7.10.25

Diário de Bordos - No mar, entre Cartagena e Cabo de Gata, Espanha, 07-10-2025

A Lua nasce pela alheta de bombordo, cheia, cor-de-laranja, grávida de luz; a estibordo sai o dia, os cumes das montanhas recortados contra o cor-de-laranja e o azul escuro de fim de dia. Entre eles, o mar chão. Não há vento - tem sido uma constante deste Verão mas o barulho do motor do M. V. não estraga a paisagem. Nada a estraga, nem a memória do assalto de que fui vítima na Sicília, que me tem estragado os sonos. Saímos de Mallorca há dois dias, navegámos uma dúzia de horas à vela, hoje entrei em Cartagena para ir a bancas, amanhã entro em Motril para ir a petardos e depois de amanhã estarei em La Linea de la Concepción para ir a tudo: Bodeguiya, Cheminea, bancas, lastros para os petardos, mantimentos, lavandaria e sei lá que mais. Gibraltar marca a metade psicológica da viagem. Porém, talvez a verdadeira metade, a respeitar o provérbio chinês («metade de uma viagem de cem li não são cinquenta li; são noventa e cinco») seja o cabo de S. Vicente. Não tenho data: depende do vento no Estreito. Só quem navega no Mediterrâneo pode dar o devido valor à frase «viver dia a dia».

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Hoje lamenta-se o segundo aniversário do massacre em Israel. O anti-semitismo regressou em força e instalou-se no Ocidente. Não creio que regressar seja o verbo adequado. Nunca saiu. Escondeu-se debaixo do tapete e hoje agradece aos israelitas poder reaparecer. Viva la muerte! De todos os racismos é o mais abjecto, o que menos compreendo e aceito e lamento o tempo em que navegava sem internet. O mar continua lindo como sempre foi mas já não me filtra o mundo exterior.

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08-10-2025, duas e meia da manhã. A . e o B. dormem. Com uma tripulação destas até numa jangada com força 10 se estaria bem. Que contraste! Mas não estou numa jangada e o vento está a zeros. A água parece uma banheira de bebé, Oríon está pela popa - um bocadinho pálida por causa da Lua - na costa as luzes sucedem-se ininterruptas. Felizmente é noite e não se vê o branco das estufas. Já houve tempos em que reclamava contra a ausência de vento. Agora lembro-me de que prefiro um dia de calma podre no mar a um de badanal em terra.

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Passo por três navios de pesca - ou eles passam por mim - que vão pescar para o mesmo sítio e encho-me de compaixão pelos peixes que não têm a mais pequena chance de escapar.

5.10.25

Diário de Bordos - Port d'Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 05-10-2025

Tal como sabia que ia acontecer, esta tripulação faz-me mudar de mundo. Penso com enlevo num comentário a um post meu que me acusava de não gostar de portugueses por ter sugerido - no segundo grau, claro, mas isso é coisa que a malta do bem não entende - que os israelitas dessem a Mortágua et al. ao Hamas. (Ou vendessem, acrescento agora.) Um senhor não gostou e perguntou-me se eu não gosto de portugueses. Disse-lhe que gosto tanto dos meus compatriotas como dos esquimós, pigmeus ou filipinos pela razão simples de que a nacionalidade das pessoas não as define. Os meus dois tripulantes não vêm de outro país, como por simplicismo se poderia pensar. Vêm de outra linhagem de pessoas. 

Ou seja: o compromisso paciência / tolerância está num ponto óptimo: não preciso nem de uma nem de outra.

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Não tarda largo. Três das mais bonitas palavras da língua portuguesa.

4.10.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 04-10-2025

E depois finalmente Palma abre-se e abre-me os braços e abraça-me e recebe-me. A M. não me cobra nada pelo quarto: "É só uma noite", o T. do Gustar faz-me mini-doses de cada uma das maravilhas que quero - salada de polvo, espetada de carne, tábua de queijos - tudo em porções de não deitar nada fora, tudo excelente,  estupendo. Daqui segue-se um visita ao Cláudio e uma pergunta: se eu vivesse aqui, isto seria assim?

Não creio. 

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Seria, claro. Sempre foi.

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No Claudio escolho uma "baunilha bourbon de Madagáscar". Já não preciso de lhe explicar que quero uma dose pequena - "metade de meia dose, Claudio", disse-lhe durante anos - mas ainda tenho de me bater para pagar. Pelo menos já chegámos a um acordo no preço: dois euros. Claudio aceita contrariado, eu pago aliviado. Se ele não me deixasse pagar, como durante muito tempo não deixou, teria de deixar de lá ir. Assim continuo a provar gelados ímpares, passem-me o lugar-comum. Ímpares é notoriamente insuficiente, mas que se lixe.

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Tenho de fazer horas para a chegada dos tripulantes, que ainda não sei aonde vão dormir. Venho ao Otaku beber um sake e pensar. Toda a gente sabe que um bom sake limpa os ínvios caminhos das sinapses. 

Diário de Bordos - Aeroporto de Palermo, Sicília, Itália, 04-10-2025

Cheguei ao aeroporto quatro horas antes do voo. Se não é um recorde anda lá perto. Esta noite não dormi nada e estou cheio de sono. Contento-me olhando para o mar. O aeroporto de Palermo fica à beira-mar e da cafetaria tenho uma vista soberba sobre o Mediterrâneo, ainda com alguns carneirinhos e azul, azul, azul. Azuis: são vários os tons até chegarem ao mais escuro, o do fundo, que tem um ferry a atravessá-lo e há bocadinho tinha um veleiro. Desapareceram os dois. Ficou o sono e o tinnitus. Devido ao cansaço, ao sono e à tensão explodiu e parece que tenho um enxame de abelhas bêbedas no ouvido. Gostaria de deitar-me e dormir mas não vi cadeiras vazias. Estão todas cheias e além disso têm aquelas divisórias para impedir as pessoas de se deitar. Tenho de esperar pelo avião para dormir. Três horas, agora. A culpa é de um bocado de rede no hélice e da maneira como a Inti Charters lida com o assunto: é uma fonte de rendimento. Tenho pena: não me importaria nada de trabalhar aqui no próximo Verão. A costa é linda e os portos porreiros. 

Depois é chegar a Palma, ir buscar as injecções e ala para Andratx. Fiquei depauperado, liso, teso. Pqap à Inti.

Estou a ver se consigo recuperar pelo menos uma parte, mas as probabilidades de o conseguir são as mesmas do que alguém oferecer-me um bocadinho da Lua.

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Bem podia aproveitar para rever o texto do Não Sei. Tenho tanta vontade disso como de ir para uma festa na Lua. Uma rave. Um party.

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A escala em Barcelona foi misericordiosamente curta e o voo para Palma está ainda mais piedosamente quase vazio. Com um bocadinho de sorte conseguirei dormir. Se não, não fará mal: quarenta minutos  passam tão depressa a voar como a dormir.

Continuo a não pensar demasiado na minha relação com os meus compatriotas. Começou mal, em mil novecentos e setenta e quatro. Odiava-os e desprezava-os, uma mistura bastante oximórica. Não se pode odiar quem se despreza, tal como não se pode amar. O desprezo é um apagador de sentimentos, é por assim dizer monopolista. Mas nesse tempo eu era jovem e nem sequer sabia o que é um oxímoro. Percebia mais de sentimentos, nos quais vivia mergulhado,  afundado, afogado.

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Chego a Palma mas desta vez não é Palma-la-calma que me recebe. É uma Palma zangada, furiosa, triste, ansiosa, frustrada. Mas quente, vá lá. Ao menos isso. E sem uma nuvem no céu (refugiaram-se todas dentro de mim...)

3.10.25

Diário de Bordos - Castellamare del Golfo, Sicília, Itália, 03-10-2025

Vim lavar roupa e a cem metros da lavandaria há uma pizzeria e eu perguntei se vendiam pizze pequenas e a miúda disse que não mas que tinham antipasti e eu decidi arriscar e pronto, desta vez ganhei a aposta. Pedi uma coisa que não conhecia e que a partir de agora vou pedir em tudo o que diga "pizzeria napoletana" só para ver se eles abrem os olhos e começam a incluir montenarine no menu (nada a ver com o senhor cujo nariz era um promontório). 

Não perguntem. Pesquisem no Google ou nessa coisada da IA (pela qual de resto me tomei de amores desde que resolveu a minha centenária guerra com a Garmin. Agora quando não consigo encontrar uma definição naquela maldita marca vou ao Google e a resposta sai-me em IA e em segundos tenho o MFD como quero). Bom. Voltemos à pizzeria Gusto: é soberba, frequentada por pessoas dos sete aos setenta e sete anos, barata e a miúda da caixa parece que saiu de um filme do Visconti.

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O charter não começou mal e acabou pessimamente (com a inegável excepção dos montenarine e da pizzeria Gusto, infelizmente insuficientes para apagar o que os precedeu. Ou seja: amanhã volto para Palma como de lá saí e isto só graças ao transporte do V. para Lisboa. A minha versão de "entra por uma orelha e sai por outra" é "Entra por um bolso e sai logo a seguir, pelo mesmo". Nada de perder tempo a procurar bolsos alternativos. 

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A perspectiva de reencontrar o B. e a A. C. a bordo do V. reconcilia-me com os meus compatriotas. Patriota e teso? Este sempre, aquele às vezes.

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Pequena nota para futuras referências: a Sicília é linda, come-se bem e as pessoas são adoráveis.

2.10.25

Diário de Bordos - San Vito del Capo, Sicília, Itália, 02-10-2025

Continuando: deve distinguir-se entre "o que me chateia" e "o que me prejudica". Seis pessoas à mesa de um restaurante com cinco agarradas ao telefone portátil chateia-me, mas não me prejudica em nada. É uma agressão estética, só. 

Que não deixa de ser revoltante.

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Desta viagem retenho, entre outras coisas, que os paquistaneses, bangladeshis et simili têm com certeza uma predisposição genética para a venda de bugigangas a turistas, tal como os chineses para a venda de bugigangas a toda a gente*. São aos montes, uns e outros.

* - Enfim, quase toda a gente.

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San Vito del Capo é uma vila turística sem ponta de interesse. Parece uma cidade americana com dois restaurantes em cada três portas. A terceira? Adivinharam.

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Amanhã regressamos a Castellamare del Golfo e sábado estou em Palma. Espero co ansiedade o regresso à normalidade. 

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O restaurantino Filia, "cucina tipica siciliana", em San Vito del Capo é bastante recomendável e por conseguinte recomendado.

