31.7.18

"Oiça um bom conselho / eu lhe dou de graça" - Bloody Mary

Se fizerem Bloody Mary em casa façam-no com tomate coração-de-boi. Sal, pimenta, limão, molho Worcestershire, um pau de aipo para mexer (e vodka, para mim. Isso do gin é inovação tardia).

30.7.18

Dark & simple

Em Coral Bay, na ilha de St. John, USVI, há um bar que faz (ou pelo menos havia, pelo menos fazia) os melhores Dark 'n Stormy que alguma vez bebi.

O Dark 'n Stormy é uma mistura relativamente simples de Rum, Ginger Beer e sumo de lima.

Infelizmente não há nada mais complicado do que uma coisa simples.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 30-07-2018

"Por que palavra começar,
por que desordem?"

- Suporto melhor os erros dos outros do que os meus - disse um dia a uma senhora que percebia mais de manutenção de embarcações do que noventa por cento das pessoas com quem eu tinha trabalhado até ali chegar, todas juntas. Isto é, os saberes adicionados desses todos não lhe chegariam aos calcanhares.
- C'est gonflé, ça - respondeu ela, pequenina, magrinha, loira, bonita, parecia uma pilha AA pintada pelo Hockney. Em francês porque estávamos em St. Martin. (Para quem não fala francês, pode mais ou menos traduzir-se por "Isso é arrogante").

Foram este diálogo e aquela cabeça de fósforo loira que hoje me encheram o dia. Suporto mal os meus erros, por muito explicáveis que sejam. Explicável não é a mesma coisa do que justificável. Por muito que J., o surveyor, me diga que as instruções podiam estar num ingês mais claro. Por muito que eu saiba que a obsessão e a pressa juntas levam a mais erros do que separadas e já assim são muitos. Por muito que o trabalho de um skipper não seja fazer, mas mandar fazer.  Por muito que os caminhos do inferno estejam cheios de boas intenções. Por muitos muito que, fiz um erro e vou ter de viver com ele, por muito que a correcção esteja ao virar da esquina.

Daqui a uma semana não restarão traços desse erro senão na minha memória e nas contas: duas coisas que não se apagam.

Talvez seja pedante - é um grande talvez - mas arrogante não sou. Arrumemos então a borrada na sala de aulas da memória. É o melhor armazém de borradas, pelo menos sempre servem para alguma coisa. Concentremo-nos no resto.

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Falemos desta Palma: estou a vivê-la só na superfície, tanto dela se me escapa, de tanto fujo. Uma cidade é feita para se viver a dois. Sozinho é uma ilusão; como querer explicar um plano tridimensional com uma folha de papel. São precisas duas.

A menos que se dobre o papel, claro... Não é a mesma coisa.

29.7.18

Ilusões de óptica

O almoço foi uma costeleta de boi na grelha (enfim, parte dela) com batatas fritas. Como precisava de verduras acompanhei-o com um Bloody Mary (não é ironia: hoje tinha finalmente o pau de aipo, salvo seja, sem o qual um Bloody Mary é uma bebida para o pequeno-almoço dos castrati).

Acabei com um chocolate "85% cacao" (aspas porque cito e itálico porque é estrangeiro) e rum Flor de Caña, que no El Corte Inglés de hoje estava em promoção, bendito seja o senhor que trata das promoções. Foi mais barato o Flor de Caña - infelizmente só o de 5 anos. O de 7 estava ao preço normal - do que teria sido o Cacique.

(Este post, ao contrário do que poderia parecer à primeira vista, não é sobre comida).

Quilhado

O gajo que inventou o calão "estar quilhado" sabia do que estava a falar ou foi só um bambúrrio de sorte, uma daquelas coincidências que acontecem uma vez por civilização?

28.7.18

Serviço público - Onde comer mexicano (salvo seja) em Palma

Os meus leitores (generosos e tolerantes) sabem que o meu mais enraizado desejo é proporcionar um serviço público de qualidade, objectivo, sereno. Com esse objectivo na mira fui hoje ao restaurante Xoxotl, ali perto de Santa Catalina, Santa Cat para os yachties, gupo do qual não faço parte, seja Deus louvado (ou eu, já que Deus pouca influência teve nisto).

