7.8.18

Antípodas, dias

Uma grande bola de fogo encarnada mergulha no oceano. Pensas: "o dia acabou", mas não é verdade. Outro dia começa, simplesmente. Para ti e para quem está do outro lado, ao teu lado.

Tempo, mil-folhas

Se num lago um espelho te devolver a imagem de outro lago, outro dia, quiçá mesmo outro espelho não te assustes ou surpreendas.

Somos feitos de camadas de vida umas em cima das outras e o lago, seja por generosidade seja por maldade, por erro ou distracção foi buscar uma camada que não é aquela em que tu pensas estar, a que tu vês.

Aritmética, tempo

A única operação aritmética que o tempo não permite é a subtracção. Os dias adicionam-se, multiplicam-se, dividem-se mas não se subtraem.

6.8.18

Prato do dia - Lulas com sobrasada

O prato do dia foi calamares con sobrasada.

Sobrasada é uma espécie de enchido típico das Baleares. Muda um pouco de ilha para ilha. Aqui só se encontra o maiorquino, felizmente porque é o meu preferido. Ainda por cima no res-do-chão do prédio onde moro há uma loja de produtos típicos de Mallorca - uma Mallorca Delicatessen, como eles dizem em espanhol baleárico -. Os produtos oscilam entre o bom e o muito bom, sendo este o lugar da sobrasada.

Vasculhei uma dúzia de receitas, misturei-as e optei por não usar mel; usei pimentos italianos, como lhes chamam aqui (na Itália têm outro nome, mas agora não o recordo).

Começa-se por saltear as cebolas até estarem transparentes; junta-se-lhes bacon, a sobrasada, os pimentos cortados aos bocados. Quando aquilo está mais ou menos refogado junta-se vinho doce, mexe-se bem, deixa-se ferver e põem-se as lulas - pequenas neste caso, cortadas às rodelas se forem grandes. Junta-se um bocadinho de água, outro de tempo e hey, presto, um jantar delicioso para a mesa à janela.

PS - A quem possa interessar: o Corte Inglés en Lisboa tem sobrasada.

Ganhar ao sistema - cont.

Z. tem duas visões do mundo que não se excluem nem se complementam: coabitam como um casal que acabou de se divorciar partilha a mesma casa por razões financeiras, logísticas ou de simples preguica.

Segundo uma dessas cosmovisões o mundo é constituído por a) o Sistema e b) Z. ele próprio. Na outra há: o Sistema, Z. e tudo o que fica entre eles. Nos dias pares das primeiras metades de cada mês Z. não vê qualquer contradição nestas duas grelhas interpretativas do real. Nos dias ímpares pensa (ou pelo menos diz) que se está nas tintas para as contradições. No resto dos dias oscila: "um espírito sem contradições é uma Lua sem luz"; "a contradição é o combustível, não o motor"; "a contradição é paralisante. Um espírito contraditório é semelhante a uma tartaruga que bebeu de mais e não consegue tirar a cabeça da protecção da casca".

Para Z., já se percebeu, o Sistema é a linguagem. Ganhar-lhe consiste simplesmente em ser capaz de produzir frases belas, quaisquer que sejam os respectivos sentidos. Deixar-se roubar, ser ultrapassado numa fila de supermercado, oferecer um café a um estranho em troca de um cigarro não são factos como nós os entendemos. São pretextos. Não são batalhas, guerras ou simplesmente escaramuças: são fisgas verbais.

5.8.18

Ganhar ao sistema

A ideia de Z. é simples. Ele traduz do inglês "to beat the system": "ganhar ao sistema". No fundo, "ganhar ao sistema" consiste simplesmente em confirmar o seu cepticismo, o desgosto que a maioria das pessoas lhe inspirava, a certeza de que o seu nihilismo devia ser mais militante.

Ontem, por exemplo, deixou uma garrafa de vinho no cesto da scooter, simplesmente coberta com uma jaqueta daquelas que os automobilistas devem ter nos automóveis em caso de incidente. Quando voltou a garrafa desaparecera, claro. O sistema ganhara.