Perímetros, compromissos

O tema não é novo, longe disso. Nem neste blogue nem noutro lado qualquer. Porém, merece voltar a ser mencionado porque evoluímos os dois, ele e eu. Trata-se do velho compromisso entre a tolerância e a paciência. Resultado sem dúvida do número de aniversários por que passo - não cessa de crescer - tenho cada vez mais de uma e menos da outra. Que cada um faça e seja o que quiser, desde que não me chateie. Infelizmente, o perímetro do "não me chateie" não pára de aumentar. Cada vez suporto menos a boçalidade, por exemplo. Note-se que não me passa pela cabeça mandar prender um boçal, impedi-lo de falar ou de mijar na rua. Só peço a quem organiza esta porcaria toda que ele não o faça ao pé de mim. Se uma mulher quer andar vestida na rua como uma "escort girl" (versão chique de puta, para quem não sabe) que ande. Tem todo o direito de o fazer. Não me peçam é que aprove, porque não aprovo. Aliás, penso que o lugar das putas é nos bordéis e não nas ruas. Ou seja: quem não o é e só as imita nem na rua deve andar, porque induz em erro. E se quiser andar que ande, mas longe de mim. É o tal perímetro. 

Claro que isto é discutível. Não me devia chatear porque um gajo querer mijar na rua ou uma mulher queque fingir que é puta. Afinal, não são meus filhos, irmãos ou cônjuge. E o que os outros pensam - de mim ou de quem está perto de mim - é-me totalmente indiferente. Contradições para as quais só Hildegarde von Bingen tem resposta. Refugio-me nos seus Cânticos do Êxtase enqanto bebo uma excelente cerveja siciliana e espero que a chuva passe para ir almoçar. 

Conclusão: a estética está a ocupar demasiado espaço no limitado espaço da minha mente.

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Releio isto e penso que a minha tolerância é infinita por uma razão simples: aprendi com o tempo a separar a parte do todo. A não tomar a parte pelo todo. A boçalidade, a vulgaridade, a avarície podem ser compensadas por qualidades que saltam menos à vista mas que estão lá, albergadas na mesma personalidade. É questão de se fazer com as pessoas o que se faz com a fruta: come-se a polpa e deita-se fora o caroço. A menos que esteja podre, claro. Aí vai toda fora.

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Intricado jogo de poder, este da paciência vs. tolerância. Alternam ao leme da barca que me serve de cérebro. Indiferente ao tamanho relativo de cada um a nave lá se vai governando como pode. 

1.10.25

Louvor da sinestesia e outras aparências

O sorbetto al limone que agora como na trattoria pizzeria Il Timone - de resto, um sítio que desaconselho, se por acaso vierem a San Vito del Capo - é igualzinho ao que Paolo Conte celebra na sua famosíssima canção, gelato al limone. Além disso, é bastante bom.

30.9.25

Diário de Bordos - Favignana, Isole Egadi, Sicília, Itália, 30-09-2025

Comecemos pelo fim (ou quase): a cerveja Kebbaberia di Tonno. Foi-me proposta como sendo «a cerveja da casa», conceito esse que me incendiou imediatamente a curiosidade, que tenho facilmente inflamável. Quando a garrafa chegou, vi que é cerveja artesanal, coisa que me põe logo de pé atrás. Ao primeiro gole o pé voltou à sua posição habitual. Depois chegou o tonno ammuttonato e apercebi-me de que o raio da cerveja o acompanhava bastante bem (aquilo estava tão bom que possivelmente até com água iria). Li o rótulo todo. «Sugerido para acompanhar... pratos de atum...» Não fazia ideia de que uma cerveja pode acompanhar pratos de atum e muito menos quando estes estão uma delícia sem fim. Além de que o conceito «cerveja da casa» me parece bastante interessante e se um dia eu tiver uma casa de comidas vou adoptá-lo. Cerveja da casa, vinho da casa, vermute da casa, Marsala da casa, tudo da casa

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Continuemos a desenrolar o filme: Favignana é a maior ilha das Egadine e a cidade homónima a sua (delas, ilhas) capital. É basicamente um buraco de turistas mas as ilhas devem ser bonitas. Vistas do mar são-no, sem dúvida. Até ao século XIX - ou meados do XX, mais provavelmente - eram o principal ponto da tradicional mattanza mas a escassez de atum fez dessa tradição um assunto de museu. Hoje ficam o museu - aonde ainda não fui -, os pratos típicos e as ruas com poucos turistas, felizmente. Para alguma coisa servirá estarmos no fim de Setembro.

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O que me leva ao almoço, de novo: o meu método favorito de visitar um lugar qualquer é sentar-me num café e esperar que ele passe por mim, perdoem-me a múltipla repetição. Andar pelas ruas a olhar para prédios não me parece a melhor forma de conhecer seja o que for. Hoje, esse método revelou-se ou um redondo falhanço ou um redondo êxito: o restaurante aonde fui almoçar estava numa rua aonde não passava vivalma. No Inverno esta ilha deve ter «menos vida do que o cemitério de Chicago» (aspas porque cito).

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Volvendo atrás: Marsala. Restaurante Antica Trattoria da Pina. A melhor sopa de lagosta de sempre. Não tenho a certeza de que o comparativo seja adequado porque não é coisa que coma frequentemente mas que estava uma simples maravilha estava. Aperitivo na Enoteca La Strada di vino di Marsala (?). O quadro é lindo e a caponata excelente.

Preferi Marsala a Trapani: menos turistas, o centro mais limpo.

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Trapani: aperitivo num café qualquer do centro e dali fomos a Erice, ali ao lado, aonde jantámos. Uma espécie de Óbidos a setecentos metros de altitude, sem muito interesse (para mim. A parte da tripulação que lá voltou na manhã seguinte gostou bastante da catedral). O jantar foi uma desilusão para alguns e óptimo para outros. Vantagens da diversidade, sem dúvida.

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De qualquer forma, o que me fica destes sítios todos é a inultrapassável - e para mim inesperada - simpatia desta gente. As marinas de Maiorca deviam enviar o seu pessoal fazer estágios aqui. E a beleza das costas. E, sim, Marsala. E esta noção, comum a todo o Mediterrâneo e que não nos larga, de estar a pisar o chão que é pisado desde os Fenícios (desde muito antes, claro. Refiro-me a povos com história). Em 241 a. C. desenrolou-se nestas águas uma batalha naval entre Romanos e Cartagineses e foi com esta batalha, diz-me a Wikipedia, que Roma adquiriu o controle do Mediterrâneo. Tenho o mesmo sentimento cada vez que passo em Trafalgar. Estava na Flórida quando descobri que a minha casa é na Europa e que o Mare Nostrum é o seu jardim, porque faço parte desse nostrum.

26.9.25

Diário de Bordos - Palermo, Sicília, Itália, 26-09-2025

Palermo tem seiscentos mil habitantes. A grande Palermo um milhão e duzentos mil. Isto faz da cidade que seja simultaneamente maior e mais pequena do que Lisboa. Até agora ainda só andei pelo centro: barulheira, caos, movimento, sujidade, buzinadelas dementes, bicicletas, trotinetas, peões, scooters, motas, carrinhas, tudo ao molhe e fé em Deus. Comi um arancino no mercado, grandes e bons, o arancino e o mercado, bebo cerveja Messina ou parecida, vinho tinto siciliano, faço fotografias desinteressantes e confirmo que como turista não sou grande coisa. A superfície das coisas interessa-me pouco (como a das pessoas, de resto). Nunca é demais insistir: as cidades são feitas de pessoas, não de ruas ou monumentos. Talvez por isso gosto tanto dos mercados: juntamente com os cafés e bares constituem janelas privilegiadas para se observar a gente em acção. Uma espécie de buracos na capa de ignorância que nos separa dos lugares.

Isto dito, é preciso ser honesto: se tivesse de escolher entre viver aqui e em Genebra, escolheria esta última sem hesitar um segundo. Acredito que isto seja muito mais "a vida" do que a helvécia. Mas "a vida" é muito cansativa, a partir de uma certa idade. Chata, por assim dizer.

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Ódios de estimação: a) pessoas que "fizeram" a Índia, o Peru, o Everest, o Marquês de Pombal às horas de ponta, Alfama e atravessaram o Tejo em dia de tempestade; b) pessoas que dizem "top"; c) pessoas que quando vão jantar em grupo a um restaurante insistem em pagar individualmente.

Que eu continue  gostar dessas pessoas só demonstra a minha vastíssima abertura de espírito.

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Ódios que não são de estimação: pessoas que não sabem beber. "Quem não sabe beber vinho bebe mijo", ouvi muitas vezes durante a adolescência e a jovem idade adulta. É uma das muitas verdades que não se gasta com o tempo.

25.9.25

Diário de Bordos - Palermo, Sicília, Itália, 25-09-2025

Se as cidades falassem teriam um sotaque. Palermo tem um, é impossível não nos apercebermos dele mal se deixa a autoestrada que nos traz do aeroporto. Uma vez no centro esse sotaque torna-se claramente perceptível. É feito de confusão, de prédios primeiro horríveis (na "cidade nova", aspas porque cito) e depois lindos, de ruas sujas e de pessoas acolhedoras.

A primeira vez que aqui estive foi de passagem. Esta também será, mas menos meteórica. 

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O almoço tendo sido frugal (menos no preço, claro, o aeroporto de Genebra não é conhecido por ser barato), mal cheguei ao hotel deixei o saco, o tablet a sincronizar fotografias (não perguntem, não me dou bem com o ridículo) e vim beber uma cerveja ao café Spinnato, por sugestão da senhora do hotel.

O café é uma espécie de pastelaria Suíça dos velhos tempos; ou de pastelaria Colombo, de ainda mais antigamente. Apesar disso e contrariamente ao habitual venho para a esplanada, que não tem automóveis a passar à frente e tem senhoras velhinhas, bem vestidas e a fumar mesmo a meu barlavento. Levo com o fumo todo mas não me importo. Quem é que gosta de lugares assépticos? Eu não. 

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O fim da pastelaria Colombo foi o meu primeiro terramoto metafórico e lisboeta. Tudo muda, tudo se transforma e não necessariamente para melhor.

Penso todavia que a maioria das mudanças melhoram o que está. Se não fosse assim, hoje não estaríamos melhor do que estávamos há cem anos. 

Enfim, tem que se olhar para estas mudanças ponto a ponto. A pastelaria Colombo foi substituída por um terrível vazio, que até hoje me asfixia. As duas senhoras burguesas e o senhor da mesa ao lado serão substituídas por quê, por quem?

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Em Genebra, a Easyjet substituíu as senhoras (raramente eram senhores) por máquinas. Agora são os passageiros que despacham as suas bagagens. É daquelas mudanças que acho irritantes, mas pouco mais do que isso. O que me arrelia é que com uma máquina não se pode pedir um quilo ou dois a mais.

Está na altura de começar a exigir das companhias aéreas que nos reembolsem quando pagamos mais quilos do que os que levamos.

