, círculos cujo centro é um imenso amor.

Antes amor do que ódio.

20.6.25

Diário de Bordos - No mar, trinta milhas a sudoeste de Formentera, 20-06-2026

A viagem começou a jogar às escondidas com as orcas (ganhei) e está a chegar ao fim a jogar às escondidas com o gasóleo. Espero precisar de quarenta litros para chegar a horas ao charter que me espera em Palma (conto com uma hora de táxi de Portocristo) e espero ter quarenta litros utilizáveis no tanque. 

Esperanças a mais para o meu gosto.

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A velha piada "preço por dia: x; preço por dia com o proprietário a bordo: um vírgula cinco x" não se aplica a este trabalho.

É bom. Estou a rever anos anteriores do DV para o próximo livro (façam já a lista das pessoas a quem o vão oferecer no Natal. Comecem por quem vos chateou muito durante o ano) e apercebo-me de que um dos grandes temas da época eram os proprietários que oscilavam entre malucos e idiotas - alguns não oscilava sequer. Adicionavam as duas condições. De vez em quando lá me calhava um tipo decente na rifa e em 2018 pensei que tinha, finalmente, acertado.

Acertei até ao ano passado e acertei de novo com os dois trabalhos deste ano. Hallelujah! Lidar com a irracionalidade de vez em quando é bom. Ajuda a desenviezar.

E a apreciar melhor a sorte, quando ela nos bate à porta. 

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Mil e quatrocentas RPM, vento real de sete nós pela amura de estibordo, seis nós de velocidade  no fundo, mar chão, sol e calor. Não fosse o maldito charter e estaria no paraíso.

Enfim, estou noutro paraíso: o de quem paga as asneiras, que é quase tão bom.

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ADENDA 
O maldito charter entrou comigo no paraíso. Às oito da tarde o vent
o abriu um bocadinho, refrescou outro e hey, presto, signorecode zero aberto, máquina parada e sete nós de velocidade no fundo.

Como costumava dizer um jardineiro do meu avô, senhor dado às letras, a sorte protege os audazes. Não sei aonde é que ele foi buscar isto mas lá que é bonito é.

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A rapariga tem uma daquelas caras que sem ser bonita é-o mais do que muitas belezas espampanantes. Mais atraente. Aquelas feições tipicamente portuguesas, talhadas a machado e enformadas em feitio. Faz-me pensar na Magnani.

Tudo isto com uma voz aguda, feminina de mais para os traços do rosto.

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Não sei quanto tempo isto vai durar mas sei que cada hora sem motor agora é uma hora com ele depois.

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Venham mais cinco! 

18.6.25

Religiões, Razão

Eólicas em todo o lado, a dar cabo da paisagem. O catolicismo fez catedrais, os muçulmanos mesquitas. A religião moderna faz eólicas. 

Deuses por deuses, prefiro os antigos. Conseguem o prodígio de ser mais racionais. E bonitos.

A experiência e os pequenos aborrecimentos

Penso poder dizer,  sem risco de falsa imodéstia, que tenho bastante experiência nestas coisas do mar e da navegação. 

Só me chateia é o tempo que levei a adquiri-la.


14.6.25

Estética, guito e entropia

Toda a gente sabe: gosto muito do que faço e gosto ainda mais de o fazer muito. Acontece porém que o excesso de actividade tem um inconveniente: faz entrar dinheiro e essa entrada exige um esforço enorme, uma disciplina, por assim dizer: é preciso gastá-lo antes que ele se gaste a si próprio. O dinheiro tem uma forte capacidade de entropia caótica. Há que dar-lhe forma e caminho. Por exemplo: hoje não fui à Feira do Livro. Fui à Ler Devagar, aonde gastei o dobro do que teria gasto na dita feira. Tive ainda oportunidade de comprar uns óculos escuros pelo triplo do preço do que paguei pelos que comprei há uma semana na Horta e já perdi. São quatro vezes mais bonitos, no mínimo. Comprei também um saco de couro mais belo do que todos os sacos de couro que vi até hoje e tem a capacidade de albergar o meu computador e a minha máquina fotográfica, comprada com grande esforço de reflexão em Philipsburg, Sint Maarten. Devo dizer que tenho este talento desde que comecei a ganhar dinheiro, teria dezanove anos se tanto. Longos anos de prática. Não tarda deixo a navegação e abro uma escola de gestão financeira, da qual o eixo pedagógico será: aprenda a não separar a estética do guito.

