15.1.11

Filigrana e camiões

Há pessoas assim: dão-te vontade de as seduzir porque se lhes tocas elas desfazem-se. Acordam o joalheiro que há em em ti. Já à outra seria o camionista que acorreria.

É uma coabitação difícil, mas infelizmente impossível de desfazer.

14.1.11

Um video interessantíssimo sobre Jerusálem

Cavaco e o mistério do Mar

O interesse de Cavaco Silva pelo mar é indubitável e não é recente. Foi, por exemplo, graças a ele que a vela olímpica se desenvolveu em Portugal (se bem agora alguém devesse completar o trabalho e perceber que a vela olímpica é o princípio, e não o fim da linha). Mas esta ideia tem de ser muito bem debatida. O mar é transversal, e encerrá-lo num ministério talvez não seja a melhor via. Isto dito, tão pouco se deve deitá-la fora presto.

"Cavaco defende criação do Ministério do Mar"

Quem manda

Nem Deus nem os deuses existem. Se existissem, não durariam muito: a realidade encarregar-se-ia depressa de lhes mostrar quem manda.

Os jovens deuses e a cera

Todos os jovens deuses têm problemas; infelizmente não o podem saber: deixariam de ser deuses.

Um dia aprendem, dolorosamente, que não é só na mitologia grega que a cera derrete.

Sonnent les matines

Primeiro, as boas notícias;
Infelizmente disse;
Bombeiros pirómanos;
Uma estranha concepção do patriotismo;
- O que há para dizer.

13.1.11

Olhar

Este gajo não me tira as mamas dos olhos. Que merda, estou farta deste olhar, como se estivesse a tentar descobrir vida num planeta a dez mil anos-luz. Não percebo por que raio de carga de água olha ele tanto: sou bonita, eu sei, com uns grandes olhos verdes e ar patrício, nobre; todos me dizem isso. Mas tenho umas mamas minúsculas, e é para elas que ele olha. Os homens são uns chatos, com as mamas. Quando são grandes é a maternidade, e mais tretas; quando são pequenas é porquê?

- Porque, minha querida Marianne, são um desafio: perguntamo-nos até onde as conseguiríamos fazer crescer, se as tivéssemos à mão.


GP - breve auto-descrição em poucos parágrafos

Este post é uma breve auto-crítica, inspirada nas minhas experiências (falhadas, todas elas) como gestor português (GP). Ao fim do décimo quinto falhanço fiz uma análise sobre as suas (deles, falhanços) razões e cheguei a estas conclusões. Perdoem-me a generalização: a verdade é que me apercebi que não estava sozinho na minha desgraça; e, sobretudo, que aquilo que me distingue dos outros GP é o nível dela (desgraça), e não, ao contrário do que sempre pensei, a sua constante presença em mim e ausência nos outros. Claro que a maior parte destas características não são exclusivas dos gestores, nem dos portugueses; mas o post é dedicado ao gestor português tal como fui e o vejo.

Note-se que para se ser um bom GP deve ter-se estas características todas simultaneamente. Um GP que tenha apenas algumas delas não passa de um GP suficiente, ou de medíocre se tiver só uma ou duas.

Erro
A primeira característica do gestor português, que o distingue de muitos outros é a relação com o erro.

Quando se aponta um erro a um GP ele toma aquilo como uma afronta pessoal, uma crítica essencial à sua excelsa e intocável pessoa. E defende-se, claro: "não foi um erro porque..." e desfia um rosário de argumentos para demonstrar que tem razão.

Ora os erros são inevitáveis (toda a gente os comete, menos o Papa e a Palmira Silva - [andam sempre juntos, no meu espírito]), cometidos de boa fé - um erro voluntário não é um erro - e, sobretudo, são uma inesgotável fonte de aprendizagem. Reconhecer um erro permite-nos não só evitar repeti-lo mas também, e sobretudo, aprender a evitar outros, pois diz-nos bastante sobre nós próprios. O GP não comete erros, portanto não os pode analisar, e está condenado a repeti-los.

