22.1.13

Coral Bay, St. John, USVI, EUA, 22-01-2013

Um gajo acaba de escrever o título do post e já está cansado. Depois confronta-se com as inconsistências do "teclado" e perde a vontade toda de escrever.

Tanto mais que hoje é noite de karaoke no Island Blues, o bar onde ouvi a melhor música ao vivo dos últimos tempos.

Isto do karaoke é uma das incongruências da vida. Com tanta gente talentuosa que não quer cantar, por que raio de carga de água inventaram um mecanismo que permite a quem não tem talento massacrar os ouvidos dos inocentes?

O Island Blues é o único bar de Coral Ay que tem wifi...

Pseudo-hipérbole; ou: Retrato

A senhora parece uma versão feia da Patti Smith. Não é uma hipérbole. A poesia faz as pessoas mais bonitas, simplesmente. 

Infelicidades, grandes e pequenas

Que as pequenas infelicidades se dissolvem nas grandes (e no rum, mas isso agora não interessa) é sabido e conhecido; banal. Mas que as grandes se dissolvem nas pequenas - isso sim, é uma novidade entusiasmante.

20.1.13

Coral Bay, St. John, USVI, EUA, 20-01-2013

Pela primeira vez em muito tempo acordei com uma dor de cabeça de origem hepática. Como estou de turista, penitenciei-me com um passeio pela ilha. S. está no ferro e está bem, calmo. 

A caminhada foi curta, mas intensa: meia-hora de subida transformam em forno o mais fresco dos dias. Acabei a pedir boleia mais cedo do que tinha previsto. De qualquer forma estava um aguaceiro a chegar e e e.

O carro que parou explicou-me que não vinha directamente para Cruz Bay, o que agradeci profusamente. Eram o armador, respectiva namorada e skipper de um Sunreef 62 que está fundeado em Cruz Bay e andavam a dar uma volta pela ilha.

Que fiquei, portanto, a conhecer parcialmente. St. John é quase toda um parque nacional, com poucas casas e uma vegetação que deve ser a original destas ilhas. Conheci igualmente a "capital", Cruz Bay, uma cidadezinha pequena, à escala da ilha, e muito americana. A diferença entre St. John e St. Thomas é abismal. "Um mal necessário", chamou-lhe o meu colega de boleia no regresso, um senhor que vem a St. John desde 1981. Não sei se é necessário, mas mal é de certeza.

E assim, entre penitências e encontros simpáticos passou o dia; a primeira folga num mês e quase meio. 

19.1.13

Tempo, parênteses

Uma má notícia esperada durante muito tempo deixa de ser notícia; mas não deixa de ser má.

O tempo parece uma concertina tocada por um gajo que tomou LSD: às vezes estica-se até  parecer que vai rebentar, outras encolhe-se até desaparecer.

Eu trato disso com parênteses: abro-os e espero que eles se fechem. Com pouca dor e pouco barulho, se possível.

Coral Bay, St. John, USVI, EUA, 19-01-2013

Um dia acabarei assim: um bar caótico com uma vista linda de morrer, uma mulher feia com cara de quem viveu muitas vidas e um barco sublime como a vida e as mulheres feias fundeado em frente (do bar). Será como agora o fim de um dia sem vento, o fim de uma história, um parênteses que se fecha.

Coral Bay lembra-me Bequia, já por aqui o disse. Com uma excepção: o Island Blues, que agora me acolhe tem uma vista mais bonita. Mas é o mesmo bar, em branco. E a música é incomparavelmente melhor.

Estou apaixonado pelo S., a minha senhora rabugenta, o meu encantador chaço. Um dia ele retribuirá.

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Coral Bay é a "cidade" (isto precisava de um quilómetro de aspas) para onde os hippies do mar se retiram. Está cheio de velhos de cabelo comprido e de gente nova que - suponho - os inveja. Mas, seja  Deus louvado, não tem yachties. Tem mosquitos - toneladas deles - hippies, músicos, senhoras sozinhas, muitos barcos e um "super" (sai um quilómetro de aspas para a mesa do canto)-mercado. Mas não tem yachties.

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Há outra diferença: aqui um gajo tem a impressão de estar numa cadeira de cinema; em Bequia está no palco.

Beleza, idade

Passada uma certa idade as mulheres deixam de se preocupar com a beleza. Pelo menos algumas, com alguma.