Retratos possíveis. Ou: Cacofonias

Tinha tantas qualidades como defeitos e era grande em ambos.

(Zé Pinho, com saudade, enquanto bebo um copo de vinho na Ler Devagar e penso no que tenho de fazer e não me apetece fazer porque penso que o que não me apetece fazer me traz mais paz do que o que devo fazer, cuja paz é relativa porque a paz que esta livraria me traz me faz pensar em fazer as pazes com o que aqui pensei fazer e fiz, às vezes e outras não.)

13.6.25

Diário de Bordos - Aeroporto de Ibiza, Baleares, Espanha, 13-06-2025

Comprei rum em St. Martin e em Gibraltar e aguardente no (e do) Pico.Chego ao aeroporto e a senhora do check in diz-me que não pode receber sacos com garrafas. «Podem partir-se», explica. Digo-lhe que viajo dezenas de vezes por ano com garrafas na bagagem de porão (é quase verdade). Diz-me que não. Se há uma coisa que aprendi é que não vale a pena discutir, nestas circunstâncias. Por alguma razão vim mais cedo para o aeroporto.

Subi, cheguei ao filtro de segurança, não me deixaram passar o saco - aonde tinha duas das garrafas. As outras estavam no saco que a gaja do check in deixou passar porque não sabia que tinha rum (Flor de Caña) e aguardente. Disse aos seguranças que ia pôr aquele saco no porão, deixaram-me sair, voltei ao check in mas a um diferente. A senhora - esta sim, uma senhora - limitou-se a perguntar se as garrafas estavam bem embaladas. Disse-lhe que sim, apesar de não estar absolutamente seguro. O saco seguiu.

O próximo episódio vai ser em Lisboa. Vamos a ver quantas garrafas chegam inteiras.

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Reservei duas noites um hotel em Lisboa. É para isso que trabalho: para poder ter a vida que quero sem chatear ninguém. (Chateio muitas vezes, infelizmente, quando não tenho alternativa. Quando tenho, não só não chateio mas também ajudo quem precisa. A vida é uma nora e eu sou o burra que a faz girar.)

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Interminável espera no aeroporto de Madrid. É dos que menos gosto, de todos os que conheço. Porém, estou demasiado cansado para me dar ao trabalho de o detestar. Limito-me a encontrar um canto aonde esperar e fazer isso mesmo - esperar. Algo me diz que esta noite vai ser boa.

Camisolas teóricas e novelos de caos

F. pergunta-se cada manhã se a vida é uma nuvem ou se, pelo contrário, é ele a nuvem e a vida a realidade sobre a qual por vezes ele chove ou filtra a luz do Sol ou a deixa passar enquanto uma leve brisa o afasta lentamente. Há sempre uma brisa que afasta F., é preciso dizê-lo. F. tem uma visão distorcida do mundo e ainda mais inexacta dele no mundo, o que o leva a confundir tudo numa espécie de novelo de lã que para ser ordenado necessita de um par de braços alheios. Por vezes sou eu esses braços, palmas das mãos voltadas para cima e o fio a desfilar num movimento cujo ritmo é desigual. Às vezes regular, outras irregular, aos soluços, por vezes caótico, como se o fio se quisesse enrolar de novo. 

