Esperar é um círculo vicioso: quanto mais se espera mais razões se tem para continuar a esperar. O problema é que não há forma de a transformar num círculo virtuoso. A espera nunca é virtuosa.
30.12.10
Vertigem, delícia
Aquele momento delicioso que antecede um erro inevitável.
Aquele momento vertiginoso que antecede um erro inevitável.
Aquele momento vertiginoso que antecede um erro inevitável.
Incerteza
A incerteza faz parte da vida de um marinheiro como o sal da água do mar. Estávamos para sair ontem, e até amanhã provavelmente estaremos por aqui, por causa do maldito tempo; a menos claro que qualquer coisa mude e possamos sair hoje à noite. E provavelmente só sairemos a 1, porque o armador não quer passar o fim do ano no mar. Ou a 2, se a ressaca da festa for grande de mais. Quem sabe? Que importa?
29.12.10
Caminhos-de-ferro
De vez em quando sou visitado por uma dor, como outros pela Virgem Maria, e outros ainda pelo desejo. É uma grande dor, e grande chatice: reduz a nada a dicotomia tolerância / paciência que, suave e discretamente, tenho vindo a desenvolver com os anos.
Para a combater utilizo duas terapias: tomar comprimidos analgésicos em quantidade suficiente; e lembrar-me de coisas boas que me aconteceram: os seios pequenos, redondos, bem formados de ..., que nunca teve filhos e os guardou assim, duros e lindos durante muito tempo; as coxas de ..., que me apertavam tão fortemente quando fazíamos amor que eu pensava que se ela tivesse uma cãibra seria incapaz de me libertar; os lábios de ..., que me beijavam alternadamente os meus e o membro, como se quisessem contar os segredos de uns ao outro, ou vice-versa; o ventre de ..., uma planície tão lisa como o tampo de uma mesa, no qual tantas vezes galopei, mergulhei, me perdi e reencontrei.
Normalmente, ao fim de meia dúzia de comprimidos e meia dúzia de memórias a dor vai-se, e ficam apenas a intolerância e a impaciência. Para essas não há remédio. Enfim, há: o ódio a este corpo que me traíu, que todos os dias me diz, de uma forma ou outra, que já não sou imortal, já não sou omnipotente.
Não passo de maquinista na SNCF, a empresa francesa de caminhos-de-ferro. Sou-o por paixão - nunca quis ser outra coisa senão maquinista de comboios. Ainda bem: por vezes, nem os comprimidos nem os seios chegam para me fazer esquecer a dor e sozinho na minha cabine posso escondê-la. Proibir-me-iam de conduzir comboios mal soubessem, é óbvio. As pessoas gostam muito de partilhar os sofrimentos, de dizer a toda a gente que lhes dói isto e aquilo, sem se lembrarem do prejuízo que isso lhes pode trazer.
É muito raro que esta mistura de comprimidos e de corpos (ou melhor: a memória deles, que é o que me resta) não funcione. Geralmente ao fim de um dia ou dois a dor vai-se. Desta vez não é o caso: já dei três voltas e meia a todas as mulheres com quem fui feliz - devo confessar que são muitas mais do que aquelas que foram felizes comigo, mas agora é tarde. Já não posso fazer nada. Talvez se elas soubessem desta dor o fossem, não sei. Talvez a vingança seja um reconfortante. Talvez já me tenham esquecido - ; já tomei três vezes os comprimidos que o médico impôs como limite; até já pensei, o que só muito raramente me acontece, em mulheres novas, mulheres com quem nunca dormi e gostaria de ter dormido, e nada. A dor não passa.
Estou habituado a dores, reparem. Tanto as físicas como as outras, muio piores. Quando era mais novo era dado a depressões terríveis, depressões que enchiam o espaço entre os carris como se fossem um muro de betão e eu sentia a tristeza transbordar de mim para fora e a força que o comboio tinha de fazer para a atravessar, como se estivesse a perfurar um túnel numa montanha de basalto. E também estou habituado a esconder o sofrimento: não queria que me impedissem de conduzir os meus comboios pela França fora (naquela altura. Agora estou no serviço internacional e vou muitas vezes a Espanha, à Alemanha, ao Reino Unido, a Itália).
Felizmente nunca tive uma depressão e esta dor ao mesmo tempo. A verdade é que tenho cada vez menos depressões: espero menos da vida e sei lidar melhor com o pouco que dela tenho. Até com a dor aprendi a lidar; e tenho de continuar a aprender. Acabaram-se-me os comprimidos hoje. Muito em breve acabar-se-me-ão os corpos. Todos.
