7.4.13

Mer, visage


"Il n'y a jamais assez de mer pour les visages aigus des bateaux."

Le Clézio

Vida, tempestade

Vou para o mar com um aviso de tempestade em curso. A vida nova vai chegar depressa.

Emeryville, Califórnia, EUA, 07-04-2013 / II

Daqui a hora e meia largamos. Vou para o mar com um aviso de tempestade: amanhã e depois vamos ter vento forte. Mas à popa, e o ARCTIC FRONT é forte, está preparado para isso e mais, a tripulação confiante e motivada.

Ainda há muito que fazer no ARCTIC FRONT (se bem seja apenas estética, é importante recebermos os primeiros clientes de cara pintada), e 40 nós está longe de ser um ciclone.



Emeryville, Califórnia, EUA, 07-04-2013

"Next morning, at daylight, the Narcissus went to sea.

A slight haze blurred the horizon. Outside the harbour the measureless expanse of smooth water lay sparkling like a floor of jewels, and as empty as the sky. The short black tug gave a pluck to windward, in the usual way, then let go the rope, and hovered for a moment on the quarter with her engines stopped; while the slim, long hull of the ship moved ahead slowly under lower top-sails. The loose upper canvas blew out in the breeze with soft round contours, resembling small white clouds snared in the maze of ropes. Then the sheets were hauled home, the yards hoisted, and the ship became a high and lonely pyramid, gliding, all shining and white, through the sunlit mist. The tug turned short round and went away towards land. Twenty-six pairs of eyes watched her low broad stern crawling languidly over the beating water with fierce hurry. She resembled an enormous and aquatic blackbeetle, surprised by the light, overwhelmed by the sunshine, trying to escape with ineffectual effort into the distant gloom of the land. She left a lingering smudge of smoke on the sky, and two vanishing trails of foam on the water. On the place where she had stopped a round black patch of soot remained undulating on the swell -- an unclean mark of the creature's rest.

The Narcissus left alone, heading south, seemed to stand resplendent and still upon the restless sea, under the moving sun. Flakes of foam swept past her sides; the water struck her with flashing blows; the land glided away, slowly fading; a few birds screamed on motionless wings over the swaying mastheads. But soon the land disappeared, the birds went away; and to the west the pointed sail of an Arab dhow running for Bombay, rose triangular and upright above the sharp edge of the horizon, lingered, and vanished like an illusion. Then the ship's wake, long and straight, stretched itself out through a day of immense solitude. The setting sun, burning on the level of the water, flamed crimson below the blackness of heavy rain clouds. The sunset squall, coming up from behind, dissolved itself into the short deluge of a hissing shower. It left the ship glistening from trucks to waterline, and with darkened sails. She ran easily before a fair monsoon, with her decks cleared for the night; and, moving along with her, was heard the sustained and monotonous swishing of the waves, mingled with the low whispers of men mustered aft for the setting of watches; the short plaint of some block aloft; or, now and then, a loud sigh of wind."

Joseph Conrad, "The Nigger of the Narcissus"

Doce

Doce é a maldade, quando dela beneficiamos.

Guerra civil, II

Está frio, calor, frio. São Francisco é uma guerra civil meteorológica.

Dor, felicidade

A felicidade é um mau guia. Só a dor nos mostra o que somos, quem somos, e para onde vamos.

Ou devemos ir.

Mar, idade

A idade ensina-nos que não somos omnipotentes, mas de uma forma violenta, quase malsã. O mar diz-nos a mesma coisa mais suavemente. Como as evidências devem ser ditas, ou dadas a ver.

Maldade, bondade

A bondade conhece-se num ápice; a maldade é inesgotável.

Emeryville, Califórnia, EUA, 06-04-2013 / III

Tomorrow, that dreadful word, reappeared. Never been delayed by so stupid a reason: not being able to return a rented car.

Nesta terra em que tudo está aberto vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, cinquenta e duas semanas por ano (incluindo os anos bissextos) as agências Avis de Emeryville e Berkeley fecham ao sábado à uma da tarde e - pior - não aceitam after hours returns

Tentámos fazer disto o melhor possível (tradução possível de make the best of it): comprámos uma quantidade razoável de garrafas de vinho e conversámos. Estamos todos ansiosos por nos irmos embora, cada um precisa de mar por razões que lhe são específicas; a cada um o mar se recusa por razões incompreensíveis.

Da lista toda de hoje já só falta entregar o carro (e comprar mais limões, mas isso quase não conta). 

Amanhã largamos. Amanhã é a palavra mais feia do vocabulário. 

Quando penso no que já gostei dela....

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Em contrapartida as nossas experiências gastronómicas continuam óptimas. Ontem fomos jantar a um restaurante americano - uma experiência pouco habitual - e depois fomos beber um copo a um bar.  Pela primeira vez saí de Antigua. Dry Martini e Alexander perfeitos, serviço de dar vontade de ir directamente para o altar com a empregada,  ambiente magnífico. 

A civilização é a coisa mais bonita que o homem inventou, depois do amor, ou da falta dele.

6.4.13

Emeryville, Califórnia, EUA, 06-04-2013 / II

Falso alarme! Encontrei o saco, o dinheiro e o passaporte. Estavam no shipchandler onde fui a semana passada. M. vê nisto a mão de Deus. Eu vejo a da honestidade do empregado que encontrou o saco, e mais ainda, recusou a recompensa que lhe quis dar.

Falta arrrumar as últimas provisões, comprar uma extensão para a antena GPS, entregar o carro e largar. Falta pouco.

"Todo o homem é uma guerra civil"*

É espantoso como a maldade e a bondade podem coabitar nas pessoas; ou o amor e o ódio, a tristeza e a alegria, o alívio e a frustração, a esperança e o desespero.