Custos
Outra característica do GP é a sua mais do que legítima preocupação com os custos. O GP corta os custos todos que pode. Por vezes a poupança de meia dúzia de cêntimos custa-lhe largos milhares de euros, mas isso o GP não vê, pela razão exposta no parágrafo anterior.

Pessoal
O GP sabe tudo; e o que não sabe aprende em três artigos de jornal e duas conversas de café. Não vai, claro, gastar dinheiro (cf. "Custos") a aprender, e muito menos a contratar pessoal que saiba. Alguém que sabe é caro, naturalmente - e, sobretudo, inútil, pois se o GP não comete erros, para quê contratar quem, inevitavelmente, os vai fazer?

Para o GP, a única área de conhecimento verdadeiramente profunda e complexa é a que ele próprio e eventualmente, se for caso disso, o pai estudaram. Todas as outras são coisas pouco relevantes, que num piscar de olhos ele conseguirá absorver.

Empatia
A capacidade de empatia de qualquer GP é zero, por várias razões; a principal sendo que o mundo do GP é uma pirâmide da qual ele ocupa o topo; todos os outros habitantes dessa pirâmide estão, portanto, debaixo dele - e sentir empatia por quem quer que seja que seja hierarquicamente inferior arrasta imediatamente os parentes do GP para a lama.

Alguns GP, poucos, reconhecem que há outras pirâmides por esse mundo fora e escolhem uma de duas reacções possíveis: ou vêem que as outras pirâmides também têm um GP sentado no topo, e fazem o que podem para se darem com ele (pode sempre vir a ser útil e não é caro, apesar de o outro fazer de vez em quando alguns erros); ou pensam que essas pirâmides são ilusões de óptica e tratam-nas como tal.

Risco
Muita gente pensa que ser gestor é gostar do risco, apreciá-lo, medi-lo, e de vez em quando correr alguns riscos, ou tomar decisões arriscadas.

Está, qualquer GP lhes explicará, redondamente enganada. O risco é para os totós dos americanos ou dos ingleses. Um GP pura e simplesmente não corre riscos e só investe em coisas seguras - pouco, e com o apoio do Estado. O apoio do Estado está para o GP como o Papa para a Palmira Silva [ooops, lá vai outra vez. Sorry].

Decisão
Tal como o risco, muita gente pensa que se escolhe ser gestor porque se gosta de tomar decisões. Isso é verdade em alguns países cujos gestores são, nunca é de mais lembrá-lo, totós - Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Suiça - mas não para o nosso glorioso GP.

Tomar uma decisão rapidamente é reconhecer à realidade a força que ela tem, e na pirâmide do GP não há lugar para "realidades"  (entre aspas, pois realidade é uma coisa confusa que só existe noutros países. Em Portugal a realidade chama-se Estado, nuns casos, ou "eles" noutros, mais numerosos). O GP mostra a sua grandeza, a sua categoria, a sua divina qualidade não tomado decisões. Elas que se tomem a si próprias, se quiserem.

Comunicação
O GP comunica bastante - com a mulher, a amante, a oficina do BMW e com os amigos sobre futebol. Todas as comunicações provenientes da parte da pirâmide que não é ocupada por ele são descartadas, porque inúteis ou redondantes.

Visão
Apesar de bastante viajado - todos os anos vai "à neve", ao Nordeste e já foi uma vez à República Dominicana - o GP tem uma visão bastante local da sua actividade. Qualquer GP decente e normal ignora pura e simplesmente que há um mundo para lá do Guadiana (há excepções, claro - os que estendem os limites do mundo até aos Pirinéus; e os que se lembram, em fugazes lampejos, que Angola já não é nossa).

Em termos temporais, a visão do GP está limitada ao próximo jogo do seu clube de futebol. Até lá é uma eternidade; depois, é a eternidade.

Receios
O GP não tem medo de nada; armado com a sua infalível sabedoria, cortando custos como D. Afonso Henriques cortava cabeças, com uma visão claríssima daquilo que vai fazer nos próximos 5 minutos, protegido do risco como um rinoceronte dos mosquitos, só há uma, uma só coisa que o GP teme: a megalomania.