Ando a fazer uma lista dos melhores restaurantes mexicanos de Palma, pois nada impede os meus amáveis leitores de cá virem um dia, terem vontade de comer mexicano (salvo seja) e lendo-me saberão imediatamente onde ir ou não.

Ãté agora o meu afã levou-me a três restaurantes. Enfim, dois e meio: o 7 Machos, o Frida e Diego (ou coisa que o valha) e hoje o Xoxotl.

O melhor dos dois e meio é o meio: o 7 Machos não é bem um restaurante, é onde se vai à meia noite se se estiver bêbedo ou às oito antes de. É soberbo, o mais perto que já estive do México aqui na Europa. O Frida e qualquer coisa é pedante, como o nome indica Não é mau, mas eu não sou dado a pedantices, como toda a gente sabe. Pelo menos às alheias. O Xoxotl é uma merda.

Posso elaborar, mas agora não. Provei enchiladas, um tamale e Margaritas. Estas escapam. Os outros nem isso. Basta dizer que a empregada, pequenina e simpática, me avisou que a "folha" do tamale não "se come". Querida, um restaurante mexicano no qual se avisam os clientes de que as folhas de bananeira não se comem dá vontade de ir ao jamaicano mais perto.

Pode ser que tenham Red Stripe e façam um Dark & Stormy correcto, nunca se sabe. Até lá, mexicanos só no 7 Machos.

Ausência, Palma

Comecemos então pelo fim, se é isso que pretendes: a tua devastadora ausência já não me acompanha quando percorro as ruas de Palma.

27.7.18

Dúvida lunar

Hoje vou inaugurar o meu terraço, para ver o eclipse. Não sei o que acontecerá se levar uma garrafa de vodka: ou vejo dois eclipses ou as partes de Lua adicionam-se e não vejo eclipse nenhum.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 27-07-2018

É daqui que vem a expressão "Seca!": alguém esperava que o Chockfast secasse e disse Que scca! e a coisa pegou (sem jogo de palavras, claro). Não consegui encontrar em lado nenhum uma estimativa do tempo que aquilo leva até se poder trabalhar. Se vejo esta quilha arrumada benzo-me, vou em procissão a Fátima de joelhos e de costas, trepo às torres da Catedral de Palma só com uma mão e a outra amarrada atrás das costas (é mais ou menos assim que me sinto, mão amarrada atrás das costas e esmagado por coisas que não controlo de todo).

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E pelas que controlo ou devia controlar e não faço, tornei-me membro da igreja da procrastinação do último dia, como se o P. se tivesse tornado uma imensa esfera dentro da qual vivo e respiro e fora não há nada.

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Alegrias do automóvel: a embraiagem patina de tal forma que não tenho a certeza de conseguir tirá-lo da garagem. M. vai dar-me outro. Felizmente posso esperar que o Chockfast seque aqui em Palma, não preciso de ir a bordo olhar para aquilo (ontem fui e fiquei tão deprimido com o ritmo da seca que mais vale esperar até amanhã ou pelo menos até logo à tarde).

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Refugio-me na Babel, excelente livraria e excelente café, boa música e a esta hora vazio. Algo me diz que a procrastinação vai perder um ponto.

Noite das Artes em S'Arracó - (cont. e fim)

Acabei por me vir embora. Não tenho luz na bicicleta e não me apetecia vir por aquela estrada de montanha às escuras. Além disso havia muita gente, para uma coisa que ainda mal tinha começado. Cada vez suporto pior multidões.

Em relação às artes, uma palavrinha de apreço à música: as três bandas que ouvi - country & western, jazz (esta uma banda juvenil bastante competente) e rock - eram bastante boas.

Outra palavrinha de apreço para outras obras de arte, produto da natureza e de um código genètico favorável. Eram muitas, benza-as Deus.

26.7.18

Entre aspas

Punha-lhe as mãos nos ombros nus como se fossem aspas à volta de uma palavra.

Só falta descobrir a palavra.

[A palavra sou eu, disse ela].

Noite das Artes em S'Arracó

Hoje há festa na aldeia: Nit des Arts (não garanto a ortografia). As ruas de S'Arracó estão cheias de pinturas, esculturas, fotografias, músicos e bares, sem os quais uma festa de aldeia não é nem festa nem artística.

