6.6.16

Mais cedo?

Um gajo decide mudar de vida. "Decidir" é um facilitismo, uma preguiça; o processo é longo, telúrico, vulcânico de lava lenta. Arrasta-se até que um dia um gajo dá por si numa vida nova, como se tivesse sido esta e não ele a mudar. Até que um dia um gajo se pergunta "porque não o fiz mais cedo?"

4.6.16

Rachmaninov

O único problema das Vésperas é magoarem tanto. A beleza não devia ser tão agressiva, tão dolorosa.

[Adenda: poderia ser uma crítica ao rock: não é doloroso].

Definição - escrever

Escrever é lutar contra as vírgulas e as palavras inúteis: quase todas.

Noite, livro

Que noite escolher, que livro?

Blanc cassé

"Linhas em branco", leio num artigo sobre o congresso do PS. Parece-me muito mais um plano de vida, coisa que transcende o PS, os congressos e - sejamos honestos - qualquer partido.

Corta-palavras

Quanto mais curto um texto mais tempo leva a ser escrito. Pagar um escritor à palavra é uma injustiça e uma incompreensão. Quando muito deviam pagá-los à palavra cortada.

Memórias prévias

Como se fosse ontem: não sei. Só me lembro do que vai acontecer amanhã.

Merdas básicas

Escrever é uma necessidade básica. Por isso sai tanta merda.

Como o dia e a noite

De repente o ar torna-se ligeiro.

"Já quase no fim: uma mulher envolta em panos
e véus escuros veio e prometeu o vento.
E fez - plantou
na areia duas grandes ventoinhas, ..."

(Manuel Gusmão, in  Pequeno Tratado das Figuras, "Filmar o Vento")

Temos aqui a base de um diálogo "profícuo", como dizem as televisões.

"He desplegado mi orfandad
sobre la mesa, como un mapa.
Dibujé el itinerario
hacia mi lugar al vento.
Los que llegan no me encuentran.
Los que espero no existen.

Y he bebido licores furiosos
para trasmutar los rostros
en un ángel, en vasos vacios".

Alejandra Pizarnik, in Antologia Poética, ed. Correio dos Navios, "Fiesta"

Deixemo-nos de diálogos profícuos. Se fosse um céptico ou um nihilista diria que "diálogo profícuo" é um oxímoro. Não sou. É.

"Mon verre s'est brisé comme un éclat de rire"


"Ouvrez-moi cette porte où je frappe en pleurant.
La vie est variable aussi bien que l'Euripe"

Apollinaire,  in Alcools

Voltemos a esta noite que me espera, impaciente. Está quase a acabar. O sol nasce e eu deito-me, como se fosse um vampiro. Mas antes disso bebo música e Mount Gay alternadamente. É preciso que a luz chegue, que o escuro parta como por um beijo teu. Os teus beijos partem a escuridão, estilhaçam-na. Pelo menos é assim que me lembro deles: luminosos. Todos os beijos deviam ser assim, mas não são. Alguns músicos sabem-no, outros ensinam-no. Não os cito: demasiados ficariam de fora. Mas é assim: a música e o amor são uma luta contra a escuridão.

Que perdemos, claro. Mas isso é outra história, outra escuridão.

........
Durante muitos anos para mim "noite" era "ausência de luz". Redescubro hoje esta noite com luz, música, rum e ausência de horas. De séculos: oiço Hildegarde von Bingen e descubro porque gosto tanto dela: a música foi composta ontem, não foi?

.........
Deixemo-nos de histórias. Passemos às coisas sérias. Só há duas: corpos e solidões. Tudo o resto - corpos ausentes ou meio presentes, meias solidões ou solidões fingidas - são simulacros; ersatz, como se dizia quando eu era criança e me escondia nas livrarias para ler bandas desenhadas, proibidas em casa. Ersatz era palavra de casa, não de banda desenhada. Percebes o que eu quero dizer? Eu não. Tens sorte e eu não tenho. Por exemplo: não sou religioso. Sou ateu como meço um metro e setenta e seis, sou míope e gosto de música sacra: fatalidade e escolha, alternadamente. Por vezes percebo o que digo; outras não. Alternadamente, claro.

Como o dia e a noite.