Para um GP a megalomania é o pecado capital: pensar grande, olhar para o futuro, arriscar, tomar decisões, ouvir as pessoas, formar equipas para concretizar um projecto são inequívocos sintomas de megalomania, e convem abrigar-se deles ASAP (esqueci-me de dizer que o GP fala um perfeito inglês comercial - o técnico fica para os PP, tema que em breve abordaremos). 

12.1.11

Milagres

Gosto de confirmar as coisas que já sei; é sempre bom pôrmos as nossas convicções à prova. Por exemplo: sei que não há milagres. Por isso tento fazê-los todos os dias; ou esperar que aconteçam.

11.1.11

De que falar, quando há tanto de que falar?



Recentemente fiz três jantares improvisados (polvo guisado, frango cozido e caril de atum) e um (Colombo de porco) que foi muito bem planeado. Todos receberam cumprimentos dos destinatários, excepto o caril, que estava medíocre; dei andamento a um projecto antigo, que me consumiu pouco mais de um ano de vida e me deu, em troca, um oceano de amargura; apercebi-me de muitas coisas boas e outras menos boas - por exemplo, posso passar por baixo de escadas, porque no fundo tenho muita sorte, o que é bom; e não sei dar nós com uma mão apenas, e amarrada atrás das costas, o que é mau. Descobri teorias da conspiração que roçam o sublime, de tão idiotas; que percebo um bocadinho de algumas coisas e muito de duas, só - o mar e tu (felizmente são as mais importantes, pelo que não me queixo de serem tão poucas). Confirmei que a esperança é a melhor coisa que Deus (ou a evolução, para o caso de algum ateu militante ler isto) nos deu, para além de dois ou três orgãos - entre os quais se conta o cérebro, apresso-me a acrescentar, não vá alguém deduzir ilações erróneas. Descobri que alguns barcos à vela (e outros a motor) são a coisa mais bonita que o homem jamais fez, incluindo os quadros de Mantegna e Caravaggio, e que o ilimitado poder de atracção do mar vem do facto de ele não exigir uma fidelidade absoluta - sabe que com ou sem ela a ele voltarei, sempre; emocionei-me com a carta de um amigo, pensei que gosto do vento e lembrei-me de que quando ele me acaricia penso em ti;  perguntei-me de onde vem este gosto imoderado por tudo o que é humano e achei, enfim, que o melhor é não falar de nada.

10.1.11

Tele-jugulo-economistas

"A vida está difícil para os tele-economistas", diz um dos lídimos representantes da Jugular School of Economics. É mais ou menos óbvio, não é preciso ir à Universidade, que a situação económica em Portugal é fantástica, e que temos vindo a convergir com a "Europa" a uma velocidade estonteante. Basta olhar à volta. A razão pela qual as pessoas emigram deve-se portanto, sem dúvida, à "convergência": os emigrantes têm medo do choque que Portugal vai fazer quando se encontrar com os outros países "europeus" e protegem-se.

Como é evidente que Portugal não está cada vez melhor e que os "Amigos de Sócrates" não são todos idiotas, só se pode concluir que para eles Portugal está melhor. Outra conclusão que qualquer observação empírica de realidade portuguesa confirma. Infelizmente, os "Amigos de Sócrates" são um clube bastante fechado, e a maioria da população portuguesa está impedida de a ele pertencer.

A resposta é:

É.

Fragilidades

É espantoso o que algumas mulheres, que nos levaram meses a seduzir, se revelam frágeis uma vez conquistadas; ou, ao contrário, outras se revelam fortes após um brevíssimo prelúdio. Não tenho, infelizmente, amostragem suficiente para fazer estatísticas - não sei se conquistamos as mais fortes mais depressa, ou menos; mas pergunto-me se connosco se passa o mesmo, para elas (isto, claro, deixando de lado questões metodológicas, hermenêuticas, semânticas e outras, irrelevantes porque o DV não é um blog científico)?


Não nos podemos queixar de tudo

Viver num país do terceiro mundo tem algumas vantagens, inequívocas e irrecusáveis.

"Dez radares não funcionaram e ninguém revela quantas multas foram cobradas".