Para a combater utilizo duas terapias: tomar comprimidos analgésicos em quantidade suficiente; e lembrar-me de coisas boas que me aconteceram: os seios pequenos, redondos, bem formados de ..., que nunca teve filhos e os guardou assim, duros e lindos durante muito tempo; as coxas de ..., que me apertavam tão fortemente quando fazíamos amor que eu pensava que se ela tivesse uma cãibra seria incapaz de me libertar; os lábios de ..., que me beijavam alternadamente os meus e o membro, como se quisessem contar os segredos de uns ao outro, ou vice-versa; o ventre de ..., uma planície tão lisa como o tampo de uma mesa, no qual tantas vezes galopei, mergulhei, me perdi e reencontrei.
Normalmente, ao fim de meia dúzia de comprimidos e meia dúzia de memórias a dor vai-se, e ficam apenas a intolerância e a impaciência. Para essas não há remédio. Enfim, há: o ódio a este corpo que me traíu, que todos os dias me diz, de uma forma ou outra, que já não sou imortal, já não sou omnipotente.
Não passo de maquinista na SNCF, a empresa francesa de caminhos-de-ferro. Sou-o por paixão - nunca quis ser outra coisa senão maquinista de comboios. Ainda bem: por vezes, nem os comprimidos nem os seios chegam para me fazer esquecer a dor e sozinho na minha cabine posso escondê-la. Proibir-me-iam de conduzir comboios mal soubessem, é óbvio. As pessoas gostam muito de partilhar os sofrimentos, de dizer a toda a gente que lhes dói isto e aquilo, sem se lembrarem do prejuízo que isso lhes pode trazer.
É muito raro que esta mistura de comprimidos e de corpos (ou melhor: a memória deles, que é o que me resta) não funcione. Geralmente ao fim de um dia ou dois a dor vai-se. Desta vez não é o caso: já dei três voltas e meia a todas as mulheres com quem fui feliz - devo confessar que são muitas mais do que aquelas que foram felizes comigo, mas agora é tarde. Já não posso fazer nada. Talvez se elas soubessem desta dor o fossem, não sei. Talvez a vingança seja um reconfortante. Talvez já me tenham esquecido - ; já tomei três vezes os comprimidos que o médico impôs como limite; até já pensei, o que só muito raramente me acontece, em mulheres novas, mulheres com quem nunca dormi e gostaria de ter dormido, e nada. A dor não passa.
Estou habituado a dores, reparem. Tanto as físicas como as outras, muio piores. Quando era mais novo era dado a depressões terríveis, depressões que enchiam o espaço entre os carris como se fossem um muro de betão e eu sentia a tristeza transbordar de mim para fora e a força que o comboio tinha de fazer para a atravessar, como se estivesse a perfurar um túnel numa montanha de basalto. E também estou habituado a esconder o sofrimento: não queria que me impedissem de conduzir os meus comboios pela França fora (naquela altura. Agora estou no serviço internacional e vou muitas vezes a Espanha, à Alemanha, ao Reino Unido, a Itália).
Felizmente nunca tive uma depressão e esta dor ao mesmo tempo. A verdade é que tenho cada vez menos depressões: espero menos da vida e sei lidar melhor com o pouco que dela tenho. Até com a dor aprendi a lidar; e tenho de continuar a aprender. Acabaram-se-me os comprimidos hoje. Muito em breve acabar-se-me-ão os corpos. Todos.
Aquecimento global, arrefecimento local
A malta do aquecimento global bem podia prestar um bocadinho de atenção aqui a estas bandas; parece um verão na Bretanha. Não é para isto que se vem para as Caraíbas, senhores.
28.12.10
Ensi e tal
"Basicamente querem que o tribunal me mande apagar os posts que escrevi sobre a Ensitel. Estão ali, linkados na barra da direita do Blog. São 6. Com este 7."
A Ensitel vai ter que juntar mais um blog à sua lista.
A Ensitel vai ter que juntar mais um blog à sua lista.
Incógnita
Há uma coisa bonita em todas as mulheres feias (ou quase todas). E uma feia em todas as mulheres bonitas (sem excepção).
Infelizmente não é a mesma.
Infelizmente não é a mesma.
Casais
Uma pessoa olha para certos casais e pensa "estes dois estiveram nos lados opostos de todas as guerras desde o séc. III AC." Outros são quase incestuosos: "serão irmãos que se ignoram?"
E há os que estão algures no meio; mas esses não se vêem, vá lá saber-se porquê.
E há os que estão algures no meio; mas esses não se vêem, vá lá saber-se porquê.