F. e eu raramente falamos. Comunicamos através de silêncios e olhares, sendo ambos os métodos bastante semelhantes a sinais de fumo, arrastados pelo vento. F. tem a minha idade. Os nossos silêncios e os olhares passaram pelas mesmas paisagens emocionais - expressão esta que clarifica algumas das dúvidas de F.: o que é uma paisagem emocional? Em que é diferente de uma paisagem geográfica, por exemplo? Se ao contrário do que pretendem algumas filosofias orientais o mundo não é uma ilusão - hipótese que F. comunga todos os dias depois de se fazer as perguntas rituais; "o mundo é uma nuvem ou a nuvem sou eu?" - se o mundo não é uma ilusão, se o mundo existe realmente então as emoções - que nele nos situam - existem também e à forma como se organizam pode legitimamente chamar-se paisagem emocional. F. considera que a maior razão de ser das suas dúvidas é estar permanentemente inserido nessa paisagem, ser parte integrante dela. "O mundo, essa realidade que me escapa sistematicamente, da qual sou parte efeito parte causa devia ter mais paisagens. Por exemplo: uma paisagem racional?" Explico a F., nessa estranha língua que utilizamos, essas paisagens existem, sim, mas juntas, misturadas uma na outra, porque sem as duas o mundo seria, sim, uma ilusão. Na verdade são uma só. Basta, continuo, olhares para as pessoas cuja vida não contem essas duas paisagens. Essas sim, vivem numa nuvem ou num bloco de basalto negro e duro. A harmonia nasce da fusão... "Não te ponhas com orientalices. Não quero saber de yings e yangs. Tretas. Continua." 

Não continuo. 

Seria contudo errado pensar que a vida de F. se resumia a tecer lindas camisolas teóricas com os novelos de lã - ele prefería chamar-lhes novelos de caos. F. possuía a rara capacidade de pôr em prática as suas dúvidas como outros dão formas tangíveis às suas ideias. Olhando para o seu mundo de um balão de ar quente arrastado pela ligeira brisa do dia apercebemo-nos facilmente dos diferentes traçados dos seus percursos, todos eles tendo uma coisa em comum: são todos, sem excepção, um conjunto de zigues e de zagues, com dimensões diferentes, irregulares, quase caóticos. Digo "quase" porque um olhar cuidado revela que esses traços, essas pistas, como dizem os índios pele-vermelha nos filmes de cowboys apontam todas, mais ou menos, na mesma direcção e não é a do passado.

12.6.25

Diário de Bordos - No mar entre Gibraltar e Ibiza, 12-06-202512

Fragmento inicial do post de ontem, que acabou precocemente por se ter envolvido numa batalha com o sono: 

Enfim no Mediterrâneo. Literalmente: hoje mal atraquei em La Linea fui lá baixo verificar as portas dos lemes. Estavam bem, obrigado. A ou as orcas estariam só a testar o material? A fazer-lhe festinhas para o amaciar? Não sei. Sei que nosso festivo método de auto-defesa funcionou e não as voltámos a ver.


Saí da água, tomei um duche rápido e fui fazer a chegada à recepção da marina. As empregadas são as mesmas desde que ali fui pela primeira vez. Sorridentes, hospitaleiras, simpáticas. Apercebo-me uma vez mais de quanto gosto do Mediterrâneo e de quão tonto era quando não gostava. Saí da recepção e tinha a Guardia Civil à minha espera a bordo. As mesmas simpatia e cordialidade mas desta vez um bocadinho à tangente. Os gajos não engoliram a minha história de que as orcas se tinham ido embora de moto proprio. Tive sorte: um deles tem um barco e consegui desviar um pouco a conversa. Quando me voltavam com a história da "sorte" que eu tive, eu respondia "Sorte? Primeiro vamos ver o que a minha mulher anda a fazer" e ríamo-nos todos muito. Vá lá, pelo menos não revistaram a embarcação. Teriam encontrado o material de festa ao fim de meia dúzia de segundos.