Já fiz um pequeno e agradável passeio pelas artes e comecei a testar os diferentes Mojitos (sem açúcar). O primeiro, do bar Nou é aceitável e custa três euros e cinquenta cêntimos. Pormenor importante: só servem em copos de plástico. Como há muitos bares e vim de bicicleta vou experimentar os outros, com a diligência e cuidado que me são característicos.

À medida que a noite for avançando vou actualizando este boletim (enquanto houver baterias, claro).

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As ruas já estão cheias e isto ainda não começou a sério, visivelmente. Algo me diz que não vou ficar muito tempo.

Fiz outro passeio, mais completo. Sem querer parecer pedante - não sou de todo, como sabem - a proposta artística é relativamente fraca. Há mais decoração do que arte.

Mas as artes decorativas também são arte, não são?

25.7.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 25-07-2018

Hoje fiz mais uns riscos no carro. Enfim, não eu: a parede da garagem.

Espero que tenha seguro contra todos os riscos. Aquela garagem não é feita para quem está a fazer um refit desta amplitude.

Pelo menos tem dois pontos bons: a) faz-me sentir parte de um grupo, o que é raro - não há ali um único veículo que não esteja marcado -; b) lembra-me de que com barcos isto é raríssimo acontecer. Antes assim.

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Como de costume passei de uma série de dias a fazer praticamente nada para dias de trabalho infernal.

Tenho sorte: gosto do que faço e "infernal" não é o termo certo. "Paradisíaco" sim.

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Tive de refazer tudo o que fiz ontem. A senhora chinesa tinha razão: plasticina é para criancas. Hoje usei silicone, duas demãos. Comprei o mais barato, na esperança de que seja o mais fácil de arrancar.

Agora é esperar que amanhã esteja seco. Se não estiver, depois de amanhã. Quando a quilha estiver no lugar não vai ser Tripulação 1 - Quilha 0. Será Tripulação 1952 - Quilha 1951.

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Amanhã encontro-me com o Edison às seis e meia da manhã. As instruções do Chockfast dizem que aplicar aquilo é "um trabalho de equipa": creio que nunca segui um folheto de instruções tão religiosamente.

A diferença entre isto e uma religião está nos resultados: aposto o que quiserem que o meu Chockfast vai ficar porreiro. Alguém pode garantir a mesma coisa quando eu morrer se daqui até lá seguir todas as prescrições de uma fé à vossa escolha, seja ela qual for?

Não.

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O Verão chegou e as mulheres de Palma ficaram pecaminosamente atraentes. Todas. Deve ser por isso que gosto tanto do Verão: pecar é bom, seja por actos, omissões ou pensamentos.

Os FP e o "sistema"

A minha saga com a carta de condução continua. É verdade que o sistema não está feito para casos atípicos como o meu e dou por isso o devido desconto.

Mas só o devido, não mais.

Há uns anos precisava de uma certidão da Escola Náutica para trabalhar na Martinique. Tinha tudo: o emprego, o contrato, o barco e a tripulação. Só me faltava a certidão, a fim de obter uma equivalência. A Escola Náutica Inf. D. Henrique levou três meses, três, a fornecer-me a dita coisa. Recebi-a numa quinta-feira (digitaizada, por e-mail) e fui à Capitania. O Capitão do Porto disse-me que precisava dela traduzida e deu-me a entender que se fosse eu a fazê-lo ele não se aperceberia. Fui para um café ao lado, traduzi a certidão, assinei-a com um nome bonito, que já não recordo mas devia ser Marie Estelle Desmers ou coisa que o valha; entreguei-o nessa mesma quinta-feira já ao fim da tarde e perguntei ao senhor se podia vir levantá-la "para a semana". "Para a semana? Venha amanhã. Você precisa de trabalhar, não precisa?" (Os trabalhos no charter começam ao sábado).

O "sistema" é o que é, mas são os funcionários públicos que fazem dele a máquina trituradora, torturadora que é.

Flagrante delitragem

Hoje apanhei o meu corpo em flagrante delito de delitros. Literalmente: transpirei de certeza alguns dez litros e quando voltei para casa o cinto não tinha mexido nem um milímetro.

Onde raio é que as minhas glândulas sudoríparas foram buscar aquele líquido todo?

Não sei. Enchi-me de água, cerveja, tinto de verano, tudo. Mas não bebi nem um décimo do que transpirei. Em casa meti-me num banho mas não entrou muita água, pelo menos que eu tivesse sentido (ainda bem, teria ficado cheio de espuma).