Cidades, vidas
É impressionante o quanto muda uma cidade consoante o ponto da qual a abordamos. Como uma pessoa, de resto.
Idade, tempo.
As pessoas falam muito na idade. É um tema tão interessante como o tempo ou, melhor ainda, "como o tempo está a mudar". A nossa idade é o tempo que faz hoje; não o de ontem, e muito menos o de amanhã.
Dilemas
Todos os dilemas são cretinos; ou quase todos, pelo menos. Mas uma vida sem eles é pior ainda.
24.12.10
Karaoke
O karaoke é popular, por estas bandas. Infelizmente não noto grandes diferenças de qualidade entre uns e outros. Só posso dizer é que algumas músicas - ou melhor, alguns autores - deviam ser proibidos nos karaoke. Jacques Brel, por exemplo.
Natal
As pessoas que reclamam contra o Natal têm toda a razão: a família, a confusão, os presentes, a hipocrisia, o sempiterno jantar, as mesmas piadas, as mesmas histórias, o primo que não muda e a prima cada vez mais gorda, a cunhada que perdeu peso, como raio de carga de água é que ela consegue, e o raio do puto da ... que não se cala, e quando é que é decente ir-me embora? Bolas, o miúdo foi para o quarto com os outros vai ser impossível arrancá-lo daqui e quando é que o patego do ... aprenderá a falar mais baixo, olha-me só para este presente, se isto é coisa que se dê parvo fui eu que gastei uma pipa de massa no livro de fotografias para este gajo; olha esta é porreira, o puto não se calava há meses a pedir-me esta porcaria ainda bem que o tio lha deu, e porra, bebi e comi de mais, esta gaja cozinha bem, não há dúvida e o frio que está lá fora. O´querida, já vamos, deixa-me só acabar aqui esta conversa, que chata que estás, não não bebi nada, claro que não, só comi um bocadinho de mais, vá, espera lá mais dois minutos sim eu sei que o ... está a dormir, já vou, bolas, que chatice é todos os anos a mesma coisa.
As pessoas que têm um Natal contra o qual reclamar não sabem a sorte que têm.
As pessoas que têm um Natal contra o qual reclamar não sabem a sorte que têm.
Desgraça
O NRP "SAGRES" chegou hoje a Lisboa depois de uma viagem de circumnavegação. A viagem foi feita pelos dois canais (Panamá e Suez) no "bom" sentido: não houve latitudes extremas, não houve passagens difíceis. Uma viagem banal - ou melhor, que devia ser banal. A chegada foi festejada com escolta de veleiros, presença do CEMA, cerimónias e não sei que mais.
O facto de Portugal estar hoje a celebrar esta viagem é um sintoma da desgraça a que chegámos.
O facto de Portugal estar hoje a celebrar esta viagem é um sintoma da desgraça a que chegámos.
Mais do mesmo
É desesperante ler a imprensa portuguesa. Não há a mais pequena impressão de que o país se prepara para qualquer coisa de diferente. Mais do mesmo. Nem debaixo de uma tempestade, com rochas pela proa os portugueses acham que se deve mudar de rumo.
Luar
Demasiado direitos, os caminhos do luar. A lua não percebe nada das diferentes formas do cansaço.
23.12.10
Festas felizes
O Don Vivo deseja a todas e todos os seus leitores um Natal Feliz, perto da família e das pessoas queridas.
22.12.10
Prazeres da vela
Ver a lua cheia nascer atrás de uma cobertura de nuvens e, ainda muito baixa aparecer entre o estai e o mastro, redonda, luninosa, cheia de parecer que vai explodir. À chegada a Marigot Bay (St. Martin) não havia um único farol, bóia ou luz de navegação a funcionar, e este pequeno momento de lua a indicar-me o caminho vai ficar-me na memória muitos anos.
Dar um toque na escota de uma vela e ver a velocidade aumentar meio nó.
Chegar de noite sem cartas a um porto onde se esteve uma vez e lembrar-nos da entrada como se lá tivéssemos vivido.
A cumplicidade que se estabelece com uma cidade onde se chega de barco, única, sem comparação com a relação que temos quando chegamos de automóvel, avião ou comboio.
Dar um toque na escota de uma vela e ver a velocidade aumentar meio nó.
Chegar de noite sem cartas a um porto onde se esteve uma vez e lembrar-nos da entrada como se lá tivéssemos vivido.
A cumplicidade que se estabelece com uma cidade onde se chega de barco, única, sem comparação com a relação que temos quando chegamos de automóvel, avião ou comboio.
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