Aqueles que me conhecem sabem que um dos meus amores de estimação são os bancos portugueses. Tenho por eles uma admiração sem limites, um amor - como dizer - indescritível (apesar de a expressão "banco português" ser aquilo a que os lógicos chamam uma "contradictio in terminis"). Ontem li no jornal uma notícia que me entristeceu de verdade. Dizia ela que uma grande empresa portuguesa tinha transferido a sua dívida para a banca espanhola.
Como conheço bem a dita empresa, não resisto a contar isto (tão pouco resisto a uma rima, sobretudo quando vem de cima):
Há uns meses, a dita grande empresa portuguesa recebeu, na mesma semana, dois ou três telefonemas de outros tantos bancos a anunciar que as linhas de crédito abertas em seu favor iam ser fechadas; em breve uma confirmação escrita seguiria, mas enfim, que se fossem preparando. (O facto de terem sido dois ou três bancos na mesma semana não implica, longe vá o agoiro, que os bancos estivessem a agir de concerto. Qué vaya, hombre, tan mala idea).
Poucos dias - sublinho, dias - depois deste anúncio, fomos informados pelos jornais que a dita empresa tinha sido comprado por uma - como dizer, concurrente? colega? - espanhola. E poucos dias - sublinho outra vez, dias - depois, os mesmos bancos telefonaram à mesma pessoa (não estou, vade retro Satanás, a dizer que os bancos estão combinados) dentro da mesma empresa para anunciar que não, afinal as linhas de crédito continuavam abertas.
E ontem ficámos todos a saber que a empresa colocou toda a sua dívida (setenta milhões de euros) em Espanha. A vichiyssoise, tal como o gaspacho e outras coisas, é uma sopa que só sabe bem fria.
PS - Assumindo uma taxa de juros de 2,5 - 3%, isto significa que os bancos portugueses perderam à volta de dois milhões de euros. Metade do bónus anual de qualquer um dos administradores, é claro. Mas sempre é uma vitória moral.
PS 2 - Um desses bancos é dirigido por um senhor que insiste muito na manutenção em Portugal dos centros de decisão. É como ver o Sampaio a exigir rigor ao próximo governo... deve ser para dar munições aos socialistas nas próximas eleições.
30.6.04
Política
Que delícia: agora é um socialista que exige ao PSD garantias de rigor nas Finanças! É bonito, não é? Sê-lo-ia ainda mais se o Presidente fosse o Guterres; mas enfim, não se pode ter tudo.
Soulagement
Dos 4 ou 5 espinhos que tenho cravados, um descravou-se agora. Mas era o maior, o mais doloroso, o único irremediável. Alelluiah.
Astrólogos, videntes, adivinhos e quejandos
Há leitores do Don Vivo nas categorias acima descritas? Precisava de um favor: que me fizesse uma previsão dos dias em que a minha mulher a dias vem trabalhar. Não precisa de ser muito exacta: 50% é muito superior ao que tenho agora.
Obrigado.
Obrigado.
Morte, mar
Pensava: provavelmente, no mar não se morre. Desaparece-se, como o sol debaixo de água, como uma nuvem com o calor do dia, como uma espuma no topo da vaga.
Só o mar resiste à morte. Só no mar se resiste à morte.
Só o mar resiste à morte. Só no mar se resiste à morte.
29.6.04
27.6.04
Eleições
Deve haver poucas coisas que eu mais tema do que o regresso dos socialistas ao poder; e sei que se houver eleições agora, o PS vai lá parar, são favas contadas (mal, é certo, que pôr socialistas a fazer contas é como pôr um alcoólico a gerir um bar). Mas mesmo assim, acho que devia haver eleições. Qualquer que seja o aspecto jurídico ou constitucional da questão, há uma dimensão política que só pode ser dirimida com eleições.
Mas a) porque raio de carga de água é que o homem aceitou o lugar, e b) porquê, mas porquê, o Santana Lopes? Não há mais ninguém no PSD?
Mas a) porque raio de carga de água é que o homem aceitou o lugar, e b) porquê, mas porquê, o Santana Lopes? Não há mais ninguém no PSD?
Pra quem é bacalhau basta
Não poderiam eventualmente mandar o Santana Lopes para Bruxelas? E já agora davam um lugarzito lá ao Alberto João, assim com'àssim...
Isto dito,
Isto dito, e para citar o Abrupto, "yes, I feel cheated". E o pior é ver pessoas inteligentes, cultas, informadas, achar bem que ele vá, "porque dá projecção ao país". Projecção? Projecção é sairmos da situação de m... em que estamos, é fazer as reformas que - demasiado timidamente é certo - ele estava a fazer, projecção é não ter palhaços como primeiro-ministros.
Futebol; ou: Nem tudo está perdido
É impressão minha, ou desde que se fala nesta indescritível história de Durão Barroso ir para Bruxelas fala-se menos em futebol? Quase parece que o Euro acabou...
24.6.04
Um milhão de euros por quinzena!
Não há dinheiro????????
Não há dinheiro é para hospitais (desafio-vos a ir ver o de Cascais), nem para milhares de outras coisas que tanto beneficiariam com investimento público... um milhão de euros por quinzena!!!