Dores e amores

"Amo-te porque quero amar-te. O amor é voluntário ou não é". Quem não tiver compreendido isto não percebeu nada e vai sofrer até perceber.

A ordem correcta

Devíamos começar por nos amarmos e só depois nos conhecermos: a ordem inversa produz geralmente maus resultados.

Reedição - Marie-Thérèse

Reedição de um texto publicado no blogue Les Ombres du Temps.


“Tu sabes como eu era, já te contei: um bocadinho radical; ou totalmente idiota. É a mesma coisa. O mundo era a preto e branco. Ou sim ou não; ou estás dentro ou estás fora; ou é dos nossos ou és contra nós. À medida que fui crescendo fui percebendo que as coisas não eram assim tão simples, que o mundo, como ele dizia não é digital, é analógico. Quando o conheci já tinha as miúdas, uma excelente forma de aprender que nem as coisas nem as pessoas são simples. Sim, amava Pierre, muito. Estávamos casados havia doze ou treze anos e nunca o tinha enganado.

Conheci-o quando estava a fazer uma reportagem sobre as micro-empresas estrangeiras em Paris. Fiquei com as portuguesas e as brasileiras, naturalmente. A ideia era seleccionar duas ou três de cada país, de diferentes sectores e fazer um trabalho de fundo sobre elas. «Y en a marre des grosses boîtes, c’est des petites que je veux », disse-nos Stéphane, o editor. Não conseguia dizer uma frase que não tivesse pelo menos dois sentidos. Fiz o percurso habitual: consulado, anuários económicos, sites, amigos e conhecidos. Tudo. Sabes como sou, quando tenho de procurar alguma coisa. Não há porta que fique por abrir. Acabei com uma selecção gira, quatro empresas portuguesas e quatro brasileiras. É sempre melhor ficar com uma de reserva.

A dele importava produtos exóticos biológicos. Começara por ter uma série de fornecedores em Marselha, mas depois fartara-se de negociar com aquela gente e arranjou fornecedores em Paris. Não ganhava dinheiro, muito antes pelo contrário. Mas era teimoso como um caracol. Acompanhei-o duas ou três vezes nas suas expedições a Rungis; falei muito com ele, mas só de coisas relacionadas com o trabalho. Nunca me falou na família (tinha dois filhos) nem na mulher (uma russa linda de morrer, a julgar pelas fotografias que vi depois, quando já nos encontrávamos regularmente).

Um dia convidou-me para jantar. Vinha a Paris uma vez por mês; ficava três dias. Ligou-me ainda de Lisboa. Disse-me que chegava essa noite e se eu quisesse teria muito gosto em convidar-me para jantar. Achei graça, nessa altura já ganhava bastante bem a minha vida. Ele andava sempre aflito, mas mesmo assim convidou-me. Disse-lhe que sim. De qualquer forma Pierre estava habituado aos meus horários e as miúdas também.

Fomos jantar a um restaurantezito – em Portugal seria uma tasca – perto da rue Daguerre. Ele ficava sempre pelo XIVème ou XVème porque o avião aterrava em Orly. Chamava-se Au Vin des Rues, comia-se bem, tinha uma boa selecção de vinhos e não era muito caro. Lembro-me perfeitamente dessa noite. Foi a primeira vez que o vi com uma aliança. Estava apreensivo: no dia seguinte teria um encontro com um produtor marroquino de especiarias e não confiava nos marroquinos; mas achava que valia a pena encontrá-lo. «Deve haver pelo menos um marroquino honesto neste negócio. Só preciso de um, e pode ser este. Porque não correr o risco? O não já o tenho». Essa era outra das suas expressões favoritas, «o não já o tenho; agora há que procurar o sim».

Disse-lhe que não me apetecia falar do trabalho dele. Estava intrigada pela aliança e perguntei-lhe porque a pusera, nessa noite. «Porque queria que tu soubesses que sou casado», respondeu-me. Falava muito devagar, pronunciando claramente todas as sílabas, todas as letras. Já nos tratávamos por tu. Os pais dele tinham sido emigrantes em França como os meus, mas voltaram para Portugal quando ele tinha quinze ou dezasseis anos. Não partilhava essa mania portuguesa de tratar toda a gente por você durante anos e anos. Simpatizei muito depressa com ele e muito depressa estava a falar-lhe de mim, da minha vida, das crianças, do casamento. Ele ouvia devagar, como falava. Parece tolo, eu sei, mas quando falava com ele ficava com a impressão de que gravava tudo o que lhe dizia, revirava cada palavra, a observava de todos os lados e depois a arrumava num canto da memória. Meia hora, um mês, um ano depois essa palavra saía do armário onde estava guardada e ele dizia uma coisa qualquer relacionada com o tema que me deixava perplexa.