23.9.25

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 23-09-2025

S. resolveu arrumar a casa. Se a ONU servisse para alguma coisa, seria para comentar - e aplaudir -  acontecimentos desta magnitude. Ainda por cima com a quantidade de agências que tem nesta cidade. (Infelizmente nem para isto serve, mas isso é outra história.) No processo encontrou um moinho e um pacote de café que a nossa filha me ofereceu, nenhum de nós se lembra quando. O café é um arábica da Nicarágua, bastante bom por sinal. Foi comprado no «comércio justo», uma dessas tretas que o Ocidente inventou para se flagelar e que - tal como a ONU - é completamente inútil. Mas sendo o Homem um animal simbólico e não, como na escola nos ensinam, racional, a coisa lá vai tendo alguma existência. Curiosamente, há uma relação directa e eu diria causal entre o nível económico de uma sociedade e a importância que atribui a determinados símbolos, o que só prova que nem estes conseguem escapar à influência do «vil metal». Mas isso também é outra história. 

O moinho é mais neutro: bonito, feito na China, comprado não sei aonde e manual, sobretudo. É a parte que eu mais aprecio: moer o café antes de o fazer prolonga o prazer; dá-lhe, por assim dizer, um sentido. Não se trata apenas de premir um botão ou de esvaziar um pouco de café numa panela e pô-la ao lume com água (fria de preferência). Agora tenho uma etapa antes dessa, manual. Acrescentou-se um degrau à escada. Talvez o mecanismo que me leva a apreciar isto seja o mesmo que me leva a gostar tanto de navegar, se possível à vela. Ou talvez seja simplesmente o facto de o meu trogloditismo se estar a depurar com a idade.

Talvez.

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O Outono instalou-se em Genebra e vai chover todos os dias que ainda tenho por aqui. Por sorte as minhas memórias desta cidade não se resumem aos intermináveis dias de chuva. Houve também dias gloriosos: de vela no lago, por exemplo. De trabalho no Marchand de Sable ou na Intermaritime Bank, a fazer a logística da construção de dois petroleiros na Rússia. Tudo era comprado no Ocidente e devia ser enviado para S. Petersburgo. Foi um ano exaltante. 

Penso muitas vezes num livro do Baricco no qual ele diz que vai escrever um romance como se fosse uma cidade. Talvez seja o City, não me lembro. [É]. Sei que o livro é bastante bom, como tudo o que o homem escreveu (ou eu li, que não foi tudo). Cruzamentos, sinais de trânsito que ora estão verdes ora encarnados, estacionamentos pagos ou gratuitos, limitados ou não... Será a memória o sinaleiro?

21.9.25

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 21-09-2025

Chego a Genebra mais morto que vivo (ou mais adormecido do que acordado, para quem não gosta de hipérboles, sobretudo se forem lugares-comuns) e vou dormir. À tarde vamos a uma festa para as criancinhas da comuna de Vernier. A música está a cargo de um grupo brasileiro, devidamente vestido de amarelo e verde. É só percussões e lembro-me das steel bands de Antigua, dez vezes maiores do que esta e vinte vezes melhores. Mas é sobretudo esta capacidade que a Suíça tem de acolher emigrantes e de lhes agradecer que me vem à mente. Nunca esquecerei o Primeiro de Agosto (é o dia da festa nacional suíça) de 2000 ou 2001 em que o então presidente da Câmara de Genebra dedicou o seu discurso aos estrangeiros que vivem na Suíça e ajudaram a fazer do país aquilo que ele é. Claro que não entrou em pormenores nem isso seria para ali chamado. Lembro-me apenas da comoção que senti. Até esqueci o facto de o homem ser socialista. A Suíça é, de todos os países que conheço, aquele em que é melhor ser-se estrangeiro. Já houve várias iniciativas xenófobas e não é por acaso que falham todas. O problema de Portugal não são os estrangeiros, André Ventura. São os portugueses e aquilo que nós fizemos do país.

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Chego a Genebra no que os jornais anunciam como «o último dia de Verão. Amanhã começa o Outono», explicam. Desta vez acertaram. Verdade seja dita: com a Meteo Suisse como fonte seria difícil não acertarem. Precisariam de não saber ler, coisa que evidentemente sabem fazer. O que não sabem é escolher as fontes, mas isso é outra história.

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(Cont. ?)

Iluminações

Cada modernidade produz os seus iluminados. A nossa não escapa à regra. Alguns sinais da Iluminação hodierna:
- A Terra é plana;
- O homem nunca foi à Lua;
- Os rastos de condensação feitos pelos aviões não são vapor de água, são produtos químicos;
- O que Israel está a fazer em Gaza é um genocídio. É por isso que avisa as populações civis dos próximos ataques: pode matá-las por atacado, se me permitem o jogo de palavras;
- Os veículos eléctricos combatem as mudanças no clima, tal como deixar de comer carne e dar dinheiro à Greta e aos impostos;
- Se eu usar a palavra preto para me referir a uma pessoa de cor negra sou racista. Se não usar, não sou. (O mesmo com maricas e a homofobia.)
- Não devemos defender-nos das orcas porque elas estão só a brincar, coitadinhas.

Mentes iluminadas é outra coisa. Fazem do mundo um local agradável. Um jardim edénico, por assim dizer.

20.9.25

Modernidade?

Fila para o check in, ou baggage drop ou seja o que for que chamam a isto. Easyjet.

A modernidade é feia mas aposto que todas o foram, desde que modernidade existe. Porque seria esta diferente?

19.9.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-09-2025

Se começássemos pelo fim, diríamos que a comparação com Coimbra ("tem mais encanto na hora da despedida") é mentira. Palma tem mais encanto na hora do reencontro. Hora essa que hoje é, também e para grande pena minha, a da despedida. Ou seja: a minha romaria pelas capelinhas tem uma dupla função: olá e adeus, como se eu fosse um marinheiro bêbedo em busca de mar. Não sou. Amanhã vou ver os meus netos, que vivem tão longe do mar quanto é possível (passe o exagero). Ou seja: bar Rita, Claudio, Gustar, bodega Bellver, bodega Can Rigo, 7 Machos. Daqui não sei. Espero que o bom senso sobreviva a esta tentativa de diluição e me leve para bordo e não para o bar Napoli, aqui tão perto. Afinal, daqui a cinco horas tenho de acordar e a Margarita ("com mezcal, Alex" "Ah, quieres una mezcalita") ainda nem sequer chegou.

O Jaime deu-me um Santíssima Trinidad de três ("ou quatro") anos a provar. Aquela casa não sabe fazer maus runs. No Cliff ficou prometida uma prova de Mezclat (não perguntem agora, por favor). No Rita e no Gustar, promessas de amor eterno, vermute e rum. No Claudio, o melhor gelado de sempre (são todos. Hoje foi Sabayon, porque "me chegaram duas garrafas de Marsala. Até lhe pus gema de ovo".)

Meus caros, Palma não tem nunca "mais encanto" porque o encanto de Palma é inultrapassável, qualquer que seja a ocasião.

Escrevo no 7 Machos, enquanto espero pela Margarita. A culpa sendo, claro, do mezcal Calenda, que o Alex me prometeu ser especial.

Queridos leitores: acreditem na mistura Alex / mezcal. Acreditem em mim. Acreditem em Palma. 

Na vida: é a mesma coisa. 

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Hoje há mariacchi no 7 Machos. Há uma conspiração, é o que é.

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O bom senso leva-me a optar por outra mezcalita. Prefiro um diabo na mão a meio diabo daqui a quinze minutos.

PS - Diabo e meio. O Alex percebe destas vidas. Ou seja: destas noites.

(Cont., se Deus quiser )

18.9.25

Instruções para uso de curiosos e charter skippers, sejam eles de novas ou velhas gerações, de passagem por Ibiza e ou Formentera

a) O restaurante Vogamari fica na Ctra. La Mola, Km 9,5, Platja de Migjorn. 68º 40' 34".8 N  001º 29' 23".00 E;

b) O Rita's bar em Port Sant Antoni de Portamany não tem hambúrgueres. Tem pratos mais ou menos indonésios e filipinos e o que provei não era grande coisa (filipino);

c) O restaurante Es Nàutic, no mesmo porto, tem rum Barceló Imperial a oito euros e parece-me digno de toda a confiança. A próxima vez que aqui vier é lá que vou comer. Apesar de o preço não me parecer adequado a um pobre skipper longe de casa;

d)  Amanhã voltamos, a cozinheira e eu, sozinhos para Palma, desfecho este que me parece bastante adequado ao fim de uma semana de charter que, todas as contas feitas e todos os aspectos bem medidos foi bastante positiva;

e) O porto de Sant Antoni de Portmany é - aparentemente, dito por quem sabe - a Magaluf de Ibiza;

f) É tarde para aprender a cantar mas não para cantar laudas a quem arquitectou esta vida. Não me refiro apenas à minha. Refiro-me à vida em geral (com a possível excepção da das orcas ibéricas, mas isso é outra história);

g) Sábado estarei com os meus netos. Houellebeck fala da extensão do domínio da luta. Eu, da extensão do domínio da vida. Com um bocadinho de sorte, daqui a vinte anos o restaurante Vogamari ainda existirá e eles poderão y aller comer um arroz negro como o que eu comi ontem. É para isso que se vive: para que os nossos netos beneficiem do que nós aprendemos;

h) O chiringuito de Cala Saona em Formentera é uma merda;

i) Os charter skippers de passagem por Formentera devem evitar sugerir aos seus clientes o restaurante Joan y Andrea em Ses Illetes.

14.9.25

Diário de Bordos - Santa Eulalia, Ibiza, Baleares, Espanha, 14-09-2025

Suporto pior a minha hipocrisia do que a alheia. É um erro semelhante ao de ser mais exigente comigo do que com os outros e deste já me corrigi. Excesso de aniversários, sem dúvida. Ao contrário do que frequentemente se pensa, é um excesso com consequências bastante positivas. Só me falta resolver isto das hipocrisias, a  própria e a alheia. É uma discriminação que - como de resto a das exigências - tende para o pedante. Coisa que não sou de todo. 

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Santa Eulália, Ibiza. Embarcação em boas condições se bem pequena (Lagoon 40, a quem possa interessar), clientes porreiros, stew a melhorar a cada minuto que passa. Ontem esperava o pior, hoje estou certo do melhor. Este curso de psicologia que tirei é bastante bom. Só é pena ser tão longo: mais de cinquenta anos e ainda não tenho o diploma de mestrado. Só tenho o bacharelato.

Não sou grande adepto deste porto mas como daqui vou para Formentera algo me diz que vou ter saudades.

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Minto, claro. Não me importaria nada de voltar a Migjorn e jantar no Vogamari. 