Desta vez a escala correu como planeado (em Lagos também, mas só havia uma coisa a fazer e bastou-me esperar vinte minutos para a ter feita. Aqui não: havia duas coisas a fazer, a que se juntou a inspecção dos lemes: Mercadona e gasóleo - este em Gib. No meio o M. desembarcou, o que é pena porque o rapaz é porreiro. Agora vamos só três. Pouco tempo, não faz mal.


Chamei um táxi, comprei chocolates, fruta, doces, voltei para bordo - o chauffeur estava no grupo das recepcionistas e dos polícias e foi uma simpatia - fomos a bancas do outro lado do aeroporto / fronteira e aqui estamos, grande toda e code zero, vinte nós pela alheta de estibordo, um bocado fora do rumo mas quero que o rumo se arrume a um canto e me deixe desfrutar tranquilamente do cansaço.


(Cont.)

10.6.25

Diário de Bordos - No mar, Horta, Açores - Sta. Eulalia, Ibiza, 04 a 07-06-2025

Quase a chegar a Lagos para bancas e saímos ligo a seguir para Gibraltar. Aqui ficam, brutes de coffrage, as notas da viagem.

040625

O N. F., amigo recente mas que muito estimo e admiro, diz que no mar sou um e em terra outro. Às segundas, quartas e sextas tendo a concordar com ele; às terças, quintas e sábados penso que não, que sou o mesmo e limito-me a ter uma grande capacidade de adaptação. Aos domingos penso como dizia aquele meu colega da banda desenhada: sou o que sou e é tudo o que sou.


Ao fim de cinco dias na Horta estava com falta de mar, uma espécie de asma que me dá às vezes e não depende, de todo, da quantidade de dias que estive em terra ou no mar nem das respectivas gaudas ou dores.


Agora, no fim do segundo dia, confirmo a asma e o remédio, apesar da porcaria do tempo, frio e encoberto. Fizemos um monte de horas a motor mas há pouco enviei o code zero, desliguei as máquinas e venho deitar-me ao som da costumeira conversa do MADRIGAL VI com o elemento em que navega. O hélice diz-me a velocidade com uma aproximação aceitável, as vagas estão mais alinhadas, o almoço foi umas febras esplêndidas marinadas meia hora em massa de pimentão dos Açores (intercala-se aqui um hallelujah pelo desembarque do W. mas isso são contas de outro rosário), o bote faz seis nós - pouco para o vento que está e muito se se incluir o estado da grande, que tem basicamente a forma e a eficácia de um saco de batatas. (Melhorou um bocadinho, de passagem se diga, como o aconchego que lhe dei na escala.) De que é que estava a falar? Ah, sim, de paz, harmonia, alegria, bem-estar... Essas coisas quando estão juntas formam una espécie de maionese a que se dá um nome que ando para aqui às voltas para evitar dizer, não vá ao diabo dar vontade de me fazer uma partida.


Acresce que tudo parece indicar que amanhã teremos sol.


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Escrevi à Henri Lloyd a queixar-me das calças que nem "dez anos" têm. Na verdade nem oito. Comecei o e-mail com a fórmula habitual na casa: "Dear Sirs, I am appalled and distressed..." A resposta veio rápida, gentil e em linguagem normal, não em língua de madeira.  Tal como teria sido em Portugal, de resto, toda a gente sabe. Dizem-me que as calças chegaram ao fim da sua vida útil, que os materiais modernos não duram como os de antigamente e oferecem-me um voucher de dez por cento na compra do próximo equipamento. 


Não tenho a certeza de querer gastar noventa por cento de uma pipa de massa numa roupa que nem dez anos vai durar. 


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A merda da dor nas costas não me larga.


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Nunca falei com o dr. Segismundo ou com o Dr. Carlos sobre os dos outros mas os meus sonhos tem uma qualidade gráfca invejável.


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050625


Arrastamo-nos a cinco nós, cinco e meio mas pelo menos  estamos mesmo em cima do rumo. É portanto possível que chegue de dia ao waypoint Trafalgar, ao largo do cabo homónimo,que situei no meio das pedras do baixio que por ali está. Prefiro pedras a orcas, apesar do monte de petardos que tenho a bordo. Ainda não os experimentei e não sei o que valem. Já as pedras não se mexem e não chateiam se eu não me mandar para cima delas.