Não me perguntes porque fui para a cama com ele a primeira vez. Não sei. Como te disse nunca tinha enganado Pierre e para mim as coisas não tinham muitas nuances, se bem já tivessem algumas. Porque enganamos a pessoa com quem vivemos, que amamos, com quem passámos os piores e os melhores dias da nossa vida? Foi no dia seguinte a esse jantar; ele acompanhou-me a casa de carro. À porta disse-me «gostava de te ver outra vez», eu respondi «telefona-me amanhã à tarde», ele ligou-me e nessa noite fizemos amor pela primeira vez.

Estava outra vez com a aliança. «Não gosto de enganar as pessoas. Sou casado e gosto da minha mulher». «Então porque estás na cama comigo?»

Talvez não acredites, mas isto durou quase dois anos. Uma vez fui ter com ele a Lisboa. Nunca me escondeu; era como se o que fazíamos não fosse ilícito, imoral. Se nos encontrávamos com alguém que conhecia apresentava-me como “uma amiga de Paris”. «O que disseste à tua mulher?» «Que estava com uma pessoa de Paris e provavelmente não viria a casa muitas vezes». «E ela não se importa?»

Respondia a todas as perguntas que eu lhe fazia, nota; mas por vezes não respondia logo. Raramente falávamos das nossas famílias. Vi a fotografia da mulher porque um dia deixou a mala no quarto do hotel. Telefonou-me pouco depois de ter saído para me pedir uma morada num cartão de visita que estava num dos compartimentos. Quando chegou nessa noite disse-lhe que tinha visto a fotografia. «É bonita, a tua mulher». «Obrigado». «Parece russa». «É». «como se chama?» «Ludmila». «Ela sabe que nos encontramos?» «Não». «E sabe que a enganas? Tens outras mulheres, para além de mim?» «Não engano ninguém; não gosto de ser enganado e não faço aos outros o que não quero que me façam a mim». «E se a tua mulher tivesse amantes?» «Tudo o que lhe peço é que não mo diga, e eu não saiba por outras vias. De resto, pode fazer o que quiser. Ela sabe que a amo». «E tu sabes se ela te ama?» «Não. Nem me interessa. O amor é apenas uma entre muitas razões que mantêm um casal junto. O que é amar alguém? Tu amas o teu marido?» «Amo» «E amas-me?» Dessa vez fui eu que não respondi.

A verdade é que começava a amá-lo, muito. E cada vez menos amava o Pierre. Eram vasos comunicantes: o amor de um enchia o outro. Ele era atento, educado – não me lembro de uma vez, uma só que não me tivesse aberto a porta do táxi, por exemplo – correcto. Sabia que eu tinha muito mais dinheiro do que ele mas raramente me deixava pagar um jantar ou um táxi; nunca o vi zangado, por muito mal que lhe tivesse corrido o dia. Cada vez que eu tentava falar-lhe de nós dizia-me «Marie-Thérèse, nós temos uma relação. Não a transformemos em meta-relação, está bem?»

Nunca se deu verdadeiramente, mas também nunca fugiu; percebes o que quero dizer?
«Todos gostamos de determinadas coisas em cada pessoa; ninguém é suficientemente grande para encher uma vida. O que é feio é enganar, é o adultério, trair uma confiança. A infidelidade é normal; é quase uma inevitabilidade. Que me interessa saber se a Ludmila me ama, se tem amantes, se não tem? É a vida dela. O que amo nela é a parte desse vida que toca na minha, o seu gosto por música clássica, a maneira como educa os nossos filhos ou me sorri quando chego a casa cansado ou me recita um poema em russo, de que não percebo nem as vírgulas. Mas não tenho com ela aquilo que encontro em ti». «E que encontras em mim?»