Quem é que precisa de uma vida quando tem a memória carregada? E toda misturada, como se fosse uma vida?

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Fugi do restaurante aonde fomos «jantar» (aspas porque uma tapa a dividir por dois é um lanche, apesar de ter sido mais do que suficiente) por causa de um jogo de futebol aos gritos e caí num que tem um músico que se imagina humorista. O homem não canta mal e estamos suficientemente longe para que a música não seja demasiado invasiva. Mas porra, a) podia limitar-se a cantar; e b) se não cantasse nem contasse piadas não se perdia nada.

Que saudades tenho do músico dos pubs de Kinsale. Conseguia fazer toda a gente esquecer-se das virtudes do silêncio, qualidade rara nos músicos de café de hoje.

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A Pila Conada (esta tem direitos de autora. É de uma senhora chamada Tânia) do bar Mirage, à marina de Santa Eulalia é bastante apreciável. Tenho pena de não poder beber uma segunda mas não tarda chegam os clientes e esperam-me duas viagens de dinghy. É isto a glamorosa vida de um charter skipper, para quem tenha dúvidas: não pode sequer beber uma segunda Piña Colada, coitado, por não haver lugar na marina e ter ficado fundeado.

12.9.25

Diário de Bordos - Aeroporto de Madrid, Espanha, 12-09-2025

Não se pode nem tirar Palma de um homem nem um homem de Palma. Por isso aqui estou neste maldito aeroporto de Madrid, o pior do mundo, à espera do voo para Palma. Verdade seja dita que singularizar este aeroporto na categoria «o pior do mundo» é um pouco injusto. Todos os aeroportos que conheço são os piores do mundo, salvo duas ou três excepções que só não o são porque existem os outros.

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Acabo de comer os nachos mais escandalosamente caros da minha já longa vida. Claro que a ideia de perguntar o preço das coisas antes de as encomendar é para maricas, tontos ou tesos, categorias nas quais não me incluo, de todo. Em nenhuma delas.

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Perguntam-me com uma certa frequência como é que aguento esta vida e a minha resposta - seja dita ou pensada - é sempre a mesma: que outra vida aguentar, se não esta?

Neologismos e correspondências

As palavras não são ilhas. São arquipélagos, alcateias para quem prefere analogias terrestres. Pense-se por exemplo no conjunto mãos-mamas, na sua perfeita adequação, como se as duas palavras tivessem sido feitas uma para a outra. Foram, claro. Essa conformidade não é só lexical. É física também. É tão perfeita que poder-se-ia inclusivamente discutir a ordem dos factores: qual das simetrias começou primeiro: a das palavras ou a dos corpos? Vá lá saber-se.

Enfim, tudo isto porque hoje me ocorreu um neologismo: mãomas. Agora, só preciso de encontrar os verbos, adjectivos e substantivos que o vão por assim dizer vestir. Reger, diria um gramático. Ou eu, que sei muito bem quem rege as minhas mãomas.

8.9.25

Jantar, temporalmente

Há dois tipos de problemas: um é saber aonde vou jantar hoje. O outro é aonde vou jantar. Prefiro o primeiro. Gosto de coisas balizadas.

Cinema e clara de ovos

Hoje vou dormir a minha casa. A confusão que estes dois conceitos me causam é indescritível. Dormir em minha casa é como misturar claras de ovos e uma rede ferroviária: ambos existem, mas juntos nem no cinema. 

Diário de Bordos - Comboio Lisboa-Porto, 08-09-2025

Passo dois terços da minha vida no mar, um terço nos aviões e o resto nos comboios. Uma vida movimentada, por assim dizer. Isto sem esquecer as bicicletas, os táxis e os carros alugados. Durmo em hotéis, pensões, Airbnb, espeluncas, barcos e hoje vou até - imagine-se - dormir no meu quarto, em minha casa. Bebo vinho, cerveja e rum, prática essa que tem proporcionado ao meu fígado uma saudável ginástica. O fígado é um músculo, toda a gente sabe e precisa de exercício. 

Menos os médicos, claro. Mas desses não me queixo. Ainda hoje conheci a minha nova médica de família, uma jovem simpática, bonita (não estraga nada) e espero competente. A ver vamos.

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Agora escrevo no comboio. Saímos da estação de Coimbra-B, que para mim será sempre e para sempre Coimbra - Céu, Coimbra - Paraíso, Coimbra- Deus existe e é uma mulher (toda a gente sabe, mesmo as mulheres). Bebo vinho tinto e espero que o tempo passe ao mesmo ritmo do que a paisagem. Não tenho a certeza. Passou depressa demais. Estes  últimos vinte anos passaram depressa demais, aliás, coisa que o rabo da senhora sentada à minha frente ou a senhora toda que até há pouco ocupava a outra mesa demonstram abundantemente. 

A dona do supra mencionado rabo está a engatar e a ser engatada por um gajo sem ponta de interesse, na minha modesta mas esclarecida opinião. Alguém devia tecer loas aos rabos das senhoras sentadas à nossa frente no bar de um comboio, mesmo que tenham escolhido um engate errado. E cantar laudas aos rabos de algumas senhoras. Procurando bem deve haver algumas na música sacra desde o século XII, altura em que se começou a perceber o carácter sagrado do corpo feminino.

(Ainda por cima é portuguesa. Não sei de onde vem o engatatão mas deve vir de um daqueles infernos aonde falam inglês.)

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Os aviões não têm nem bar nem paisagem e  só ocasionalmente têm rabos femininos tão bonitos como o desta senhora de quem agora vejo a cara e o sorriso (levantei-me para isso). Correpondem. Esta mulher é um hino ao equilíbrio. Não é espampanantemente bonita. É só bonita, como a médica de hoje.

Como a vida.

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É quase agoniante esta apetência pela vida, não é?

É. Mas uma ocasional náusea nunca me impediu de viver. Nada nunca me impediu de viver, por mais que eu tenha tentado.

5.9.25

Diário de Bordos - Paço d'Arcos, Portugal, 05-09-2025

Uma boa cara feminina, feliz, nos quarentas deve ser a coisa mais linda da evolução. O seu zénite, por assim dizer. Apogeu. Não precisa de ser muito bonita. Basta que reflita uma personalidade atraente. As caras mimam os carácteres, toda a gente sabe. E se forem de uma senhora feliz, ainda mais.

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Se eu pudesse recomendar ainda mais o restaurante Marítima, em Paço d'Arcos, fá-lo-ia sem hesitar. Mas não posso. Estou no nível máximo de recomendação. Um restaurante português clássico, com uma lista portuguesa, preços portugueses e clientes portugueses. Eu devo ser a coisinha mais perto de um estrangeiro em toda a sala.

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Amanhã largo para a última perna deste transporte. Seguem-se uma ida ao médico para inspecção e uns dias de férias. Tanto um como as outras são merecidos. A carcaça portou-se bem.

4.9.25

O fim da tristeza e outros contos

As pessoas sensatas sabem que os episódios graves de herpes labial se tratam com Zovirax. Já os de pieguice aguda requerem uma mistura de música, rum e calma, muita calma. É preciso deixar a melice escorrer-nos pelos dedos como se fosse plâncton fosforecente apanhado numa noite dos trópicos, numa praia de água cálida a que só o brilho do plâncton dá vida, enquanto se saboreia o rum e se ouve Salif Keita: devagar, como se fizéssemos amor à tristeza.

O rum está quase a acabar e a inevitável competição instala-se: o que acabará primeiro? A pieguice, decido. É preciso guardar um copo de rum para amanhã e lá diz a canção: "Tristeza não tem fim, o rum Flor de Caña sim."

3.9.25

Sentidos, anos e outras dúvidas

Passei sozinho a maior parte dos meus anos de vida e acompanhado a grande maioria dos meus anos bons. Não sei o que fazer disto mas algum sentido há-de ter.

Pelo menos sentidos teve, seja Deus louvado.

Diário de Bordos - Oeiras, Portugal, 03-09-2025

O S. tem um nome bonito. Traduzido mais ou menos étimo-à letra dá Santo Sol. Ou Santa Sol, se respeitarmos o género. O Google discorda. Diz que a origem é outra. pode ser, mas eu prefiro a minha interpretação e não vou deixar a beleza - a minha beleza, entenda-se - estragar-se por causa de um étimo.

Seja qual for o significado do nome, merece-o. É um santo sol, um santo barco, um barco com nome de Deus - deuses. para ser correcto: Sparkman e Stephen, Swan... Todos juntos. As velas estão gastas, o casco sujo e com um sopro estamos a oitos nós.

Os problemas até aqui foram a) termos esse sopro e b) na boa direcção. Foram poucos, o que explica que tenha levado duas semanas e meia, quase três, para vir de Andratx a Oeiras. Sábado começo a última perna e se tudo correr bem domingo estará entregue e eu no comboio para Cascais. Não consigo parar de me imaginar em casa dos meus livros.

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O Verão está quase a ir-se e começo a preparar o Inverno. Se tiver muita sorte fico em Portugal e se em vez de sorte tiver muito azar também. Prefiro a sorte. 

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Estou em Oeiras, uma marina de que sempre gostei bastante e sinto-me tão em casa como me senti em Motril, Santa Pola ou La Linea. «De Passagem» é mais do que um título. O próximo também. Vai chamar-se «Não Sei». Pergunto-me quando chegará a vez de dar a um livro desta série o título que deviam ter todos: Don Vivo. Não sei.

1.9.25

Serviço Público - Restaurantes em Lagos

 Lista de restaurantes em Faro que me foi fornecida por uma senhora do meio:

- Casinha do Petisco;
- Cantinho Algarvio;
- Ferradura;
- A Forja;
- Taninos;
- O Camilo;
- O Chico Zé;

- O Lourenço (Salema);
- A Charrete (Monchique).

29.8.25

Diário de Bordos - Ayamonte, Andaluzia, Espanha, 28-08-2025

Ando relapso, eu sei. Há muito para contar e pouca oportunidade para o fazer. Talvez amanhã em Lagos? Não sei.

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Em contrapartida, sei que o dito inglês "gentlemen don't sail to windward" é mais do que justificado, mesmo por quem não é gentleman, como eu. Oito horas para fazer vinte e seis milhas, com o motor a duas mil e duzentas! 

Visivelmente,  o idiota que antigamente vivia em mim não se foi ainda embora. Resta saber se um dia irá. Penso que não mas enfim. Às vezes engano-me.

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O meu patriotismo tem alguns limites. Gosto de croquetes, rissóis, chamuças, pastéis de bacalhau e cozido à portuguesa e bacalhau à Brás, por exemplo. Freud chamar-lhe-ia patriotismo oral, suponho. Eu chamo-lhe patriotismo circunscrito.