Redhook, St. Thomas, USVI, EUA,18-01-2013

Pela primeira vez sinto-me bem em Redhook; a melancolia feliz é a minha casa. Ou a sua fundação, quem sabe.

A substância no sangue baixa, à custa de muita água e salada. Para não lhe dar falsas expectativas (ao sangue) encarrego-me de a fazer subir, com uns Mount Gay e - já que regressei ao Pub - Irish Coffees (sem açúcar, não gosto deles doces. Nem delas, de resto; mas isso é outra história). Ainda não me apreenderam a carta de dinghies.

No Latitude 18 tocava uma banda que me fez pensar nos Fruto de la Manga. Mais velhos e americanos, mas com o mesmo espírito. É uma função nobre, devolver a melancolia à felicidade - ou, ao invés, esta àquela.

«Esta é a canção favorita da minha avó» anunciou o chefe da banda numa das canções. Abençoada avó (o senhor tem pelo menos setenta anos).

Os Irish Coffee são demasiado doces. E caros, o que ainda é pior. Mas num pub "irlandês" a única pessoa feliz tout court é o dono. Sem melancolias, a julgar pelo facies do homem, um irlandês obeso com uma orelha permanentemente atrás de um auscultador de telefone. A musica é boa, a comida também, parece. Para o resto há braços, pernas e um bocadinho de cabeça.

18.1.13

Velhice, paz

A senhora da mesa em frente terá aquela cara quando morrer; a mesma expressão pacífica, o mesmo sorriso generoso.

A paz é tão bonita como a felicidade; e muito mais contagiante.

Rir é a minha profissão

Há uns anos li um romance cuja personagem principal tinha por profissão emprenhar senhoras - amas de leite que precisavam de estar grávidas, claro. Exercia esta nobre função seis dias por semana (ainda não havia semana inglesa, no tempo da história). Aos domingos consagrava-se à esposa.

Cada vez que vejo na televisão aquelas pessoas cuja profissão é rir, estar permanentemente de bom humor, contagiar as audiências e os outros participantes penso no senhor e pergunto-me como farão em casa. Terão um dia reservado para rir?

Mundo, vida

Meia duzia de dias sem acesso ah net. Agora tenho, mas sem acentos (jah agora, alguem me pode dizer como os ter num tablet Toshiba?).  Dizer que regresso ah vida eh um exagero. Mas sinto-me de regreso ao mundo, isso sinto.

Ainda não é isto, mas já está mais perto.


9.1.13

Redhook, St. Thomas, USVI, EUA, 09-01-2013

A minha senhora velhota continua com as crises de rabugice e ontem lá pegou fogo outra vez. Exagero: curto-circuito, muito fumo e um cheiro atroz a queimado, mas nada de chamas, graças a Deus. Desta vez um extintor foi suficiente. A boa notícia é tudo indicar que este está relacionado com o anterior: prefiro um problema com várias ramificações a vários problemas independentes.

S. é um barco magnífico. Só precisa de um bocadinho de cirurgia - não plástica, refiro-me a cirurgia a sério.

Agora está fundeada na baía, trinta pés de fundo e quase duzentos de amarra, para ter a certeza de que não sai do sítio. Está vento, e se lhe dá para a asneira é uma chatice.

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Escrevo no Café Gourmet do  American Yacht Harbour, a marina local. Gourmet sempre me pareceu um termo bastante abusado, mas neste caso o abuso é escandaloso. Vale a vista, bonita; e a música, entre o aceitável e o bom.

Não posso ouvir nada a bordo enquanto não tiver o problema resolvido, espero que amanhã. Tem sido um prazer inesperado, este reencontro com a minha música.

Já as BVI são o que esperava: uma seca; bonita, mas seca. As Caraíbas acabam em St. Martin, quando se vem do Sul; e começam em Antigua, quando se vai.

8.1.13

Charlotte Amalie, USVI, EUA, 07-01-2013

Voltei ao Twisted Cork, para celebrar algo que o será de novo em breve. Comi um pato que vai estabelecer padrões para todos os patos daqui para a frente. É uma chatice, isto de aos cinquenta e cinco anos ser surpreendido por um pato.

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Faz hoje um mês que cheguei a Miami. Como é possível viver sem viver tanto, num só mês?

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As BVI são demasiado brancas para o meu gosto. Daqui a 3 dias andarei por lá, desta vez com o filho de C. e amigos. Pode ser que comece a gostar mais.