Costumávamos ver-nos neste mesmo hotel. Foi por causa dele que o conheci. Vivo no XVIème, o XVème era-me estranho apesar de estar mesmo ao lado. Gosto deste aspecto familiar, paisible, pouco teatral do arrondissement. As coisas aqui são o que são. Venho cá muitas vezes. Compro um livro na Arbre à Lettres, vou lê-lo para o Rallye Perret, janto no Vin des Rues. De vez em quando tenho um amante que trago para este hotel, como tu. Pouco me interessa o que o pessoal pensa. Foi outra coisa que aprendi com ele: ignorar o olhar dos outros. É difícil, ao princípio; depois é terrível, um pouco assustador. E finalmente é a coisa mais apaziguadora e relaxante do mundo. «O que os outros pensam de mim interessa-me pouco, porque o que eu penso deles também», dizia-me. «Os outros interessam-te pouco», corrigi. «Não, os outros interessam-me. Mas não tudo nos outros». Era verdade: nunca vi ninguém que se interessasse tanto pelas pessoas; interessava-se pelo que faziam, pensavam, como viviam. Só não lhe interessava o que pensavam dele.

Ao fim de dois anos estava confusa. Cada vez o amava mais e a distância me era mais difícil de suportar. Ele escrevia-me de vez em quando: uma carta, um postal, um SMS. Eu respondia-lhe com longos mails que, sei agora, não lia. E cada vez se tornava mais claro que a nossa relação nunca seria mais do que era: duas bolas de bilhar juntas numa mesa até que um taco as separe. «O amor é o encontro de duas liberdades, não de duas prisões», escreveu-me um dia. Foi a primeira vez que utilizou o termo amor comigo.

Um dia descobri que Pierre tinha uma amante. Fiz-lhe uma cena, mas na verdade não estava magoada. Era-me totalmente indiferente que ele visse alguém para além de mim. Fiquei incomodada com as suas desculpas esfarrapadas, as suas promessas que eu sabia não cumpriria – não via razão para elas, nem muito menos para que as cumprisse – a sua incapacidade de assumir. Estupidamente, foi também nesse dia que decidi que não o queria deixar. O amor tinha definitivamente saído do nosso casamento, e o que nos manteria juntos dali para a frente seria outra coisa. Não as miúdas, ou o dinheiro, ou a dor, se dor houvesse. Uma relação é uma escolha; pode ser interessante tentar definir o que nos fez escolher A ou B, mas não é de forma alguma essencial. A vida não se esgota numa pessoa, tal como o amor, o desejo, o prazer de uma conversa sobre um livro, o cinema ou a economia.

Não há um aquilo que nos une uns aos outros; há um número infinito de aquilos que nos unem uns aos outros; não se excluem: adicionam-se. O meu amor por Pierre acabara, e fora substituído por outra coisa qualquer – amizade, ternura, passado, futuro? Que interessa -?

Não vou ao ponto de te dizer que o amor não existe. É óbvio que existe; para muita gente até tem essa função exclusiva, de fronteira, território, prisão, o que quiseres. Pouco me importa. Pensem o que quiserem, vivam como queiram. «Liberdade é poder escolher as suas prisões», disse-me ele um dia (era uma das suas citações favoritas, de resto). Para mim o amor, a sua ausência, a coabitação de vários amores ou a coabitação de várias ausências de amor é um dos dados do problema, não é o problema todo. A vida é um quadro no qual várias cores, várias formas, várias personagens coabitam; tira-lhe uma dessas cores, uma dessas personagens e o quadro fica incompleto. Pode também ser que para alguém esse quadro seja pintado com um amor, e que contenha uma personagem; muito bem. Não é menos verdadeiro do que o meu quadro, nem mais.

Sim, sou feliz. O meu casamento com Pierre nunca foi tão bom como é hoje. Ele não sabe de nada. Pensa que sou fiel; por vezes surpreendo-o num jogo de sedução com outra mulher qualquer, uma empregada, a mulher de um amigo. Não sei se os leva até ao fim ou não e não quero saber. Sou feliz quando estou com ele, como sou quando estou com outro homem, como sou quando estou sozinha. O mundo não é digital; é analógico. Entre zero e um há um número infinito de possibilidades, de escolhas, opções, vidas. Tudo tem um princípio, um meio e um fim e cada uma dessas etapas é escolhida por nós. O taco que ele mencionava na sua analogia somos nós que o seguramos, sei-o agora graças a ele. Por vezes apaixono-me; é bom estar apaixonada. Mas uma paixão não é a vida; é parte dela, só. Não me dou toda a ninguém, mas também não quero ninguém todo só para mim.