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Em dois mil e doze todos os domingos fazia uma ligação à crónica do A. G. no Diário de Notícias. Vi tantas tantas que lhe pedi para escrever o prefácio. Disse que sim. Não é só o mar que me enche de alegrias.


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Isto porque continua a revisão dos textos para o próximo livro. O título provisório é Não Sei. Ligeira diacronia: apesar de a expressão aparecer várias vezes, só comecei a usá-la regular e frequentemente alguns anos depois. Pouco importa. Não é a primeira e não será a última. 


Pelis meus cálculos, este vai vender um milhão de exemplares, mas coisa menos coisa.


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060625


Não sei se é impressão minha, mas nunca mais vi referências às nossas "raízes judeo-cristãs". Desapareceram da lista de tudo o que está errado na civilização ocidental. Foram substituídas pelas "alterações climáticas", pelas LGBTQ-fobias, pela exclusão e por mais meia dúzia de coisas.


Assistir ao vivo e a cores a estas alterações do zeitgeist é fascinante 


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À tarde voltou o Sol e trouxe o vento com ele. Já não tínhamos um dia assim há mais de duas semanas. Agora só falta entrar calor.


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Dilema: paro em Lagos para bancas ou tento ir directamente para Gibraltar? Decidi não decidir até domingo. Se tiver o norte que o GFS prevê, não paro. Se a previsão que estiver certa for a do ECMWF, paro. Até agora os americanos têm estado mais perto da verdade, pelo menos desde a Horta (até lá não tinha EC etc., raio de acrónimo que a comissão europeia foi arranjar. Não têm mais nada que fazer...)


A verdade é que não me apetece nada parar em Lagos. Quero apanhar-me no Mediterrâneo e depois entregar o bote, receber a massa e chegar a Genebra enquanto o T. lá está, história de ter a família toda junta nem que seja um dia.


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Treze nós de vento real, seis e meio no fundo, code zero e grande, vento pela alheta. Não posso pedir muito mais. 


Enfim, poder podia, mas não peço. Ser pago para ter uma tarde como esta - e como provavelmente amanhã será - chega.


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070625

PS - O gajo que escreveu isto já se esqueceu das semanas merdosas que acabou de passar. Decididamente o mar só tem presente, não tem passado nem futuro. [E não, amanhã não foi assim. Está outra vez encoberto e frio e agora vamos à bolina folgada com a genoa porque estamos no limite do code zero e não quero ir para sul do rumo, não vá ter de ir a Lagos.]


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A verdade é que não queria ira Lagos. Queria ir directamente para Gibraltar e dali para Ibiza com uma breve paragem em Cartagena para desembarcar o M., que tem uma reunião de família importante. Eu também tenho - ou tinha - mas não posso desembarcar...


Ou seja: acabei de mudar o rumo e vou mesmo parar lá. A bordo tenho tudo para ir directo: provisões, combustível e água. Só não há é tempo. Nem o proprietário nem eu e andar a arrastar-me a quatro nós numa bolina cada vez mais cerrada com esta vaca à espera da nortada não me parece boa ideia. "Quem sabe faz a hora / não espera acontecer".


Paragem relâmpago em Lagos e depois aquela execrável volta pelo golfo de Cadiz (ou de Huelva?). De momento o plano é parar em Gibraltar para bancas e aprovisionamento, mas isso será discutido com o proprietário. 


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Fiz pão. Ficou porreiro. W. dizia que o forno não era bom e por isso só podia fazer naans. O forno funciona muito bem, W. Pelo menos para nós, marinheiros. Para um cozinheiro profissional - perdão: um chef - talvez não. Mas nisto, meu caro, é como no resto: que faz o pão é o cozinheiro - perdão, chef. O forno só ajuda. 