Hoje podia escolher entre as marinas de Vila Real de Santo António e Ayamonte. Esta sendo vinte euros mais barata, escolhi-a.

Abençoados vinte euros! Graças a eles descobri um restaurante - não descobri coisíssima nenhuma. Limitei-me a perguntar - absolutamente fabuloso (meço as sílabas).  Chama-se Casa Luciano e fica pertíssimo da marina, se por acaso.

24.8.25

Mar, felicidade

É muito difícil não ser feliz no mar. 

18.8.25

Diário de Bordos - Puerto de Andratx, Mlorca Baleares, Espanha, 19-08-2025

Não descrevo o dia porque é muito chato descrever dias chatos e depois apercebo-me de que afinal só a manhã foi chata. A tarde foi uma delícia. 

- Como se a vida fosse uma montanha russa, não é?

- A vida? Os dias. Montanhas? Descidas e subidas.

16.8.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-05-2025

Última noite em Palma, até ver. Peço ao táxi que me deixe no princípio da Sindicat e apercebo-me da primeira idiossincrasia: não tenho bicicleta. Ando a pé. O Claudio tem uma fila mas é pequena. Como sempre: peço-lhe meia dose (laranja de Maiorca, desta vez), ponho os trocos todos que tenho na carteira (dois euros e qualquer coisa), troco meia dúzia de cumprimentos e saio com dose  meia do melhor gelado do universo. De todos os universos, para quem acredita em coisas.

Não me apetece ir para casa. Não me apetece ir para lado nenhum,  de maneira venho ao 7 Machos beber uma Margarita e um shot de mezcal. É para isso que trabalhamos, não é? Para viver. Para ter muitas casas em vez de uma só. Para ter livros que um dia daremos a uma biblioteca. Para beber uma Margarita que não é igual a nenhuma outra. Para ter sono e resistir-lhe. Para viver quando devíamos estar a dormir.

E para comprar mais animais ao Mbayé. E para ser feliz.

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"De derrota em derrota até à vitória final, diziam dos comunistas os outros. De asneira em asneira até à sageza, digo eu.

A vida não passa de uma colecção de erros que por milagre alquímico nos leva a outra colecção de erros, só que mais pequena, mais pequenos, mais agradáveis e mais baratos.

14.8.25

Diário de Bordos - A bordo, fundeado em Es Trenc, Mallorca, etc., 14-08-2025

A térmica está fraquinha mas estabelecida; Es Trenc menos cheia do que é habitual; encontrei um lugar numa das extremidades, pelo que a bombordo não terei ninguém e a estibordo o mais próximo está a quarenta metros; os clientes estão felizes e convidaram-me para jantar amanhã.  Disse-lhes que não, mas que os levaria ao meu restaurante favorito e ali beberia um copo com eles. Não dormi a ponta de um chavelho esta noite e suponho que por consequência o transporte para a Póvoa do Varzim me evacuou a mortificada mente.

Mortificada não é exagero nem ironia. Quando voltarei a ver estas águas?

13.8.25

Diário de Bordos - Cala Ratjada, Mallorca, Baleares, Espanha, 13-08-2025

Cala Ratjada é uma espécie de Vilamoura gigante com uma marina encolhida. Dois horrores. Não venho aqui muitas vezes e não é por acaso. É porque não gosto mesmo do lado leste da ilha em geral e deste porto em particular.

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Com clientes como os de agora não me importaria de fazer este trabalho todos os dias.

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Ando bicéfalo: entre o charter de hoje e o transporte de sábado a minha mente não sabe para onde olhar. Ou melhor: saber sabe mas chateia-se comigo porque acha que encavalitar um transporte como este logo a seguir a um charter é uma imbecilidade. Permito-me discordar e respondo-lhe «O que tem de ser tem muita força». Ela cala-se e faz o seu trabalho em cada uma das áreas. Pelo menos no que respeita ao charter está a trabalhar bem. Vamos a ver o resto.

E a carcaça, perguntar-me-ão? Bem, essa calo-a com óptimos sonos a bordo e hierbas secas em terra. É uma boa mistura.

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A desgraçada da minha mente, como se não estivesse suficientemente ocupada com as duas tarefas já mencionadas, começa a fazer sérias incursões na prospectiva, ciência que sempre abominou. O objecto de tão estranha actividade (para ela) sendo este Inverno. Panamá, Palma ou Caminha? Se eu pudesse escolher, iria por uma mistura de Palma e de Caminha mas como não sei se posso, não escolho nada. O ceguinho e o seu «A ver vamos» é que tinha razão. Sobretudo se nos lembrarmos de que ele o dizia à mulher, que era surda, coitadinha.

10.8.25

Diário de Bordos - Cabrera e Portocolom, Baleares, Espanha, 10-08-2025

Palma despede-se de mim majestosamente. Estou em Cabrera, aonde já não vinha há bastante tempo e esta semana o programa é irmos a Menorca, aonde tão pouco vou desde que Moisés separou as águas ou Noé construiu a arca (deve ter sido mais ou menos ao mesmo tempo). Os clientes são adoráveis: dois casais de italianos jovens e bem-educados. Uma das raparigas faz hoje trinta anos... Não há vento, graças a Deus. (Espero que para a semana haja e muito, mas uma coisa é um transporte e outra um charter, como qualquer pessoa sabe.)

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Este Verão passou à velocidade da luz. Já estou a cinco de Outubro na Sicília. Ainda não sei é como vou sair dali mas para isso está o Outono. 

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Vim jantar ao Sa Llotja, muito provavelmente o melhor restaurante de Portocolom. Seria injusto - ou pedante - dizer que é barato. Não é. Mas é tão bom...

Seria igualmente injusto dizer que passo dias de merda para pagar isto. Não passo.

A única coisa que posso dizer de consciência tranquila é que me sai dos pelos. Isso sai. As glândulas sudoríperas não estão por cima deles, o que de resto me parece um erro da evolução. E o que eu transpirei hoje não se conta nem se cheira. Até tirei a camisa. Felizmente os clientes são jovens e adoráveis e não se importaram. Olha a sorte que eu tenho...

(Refiro-me à totalidade do total, não só aos clientes ou ao pólo.)

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Refiro-me a esta noite e a todas as que me trouxeram aqui. E ao que me trouxe aqui. E a aonde isto me levará. Ao crematório, eu sei. Refiro-me ao caminho até ele.

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Isto só não se chama potlatch porque não tenho ninguém que retribua.

Enfim, tenho. Chama-se vida. Também desperdiça muito e ri-se. 

Podre de arrependimento, claro.

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O jantar acabou por ser menos caro do que eu pensei. É sempre melhor pensar que se vai pagar uma grande fortuna e acabar com uma pequena. Sobretudo quando o jantar é bom como este foi. Ou quando é muito mais do que um jantar: visto por um lado é uma expiação, por outro uma acção de graças. Qualquer das perspectivas vale bem o que paguei.

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Estou no meio do velho e habitual problema do dinghy: não quero ir para bordo e depois eles ligarem-me para os ir buscar porque quero dormir. Não reclamo: o alvo da reclamação teria de ser eu.Organizei isto muito mal. Estava a morrer por um duche e mal chegámos foi nisso que pensei. Resultado: voltei para o Volare, agora para beber mojitos sem açúcar enquanto tento não me desfazer em sono. Acabei por comer de mais. A mousse de chocolate era dispensável ou deveria ter sido trocada por um colonel, ainda por cima mais barato.

Estamos sempre a aprender.

(Ah, já agora um relembrete: scallops em inglês não significa escalopes.)

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Se a vida fosse tão boa comigo como eu sou com ela obrigar-me-ia a pensar duas vezes antes de agir em vez de agir duas vezes antes de pensar. Infelizmente agora é tarde, eu sei. Já ambos lançámos os dados, a vida e eu.

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Afinal o problema do dinghy não o foi e viemos todos para bordo felizes, contentes e quase sóbrios. Tanto que ainda bebemos umas hierbas

9.8.25

Aonde, quando

Importo-me pouco com o mundo e menos ainda com o meu lugar nele. Estou aonde estou e ele, soberano,está-se nas tintas para mim. Nada como a reciprocidade, não é? Oiço música grega, música que comprei em Atenas há vinte anos ou mais e penso naquela história do tempo-espaço. Há vinte anos - ou mais - estava aqui, aonde agora estou. Isto é, em mim. Mudamos do lugar aonde estamos mas não do lugar que nos recebe desde que sabemos o que é um lugar. Desde que sabemos a diferença entre nós e um lugar. Com a idade aprendemos que isso é o que somos e que o lugar aonde somos o que somos importa pouco. Não é de aonde que fugimos. É de quando.

Sono, pele

A questão é simples: como deixar o dia de hoje esvair-se sem que o de amanhã nos entre pela pele dentro?

8.8.25

Mundo, n e m

O mundo muda e não é por acaso que entre mundo e mudo só há uma letra de diferença. 

É a inicial de não, eu sei, mas éme é a inicial de muita coisa e ninguém se ofusca por causa disso.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 08-08-2025 / II

Só quem nunca saiu de Lisboa pode pensar que a luz da nossa capital é unica, maravilhosa, especial e etc. É, sim. É maravilhosa, especial e única porque é o resultado de uma combinação de factores que ocorrem especialmente em Lisboa. Mas qualquer cidade perto do mar tem uma luz especial, única e maravilhosa, diferente da de Lisboa simplesmente porque os factores que fazem da luz o que é variam. A luz de Palma, por exemplo, assemelha-se à de Lisboa e varia apenas devido às árvores. As ruas aqui são arborizadas, as árvores são altas e filtram a luz de uma forma, lá está, única.

Há momentos nesta cidade em que somos transportados para outra dimensão, perdoem-me o lugar-comum mas não há outro. No carrer Unión, na Rambla, no Paseig des Born a luz de repente envolve as pessoas de um halo e faz delas todas santas, dos pés à cabeça. Uma luz difusa, filtrada pela humidade do mar e de repente olha-se e parece que as pessoas avançam num muro de luz. Num muro de felicidade, mas essa está nos olhos de quem a vê.

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O bar After Landing faz Alexanders tão bons como os do senhor Miguel no Pavilhão Chinês ou os do Luís (e depois do Zé) no Procópio. Tem um acrescento, apenas: uma coleção de bitters como até agora só vi no Door 13, também em Palma. Hoje experimentei o meu cocktail favorito com quatro gotas de um bitter de amêndoa e agora vou experimentar com um bitter de chocolate. «Menos gotas», diz-me  um dos empregados. «Este é mais forte.»

O bar After Landing vai ocupar o lugar do Antiquari, apesar de não ser tão bonito. Tem outras coisas. Tal como expliquei ao senhor que me faz os Alexanders, sou uma mistura de conservador e explorador. Mistura de proporções variáveis, isso não lhe disse porque ele não precisa de saber. Hoje sou um, amanhã outro.