Não há dinheiro? O que não há é vergonha, nem justiça que funcione.
Um milhão de euros por quinzena! - Não te admires se as negociações se prolongarem, diz M. H.
PS de boa-fé(30/06/2004): aposto que foi um contracto do tempo do Engenheiro; ou: aposto que se os socialistas estivessem no Governo, seria 1 milhão de euros por semana.
PS 2: O PS anterior é objectivo, de boa-fé e totalmente isento, claro. Como um artigo da Ana Sá Lopes, ou do Fernando Rosas (se ele escrevesse artigos).
Não há dinheiro é para hospitais (desafio-vos a ir ver o de Cascais), nem para milhares de outras coisas que tanto beneficiariam com investimento público... um milhão de euros por quinzena!!!
Não há dinheiro? O que não há é vergonha, nem justiça que funcione.
Um milhão de euros por quinzena! - Não te admires se as negociações se prolongarem, diz M. H.
PS de boa-fé(30/06/2004): aposto que foi um contracto do tempo do Engenheiro; ou: aposto que se os socialistas estivessem no Governo, seria 1 milhão de euros por semana.
PS 2: O PS anterior é objectivo, de boa-fé e totalmente isento, claro. Como um artigo da Ana Sá Lopes, ou do Fernando Rosas (se ele escrevesse artigos).
Via Dolorosa
Restaurante Armazém da Cachaça, Rua S. João da Mata, 88/90, 1200 - 850 Lisboa. Tel. 213 965 264.
Não vão lá; e não comam picanha, que não é preciso. E, sobretudo, desdenhem os pequenos salgados que vos servem de entrada; e não olhem bem à volta, com olhos de ver, que o restaurante não é nada bonito. E não comam a Mousse de Cachaça, que também não é preciso; e não liguem aos empregados, que não são nada simpáticos e atenciosos e prestáveis. E a escolha de música brasileira é péssima, e a caipirinha... Um horror, meus caros, um horror!
Não vão lá; e não comam picanha, que não é preciso. E, sobretudo, desdenhem os pequenos salgados que vos servem de entrada; e não olhem bem à volta, com olhos de ver, que o restaurante não é nada bonito. E não comam a Mousse de Cachaça, que também não é preciso; e não liguem aos empregados, que não são nada simpáticos e atenciosos e prestáveis. E a escolha de música brasileira é péssima, e a caipirinha... Um horror, meus caros, um horror!
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Restaurantes Lisboa
Estilos
Um dos meus blogs favoritos é o Le Tasque. É um blog hilariante, bem escrito - apesar do hábito, infelizmente cada vez mais frequente, que a Senhora D. Tasqueira tem de utilizar o pronome reflexo com o verbo auxiliar em vez do verbo principal (já a oiço daqui: "Vai-te foder", em vez de: "Vai foder-te", nitidamente mais correcto). Muito recentemente, um post fez-me chorar de inveja: tem data de 21 de Junho e é dirigido a uma senhora(?) que lhe deve dinheiro.
Estando eu numa situação semelhante - só que, pelo que ela diz num post anterior (de 15/06), com consequências mais graves - não consegui impedir-me de pensar no que seria bom mandar um texto assim ao organismo público (no caso, uma Câmara Municipal) que me deve algumas dezenas de milhar de euros.
Mas os nossos estilos são, irremediavelmente, diferentes. Do mail que enviei para a dita Câmara, cortei frases como: "O teu partido diz defender a iniciativa privada e a soberania nacional. Faz mal: um palhaço português é, antes de português, palhaço - e o que o Estado Português tem vindo a fazer (há muitos anos, é certo) é transformar este país numa palhaçada cuja consequência e remédio será, se Deus quiser, a entrada de muitos espanhóis nas nossas empresas"; ou "Claro que vocês fazem o que fazem porque as vítimas se calam - todos sabemos que o primeiro caloteiro do país é o Estado e suas dependências, mas ninguém se levanta porque sabe que para a próxima é ao Estado que tem de bater à porta". Apesar de violento, o mail que seguiu para a dita Câmara não se compara ao post da Tasqueira.
Os estilos são diferentes, e (como digo num inocente post anterior), prefiro o dela.
Estando eu numa situação semelhante - só que, pelo que ela diz num post anterior (de 15/06), com consequências mais graves - não consegui impedir-me de pensar no que seria bom mandar um texto assim ao organismo público (no caso, uma Câmara Municipal) que me deve algumas dezenas de milhar de euros.
Mas os nossos estilos são, irremediavelmente, diferentes. Do mail que enviei para a dita Câmara, cortei frases como: "O teu partido diz defender a iniciativa privada e a soberania nacional. Faz mal: um palhaço português é, antes de português, palhaço - e o que o Estado Português tem vindo a fazer (há muitos anos, é certo) é transformar este país numa palhaçada cuja consequência e remédio será, se Deus quiser, a entrada de muitos espanhóis nas nossas empresas"; ou "Claro que vocês fazem o que fazem porque as vítimas se calam - todos sabemos que o primeiro caloteiro do país é o Estado e suas dependências, mas ninguém se levanta porque sabe que para a próxima é ao Estado que tem de bater à porta". Apesar de violento, o mail que seguiu para a dita Câmara não se compara ao post da Tasqueira.