(* - Título de um livro de Jean Lartéguy "Tout homme est une guerre civile")


Emeryville, Califórnia, EUA, 06-04-2013

Esta amaldiçoada transição, iniciada a 4 de Dezembro com uma decisão desastrosa continua maldita. Ontem dei pela falta da mochila verde, Eagle Creek, comprada em 93 antes de ir para o Burundi. Estava velha, e há muito pensava deitá-la fora. Mas com ela foram algumas centenas de dólares e o passaporte. Navegar nestas áreas com o passaporte já é um pesadelo de burocracia. Sem ele vai ser uma experiência interessante.

Também ontem, muito antes de me ter apercebido da falta do passaporte, dei por mim a pensar que as primeiras coisas que vou comprar para a minha casa na Costa Rica vão ser uma televisão, um leitor de DVD e uma colecção de filmes clássicos. Isto anda tudo ligado.

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Largamos hoje ao meio dia. Hoje é uma palavra tão mais bonita do que amanhã.

5.4.13

Lagos

Pode gostar-se muito de lagos, mas é preciso ver-lhes o fundo para os conhecer verdadeiramente.

4.4.13

Desprezo, amor

Pode amar-se e odiar-se alguém simultaneamente. É frequente, de resto. Mas não se pode amar e desprezar a mesma pessoa ao mesmo tempo. O amor - como o ódio - confere uma existência, um ser, a quem desprezamos; a quem, aos nossos olhos não é.

3.4.13

Emeryville, Califórnia, EUA, 03-04-2013

"Ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo". Como não posso, felizmente, voltar a ser menino e prefiro ter  a mão dele perto tenho de emborrachar-me. É um sacrifício permanente; nem sempre consigo, apesar dos esforços que faço. Mas quando calha e a divina mão da providência está lá acho que valeu a pena tanta dedicação.

As minhas costas estão a recuperar a uma velocidade estonteante. Já consigo andar quase normalmente, e a dose de mio-relaxante (que o Er. conseguiu apesar das severas leis americanas) tem vindo a ser reduzida. Hallelujah!

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Cada vez percebo menos a (para mim) injusta reputação que os americanos têm de comer mal. Tenho comido maravilhosamente desde que cheguei aqui - tal como, de resto, comi bem na Flórida, onde provei o melhor caranguejo da minha vida, de muito longe. E isto desde as tascas mais tascas até aos melhores restaurantes.

Ontem fomos a um restaurante japonês chamado Ozumo. Desde o Miyako em Genève que não como tão boa comida japonesa. Anteontem fomos a uma tasca "Hawaianan BBQ". Magnífica (se bem aqui não tenha pontos de comparação, o buffet do Trader Vic's no domingo de Páscoa não tinha nada do Hawai).

Acabámos no Hi Dive, um bar agradável com uma soberba vista para a baía.

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O ARTIC FRONT está praticamente pronto, a tripulação em forma e motivada. Amanhã largamos. Amanhã é sem dúvida a palavra mais utilizada quando se está a preparar uma embarcação de vela para uma viagem de quase três mil milhas.

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Quem pensa que os Estados Unidos (pelo menos aqui) são o paraíso da tecnologia engana-se. A rede de telefonia celular está permanentemente em baixo, o wi-fi é fraco e é quando existe. Para o estado do Silicon Valley é pelo menos surpreendente.

País

Tu és o meu país. Sem ti todo o mundo é estrangeiro.

Está quase


2.4.13

Parabéns

À Carla e à Bomba. Dez anos é muito tempo.

Emeryville, Califórnia, EUA, 01-04-2013

Nada é simples e tudo se complica, como muito bem dizia Goscinny. Domingo dei meio dia de feriado à tripulação e fomos todos festejar Domingo de Páscoa. Almoçámos no Trader Vic's, um restaurante hawaiano aqui na marina que faz (e aparentemente inventou, a casa original) o melhor Mai Tai que jamais bebi na vida.

Gastámos uma quantidade apreciável de dinheiro, pelo que resolvemos ir a San Francisco. Começámos pelo Rouge et Blanc, uma garrafa de Saumur que tinha provado no outro dia; depois fomos a um pub irlandês, um restaurante mexicano, um bar... quando voltámos para bordo estávamos.

Como de costume lembrei-me de que tenho 55 anos e tentei saltar o portão da Marina. Acabei dentro de água, bastante baixa por sinal, e hoje acordei com uma dor nas costas que pensei me deixaria em terra e numa cadeira de rodas.

Mas felizmente o meu corpo continua o velho e fiel companheiro de sempre, e com uns comprimidos, umas horas na cama e pouca actividade física está a recompor-se a toda a velocidade. O Er. e o R. foram impecáveis, são profissionais de primeira (e tripulantes e pessoas). Espero estar em ordem dentro de dois ou três dias.

Largamos quarta-feira, a descida do Napa trouxe algumas avarias à tona. Coisa pouca, é de certeza o diabo a dizer-me que não devo rir-me dele.

Mas rio, claro. Quero que ele se lixe. Se pensa que é com uma dor nas costas e as bombas para mudar que me deita abaixo está bem enganado.

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M. acabou por ir para casa, a mulher está doente e com problemas. Quanto a mim já o devia ter feito há muito tempo, mas é compreensível, dados o tempo, dinheiro, energia e sonhos que investiu neste projecto. Reembarca em San Diego.

Vou finalmente conhecer essa cidade que há tanto tempo quero conhecer, a cidade do Big Bad Dennis, o primeiro americano a perder a Taça e o primeiro homem a recuperá-la. Se, claro.

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O frio continua. Esta cidade é invernal, mesmo num dia lindo de primavera, céu azul, nem um nó de vento.