"Ganha sempre", pensou quando voltou e encontrou a jaqueta sem nada por baixo. "Mas o importante é não desistir".

Pouco antes tinham-lhe roubado uma scooter toda, porque se recusava a fechá-la a cadeado: "o sistema favorece o roubo de veículos; há que ganhar-lhe" explicou-me quando lhe perguntei por que raio de carga de água insistia em ser roubado. "Mas quem perde és tu", exasperei-me. "Eu sei. Não sou ingénuo, nem masoquista. Só quero provar que estou enganado". 

Culpa, amor

Acabei por ficar em casa para trabalhar e (ainda, até agora, até ver) não fiz nada se não uma salada de atum que por acaso ficou muito boa, muito justa de tempero.

Por acaso? Não. O complexo de culpa é um famoso potenciador de todas as outras qualidades. Devia ser mais e melhor explorado.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 05-08-2018

Tal assim foi o meu dia de ontem: decidido a fazer uma folga total - isto é, incluindo limpeza de sinapses e revisão de circuitos neuronais - saio de casa com um objectivo: um dia num café de praia a trabalhar numa coisa completamente diferente.

Esse objectivo não foi atingido por dus razões, mais ou menos relacionadas: a) não conheço suficientemente as praias de Mallorca para eleger uma apropriada; b) as que conheço não são apropriadas. Resultado, o dia transformou-se numa peregrinação aos locais da memória: Porto de Valldemossa, Sa Foradada, Sa Calobra. Tenho sorte com a memória, reconheço. Qualquer deles é um lugar lindo, nada adequado para rever textos mas óptimos para reflectirmos, por exemplo, nos mecanismos de formação de preços (aqueles são traumatizantes), nos problemas ligados à temperatura da água do mar (vasto tema, esta: vai desde as preferências quando se nada - não consigo perceber pessoas que conseguem gostar de nadar entre o rio Minho e um pouco a leste de Sagres, por exemplo - até ao motor que um dia gripou porque o trocador de calor era demasado pequeno para a temperatura da água) e outras coisas igualmente importantes.

Sa Foradada merece uma menção especial: desde o local onde se deixa o carro atè à "praia" (entre aspas porque aquilo de praia não tem rigorosamente nada) são um pouco mais de três quilómetros, por uma estrada de terra, no meio de uma paisagem linda, cheia de sombras e a cheirar a pinheiro. A temperatura estava acima dos trinta, mas mal se sentia o calor. Quando cheguei fui almoçar, depois fui nadar e depois vim para cima.  A mochila, que à ida pesava seis ou sete quilos pesava agora vinte, a distância aumentou para trinta quilómetros, as sombras desapareceram todas e a temperatura estava quase em cem graus (Celsius).

Devo dizer que apesar de tudo vale a pena lá ir, mesmo sabendo o que nos espera no regresso. Basta não se ir preparado para fazer coisas que não se vão fazer.

Acabei no café Jamaica, em Can Picafort, mas prefiro não falar muito nisso para não estragar. O café chama-se Jamaica como se podia chamar Rossio, a empregada não sabia sequer o que é uma Red Stripe, o chicken jerk foi o pior que alguma vez comi e Can Picafort é um horror. Deixemo-la para outros momentos.

.........
Em Can Picafort vi pela primeira vez palhinhas com dimensões que iam dos vinte centímetros habituais até mais de um metro, com vários tamanhos intermédios. Quem luta contra as palhinhas não deve vir aqui.

Sendo que as grandes têm a vantagem de se poder beber o cocktail sem ter de fazer o esforço de levantar o copo, que implica como se sabe uma violenta sequência de movimentos  - desencostar-se, inclinar-se para a frente, estender o braço e por aí fora -.

4.8.18

Ao mesmo tempo

Um gajo tatuado, cheio de piercings cada qual mais idiota pede uma Coca-Cola Zero.

Cada um bebe o que quer, pinta e fura o que quer. Mas tudo ao mesmo tempo?