3.6.25

Paz, alegria, mar

O mar é uma força capaz de fazer da alegria uma coisa igual à paz. Ou ao contrário: a paz fica igualzinha à alegria. Ou então fundem-se e ficam a mesma emoção.

Não sei. Isto é, não sei que nome dar a esta mistura.

Que força é essa?

Sérgio Godinho é um músico português razoavelmente mau. Às vezes tem canções um bocadinho piores do que más e raramente algumas menos. Aonde acerta mais é nos refrões. Tem um de que me lembro muitas vezes. Diz "que força é essa, amigo?". Como já não me lembrava do resto fui ouvir. A canção é pavorosa, mas "que força é essa?" fica facilmente no ouvido. Sobretudo quando se substitui força por outra coisa qualquer. Calma, por exemplo. Alegria. Que calma é essa, de onde vem, que te aparece mal tens os dois pés no mar? Que alegria é essa, que resiste a este tempo merdoso e não precisa de se manifestar ruidosamente, porque o silêncio a exprime muito melhor?

Só porque estás no mar há oito horas e tens oito dias dele pela proa?

Ditirambos, vergonha e orcas

Depois de todos os ditirambos à Horta até tenho vergonha de dizer quão feliz estou por estar no mar de novo.

Aproveito a ponta de S. Jorge para descarregar a última previsão. Agora, só daqui a uma semana terei net - e aí darei graças por causa das putas das orcas. (Enfim, não é inteiramente verdade, mas não faz mal. Se elas lá estiverem, chegar-lhes-ei antes de chegar à net. Espero que não estejam.)

2.6.25

Sandes divinas, frango frito divino. Já a simpatia vem dos Açores

Se alguém um dia quiser comer a melhor sanduíche da sua vida ou o melhor frango frito do Universo: venha ao Ah! Boca Santa no mercado da Horta. Parece que o hambúrguer e a sandes de frango são igualmente superiores. Não provei mas acredito em tudo o que o senhor me diz.

Quem me proporciona momentos destes não vai para o céu. Já lá está. 

Um tipo sonha que vai para os Açores

Cada vez que venho ao Açores pergunto-me por que raio não venho viver para aqui. Depois lembro-me da anedota do tipo que sonha que vai para o céu. 

Mas nem assim fico convencido. 

Esperamos o que nos espera

"No mesmo lago

Caçador e pato bravo

Esperam a alvorada"

Tsuda Kiyoko, in O Japão no Feminino II, Haiku, org. e tradução de Luísa Freire, ed. Companhia das Ilhas.


Diário de Bordos - Horta, Faial, Açores, 01-06-2025

Jantar no Peter. Estava óptimo. Pelo menos a tripulação gostou. Eu comi uma sopa de peixe, bastante boa. Fui injusto desde que comi as lapas, mas temos de admitir: tal como uma andorinha não faz a Primavera, umas lapas não fazem o restaurante. 

Amanhã vou lá pôr uma bandeira. Será a segunda. A primeira veio do AQUARELLE, (creio) há quarenta anos, mais semana menos semana. Penso muitas vezes na anedota da hiena, que ninguém compreende bem de que se ri. A cada dia compreendo e aceito que tenho razões para me rir.

Ou pelo menos para sorrir.

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Para juntar à série "O marinheiro é o ser mais ambivalente de toda a criação": quando está no mar sonha com a terra, quando está na terra sonha com o mar.

1.6.25

De como a ausência de coluna vertebral se manifesta das mais variadas formas

Começo a fazer as primeiras festas nos livros que comprei no Pico e lá me calha o acordês na rifa. É quase impossível comprar livros novos sem cair vítima desse nojo.

A "intelligentsia" portuguesa (aspas porque é irónico) tem a coluna vertebral de um caracol que vendeu a casca. 

Ética, impostos e vinho tinto

Pagar violuntariamente impostos em Portugal é uma falta de ética tremenda. Pode pagar-se a segurança social bebendo vinho tinto e pagando o respectivo IVA.