Desde que os Alexanders sejam bem feitos e tenham quatro gotas de bitter de chocolate.

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Ando a correr: amanhã encontro-me de manhã com os clientes do charter desta semana, depois vou a Andratx rever o S., que vou levar para o Porto, depois volto para Palma preparar o saco para a semana. Não gosto de correria e esperam-me dias dela. Nada é perfeito, nem a minha vida apesar do esforço que nela invisto.

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Mais um jantar no Fidel (que hoje era o Tom) com o V. C. P. Amar Palma é fácil. Ser amado por ela também e eu tenho provas quotidianas de que esta cidade me ama. Se não amasse, não teria sentado esta senhora na mesa ao lado. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 08-08-2025

Chego de Lisboa e vou directamente para o Napoli. O pretexto é a fome, claro; fraco pretexto. A verdade é que preciso de noite, mas de noite a sério, não a do 7 Machos - que de qualquer forma estaria fechado quando lá chegasse - ou a do Nova Lisboa. A noite não é essa. É a dos empregados de restaurante que acabaram de trabalhar e não querem cozinhar, a dos vendedores de peças «artesanais» do Senegal - a quem compro um hipopótamo giro porque o homem é adorável, chama-se Mamadou Mayé - a das senhoras que precisam de um homem para lhes aconchegar as abundantes mamas e bebem tequila para sinalizar a virtude, a dos chauffeurs de táxi entre dois serviços. Não que esta noite seja mais verdadeira do que a da burguesia ou a da intelectualidade. Não há verdades nisto. É simplesmente que era desta que estava a precisar e como já não ia ao Napoli há muito tempo foi lá que o táxi me deixou e ali comi um hamburguer com bacon e ovo, bebi um tinto e arrematei com um café e umas hierbas secas. conheci o Diego e o Mamadou. A senhora rumou directamente a outro gajo, vá lá saber-se porquê (não que me zangue, note-se. Antes pelo contrário.)

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Hoje choveu e como sempre eu reguei. A água é para partilhar, seja ela real ou metafórica. Estou-me nas tintas para o meu futuro. O presente dos outros também é importante. Sim, porque isto de ser generoso quando se tem muito é fácil. Difícil é sê-lo quando a água é escassa. Faz-me pensar naquelas pessoas forretas que ajudam - são mais altruístas do que eu, que não sou nada forreta e vejo o acto de ajudar com a mesma naturalidade com que vejo a chuva cair no meu jardim e no do vizinho.

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Ou seja: Palma despede-se de mim «com graça e majestade» e eu, que não gosto de despedidas, tento desgraçá-la e plebeizá-la. Não consigo, claro. Palma-a-nobre aceita, adapta-se e guarda para si aquilo de que não gosta, como qualquer aristocrata que se preze.

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No avião de Lisboa para Palma:

O homem que se sentou na minha fila é grande e tem uma barba grande também. Faz-me lembrar aquela personagem do Popeye, a sua nemésis. Usei barba durante vinte anos ou mais. Hoje detesto ver um tipo com «pelo facial», (aspas porque cito) e pergunto-me como é que eu conseguia seduzir senhoras nesse tempo. Qualquer barba é feia, não apenas estas cujo lugar não é numa cara e muito menos num homem.

A citação acima vem de um anúncio que li há muitos anos e nunca mais esqueci. Foi muito antes desta moda se divulgar. Uma senhora num desses sítios de encontros procurava um homem «sem pelo facial». Hoje teria dificuldade em encontrar – mais uma coisa que me faz detestar as barbas: não gosto de modas. Não há modas bonitas, como muito bem se confirma quando olhamos para fotografias antigas.

7.8.25

Diário de Bordos - Aeroporto de Lisboa, Portugal, 07-08-2025

Ontem, avião Palma - Lisboa.

Estou inquieto, impaciente, nervoso, ansioso e tudo isto sem razão nenhuma aparente. Pelo menos às segundas, quartas e sextas. Às terças, quintas e sábados esta febrilidade é mais do que justificada. Aos domingos não sei. Talvez cortando o dia ao meio? Talvez decidindo que não estou nada disso e estou em paz?

A viagem está a demorar imenso, Espanha nunca mais acaba, seja por mar, ar ou alcatrão.

Resumindo: o livro (Não sei) já tem editor; a época correu relativamente bem. St.-Martin - Ibiza, Lisboa - Mallorca, charter, day charter e charter e day charter, charter em Mallorca, Andratx - Porto. Da carcaça só me queixo dos olhos e disso tratarei amanhã em Lisboa.

Não sei. Devo ter uma espécie de ansiedade tectónica, subjacente, que por vezes se manifesta sem que se perceba porquê, como um episódio de herpes labial ou esta vontade de comer sardinhas assadas que não me larga desde que descolámos.

Amanhã tenho um dia cheio. Depois volto para Palma, sexta está livre e sábado começo um charter. Num monocasco. Ainda não consegui o meu objectivo: passar uma época só com lanchas e day charter.

Começámos a descida. Atravessamos uma camada de cirrus que veste a paisagem de tule semitransparente. O castanho alaranjado da terra empalidece e fantasmagoriza-se. Quero chegar depressa e quero arrumar os meus livros e depois ir a Genebra e à Sicília e depois ao Panamá, see Deus quiser. Oxalá. Inch'Allah.

A paisagem é toda igual. Ainda não saímos da meseta. O avião imobiliza-se, fica parado neste algodão translúcido. Quero chegar. Venho à janela, eu que nunca gostei deste lugar. Agora gosto porque me permite dormir mais facilmente. Isto é, quando não estou nesta ânsia que nem acordado me deixa estar, que não acaba nem começa, que parece esta interminável camada de cirrus e de meseta árida.

Estou com frio, mas não sei de onde vem, se de fora se de dentro. Não teria servido de nada trazer o casaco de linho branco. Vê-se o mar. Chegámos. Agora sim, a descida acentua-se. O trem de aterragem saiu. Aterrámos.

........
Hoje, Lisboa.

Estava convencido que viria a Lisboa para gastar uma fortuna no oftalmologista e ouvir «Volte cá quando puder». Afinal gastei a fortuna (por sinal até coincidiu o que gastei com o que pensava ia gastar) e ouvi: «Vamos tratar disso agora.» Só isto justifica a vinda e o respectivo custo (duas propostas de charter recusadas, mai-lo o resto todo). Troquei a ida a Cascais por uma sesta. Estava cansado de mais. Comi sardinhas decentes no Alga (as de ontem nem para pâté serviam). Encontrei tripulação para o transporte Andratx - Palma. Continuo febril e ansioso mas como hoje é dia de não saber porquê não perco muito tempo com isso. E se não for passa a ser.

O Terminal dois está consideravelmente melhor. Já não parece que estamos num aeroporto de província do Togo.

5.8.25

Resumo sucinto da minha vida

Uma das poucas - mas grandes - vantagens da minha vida é ser minha. Se fosse doutro gajo qualquer eu ficaria tristíssimo, apesar de não ser invejoso.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 05-08-2025

Parole, parole, parole... Promessas, promessas, promessas... Por pouco que goste de paroles ou promessas ou «projectos» (aspas porque é uma violenta ironia), são eles que me levam de um dia ao seguinte. Amanhã é um poço cheio de bombons e de mulheres bonitas só o hoje o pode validar e portanto tenho de esperar até amanhã se transformar em hoje e ver em que se transformaram os bombons e as senhoras eesta beleza pacífica que hoje me trouxe. Não só por causa dos amanhãs, note-se, mas como vieram juntos juntos ficam. 

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O bar After Landing faz um Alexander perfeito (com noz moscada e tudo, sem ter sido pedida) e não tem música. Das outras vezes que aqui estive não reparei neste maravilhoso pormenor. Um bar sem música ganha imediatamente outra dimensão e se lhe acrescentarmos um Alexander feito como deve ser passa imediatamente para o próximo nível, o que está mesmo antes do paraíso. Parece-me que encontrei um escritório para as noites.

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Fui jantar ao Gigi's. É como ir comer a casa da avó, só que é o avô quem cozinha. A carta dos pratos hors pasta é reduzida porque a cozinha é pequena (eu diria minúscula mas ainda não a vi) e o dito Gigi (?) está sozinho e cozinha tudo na altura. Quem me diz isto é a sua mulher, uma senhora aparentemente inglesa (não tenho a certeza de ter percebido correctamente), cheia de um vibrato que, suponho, se repercute em quem a vê ou fala com ela. É um supônhamos, claro mas sem supônhamos estaríamos como sem sonhos ou promessas, não é? É.

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Cada vez mais Palma sabe-me a despedida. Logo a mim, que detesto despedidas.

4.8.25

Cheiros, pessoas, fascínios e comoções

O cheiro fétido, rançoso, nauseabundo que por vezes exala de certas pessoas é fascinante. E comovente. 

Vida, vidas

Não é questão de escrever a vida linha a linha, palavra a palavra. É uma vida e é a minha, por acaso ou coincidência. Não é feita só de palavras, graças a Deus. Contém muitas outras coisas. Mas se a sacudíssemos bem, espremêssemos e filtrássemos, sairiam palavras, imagens, meia dúzia de peles, mar e pouco mais. Não parece mas é muito.

2.8.25

Limitações alheias, erros nossos

Descobrir limitações graves em alguém que apreciamos magoa. 

Não por causa das limitações mas pelo que elas revelam de nós.

Da vida e outras coisas

Amar a vida de amor platónico não chega, meu caro. É preciso comê-la, bebê-la e fodê-la.

De caminho fodes-te? E que é uma foda, se não for recíproca?

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Últimas palavras e outras tretas

Não sou grande fã dessa coisa das últimas palavras. Idealmente, as minhas serão um diálogo:

Eu: Fodi-te bem, vida? (Isto desmente-me e demonstra a iimportância das últimas palavras. É uma pergunta que nunca faço.)

Vida: Sim, querido, fodeste-me muito e bem. E eu, fodi-te?
Eu: Sim, vida, tu também me fodeste muito. Não sei é se foi bem, mas agora é tarde para decidir.

Diário de Bordos - Ibiza, Ibiza, Baleares, Espanha, 02-08-2025 / II

Acabo de almoçar e deambulo um pouco por Ibiza. A cidade confirma o que eu penso dela: é bonita, tem uma mistura interessante de velha e nova arquitectura e insinua-se por mim dentro. Se não soubesse que isto tudo vive de festas, cocaína e superficialidade caíria na armadilha.