Enfim, seja o que for: transpirar assim é um mistério, mas fico orgulhoso. Acabo de provar que transpirar não diminui a barriga, descoberta essa que a humanidade saberá decerto agradecer-me. Amanhã vou muito cedo para bordo, o produto é birrento e não gosta de temperaturas elevadas.

Fico-lhe grato: por muito que se goste de calor o que é de mais é demasiado.

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Além de não ser impossível eu tenha de recomeçar. Se assim for antes de manhã.

23.7.18

Palma, amada

Percorro-te as ruas, Palma minha amada, como percorro o corpo que amo: cada vez é a primeira e nunca haverá última.

Conheço-te os esconsos e as vielas que a cada passo descubro: conheço-te antes de te conhecer. As tuas ruas são as minhas mãos, os teus cafés a sua boca, a tua luz os seus olhos.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-07-2018

Visto de cima parece uma vida normal, não é? Um gajo levanta-se, mete-se no carro, vai para o "escritório", volta para casa, despe-se, prepara uma bebida, come qualquer coisa, estende-se no sofá para descansar um bocado e pensar...

As vistas de cima enganam. Desafio qualquer dos meus amigos que trabalha num escritório a conhecê-lo tão bem como eu conheço o meu P., tão intimamente. E a saber que se aquilo não ficar bem feito não é um "Bolas, que chatice" que resolverá o assunto. E a pensar que não tarda estará a navegar neste barco ressuscitado, todos os dias um pouco mais.

Mentiria se dissesse que não gosto deste ritmo, destes rituais quase novos para mim; gosto, muito. Mas gosto porque todos os dias olho para uma quilha e oiço "põe-me na água", porque se começa a desenhar uma data realista no horizonte, porque me imagino a ver de novo o Teide, já não o vejo há tanto tempo. E ir à presuntaria do gordo em Las Palmas, o homem conhece "pessoalmente" (aspas porque cito) os porcos de onde provêm todos e cada um dos presuntos que tem expostos na casa: antes de os comprar faz uma viagem de inspecção e vai visitar as criações e escolher os bichos que quer.

Todos os dias monto na minha bicicleta a caminho de Lanzarote.

Colonialismo

Abriu uma tasca nova em Puerto de Andratx. Hoje fui lá. Os donos são alemães, apesar do nome inglês. Pedi um Tinto de Verano, mas a senhora não sabia o que é. Suspeito que não me voltam a ver, apesar de a Kartoffelsalat estar boa e a Bratwurst decente.

É que não percebo como se pode abrir um tasco num país e desconhecer um dos seus pilares gastronómicos. Bolas, na Cidade de Panamá havia uma restaurante chamado Tinto de Verano! Até em Panamá sabem o que é.

Mas que eu volte lá ou não é totalmente irrelevante. Pior é este espírito de colonizador. Isto sim, é colonialismo.

22.7.18

A carne e o chili

O sacana do chili ficou podre de bom. Não vale a pena pôr a receita: é a de sempre, com duas particularidades: a carne e os chilies.

Uma vasta escolha de pimentos, carne excelente e tempo: parece que estou a falar de uma miúda de quem gosto, não é?

Resplandecências

A vermuteria La Rosa tem, sobre as outras vermuterias de Palma (pelo menos as que conheço) a vantagem de ter uma lista relativamente grande de vermutes - a qual inclui Noilly Pratt - e a desvantagem, quiçá relacionada, de estar sempre cheia. Passo à sua frente quase todos os dias. Hoje decidi-me e entrei - era cedo, estava vazia -.

Agora, enquanto o chili con carne coze a "fogo" lento, depois de ter ido a uma farmácia comprar material decente para fazer um penso no dedo (estava com meio metro de papel higiénico e cerca de dez pensos rápidos) voltei à La Rosa, beber não um Noilly Pratt que tenho em todo o lado mas um vermut del grifo con soda.

A casa está cheia e venho para a praça, linda e vazia. A Obra Social La Caixa anuncia uma exposição de Chirico, a temperatura está perfeita, Palma resplandece nas suas praças vazias e nesta luz de fim de dia, quase tão densa como a de Lisboa.

Eu resplandeço com ela, mas não é tão aparente.