Os estilos são diferentes, e (como digo num inocente post anterior), prefiro o dela.
22.6.04
Táxi
Foi no dia em que ela quis apanhar o mesmo táxi que eu. "Estou cheia de pressa, este táxi é meu"; "Também eu estou com pressa, e, a senhora vai desculpar-me, mas quem o chamou fui eu". A discussão parecia sem fim. Acabei a propôr-lhe levá-la ao restaurante para onde ia; acabei a pagar a corrida toda, apesar do sobrecusto significativo que isso implicara; acabei a dar-lhe um cartão de visita.
"Temos estilos diferentes, mas gosto mais do seu do que do meu", disse-lhe. Ela escreveu-me no dia seguinte: "Não desgosto do seu. Venha almoçar comigo".
Fomos a um restaurante grego, perto da doca. Ela era controladora aérea; trabalhava no Aeroporto havia muitos anos. Eu navegava. "Não se impressione", dizia às potenciais conquistas, "a verdade é que não sei fazer mais nada". Caiu em seco, claro. O que me salvou foi saber fazer outras coisas.
"Temos estilos diferentes, mas gosto mais do seu do que do meu", disse-lhe. Ela escreveu-me no dia seguinte: "Não desgosto do seu. Venha almoçar comigo".
Fomos a um restaurante grego, perto da doca. Ela era controladora aérea; trabalhava no Aeroporto havia muitos anos. Eu navegava. "Não se impressione", dizia às potenciais conquistas, "a verdade é que não sei fazer mais nada". Caiu em seco, claro. O que me salvou foi saber fazer outras coisas.
As coisas (subentendido: como vão as?)
Num texto em que descreve uma relação sexual com uma senhora inglesa, diz Woody Allen (cito de memória, reconhecendo que atraiçôo outras memórias):
"por breves instantes, tive a impressão que, enquanto fazíamos amor, ela mexeu ligeiramente a pálpebra de um olho; mas rapidamente me apercebi que tinha sido uma ilusão de óptica".
É a resposta que me apetece dar a quem me pergunta "Como vão as coisas?". Só espero que seja mais do que uma ilusão de óptica.
"por breves instantes, tive a impressão que, enquanto fazíamos amor, ela mexeu ligeiramente a pálpebra de um olho; mas rapidamente me apercebi que tinha sido uma ilusão de óptica".
É a resposta que me apetece dar a quem me pergunta "Como vão as coisas?". Só espero que seja mais do que uma ilusão de óptica.
Jantar (outra vez?!) e vinho
Não mencionemos o jantar. Foi a pior tortilha que jamais fiz. Nem com água devia ter sido acompanhada. Nem pelo inominável vinho de ontem.
Falemos, antes sim, do vinho de hoje: Conde de Vimioso, 2001. Comprado na Enomania (uma loja na Rua das Janelas Verdes, à esquerda quando se desce) a conselho do jovem, prestável e - diriam algumas - bonito funcionário. O vinho não é só bom. Como descrever um vinho que
a) tem uma cor e uma espuma bonitas;
b) tem um nariz rico, um ataque sentido, marcado, de homem;
c) é redondo, encorpado, equlibrado, equilibrado, equilibrado;
d) tem um final de boca que não é final - é uma eternidade, parece um turista tonto em Londres, parece um olhar ou dois de que ainda hoje me lembro, tantos anos passados;
e) custa 6 euros -seis- (na Enomania)?
Pode começar por dizer-se que é um desperdício com uma m... duma tortilha, o que é verdade; e que é abençoado o dia em que se o bebe; e que é daqueles vinhos que não precisa sequer de acompanhar seja o que fôr: quatro amigos podem pedi-lo num bar, numa discoteca, num café, na praia, num barco à vela, e bebê-lo, porque ele se basta a si próprio, se acompanha a si próprio.
Falemos, antes sim, do vinho de hoje: Conde de Vimioso, 2001. Comprado na Enomania (uma loja na Rua das Janelas Verdes, à esquerda quando se desce) a conselho do jovem, prestável e - diriam algumas - bonito funcionário. O vinho não é só bom. Como descrever um vinho que
a) tem uma cor e uma espuma bonitas;
b) tem um nariz rico, um ataque sentido, marcado, de homem;
c) é redondo, encorpado, equlibrado, equilibrado, equilibrado;
d) tem um final de boca que não é final - é uma eternidade, parece um turista tonto em Londres, parece um olhar ou dois de que ainda hoje me lembro, tantos anos passados;
e) custa 6 euros -seis- (na Enomania)?
Pode começar por dizer-se que é um desperdício com uma m... duma tortilha, o que é verdade; e que é abençoado o dia em que se o bebe; e que é daqueles vinhos que não precisa sequer de acompanhar seja o que fôr: quatro amigos podem pedi-lo num bar, numa discoteca, num café, na praia, num barco à vela, e bebê-lo, porque ele se basta a si próprio, se acompanha a si próprio.
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