Como é que acabámos? Um dia cheguei ao hotel e deitei-me. Estava cansada, inquieta, tensa. Levantei-me, sentei-me à secretária, peguei numa folha de papel e escrevi “sou infiel; não sou adúltera”. Não sabia como continuar. O texto não era para ele, não tinha qualquer intenção de lhe escrever, ele chegaria daí a uma hora ou pouco mais. Foi pouco tempo depois de ter descoberto o affaire do Pierre.

Peguei no meu saco, pus a folha de papel em cima da cama desfeita e fui-me embora. Mandei-lhe um SMS a dizer «Obrigada» ao qual ele respondeu «Obrigado eu. Beijo». Nunca mais o vi. Por vezes manda-me um SMS ou um mail. Não respondo, mas sei que ele não espera uma resposta. As palavras são um mundo à parte, não é? Os actos são concretos, vêem-se, é como se se pudessem tocar, não se podem ignorar. As palavras não. São o que nós queremos que sejam. Esta mesa é azul. O que é azul? Que importa o azul? Porque é azul? Amo-te. O que é amar-te? Porquê? Para que serve o amor?

II
Marie-Thérèse é uma mulher grande, com um ligeiro excesso de peso; quase não se nota. Há pessoas assim, de tão magras por dentro não se vê que são gordas por fora. Ruiva, sardenta, com um nariz demasiado grande num rosto demasiado redondo não é muito bonita; começa-se por olhar para ela como para um puzzle com peças fora do lugar; depois qualquer coisa prende o olhar, que por ali fica a tentar perceber porquê. Ela está habituada. “Ainda bem que não sou bonita”, dizia por vezes. “Faria se fosse”.

É jornalista num jornal económico. Conheci-a há pouco tempo numa festa. Tivemos esta conversa no dia em que, por inabilidade minha, ela me deixou. Disse-lhe «Pois eu amo-te e sei o que é amar-te» e ela respondeu «Tens sorte. Vou-me embora. Adeus».

(Como sempre ligeiramente editado).

Expressões proverbiais

É melhor amar um troglodita do que um post-moderno, se bem menos fácil.

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Mais vale um novo pobre à vista do que um novo rico escondido (passe o oxímoro).

Reedição - O metro do sítio

(Um post mais actual hoje do que há sete anos).

"Pus o Sitemeter: tenho o dobro dos leitores do que tinha na última vez que o coloquei, há muitos anos. Pensava que teria metade. Merecia ter metade."

Fácil

Olha, vamos fazer assim: tu finges que me amas e eu que não te amo. Fingir é fácil, não é? Basta dizer uma coisa e olhar para outra. Por exemplo: eu olho para as tuas mamas, tão bonitas e redondas, do tamanho da mão de um homem honesto, o tamanho correcto para as mamas de uma senhora e digo-te: "não nos amamos". Tu em contrapartida olhas para mim, todo tosco e troglodita e dizes "Não".

Fácil, não é?

Diário de Bordos - Lisboa, sempre. 04-06-2016

Provavelmente esta mistura de rum Mount Gay e Keith Jarrett (e Gismonti et al.) não é específica a Lisboa. ("Provavelmente" é retórica. Sei perfeitamente que não é).

Que fará então desta noite a especificidade? Cheguei fará hoje mais logo uma semana. Fui à Feira do Livro, da qual só gosto quando tenho dinheiro para comprar livros; ao Tati ouvir o Gonçalo Marques e companhia, aos Poetas do Povo onde descobri um poeta que não conhecia (chama-se Rui Costa e é de ler); provei excelentes vinhos portugueses (provei é um understatement, seja Deus louvado e agraciado); apanhei (hoje) uma seca com uma senhora fotógrafa que falou muito, sem parar (uma das características e sinais distintivos de um bom fotógrafo é não gostar de falar). Falava para si própria e tinha uma tão infinita quanto massacrável capacidade de se ouvir; assisti a um espectáculo de poesia e música (esta a cargo de Carlos Barretto, que é um bom contrabaixo em qualquer parte do mundo e em Lisboa é melhor ainda porque Lisboa tem esta característica: magnifica o que é bom e apaga o que não interessa). A poesia lida por André Gago, António Caeiro e José Anjos, que por vezes também percussiona tão bem como escreve e diz. E tudo isto acaba com rum Mount Gay e (agora) Albert Ayler, ou Eric Dolphy, ou o que vier.