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Clément 10 anos - o rum francês, à falta de El Dorado, Mount Gay e alguns outros é excelente.

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S. é uma senhora velha, rabugenta e gorda. Coo consegue ser amável apesar disto tudo é um mistério - ou um teste.

Zona de conforto

Há poucas expressões mais estúpidas do que zona de conforto: os problemas que encontramos fora dela são tão melhores do que os que tínhamos quando lá estávamos.

7.1.13

Charlotte Amalie, USVI, EUA, 06-01-2013

Amanhã os queridos armadores vão-se embora.

Soper's Hole, Tortola, BVI, Reino Unido, 05-01-2013

É um daqueles dias em que preciso desesperadamente de net; para me lembrar que não devemos nunca precisar desesperadamente seja do que for - vento, amor, net, seja o que for. Vento há muito, por aqui; e amor tenho. Mas net não. E depende tanto de mim como este ou aquele: nada. Vou dormir. Daqui a três dias faz um mês que trabalho ininterruptamente, muitas vezes mais de doze horas por dia.

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Pela primeira vez em muito tempo estou completamente sozinho. Os armadores foram jantar a terra, convidados por um casal amigo a um restaurante luxuoso, pelo menos a julgar pelas fotografias que C. me mostrou. E. está-se nas tintas. Descendente de russos que vieram para os EUA no princípio do século XX, self made man, riquíssimo, ainda se lembra do que é ser pobre. É uma das coisas de que gosto nele.

Mas é forçoso reconhecer que um tipo incapaz de usar a expressão "o meu chefe", a quem dizer "o meu patrão" provoca um irrepressível e incompreensível incómodo não é feito para ser skipper de proprietário, por adorável que este seja.

O charter tem várias vantagens: os clientes só ficam uma semana, não têm hábitos e não conhecem o barco. Posso fazer as coisas como gosto, pela ordem que me parece melhor, quando acho que é preciso fazê-las.

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A Marina de Soper's Hole parece-se furiosamente com a de Marigot Bay, em St. Lucia. Em maior: Soper's Hole é muito maior do que Marigot. Mas a sensação de estar num buraco é igualzinha.

5.1.13

Spanish Town, Virgin Gorda, BVI, Reino Unido, 04-01-2012

G. foi desembarcado hoje com uma limpeza que me deixou admirativo. Gosto de coisas bem feitas, e esta foi-o, sem dúvida. A ver como se o rapaz se safa, e como.

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Mais um dia, mais uma ilha, mais uma avaria. S. é uma velha senhora rabugenta que todos os dias tem um achaque, para nos lembrar que quem gosta do que é bom paga. Hoje foi o frigorífico; ontem o gerador; anteontem a grande - o rasgão é pequeno, mas tem de ser tratado assim que chegar a St. Thomas. Devia ser antes, mas não tenho tecido a bordo e não quero coser o pano e deixar os pontos à vista. De qualquer forma aguenta o que nos espera, meia dúzia de horas à popa.

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A ilha do dia é Virgin Gorda, uma das grandes e a mais a leste do grupo central. Como sempre não vejo nada: a marina - simpática, mas não mais; e o caminho, muito curto, até ao restaurante Chez Bamboo, uma maravilha à qual o site não faz de todo justiça.

Comer nas Ilhas Virgens requer uma certa capacidade financeira, mais do que estomacal (enfim, a maioria das vezes). Felizmente não sou eu que pago as refeições; precisaria doutro salário, se fosse.

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Daqui a três dias E. e C. vão-se embora; três dias depois chegam M. e um grupo de amigos. Depois tenho duas semanas de "férias" - entre aspas porque uma delas vai ser passada a trabalhar.

A outra vai ser em Antigua.

Podia ser pior.

Aniversário

O Don Vivo fez nove anos vai para cinco dias. Não me lembrei da data (não é a primeira vez e não será decerto a última), mas não a quero deixar passar sem menção.

Nestes nove anos aconteceram muitas coisas, boas e más; e das boas a grande maioria foi provocada pelo DV. Dizer-lhe obrigado não seria tão espúrio, ou arrogante, como à primeira vista pareceria. 