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Claro que chamar a isto «armadilha» é uma maneira disfarçada de me chamar palerma, mas isso fica para depois. Agora é hora de apreciar o rum Santa Teresa «especial» (aspas porque não fixei o rótulo) a doze euros, doze. Como o normal custa onze não vejo grande razão para não o escolher, se bem pense que rum Santa Teresa especial é um pleonasmo. O rum Santa Teresa é especial por natureza, qualquer que seja o seu preço ou etiqueta. É um rum hispanófono, sem os xixis dos franceses e a agrura dos anglófonos. («Franceses» não é por acaso. Só eles fazem runs que falam francês.)

O almoço, na tasca da bem coisada foi bastante bom, frango frito, vinho tinto e hierbas. A viagem de avião de Ibiza para Maiorca dura meia hora e dou por mim a lamentar ser tão curta. Vão acordar-me mal adormeça. 

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Pergunto-me como posso gostar tanto de uma vida que me obriga a andar tantas vezes de avião e a resposta é simples: passo mais tempo no mar do que no ar.

Se bem seja falaciosa, mas isso são contas de outro rosário.

Relação de eixos semânticos

Está um homem sentado numa esplanada em Ibiza a pensar na relação do calor com a paisagem e vai daqui, um ponto de partida relativamente simples, embrenha-se em elocubrações lexicais sobre os possíveis significados de calor e paisagem.

Cada um destes termos aceita pelo menos um plural e algumas variáveis. Por exemplo: paisagens móveis versus paisagem fixa. Calores externos versus calores internos (integrar eixo temporal).

Outro paradigma: o tempo. A diferença entre vermos o tempo escorregar por nós e termos nós de gatinhar por ele fora, aos apalpões e arranhadelas.

Outro: nós e a vida. Quem manda, quem é mandado? Um pau mandado é a mesma coisa do que um pau ou um mandado?

Divagações: se não houvesse calor haveria vida? E sem vinho tinto? E sem hierbas? E sem café? E sem mar? 

A resposta é evidente?

Telefones, rodas

É bastante provável que o uso do telefone portátil se tenha propagado ao mesmo ritmo que o da roda quando ela apareceu.

Mutatis mutandi, claro

Normas para fazer fotografia

- Olhar para cima;

- Olhar para trás;

- Olhar para onde os outros não olham;

- Olhar para a luz e escrever uma história com ela;

- Enquadrar e disparar.

Diário de Bordos - Ibiza, Ibiza, Baleares, Espanha, 02-08-2025

A viagem para Ibiza foi a habitual mistura de banalidades: bom tempo, um bocadinho de chuva, um bocadinho de muito vento, um bocadinho de tudo banhado em cansaço. Cheguei às quatro da manhã, não havia lugar para mim no pontão mas os marinheiros deram-me uma bóia, dormi bem e pouco. Quem gosta de vidas variadas deve evitar a de skipper, que é muito parecida com o mar aonde se passa: muda imenso e é sempre o mesmo. Bom, banhada em cansaço e em alegria, prazer, não digo felicidade porque não gosto de palavrões.

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Tenho a tarde livre em Ibiza, cidade que aprecio medianamente e conheço pior. Preparo-me para umas horas de turismo como deve ser: sentar-me num café e esperar que a cidade passe por mim, em vez de a calcorrear eu com a mochila às costas. (Mochila essa que contém a máquina fotográfica, mas a esta hora é pouco provável que haja luz decente para fotografar seja o que for.) A dificuldade deste método de turistar é a escolha do café. Os parâmetros são muitos e contraditórios: estar bem situado, ter a correcta mistura de turistas e locais (com preponderância parav estes, naturalmente), ser confortável para se escrever, não ser «gourmet fusion poke et al.»

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Tenho de escrever um texto sobre a dor. Tenho devia levar aspas: não tenho. Quero. A relativa ausência de dor em que me encontro - relativa sendo aqui a palavra-chave, porque é exactamente a que me vai servir de mote para o texto - torna o exercício bastante sedutor. Tenho é de o escrever antes de o relativo se transformar em absoluto.

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Em Ibiza nunca sei aonde comer (e acessoriamente fazer turismo). Escrevi o que antecede no Café-Teatro Pereyra, um lugar adorável mas que não satisfaz todas as condições: tem pouca gente. Mas que é bonito e confortável e apelativo é.

Depois decidi apangar o touro pelos cornos, por assim dizer. Liguei para o D. S., que é daqui e teve a gentileza de responder ao meu pedido: um sítio para comer mal, caro, feio e longe de tudo.

Resposta: Barra da la Bientirada. Não sei se Bientirada significa o nesmo do que significaria em francês, mas vou perguntar e já digo.

Sim, tem. Isto está cada vez mais apelativo.

Fica na Avinguda Bartomeu de Rosseló, 11, se por acaso alguém quiser beber uma cerveja ou comer uma excelente tapa na bem coisada.

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Contrariamente ao habitual, sento-me no exterior e como é costume regozijo-me: em alguns casos uma esplanada pode ser melhor que- ou pelo menos tão bom como - o interior, apesar do ar condicionado.

Em primeiro lugar, as senhoras rivalizam em beleza com as de Palma, o que atenua largamente o efeito do calor. Enfim, substituiria um por outro, se tal fosse possível. Em segundo lugar, a vista é muito mais bonita, apesar de estar numa avenida de lojas.

Sou pássaro de ar livre e se por vezes me fecho é para melhor apreciar a alternativa. 

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Problema: aqui chegado isto pede sesta e a menos que vá para o aeroporto não vejo aonde.

Devia haver um café Fábulas em todo o lado. Incluindo Lisboa, aonde fechou por obra e desgraça do demo.

31.7.25

Acordar é bom

Acordo aos bocadinhos, um despertar dentro de outro como as bonecas russas. Também durmo assim, de resto, mas os intervalos são mais longos. Hoje, num desses acordares, fui presenteado com um piema muito bonito de uma jovem piegisa açoreana. Falava de mar e da ausência, do desejo e do amor. É um poema bonito e verdadeiro, como o mar, que não supirta mentiras.  O mar não se mente, é-se logo apanhado. Aquele poema captou esta característica do mar: não mente.

Obrigado, Madalena. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 31-07-2025

Um caminho de rosas cheio de picos ou um caminho de picos cheio de rosas? Venha qual dos dois quiser e escolha, que isto de Deus e do Diabo é difícil destrinçá-los, os meus amigos católicos que me perdoem.

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Plumas de porco ibérico no Xisco, limoncello no Hugo, palo sifonado no Pep. Tudo isto num raio de menos de cem metros que vai quente o dia e espera a sesta,  à espreita já ali à esquina. 

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Esta semana vou a Lisboa para tratar dos olhos. Saem-me caros, os sacanas. O que um tipo não faz para ver qualquer coisa mede-se, mas não se confessa.

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Sou bígamo: amo Palma e amo o mar. Trígamo: Lisboa. Polígamo: Genebra. Amo tudo e mais alguma coisa e não é preciso sequer retribuir-me. Os meus amores aceitam sentidos únicos, mesmo que prefiram ser retribuídos.

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As senhoras de Palma deixaram de cozinhar? Como de resto as de todo o lado - a cidade está cheia de ciclistas das entregas de comida. Em Lisboa há mais? Há. A cidade é maior.

Se formos a ver, os senhores também deixaram de cozinhar...

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Como será a minha vida quando a minha vida acabar? Não sei. A capacidade de projecção que me foi atribuída não chega tão longe.

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Dois dias de trabalho: levar VIP ver a Copa del Rey e depois levar o bote para Ibiza. Oito horas sozinho a bordo. Largamente compensadas: durante o dia vou ter aquilo cheio de gente. É a tal alternância. Vá lá que ao menos as rosas são lindas.

Palma, desespero e outras incongruências

Bodega Can Rigo; Morey; Bodega Bellver; Gustar; Café Verde; Otaku; 7 Machos; Fornet de la Soca; Claudio; ... Não sei. Podia continuar até quase ao infinito e isto sem incluir os que despareceram: Antiquari, Ca na Chinchilla, Ca la Seu, Sa Sifoneria... Tudo isto espremido é a essência de Palma. Palma essencial, por assim dizer. Acrescente-se-lhes a catedral, o Jardin de la Reina, a Plaza Mayor, o bar Rita - não é um bar, é um monumento - o jardim de la Feixina; acrescente-se-lhes a luz. A luz. As ruas. A maneira que esta cidade tem de absorver o desespero, a dúvida. Acho que é isso que a singulariza, pelo menos a mim. Não há desespero que resista a um gelado no Claudio ou a rum no Jaime. Não há desespero que resista a estas ruas. Por grande e fundamentado que seja. A cidade entra-nos pela boca, pelo nariz, pelos olhos e pelos poros, que a absorvem, ansiosos e desesperados. Palma é uma droga. É o único sítio do mundo que conheço aonde o desespero é ridículo. Isto é: torna-se ridículo ao fim de quinze minutos de caminhada (ou pedalada). Palma transforma o desespero naquilo que ele é realmente: uma farsa. «Sobrevivemos-lhe», como diz Cioran, o lúcido. A vantagem de Palma é que a sobrevivência vem logo a seguir, não tarda um fósforo. Passeia-se por estas ruas, janta no Gustar, bebe um copo no Jaime, vai comer um gelado ao Claudio, vai ao Cliff ou ao mais anónimo dos cafés, ao mais banal dos bares.

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Qual é o contrário de desespero? Espero não é com certeza.

É família, essa família de quem hoje me despedi como se me tivesse despedido do desespero que me abandonou quando ela chegou.

30.7.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 30-07-2025

Três notas sobre a pimenta fermentada de Kampot:

a) Deve ser guardada no frigorífico;

b) Deve ser esmagada com os dedos, grão a grão;

c) Deve ser posta quando os alimentos estão prontos a ser servidos e nunca durante a sua cozedura (dos mesmos, acrescentaria se tivesse vontade de troçar dos adeptos dos mesmos. É uma raça tão lamentável que não dá sequer vontade de troçar dela - da mesma).

Acrescentos: 

1 - Kampot fica no Cambodja;

2 - Descobrir esta pimenta explica a sofreguidão da Europa Renascentista pelas "especiarias" (ou ajuda a explicar);

3 - Acho indecente, injusto e imoral que só agora tenha decidido prová-la. Isto diz muito sobre mim - a mim próprio, entenda-se - e nada abonatório. Mas diz também sobre o Cristian, que não "empurra". Para mim é uma qualidade.

4 - Poder-se-ia estabelecer uma analogia entre o meu gosto por determinadas especiarias - por exemplo: o sal de cocó, as pimentas fumadas (a verde e a negra, as únicas que até agora conheço), o pimentão de Vera, os cominhos de S. Luís, os melhores do universo - e a adesão doentia a um clube de futebol? Não. Nada a ver. Vade retro, Satanás. Aderir a um clube de futebol é um processo irracional, reside numa área do cérebro que não evoluiu desde os pré-hominídeos. Gostar de especiarias está na outra extremidade do espectro evolutivo. É civilizacional.