Não ter dinheiro é muito chato, claro. Hoje um vendedor da Cais abordou-me na Baixa. Disse-lhe que não e ele perguntou-me "mas pode pelo menos falar comigo?" "Não". Não, meu caro, não posso nem quero porque não quero ter de explicar-te que provavelmente tenho menos dinheiro no bolso do que tu e não quero dizer isso a um gajo qualquer na rua e sei que se calhar no fundo tenho mais sorte do que tu - e isso tão pouco é assunto de conversa, pelo menos agora -. Mas não ter dinheiro é passageiro, é como uma frente fria, um squall, um aguaceiro, uma depressão mais ou menos cavada, uma foda má. Não é como ouvir Dolphy ou Ayler ou Gismonti ou Jarrett que estão sempre lá; basta querer.

........
Para não falar em Hildegarde von Bingen, claro.

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Pela primeira vez na vida tenho a impressão de que não vou ter de pagar o quão bem tudo isto se anuncia. Assustador, não é? Prefiro pagar, ainda que com atraso.

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O rum Mount Gay é bom; honesto, frontal, não engana ninguém. Mas basta uma tarde ou duas na Wine Up para me lembrar de que o que me corre nas veias é vinho. Rum é paisagem.

3.6.16

Auto-quase-retratos

Sou fundamentalmente céptico. Não acredito nem no que já aconteceu, quanto mais no que está para vir.

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- Vais escrever?
- Não. Vou escrever-me.

Reedição - Haiku eróticos

Enquanto "Agosto" entra e não sai, ou não sabe se sai se entra, ou se não entra mas sai, ficam algumas pequenas pérolas do livro "Haiku Érotiques", Traduzidos do japonês e apresentados por Jean Cholley, ed. Picquier Poche, 2000:

"Quand il dresse son mât,
l'épouse s'empresse alors
de prendre la barre"

"Sa belle-mère défunte,
sans plus de retenue l'épouse
éclate en sanglots"

"Quand à sa femme il fait
tourner le mortier à thé*
elle désaxe tout"