4.1.13

Marina Cay, BVI, Reino Unido, 03-01-2012

G., o insubstituível tripulante suíço caíu em desgraça. Goza demasiado a viagem.   Um tripulante pode gostar do que faz - e eu não tenho a certeza de que ele goste por aí além - mas não pode gozar. Dormir ao sol com os auscultadores nos ouvidos não se faz, por exemplo.

Tenho pena, por um lado; o rapaz é simpático e eficaz. E acho injusto, por outro: a verdade é que sem ele a viagem até St. Thomas teria sido muito mais complicada. Vi o filme todo em antestreia, mas não intervim. Não só não fui eu que o contratei como propus uma pessoa impecável para estes dias. Não quiseram, o problema é deles.

E dele, que vai ser desembarcado amanhã sem saber como nem porquê. Um dia perceberá, é inteligente e tem tempo.

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Marina Cay é uma ilhota minúscula à beira de Tortola onde há muitos anos viveram um senhor chamado Robert White e a sua mulher. Três anos, ao que parece, até ele ser chamado para a tropa (decorria a Segunda Guerra Mundial) e nunca mais cá voltaram.

Hoje tem um hotel, um Pusser's e nada que a distinga de centenas de outras ilhas, grandes ou pequenas, das BVI, apesar dos esforços - bem sucedidos, a julgar pela quantidade de clientes - do departamento de marketing da empresa.

É nas BVI que vou ficar baseado esta época. Não é muito longe de Antigua, mas os bilhetes, via LIAT Airlines, são caríssimos. Malditos monopólios, malditas empresas estatais, maldita distância.

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Navegar aqui faz-me lembrar os passeios no lago Léman. Não é provocação: não consigo deixar de pensar no lago, quando olho para estas montanhas que nos rodeiam como se lá estivéssemos, estas "navegações" de hora e meia... enfim, tudo o resto é diferente, reconheço. Incluindo a gigantesca barata que acaba de percorrer o topo do monitor do meu computador, com uma desfaçatez inaceitavel - que ficou por punir, infelizmente beneficiou do meu espanto e conseguiu escapar-se ilesa.

2.1.13

The Bight Bay, Norman's Island, BVI, Reino Unido, 01-01-2012

As BVI não são o meu canto favorito das Antilhas; mas devo reconhecer que há sítios piores para começar o ano - ou para o continuar, que isto de pôr cancelas no tempo vale tanto como pedir-lhe para esperar um bocadinho, que o dia está lindo. Ou despachar-se, que o fim do ano é uma seca.

E., C. e eu fomos deitar-nos cedo; ainda ouvi o concerto de sirenes à meia-noite, mas já de fugida. G. foi à terra. A julgar pelo que vi durante a tarde não deve ter sido uma experiência inesquecível - dinghies atulhados de putos de copo na mão a dizer adeus a tudo o que passava, "música" de dança (entre aspas porque não me habituo a chamar música àquilo e não quero habituar-me), miúdas histéricas e rios de rum.

O amanhecer foi surpreendente, porque a maioria dos barcos levantou ferro bastante cedo. Nós também: fui a terra comprar água e viemos para Norman's Island, a ilha que inspirou a Stevenson A Ilha do Tesouro. Há pouco a dizer desta navegação que não seja repetitivo: a maravilha - esta repetição de verde, azul e vento - é monótona.

Mas nem sempre a monotonia é aborrecida, muito antes pelo contrário.

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Que longe está Palma! E Portugal, ainda mais. Parece que o Cavaco mandou o orçamento para o TC. Qualquer dia desligo-me de todos os blogues portugueses que leio e começo a preocupar-me apenas com o que é importante: tu, uma embarcação de vela e uma ilha nas Caraíbas. O resto é paisagem, história, espuma, periferia.

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Tanto quanto percebi há dois restaurantes em Norman's Island. O outro chama-se Willie T. e é onde os armadores foram comer. Nós viemos ao Pirates Bight. Não sei de onde vem o Pirates - talvez da relação quantidade / preço (a qualidade é indiscutivelmente óptima, mas as porções são minúsculas) -. G., que tem um apetite capaz de envergonhar Gargantua, olha desesperado para o prato vazio e diz que sabe a pouco. Acabei por encomendar Conch Fritters, uma especialidade local que raramente é bem feita e desta vez não foge à regra; pelo menos a quantidade é a habitual. Ofereço o último a G., que agradece e me diz "sinto-me como um aspirador humano". O meu pai chamar-lhe-ia triturador, ou coisa que o valha.