5 - Palma tem em comum com Genebra, para além da beleza da população feminina, serem ambas cidades pequenas que têm todas as vantagens das grandes e nenhum dos defeitos das pequenas. 

29.7.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares,, Espanha, 29-07-2025

À primeira vista o objectivo é simples e parece fácil: resvalar para o sono, escorregar simplesmente como se o dia fosse uma placa de gelo na estrada e de repente, sem dar por nada,  estivesse a dormir.

Infelizmente não há gelo na estrada. Houve uma visita à catedral, mais uma que foi outra vez a primeira; houve um jantar com a família no terraço do primeiro andar do Volta Dos; houve um sake no Otaku para fechar o dia e procurar a tal placa de gelo. 

Esquece, meu caro. Se queres dormir tens de querer dormir.

Não te basta escorregar.

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Não sei se já repararam, mas está na altura de invocar os Doors.

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(Continua, um dia.)

26.7.25

Essencial

- Na verdade, não custa nada. Basta concentrares-te no essencial. 

- Podes explicar-me em que consiste o essencial?

- ...

- Pois. Eu também não. Nem no que é importante conseguimos acertar, quanto mais no essencial. Nadamos num mar de dúvidas, de perguntas que às vezes têm resposta e mais frequentemente têm muitas, contraditórias, absurdas, enganadoras. Nadamos mas a piscina é redonda e só temos uma certeza: acabaremos no fundo, qualquer que seja a direcção. 

- Encontraste. O essencial é isso: nadar o mais correctamente possível. Correcto contigo e com os outros. O resto é conversa de encher piscinas.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 26-07-2025

Se eu fosse a Easyjet organizaria charters para Palma com dois objectivos: a) Provar o gelado de litchi do Claudio e b) Provar todos os gelados do Claudio. O resto - a catedral, estas ruas que nos dão vontade de nos perdermos nelas e não mais sairmos, os restaurantes (cf. infra) poderiam passar para segundo plano.

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Almoço com o V. na Osteria de Plaça San Francesco. Tagliatelle al ragú para os dois. Está praticamente ao nível do do Hugo, na Bottega Bolognese. À tarde, depois das múltiplas sestas venho à La Corderia, um pequeno bar de vinhos que abriu em frente ao After Landing. É pequeno, a música é jazz (diz-me o senhor que é feita por IA. Pata que pôs a IA), só tem vinhos de Mallorca e é giro, acolhedor. Chateia-me que as mesas sejam altas mas na verdade ao fim de meia dúzia de linhas já nem me apercebo disso.

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Ambivalências: também isto de não ter muito trabalho aborrece-me (com C maiúsculo) e ao mesmo tempo vou usufruindo deste descanso, mesmo forçado. A verdade é que de Abril a Junho trabalhei para o ano todo e se o dinheiro não tivesse já bilhetes marcados estaria na calma. Mas enfim, foi preciso deixá-lo voar para o seu destino. Outra ambivalência: não procuro muito trabalho em veleiros porque quero estar disponível para as lanchas - mas quando me chega uma oportunidade digo logo que sim, não hesito um segundo. Prefiro uma semana num veleiro a uma semana à espera de uma chamada.

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Amanhã chega a família. Esperam-me quatro dias de felicidade. (A belíssima população feminina de Palma vai aumentar de uma unidade.)

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Pensando bem: espero que a Easyjet não me oiça.

24.7.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 24-07-2025 / II

Será bipolaridade? Não sei. Será mesmo que em terra sou um e outro no mar? Em terra também fecho as tampas dos detergentes, ponho as facas bicudas com a ponta para baixo (já não se cortam as pontas às facas pontiagudas há muito tempo), não desperdiço água doce nem electricidade, não fecho nada à chave e deixo tudo por todo o lado - num barco nunca nada se perde, excepto o que cai à água e não flutua, como telefones portáteis e computadores (sobre isto, cf. infra). Por outro lado, em terra sou menos atento, menos rigoroso, menos alerta. Não sei.

Sei que neste estado de meio charter meio à espera não me sinto nem em terra nem no mar e que se calhar é por isso que esta actividade me chateia tanto, nos intervalos de me proporcionar momentos soberbos. Vá lá que estou em Palma. Isto é, em casa. Sem livros, mas em casa. Eles lá estão na casa deles. Sem língua portuguesa, mas em casa - eu trato de a falar e escrever e não a deixo fugir de mim.

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Há uns anos - quantos? Parecem tão poucos - descobri as farmácias e o poder mirífico que têm sobre a nossa vida. Os medicamentos são mais poderosos e mais eficazes do que «isto há-de passar» ou «a carcaça que se amanhe, é para isso que lhe dou de comer e beber». Hoje, por exemplo, fui à farmácia por causa de um golpe que dei num dedo ontem e que, naturalmente, infectou. Três aplicações de Betadine e Cuatrocrem e a infecção está em vias de se desvanecer. Ao contrário do que muitos de nós pensamos, o sistema imunitário pode, deve e merece ser ajudado.

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PS - Escrevi isto no bar Guindilla, um bar que tem as vantagens de ser bonito e ter boa música e as desvantagens de ser demasiado caro e só abrir de quinta a sábado. Um bocadinho como a piada do Allen: «a comida é má e as porções são pequenas». Ao chegar apercebi-me de que não tinha o telefone e pensei que o tinha deixado em casa. Mas a inquietação não me deixou, fui a casa e nada. Resumindo: o telefone estava no chão do bar e foi encontrado pela jovem empregada por causa de uma coisa chamada Find My Device, de que me tornei adepto, céptico e adepto outra vez.

Manda a justiça que se diga: o cepticismo veio-me de quando me roubaram a mochila o Find My Device dizer-me aonde estava e a polícia me explicar que não podia fazer nada para a recuperar sem um mandado de um juiz, de cujo ainda espero. (Também espero que se um dia jogar ao totómilhões ganhe os dois primeiros prémios porque quando jogo faço-o a dobrar.)

Diário de Bordos - Palma, Mallorca,, Baleares, Espanha, 24-07-2025

Desta vez não saí cansado. Saí exausto. Ainda estou, de resto, apesar da sesta que dormi como se tivesse morrido mas de que não acordei ressuscitado. Levantei-me meio morto e cheio de dores musculares. Se ser velho é isto, dispenso, obrigado. 

PS - Isto é de ontem.

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Atira-te ao rum, Luisinho. Atira-te ao rum e deixa o rio em paz. Aqui é fácil, não há rio. Há uma ribeira que no Verão nem riacho é. Já de rum podemos falar.  E de orujo também, que era o alvo antes de este brilhantíssimo jogo de palavras me aparecer a brincar com as decisões pós-prandiais. Deixei o orujo em paz, vim para casa, acabei o Legendario (metade de um meio copo) e ataquei a meia garrafa de El Dorado 12 Anos (ámen). 

Tenho consulta para os olhos marcada (enfim, isto devia esta r no plural. Tenho duas, mas vou anular uma) e tenho quase tudo. Só me faltam: meia dúzia de milhões de euros na conta bancária (isto é: a cair regularmente na conta bancária), músculos e articulações novas, um ouvido a funcionar correctamente, um Wally na marina e uma stew alimentada a sumo de pera-abacate, que à primeira vista tem efeitos muito positivos na anatomia das jovens modernas. Coisa pouca. Basta começar a jogar ao totómilhões. 

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Não se ver bem é aborrecido, muito mais do que não se ouvir bem. 

(Levantamento de ambiguidades: não me ver bem é uma sorte e não me ouvir também.)

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Não são cinco da tarde e o Claudio já tem uma fila de algumas vinte pessoas, contando por baixo. Ainda me lembro de quando me dava gelados a provar e pedia a minha opinião (e, pior ainda, seguia-a); e de quando me dizia que aquela localização não era boa e eu lhe respondia «Espera, Claudio. Os teus gelados são os melhores que conheço e hás-de ser reconhecido.»

Aposto que se jogasse no tal milhões seria, eu também, recompensado. (Enfim, ele há coisas mais fáceis de adivinhar do que outras.)

22.7.25

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-07-2025

É só meio dia, eu sei. Mas um gajo sai cansado, mesmo sendo o trabalho bastante menos do que num veleiro. E menos do que o de um dia inteiro, claro, apesar de não ter a certeza de que seja metade. O salário de meia dia tão pouco é metade do de um dia, aliás. É sessenta e quatro vírgula três por cento, o que explica a minha preferência por dois meios dias. Se pudesse fazer três fá-los-ia, olaré. Ou quatro ou cinco ou seis.

Infelizmente, o trabalho é como tudo o resto: não basta querer. Ter vontade de trabalhar é condição necessária mas não suficiente. 

Esses palermas que andam por aí a apregoar que "basta querer" referem-se de certeza às palermices que dizem: querer dizê-las é condição necessária e suficiente. 

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Aliás, pode aplicar-se a mesma grelha a "não querer", claramente insuficiente para não ter qualquer coisa que não se quer ter.

Eu por exemplo não quero vir de táxi de Porto Adriano para Palma depois destes trabalhos. Venho porque ainda quero menos esperar meia hora pelo autocarro e depois fazer numa hora um trajecto que de táxi faço em vinte minutos.

Talvez não fosse má ideia abrir uma competição entre "não quereres".

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Pedro Tamen:

"Querer-te: não querer e não querer.
Não fugir: ouvir o vento.
Amar-te é nao me esquecer
Da minha casa e assento."

Não tenho casa (mentira. Obrigado L.) nem assento. Tenho mar e vento.

"O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar."

E ainda há quem pense que se pode viver longe da língua portuguesa. Ou que o mar a pode substituir. Ou que qualquer coisa a pode substituir. 

Até a minha fotografia fala português. 

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Amanhã há greve dos autocarros. Vou ter de fazer a ida e a volta de táxi. Paciência. Sou adepto daquela teoria segundo a qual aonde se come a chicha come-se o osso.

(E o privilégio de pilotar vedetas topo de gama vale bem um sacrifício ou dois.)

Só é pena é não ser todos os dias, várias vezes por dia.

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Mar: amo-te.

Bem sei que já te disse isto milhares de vezes, mas nunca são demais. Amo-te e tu retribuis. 

Ainda há quem se admire de eu te ser tão fiel...

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Topo de gama, topo de gama. Ontem calhou-me uma Saxdor, bastante mediana, coitada. Mas hoje foi uma Frauscher não sei quantos, uma coisa linda de se morrer, oito clientes (cinco adultos e três crianças) e parecia que ia vazio.

Hoje houve conquilhas. Amanhã não sei.