8.1.11

Futuros e corpos

Era uma gaja franzina, de cabelos curtos espetados como os espinhos de um ouriço. Encontrei-a num bar da Nova Zelândia, um daqueles bares em que se juntam a malta dos livros e a do desespero. Antigamente havia um assim, em Lisboa. Chamava-se Bolero, creio. Era no Martin Moniz; eu gostava de lá ir, de madrugada. Bebia aguardentes e ouvia disparates, uns bons e outros maus. Foi disso que me lembrei, quando ela me disse "não tenho futuro, mas até agora não me têm faltados corpos. Prefiro um presente povoado a um futuro deserto". "E não tens medo de ter os dois?", perguntei-lhe. "Tenho", respondeu.

Expressões

Exprimo bem o que sinto, e mal o que penso; talvez sinta melhor, repara, do que penso. Não sei. Não quero saber. Tu fazes-me sentir como ninguém jamais fez. Deixemos o pensar para depois, pode ser? Não fales, não oiças. Fecha os olhos, os teus e os meus.

O que sobrar é o que importa.

Nouméa

Isto fica por aqui, minha querida. Não vale a pena tentares-me com essas mamas das quais me lembro como meloas maduras no verão, sumarentas e doces; nem com os beijos ávidos com que me percorrias o desejo. Fica por aqui. Passsámos três anos juntos, não foi?, três anos durante os quais demos aos corpos mais do que eles podiam digerir. "On s'est gavé de nous mêmes", como gansos sôfregos, e agora chega. Há muito tempo, aliás. Vou-me embora. Amanhã parto para Nouméa. Chego daqui a dois meses.

Telefono-te quando chegar.

Censura

Há uma tentação totalitária, fascistóide, censória no homem. Da qual o caso grotesco de Huckleberry Finn é apenas mais uma manifestação.

6.1.11

Parabéns

Ao Delito de Opinião, que faz dois anos e parece que existiu sempre.

BPN, ou: Indigência

Cavaco Silva, foi, quanto a mim, uma fraude enquanto primeiro-ministro. Isto é, entendamo-nos: foi de longe o melhor PM que Portugal teve nos últimos anos; mas mesmo assim esteve muito longe de ser um bom PM (talvez tenha sido o PM possível, mas isso é outra história). À primeira vista poderia parecer estranho que as pessoas que o atacam prefiram usar o BPN às suas falhas enquanto PM, mas não é: todos temos tendência a julgar os outros pelos nossos próprios parâmetros, e quem passou os últimos 15 anos, ou lá perto, a transformar o país num regabofe vai, claro, identificar o que lhe está próximo, o que identifica como causa. Não tendo uma única ideia para Portugal, não é capaz de criticar ideias; nada tendo feito, não sabe distinguir quem fez; tendo-se alambazado de uma forma que na maioria dos países seria passível de julgamento olha para aquilo que lhe parece familiar.

O que não consigo - e tenho tentado - compreender é como é que um partido cujo líder está envolvido nos escândalos em que este esteve; como é que o partido dos Rui Pedro Soares, de Vara, dos robalos, das chefias aumentadas retroactivamente para evitar os cortes de salário decididos pelo Governo que dele emana, da ampliação do terminal de contentores de Alcântara tem lata para criticar Cavaco Silva por causa de uma coisa cuja ilegalidade ou - é importante - ilegitimidade não resistem a dois segundos de análise.

É que não há um negócio, um, analisado pelo Tribunal de Contas que saia com uma aprovação límpida e clara; e chateiam que compra e vende acções de uma empresa, e ganha dinheiro com isso. Prefeririam talvez que o perdesse - assim estaria mais em linha com o que este grupo de incompetentes faz ao país (mas não a si próprio, verdade seja dita).

Adenda: "Ora, sabe-se, por investigação jornalística, que o cidadão Cavaco Silva e família investiram mais de trezentos mil euros em acções da entidade proprietária do BPN, tendo em pouco mais de um ano auferido lucros de 140%! Cavaco vai ter de explicar como isto foi possível." (Via Jugular)

É verdade que vai ser preciso explicar bem explicadinho. Afinal Rui Pedro Soares ganhou muito mais e investiu muito menos. Para dar um exemplo, só um. Há mais.