Reedição - Ah, Rita, ou Time is a fake healer, ou Inhabileté fatale

laisse-moi t'aimer, again, t'aider à redevenir toi-même, Rita, que boa eras, a cavalo em cima de mim, que grande, essas mamas a dar a dar e o sorriso cheio, de lua cheia, de mulher cheia. Nunca mais terás um sorriso assim, Rita, ficaste amarga e a culpa é minha, se calhar, não? Pelo menos é o que tu dizes, mas eu não acho. Se calhar já eras amarga antes de mim. Não é porque uma história de amor acaba mal que a culpa é minha - as que acabam bem são devido a ti?, à tua classe, à tua exigência? Ri-te, Rita, ri-te as once you did, remember us on the beach, numa dessas moto quatro, ce que tu rigolais alors, ou no farol a ver os livros "de bordo" velhos e roidos pela vida, pelo tempo. Et tu dis que si tu ne ris plus, aujourd'hui, a culpa é minha. Minha, Rita, a culpa de não rires mais? E quantas vezes te propus, once again, não deixes o passado vencer, o passado não passa daquilo que nós queremos fazer dele, mas tu não, tu preferes viver no passado, não é Rita? Ah Rita, há passados e passados, e o teu, o nosso, é o pior dos meus passados, e tu não me dás uma chance, pas une, de le corriger, Rita, como se o passado não fosse senão uma parte do futuro, a fucking, irrelevant, bit of future. O passado, Rita, a culpa: eu caí no caldeirão da culpa quando era pequenino, e hoje não sei viver sem ela, sem ele. Escrevo à luz de velas, era isso que sonhavas, não era?, uma cabana à beira-mar, amor e água fresca, e um bébé. O que eu quis esse bebé, Rita, o que eu o quis, mas tu decidiste que não, ou deixaste o corpo decidir por ti. Diz a verdade, Rita, essa sensualidade toda era fingida, não era? As mamas a dar a dar, as mãos partout - só não gostavas de felar, acho eu, mas gostavas do irmão, não era? - mas nem disso tenho a certeza, já lá vai tanto tempo. Para ti não vai, Rita, é como se tivesse sido ontem, é como se nada mudasse no esquema imutável das coisas: o que foi é, o que foi será, o que foi foi e foi e será e é. Os teus verbos só têm um tempo, Rita, e por isso vês a vida passar por ti e por isso te parece que não és parte dela. Ah, Rita, que duro é ver-te assim ao lado da vida, da minha vida, e não conseguir fazer-te rir de novo, um sorriso cheio como a maré cheia... Diz, aquele passeio às Azenhas do Mar, lembras-te?, quando fomos dois e viemos um, não te diz nada, hoje? Nada te diz nada, hoje, nada: só o que se passou ontem te fala ainda. O tempo para ti é uma múmia, Rita, e o tempo não é isso. O passado não é isso. O futuro não é isso. És tu que és uma múmia, não? e mumificas tudo à tua volta, como o calor do deserto, a secura. Eras uma mulherzinha, não eras, Rita? Uma mulherzinha, saída dos livros da Louisa May Alcott, ou coisa que o valha. Não eras uma mulher, saída da vida, ou metida na vida até ao pescoço, até ao topo do mastro que eu enterrava em ti com tanto amor, com tanta vontade, pois não? A vida sempre te passou ao lado, diz a verdade - e acusas-me a mim de não quereres rir de novo, Rita? Escreveste-me, Rita, cartas lindas, mas alguma vez me dançaste? Alguma vez me viveste "para lá do medo", desculpa a porra da fórmula feia como um nojo? Escrevias bem, então, e muito, torrentes de letras, linha após linha - e hoje já só tens frases feitas, frases mortas, frases pré-fabricadas, e dizes que a culpa é minha, Rita? Escrevias bem, mas já então, como hoje, detestavas as palavras. Detestavas "fornicar", por exemplo, e "foder" e "desculpa", "desculpa", "desculpa". Estás enganada, e se calhar eu também, mas a culpa não é minha, não é só minha, e eu tenho que aprender a viver com isto, Rita, quer tu queiras quer não eu vou aprender a viver com isto, contigo, com o que foste, com o que és, com o bebé que não foi, com a praia e as Azenhas do Mar e o farol e o teu corpo, tão bonito, tão sensual, tão corpo.

2.6.16

Diário de Bordos - Lisboa outra vez. 02-06-2016

Aqui estamos, Lisboa, tu e eu de novo tão iguais e tão diferentes. Tu mudas de vida, és uma cidade aberta, cheia de turistas e de poesia, de gosto e de beleza. E de buracos que aí vêm eleições, mecanismo infalível para despertar os imbecis e medíocres que de ti se aproveitam e sem ti nem um galinheiro mereciam. Verdade seja dita: tu recebe-los, resistes, deixa-los passar e sorris quando finalmente desaparecem.

E eu como sempre teso e optimista, a sair de uma vida para entrar noutra, a calcorrear-te como se nunca daqui tivesse saído, árvore andante como aquelas árvores dos mangais  que usam as raízes para se deslocar.

Somos um velho casal, Lisboa: já não nos enganamos um ao outro. Conhecemo-nos os truques e as manias, as ruas, vielas e atalhos, os terrenos baldios e os outros. Somos um do outro apesar das separações e resistimos a todas as chegadas, sejam elas de passagem ou de sonhos.

Agora nós, Lisboa. Outra vez.

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Lisboa recebe-me sumptuosa e generosamente, como se quisesse agradecer-me a decisão de por aqui ficar e se estivesse nas tintas para a falta de dinheiro.

Está ela e eu também: amanhã há mais. Mais dias, mais dinheiro e mais dias sem ele. Mais ideias e projectos. Outra vida e outras vidas.

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Jazz no Tati, poesia no Povo: como duvidar de um futuro assente nestas fundações?