3.8.18

Pinceladas de uma tarde de Verão


A mulher fala muito alto, dá trela a todos os machos que a aproximam (neste momento reduzidos ao dono da tasca) tem um corpo redondo e roupa de mau gosto. Tudo nela faz sonhar com uma fera na cama. Não oiço o que diz, não quero desfazer essa impressão.

So tenho pena é do filho, doze ou treze anos, a apanhar uma seca que se lhe vê em cada poro. 

Ausências presentes

Algumas ausências têm esta curiosa particularidade de parecerem balões que temos em nós e enchem, enchem, enchem sem rebentar nunca. Ficam maiores, só.

Para a R., com um beijo de presente.

2.8.18

Postais, vida

Construí uma ponte de mim para ela. Feita de postais, milhares deles, numerados de um até... Não sei, milhares deles. Todos os dias um postal, às vezes dois, cada um com pelo menos dez palavras (excluindo o meu nome, a data e o vocativo, sempre o mesmo: "Olá, vida").

Para a T., com um beijo grande como a vida.

Blake, verdade, crenças

Falemos da verdadeira verdade, se quiseres. Prefiro a falsa, a verdade inventada: "tudo aquilo em que um homem acredita é uma imagem da verdade", disse um dia William Blake.

Não sabemos se alguma vez o disse. Escreveu, pelo menos isso sabemos. É portanto uma uma imagem da verdade: nós acreditamos que ele escreveu aquilo porque o podemos ler.

Não escreveu nada.

"Tudo aquilo em que é possível acreditar é uma imagem da verdade". (O Casamento do Céu e do Inferno.)

Os burros que um dia me levaram Santorini acima estão a ser substituídos por mulas. Os turistas são demasiado gordos.

Não são nada. São demasiado pesados, sua besta. Podem ser pesados sem ser gordos e gordos e leves. A tua imagem da verdade está fosca. Não acredites em nada antes de ter a certeza de que é falso: a mentira demonstra-se mais depressa do que a verdade.

A ausência mais do que a presença. Um olhar diz mais do que mil palavras. 

1.8.18

Falar, morder

Foi no tempo em que as palavras falavam. Encontravam-se num café, na fotocopiadora, no convés adernado de uma embarcação de vela, num jantar em casa de amigos.

Agora mordem, nada disto seria possível.

Como seria?

A noite avança sem nós. Como seria, se nela estivéssemos?

Secas

É a boca seca do desejo que nos chama. Acorramos, querida. Nem as noites nem as securas duram muito.

Noite, partilha

Plácida a noite estende-se perante nós: acolhe-nos de braços abertos e um sorriso na face. Somos novos nisto da noite comum: como partilhar aquilo que até agora foi só de cada um de nós? 

És?

Há os corpos, a memória dos corpos e o que fica de uns e outras.

Não sei destrinçá-los muito bem. Lembro-me de um corpo e do que dele me lembro, mas nunca sei se coincidem. Diz-me tu, que sabes essas coisas: és o que de ti em mim deixaste?

Os dentes e a alma

Se se pegasse numa palavra e ela fosse uma pastilha elástica - uma chuínga - que palavra seria essa? A primeira que me ocorre é luz, se bem seja a menos elástica das coisas, das palavras. Tu (a palavra, não tu a pessoa)? Não sei. Não gosto de chuínga porque detesto mastigar as coisas, sejam elas o que forem.

Não gosto de nada que se deixem mastigar e acredita: não é por falta de dentes.

Passos, espaço

Há o espaço entre os passos. Mais letra menos letra é auto-explicatório. Há o espaço entre as palavras. Por vezes chama-se vida. Ou sorriso: é um bom espaço, o sorriso. Pode chamar-se silêncio. Idem. Há o espaço entre sorrisos, entre uma mão que se dá e outra que a acolhe. Há o espaço entre dois corpos estendidos um no outro. Chama-se amor, por vezes. Há o espaço entre aquilo que somos - tu e eu, juntos - e aquilo que queremos ser. Também se chama vida.

Ha muitos espaços e um passo só, para os percorrer.